Críticas a candidatos à corrida à Casa Branca em 2020, como a democrata Elizabeth Warren — que, “se for eleita”, já tem a promessa de “ir ao tapete” numa batalha jurídica como o Facebook –, o que está a ser feito para derrotar o TikTok, o “melodrama” dos moderadores da rede social ou como não ser despedido do cargo de presidente executivo de uma das empresas mais poderosas do mundo. Nos áudios divulgados pelo The Verge, ouve-se Mark Zuckerberg, o fundador e líder do Facebook — que detém outras plataformas com influência gigante, como o Instagram ou o WhatsApp — a falar dos temas mais polémicos que a empresa enfrenta. E, provavelmente, a criar mais polémica para a rede social.

Mark Zuckerberg reagiu ao artigo do The Verge, e fê-lo uma forma muito direta: partilhou o link do artigo do jornal na sua rede social.

Every week I do a Q&A at Facebook where employees get to ask me anything and I share openly what I'm thinking on all…

Posted by Mark Zuckerberg on Tuesday, 1 October 2019

Na partilha do Facebook, Zuckerberg escreve também: “Todas as semanas faço uma sessão de perguntas e respostas no Facebook na qual os funcionários me perguntam coisas e partilho abertamente o que penso sobre todos os tipos de projetos e questões. A transcrição de uma dessas sessões de há alguns meses acabou de ser publicada online – e, mesmo que fosse para ser interna e não pública, agora que está disponível, pode vê-la se estiver interessado em ver uma publicação não filtrada do que penso e digo aos funcionários sobre vários temas como responsabilidade social, desmantelamento de empresas de tecnologia, a [criptomoeda] Libra, interfaces de computação neural e fazer o que está certo a longo prazo”.

Ao todo, a publicação teve acesso a duas horas de uma conversa que Mark Zuckerberg teve em julho com funcionários da empresa e revela as partes mais relevantes. Deveriam ser comunicações apenas acessíveis internamente pela empresa, mas — ironicamente, sendo o Facebook — são reveladas na íntegra. Abaixo, resumimos o principal.

“Aposto que vamos vencer o processo. Isso ainda é uma treta para nós? Sim. Quero dizer, não quero ter um grande processo contra nosso próprio governo (…) Mas, (…)”

O primeiro tema toca num dos assuntos que mais ameaça o Facebook atualmente — a possibilidade de ser separado em várias empresas por ter demasiado poder. O tema foi espoletado por um antigo amigo de Zuckerberg e cofundador da empresa, Chris Hughes, num artigo do The New York Times em julho. Agora, é uma das bandeiras de campanha de Elizabeth Warren, a candidata presidencial que aterroriza muitos dos líderes de Silicon Valley. Mesmo depois de ter recebido uma sanção de cinco mil milhões de dólares para fechar o caso Cambridge Analytica, Zuckerberg assume que o que mais o assusta não são mais sanções, mas sim que a empresa seja desmantelada.

“Estou mais preocupado que alguém tente separar a nossa empresa. No final das contas, o estado de Direito – que, por toda a preocupação com o rumo do país [EUA], como alguém que administra uma empresa que está em muitos países, devo dizer que uma das coisas que mais amo e admiro no nosso país é que temos um estado de direito realmente sólido, muito diferente de outros lugares no mundo”.

É por isso que o Twitter não pode fazer um trabalho tão bom. Quero dizer, eles enfrentam, qualitativamente, os mesmos tipos de problemas. Mas eles não podem investir. O nosso investimento em segurança é maior do que a receita total da empresa deles. [risos da audiência] E sim, estamos a operar a uma escala maior, mas não é como se eles enfrentassem questões qualitativamente diferentes. Eles têm todos os mesmos tipos de problemas que nós”, defende Zuckerberg.

Sobre o “movimento político em que as pessoas estão zangadas com as empresas tecnológicas”, Zuckerberg refere-se diretamente a Elizabeth Warren, que “pensa que a resposta certa é desmantelar as empresas”. Para o líder da rede social, isso não vai resolver nenhum problema “seja o Facebook ou a Google ou a Amazon”. A “manipulação de eleições e o discurso de ódio vão continuar a existir”, diz Zuckerberg. Solução? O que tem defendido: “criar um quadro regulatório”, uma ideia que tem sido defendida por outros líderes tecnológicos, como Bill Gates, o fundador da Microsoft.

