Na última semana, as ruas de Londres encheram-se de ativistas pelo clima numa mega-operação de protestos encabeçada pelo grupo  Extinction Rebellion. Houve quem protestasse em cima de aviões a fazer vídeos em direto, quem bebesse gasolina à frente da conferência sobre petróleo e até quem colasse a mão ao passeio para evitar ser retirado. No final, cerca de 1300 protestantes foram detidos. Agora, o Daily Mail avança que o grupo conhecido por este tipo de protestos mais extremos pagou cerca de 4oo libras (cerca de 458 euros) por semana a pelo menos 168 ativistas mais influentes — incluindo a neta de um aristocrata — para protestar e utiliza táticas de propaganda para ter mais crianças e “membros da classe trabalhadora” para mudar “a diversidade sócio-económica do grupo”.

O jornal britânico teve acesso a documentos do grupo Extinction Rebellion que mostram que foram gastas mais de 70 mil libras (cerca de 80 mil euros) só em pagamentos. Como este montante foi declarado como despesas gerais, e não como pagamento de salários, o grupo pode ter pagar mais de uma centena de milhar de libras em impostos. Por causa disso, um deputado do partido conservador já pediu para a autoridade tributária do país investigar as contas do grupo.

Um documento do Extinction Rebellion apelidado de “Política e Processos Financeiros” refere que os voluntários podem pedir ajudas de custo para despesas de deslocação até 400 libras (cerca de 458 euros) — metade se se tratar de protestos em part-time. O mesmo documento refere que o voluntário “não deve reivindicar mais do que precisa para cobrir as despesas básicas de vida”.

Entre os manifestantes que viram reveladas as folhas de despesas que apresentaram ao grupo, há nomes como o de Tamsin Omond, uma atriz neta de um baronete (um título nobiliárquico da monarquia britânica), que recebeu 1340 libras (cerca de 1535 euros) no final de 2018 para participar nos protestos. Segundo a folha de despesas de Omond, o pagamento do montante prende-se com o facto de ter deixado de trabalhar para outros clientes de relações públicas para poder protestar.

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I’ve been alongside brave rebels on the streets with @extinctionrebellion. In 5 days more than 1200 people in London have been arrested causing non-violent disruption. Roads have been shut down, all traffic stopped from reaching Westminster, London City Airport and countless government departments blockaded – we have been relentless in our courage, resilience and community. It’s been hard work and many of us are feeling it but at these extremes of our emotional capacity there have been intense moments of beauty. together we’ve danced, cried, even got married :) there has been a Lot of humanity in these streets. There are hard facts that we are trying to change. Maybe, through committed activism and political action we will change some of them. We have to hope. But regardless of what material change is possible, I’m grateful that on the streets I’m pushed into situations that stretch me, that build compassion, resilience, kindness, patience, community – values that I need to nurture in me if I’m going to face the climate breakdown future as the kind of person I want to be. Life on earth is dying. The climate is changing much faster and more furiously than we feared. The costs of inaction will be infinite and those costs aren’t distant or far off, they are costs that are landing heavily right now. And with heart breaking injustice – they are landing especially on the billions of people whose poverty meant low carbon lifestyles and so contributed the least to this crisis. I search my heart to find what I should do. And what I find is a tangle of selfish needs and selfless love, self aggrandising privilege with a capital P, urgent hope and simply that I love being alongside people – the trust and faith in each other that comes from some of @extinctionrebellion’s culture and being on the streets. I’m a rebel, but there are lots of people in this movement for whom rebellion doesn’t come so naturally (or easily). There’s no perfect answer. There are countless imperfect paths forward. And I’ll keep taking the right one for me because rn, knowing what I know, to do nothing is still a choice. It’s a bad choice that, I think, shrinks us and keeps our hearts on ice.

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Outros manifestantes voluntários pagos, como o realizador Joel Scott-Halkes, recebem cerca de 800 libras mensais para estarem nos protestos. Já os cofundadores do grupo Gail Bradbrook e Roger Hallam terão recebido 600 e 1200 libras mensais, respetivamente, para cobrir despesas de deslocação e comida. Num outro documento a que o jornal teve acesso, o grupo Extinction Rebellion assume temer ter de pagar centenas de libras por problemas com a forma como declarou os montantes.

Atualmente, a empresa Compassionate Revolution, que é a utilizada pelo grupo Extinction Rebellion para gerir os fundos recebidos, tem cerca de 371 mil libras no banco. Desde 2018, que o grupo já angariou mais de 2,5 milhões de libras em crowdfunding. Os maiores doadores foram a banda Radiohead e até a neta de um magnata do petróleo, John Paul Getty. Com este dinheiro o grupo ativista pró-clima tem financiado projetos como uma viagem pela Europa para “acampar e conectar-se à natureza”

Além destas medidas, o grupo Extinction quer atrair mais “diversidade”, de forma a desconetar-se de uma imagem de um grupo apenas com pessoas “brancas, britânicas, de meia-idade ou pensionista, de classe média, com estudos superiores e provavelmente leitores de esquerda do The Guardian” — como revela um dos documentos.

É nesse sentido que num dos documentos a que o jornal teve acesso é possível ler uma das propagandas enviadas: “É da classe trabalhadora? Precisamos de si! Estamos extremamente interessados ​​em aumentar a diversidade sócio-económica do Extinction Rebellion. Se é pobre ou da classe trabalhadora e já é membro, entre em contacto connosco”. Numa das últimas reuniões do grupo, um dos líderes manifestou preocupação pela falta de representação de “pessoas com deficiências ou pessoas de cor”. Além disso, no mesmo documento sobre a imagem estereotipada dos manifestantes do grupo, é referido que as crianças são um público-alvo deste tipo de organizações para conseguirem apoio.

Em Portugal, o grupo Extinction Rebellion está também representado e já promoveu manifestações mais inusitadas em prole de melhores políticas para melhorar o ambiente. No final de setembro, ativistas da Extinction Rebellion Portugal sentaram-se na Avenida Almirante Reis, junto ao Banco de Portugal, montaram tendas e ameaçaram não sair dali, preparados para ficar toda a noite. O protesto pacífico acabou pelas 21h30 de 27 de setembro, mas elementos da PSP tiveram de retirar os manifestantes à força e uma pessoa foi detida.