Vítor Constâncio defende que “não faz qualquer sentido, numa perspetiva económica” que o governo alemão não se endivide mais — isto é, fazendo mais investimento público e baixando os impostos. Na opinião do português, que foi vice-presidente do BCE, é essa indisponibilidade dos alemães para se desviarem do ideal do “défice zero” que está a penalizar o crescimento económico na zona euro e a impedir que as taxas de inflação subam, obrigando o banco central a avançar com mais e mais estímulos monetários que contribuem para aprofundar a queda das taxas de juro.

Em entrevista à revista alemã Der Spiegel, que tenta perceber de quem é a culpa das taxas de juro negativas na zona euro, Constâncio defende que caberia à maior economia da zona euro “expandir o défice e aumentar os investimentos, ao mesmo tempo que aumentava a emissão de dívida pública“. É porque essa dívida pública escasseia que os investidores, numa altura de incerteza, concorrem pela compra desses títulos ao ponto de levar as taxas implícitas para níveis negativos.

Neste momento, a taxa implícita na dívida alemã a 10 anos já está num valor negativo de -0,72%.

A Alemanha (e os alemães) poupam demais e gastam pouco, e se a Alemanha invertesse esta situação poderia, dessa forma, “resolver vários problemas de uma vez“. Há razões demográficas que explicam porque é que os alemães poupam muito — “as pessoas estão a ficar mais velhas e poupam mais” — e, por outro lado, existe “uma aversão ao risco maior, entre os investidores, desde a crise financeira”. Por isso é que existe uma procura tão elevada por ativos vistos como seguros.

Neste contexto, a solução passa por criar mais alternativas de investimento com estas características. Além de ter o estado alemão a endividar-se mais — e a emitir mais dívida no mercado — Constâncio sugere a criação de obrigações europeias — títulos de dívida para investimento geridos a nível europeu mas que não implicariam, necessariamente, uma mutualização dos riscos entre os vários países. Isso poderia ajudar, “mas, é claro, ter mais endividamento na Alemanha aumentaria a oferta de instrumentos financeiros seguros“.

Fazer outra coisa, continuando a insistir nas contas públicas equilibradas, “não faz qualquer sentido, numa perspetiva económica”, diz Constâncio. “Se o setor privado quer poupar mais do que investir, podem acontecer três coisas. Primeiro, pode gerar-se um excedente da conta-corrente. Segundo, as taxas de juro tornam-se progressivamente mais baixas e os preços dos ativos, incluindo os preços dos ativos imobiliários, sobem de forma acentuada. E, terceiro, o estado pode incorrer em défice para ‘contrabalançar’ o ‘excesso’ de poupança no setor privado”, explica o ex-governador do Banco de Portugal.

O facto de isso não estar a acontecer, levando à acumulação de excedentes nas contas públicas alemãs, “leva a ações hostis por parte de outros países, especialmente por parte dos EUA“, algo que “cria o risco de retaliação contra a Europa, como um todo, e contra a Alemanha, em particular. Este perigo aumentou, recentemente”, avisa Constâncio, numa alusão às taxas alfandegárias elevadas que Donald Trump ameaçou aplicar contra os produtos europeus.

Seria uma boa altura, neste momento, para aumentar o investimento público nas infraestruturas de longo prazo, para que seja possível haver crescimento mais elevado no futuro, que aumentem as receitas fiscais para que haja forma de pagar a dívida no futuro”.

Vítor Constâncio defende que Mario Draghi, cujo mandato está a poucas semanas de terminar, “teria gostado” de fazer uma subida das taxas de juro — algo que o italiano nunca experimentou em oito anos de mandato. “Teria sido um sinal de que o crescimento económico teria melhorado de forma significativa”, explica Vítor Constâncio, assinalando, porém, que mesmo assim “Mario Draghi tem razões para ficar muito satisfeito com o seu mandato e com o seu lugar na História”.

E será que vamos voltar a ver, na zona euro, taxas de juro de 3, 4 ou 5%, como era normal há 10 anos? “Esperemos que sim. Mas, para conseguir que isso aconteça, as empresas e os governos têm de investir mais para promover a procura na economia“, responde Constâncio, defendendo que “não há alternativa” porque “a política monetária, sozinha, não será suficiente caso a desaceleração económica leve a uma recessão“.