Foi uma Renault orgulhosa do seu novo recorde, recém-conquistado, que surgiu no circuito do Mónaco, durante o Grande Prémio (GP) de Fórmula 1. Em pista estavam os seus dois pilotos oficiais, Daniel Ricciardo e Nico Hülkenberg, mas não aos comandos dos fórmulas amarelos e pretos que habitualmente conduzem. Em vez de modelos com quase 1.000 cv em versão de qualificação, fruto de um motor 1.6 sobrealimentado e três unidades eléctricas, os pilotos da equipa de F1 da Renault Sport iam digladiar-se entre si – ou fingir – ao volante do novo Mégane RS Trophy-R.

Dias depois de se ter sagrado o novo recordista no traçado alemão de Nürburgring, chamando a si o melhor tempo numa volta entre todos os desportivos com tracção às rodas da frente, o RS Trophy-R teve ocasião de exibir o ceptro na pista monegasca. E logo pela mão de dois dos mais conceituados pilotos de F1 do momento.

Cada vez mais rápido

Para conquistar o recorde na pista germânica conhecida como o Inferno Verde, por ser tortuosa e rodeada por uma densa floresta, o RS Trophy-R rodou em 7 minutos e 40,10 segundos, batendo o tempo anteriormente alcançado pelo Honda Civic Type R e, antes dele, pelo VW Golf GTi Clubsport. Mas não é este o primeiro Mégane produzido pela equipa da Renault Sport, a mesma que faz correr os F1 da casa, a brilhar no Nürburgring.

O primeiro Mégane RS a visitar o traçado alemão com a finalidade de conseguir um tempo melhor do que a concorrência foi o Mégane II R26.R, que realizou em 2008 uma volta em 8.17,00. Isto para três anos depois, o seu substituto, o Mégane III RS 265 Trophy, elevar a parada para 8.07,97. Em 2014 foi a vez do Mégane RS 275 Trophy baixar da mítica barreira dos oito minutos, fixando o melhor tempo de um modelo com apenas tracção à frente em 7.54,36 – apenas para ver o seu melhor tempo por volta ser melhorado, com a mais recente geração do desportivo francês, em 14,26 segundos.

O que tem de diferente o RS Trophy-R?

O Trophy-R não é propriamente uma versão do Mégane RS que se encontre à venda nos stands da marca gaulesa. Trata-se de um RS Trophy, a versão mais possante do Mégane RS com motor de 300 cv, mas a que foram realizadas algumas alterações para ganhar peso, de acordo com o que é permitido realizar pela definição de “desportivo com tracção à frente” para rodar no traçado alemão. À semelhança do que já tinha acontecido com o Golf GTI Clubsport, o banco traseiro desaparece, tal como os faróis de nevoeiro e outros detalhes, tudo para realizar uma dieta que faça com que seja mais rápido no percurso de 20,8 km do Inferno Verde.

Em conversa com o técnico da Renault Sport responsável pela versão que chamou a si o recorde, apurámos que, ao todo, o RS Trophy-R é 130 kg mais leve do que a versão “normal”, com banco traseiro e mais equipamento. O problema surgiu quando o questionámos onde é que ganhou os 130 kg, pois a resposta surgiu curta e seca: “Isso não posso dizer de momento.”

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A ausência do banco posterior era óbvia, tal como as luzes LED que conferem ao carro a distinta assinatura luminosa em forma de bandeira de xadrez, pelo que questionámos o nosso interlocutor sobre a presença do sistema de quatro rodas direcionais, muito útil em estradas muito sinuosas, sobretudo nos ganchos, além de ajudar a controlar a típica tendência para fugir de frente deste tipo de desportivos. A resposta desta vez não se fez esperar: “Substituímos o eixo traseiro 4Control por um mais leve, que numa pista como esta, em piso seco, não perde muito em eficiência – talvez num ponto ou dois do circuito – mas que dá um forte contributo na redução do peso total”, esclareceu o engenheiro francês. Qual o ganho alcançado graças à substituição do 4Control? A sua aposta é tão boa quanto a nossa, pois também aqui a marca não avançou grandes dados, apesar de estarmos na apresentação do modelo.

Além da “saída” das luzes LED, para ganhar peso, “entraram” uma série de aplicações em fibra de carbono com o mesmo objectivo, algumas com finalidades aerodinâmicas. Houve mexidas importantes no eixo dianteiro do Mégane, face à versão normal, com a Renault a afirmar que foi melhorado como se fosse para usar em competição. Porém, sem especificar como ou onde.

O que falta saber?

Além das alterações no carro, a Renault recorreu a parceiros técnicos como a Sabelt, que forneceu os bancos da frente (os únicos presentes), e a Öhlins, que desenvolveu os amortecedores e as molas segundo as especificações da marca. O escape é Akrapovic e os pneus são Bridgestone.

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Se a presença da Sabelt e da Öhlins não levanta dúvidas, uma vez que faz sentido poupar nos peso dos bancos e montar uns mais seguros em caso de acidente, bem como utilizar amortecedores e molas mais duros para suportar o esforço, já o mesmo não acontece com o escape. O que nos levou a questionar até que ponto o acordo com a Akrapovic não era puramente comercial, uma vez que o escape num motor com filtro de partículas, catalisador e turbocompressor logo à saída do bloco, não deverá ter muito a ganhar a partir daí, além de melhorar o ruído. A resposta “sobre isso não posso falar” trouxe mais dúvidas do que certezas.

Quanto aos pneus, o ganho assegurado pelos Bridgestone também não é evidente, pois garantiram-nos que “nunca foi comparado o desempenho do RS Trophy-R com qualquer outra marca de pneus”. E assim é a série especial Trophy-R do Mégane RS, de que apenas vão ser produzidas “umas centenas” de unidades, sem que se especifique o número concreto.