Moderadores do Facebook fartos de imagens ofensivas e com problemas mentais? “Alguns relatos são melodramáticos”

Para evitar que o Facebook tenha mais problemas ainda com partilha de conteúdo que possa influenciar eleições, que promovam violência gratuita ou que incentivem ao ódio, a rede social tem contratado através de empresas terceiras milhares de moderadores humanos. Foi uma das medidas que a rede social liderada por Mark Zuckerberg criou depois do caso Cambridge Analytica, mas criou mais problemas. Como foi noticiado por jornais como o The Guardian ou o The Verge, há até relatos de quem tenha morrido de ataque cardíaco à secretária e as chefias terem impedido que se falasse sobre o assunto. As histórias levaram o Facebook a assumir que ia melhorar as condições de trabalho, mas Zuckerberg diz que “alguns dos relatos são melodramáticos”.

Alguns dos relatos, acho, são um pouco melodramáticos [overdramatic, em inglês]. Ao investigá-los e começando a entender o que está acontecer, a maioria das pessoas não está apenas a ver coisas horríveis o dia todo. Mas há coisas muito más com as quais as pessoas [os moderadores] têm de lidar, e garantir que as pessoas recebam aconselhamento, espaço e a capacidade para fazer pausas e obter o apoio à saúde mental de que precisam é algo realmente importante”, afirma Zuckerberg.

O presidente executivo diz que há “mais de 30 mil pessoas” a trabalhar na moderação de conteúdos do Facebook e desconsidera os relatos dizendo que, com estes números de empregados subcontratados, haverá relatos de “experiências” más. Contudo, deixa a promessa de que a empresa vai “continuar a trabalhar” para melhorar as condições de trabalho destes moderadores. O objetivo é o Facebook criar ferramentas tecnológicas que façam com que até os moderadores deixem ver imagens violentas que tinham o intuito de perturbar pessoas através da rede social.

Como vencer um concorrente como o chinês TikTok, que já ultrapassa o Instagram na Índia? Com um “Lasso”

A rede social chinesa TikTok, que é cada vez mais popular entre o público mais jovem, não passa despercida aos funcionários do Facebook. “Qual é que é o nosso plano de ataque?”, pergunta ao líder da empresa um dos funcionários. Zuckerberg responde a empresa já tem trabalhado numa app, a “Lasso”, semelhante a esta rede social, e quer expandi-la em países onde o TikTok ainda não tem tanto impacto.

Primeiro estamos a tentar ver se conseguimos fazê-lo funcionar [o Lasso] em países onde o TikTok ainda não é grande antes de competirmos com o TikTok em países onde já é”.

Além disso, o Facebook vai fazer mudanças no modo “Explorar” no Instagram, que vai estar “mais focado em stories”, é também uma das táticas da empresa para manter as suas plataformas como líderes. Ou seja, ao contrário do que aconteceu com o WhatsApp ou com o Instagram, em que o Facebook adquiriu as empresas, a tática de Zuckerberg junto dos funcionários é conquistar quota de mercado do TikTok antes que os chineses da Beijing ByteDance, donos desta rede social, possam fazê-lo.

Como não ser despedido de presidente executivo do Facebook

A transcrição completa revelada pelo The Verge dá mais a conhecer sobre as respostas de Mark Zuckerberg aos funcionários da empresa. Ao responder a uma das perguntas sobre como se mantém no poder, o líder do Facebook relembra a altura em que rejeitou uma proposta de mil milhões de dólares do Yahoo.

Pensei: eu acho realmente que não devemos fazer isso”. E toda a gente ficou estilo: “O quê?” [Risos]. Na época, tínhamos 10 milhões de pessoas a utilizar o Facebook e o Myspace tinha 100 milhões de pessoas e estava a crescer mais rápido”.

“Acho que tenho sorte por causa da estrutura que temos”, assume Zuckerberg sobre as pessoas que teve na equipa que pensaram a longo prazo, voltando a promover a ideia de que quer que as pessoas interajam com a rede social e não a consumam apenas “passivamente”. E assume também: “Uma das coisas que tive a sorte ao construir esta empresa é que tenho o controle do voto da empresa, e isso foi algo em que me concentrei desde o início. E era importante porque, sem isso, houve várias alturas em que teria sido despedido. De certeza, de certeza”.

Na transcrição, Zuckerberg fala ainda das dificuldades que está a ter ao tentar lançar a Libra, a futura possível criptomoeda do Facebook. Segundo o executivo, maior parte do trabalho está a ser feito “com reguladores em todo o mundo em reuniões privadas” e sem grandes perturbações. Segundo o fundador da rede social, as polémicas que têm surgido sobre este projeto do Facebook têm sido resultado do “drama” que está associado a partes “mais públicas” do processo, como audições parlamentares.