“Cheguei a França e vou agora entrar para um carro até Inglaterra.” A última vez que Le Van Ha falou com o pai, Le Minh Tuan, foi por telefone. O vietnamita, de 30 anos, ligava sempre que chegava a uma cidade nova. Mas há dias que nada se sabe dele. “Ha só queria sustentar a família. Era um bom homem, que nunca me desiludiu”, conta Tuan ao The Guardian.

Van Ha saiu da província de Nghe An, no Vietname, em julho, à procura de melhores condições de vida, depois de ter perdido o emprego. Começou por se deslocar para Ho Chi Minh, no Vietname, depois para a Malásia, Turquia, Grécia e, finalmente, França. A família acredita que é um dos mortos encontrados num camião, num parque industrial em Essex, no Reino Unido. Para ali chegar pagou mais de 23.000 libras (cerca de 27 mil euros) com a ajuda da família.

“Deixou-nos com uma grande dívida”, diz o pai. “Não sei quando conseguiremos pagá-la. Estou velho, tenho pouca saúde, e tenho de ajudar a educar os filhos dele.” Além da dívida, Ha deixa dois filhos — de três meses e de cinco anos. A polícia já se deslocou a casa dos pais de Ha para recolher ADN que ajude a identificar o filho.

As famílias acreditam que a maioria das vítimas de Essex sejam da província de Nghe An e, por isso, a polícia já começou a recolher amostras de ADN dos presumíveis familiares naquela região. As autoridades procuram cabelos, unhas e outras amostras dos familiares, depois de o Reino Unido ter pedido ajuda para identificar quatro dos 39 corpos. A identificação das vítimas deve ser difícil já que só algumas vítimas transportavam identificação.

“Não há empregos, nem futuro aqui”

Um padre da localidade, Anton Dang Huu Nam, está a ajudar as famílias. Ao The Guardian diz que, pelo menos, 35 das 39 pessoas que estavam no camião seriam da província de Nghe An. “As minhas fontes dizem que a maioria entrou pela China, onde obtiveram passaportes falsos”, afirmou, acrescentando que algumas famílias já receberam “reembolsos” dos traficantes. “A situação económica, os problemas ambientais, a falta de apoios sociais, de educação, de cultura, os abuso de direitos humanos — todos estes problemas fazem com que os vietnamitas não queiram permanecer no Vietname.”

Na casa de uma outra presumível vítima, Nguyen Dinh Tu, a família já construiu um altar numa pequena mesa. Enquanto chora, a mãe agarra na fotografia de Tu, relata o The Guardian. “Disseste que irias embora para trazer dinheiro para casa, para cuidares do teu pai e da tua mãe“, lamenta. Mas o filho não voltou.

Saiu do país em março, também ele para a ajudar a família, que acumula a dívida da casa com as contas dos medicamentos. “Não há empregos, nem futuro aqui”, diz a irmã de Tu. O vietnamita viajou primeiro para a Roménia, um trajeto que lhe terá custado 11.600 euros. Ficou pouco tempo — o salário era baixo. Por isso, decidiu ir para o Reino Unido e, para tal, pagou mais 13 mil euros.

Num café na localidade, um vizinho resume a realidade que se vive no Vietname: “Ninguém tem a opção de ir legalmente para fora, por isso, as pessoas têm de fazer esta escolha: quanto mais arriscado o caminho, mais barato fica. Depois do incidente, provavelmente menos pessoas vão querer ir para Inglaterra, mas vão encontrar outros sítios alternativos.

Já na casa de Bui Thi Nhung, de apenas 19 anos, a família continua a rezar para que a jovem seja encontrada com vida. “Sabemos que três camiões iam em direção a Inglaterra, por isso, ainda temos esperança de que haja magia, e que ela apareça num outro camião”, diz a irmã de Nhung, citada pela BBC.

O esquema de transportar pessoas ilegalmente para fora do país é tão comum, que em Nghe An toda a gente conhece alguém que já se sujeitou a este tipo de viagem. “Enviei os meus três filhos”, revela à CNN Phan Van Thuong. Dois já voltaram, depois de terem sido detidos e deportados da Grã-Bretanha.

Segundo o relatório “Mapeando as vulnerabilidades das vítimas do tráfico do Vietname para a Europa”, os migrantes vietnamitas pagam entre 9.000 e 36.000 euros aos traficantes para viajarem para a Europa.

Condutor do camião presente esta segunda-feira a tribunal

Na semana passada, já tinham sido detidas cinco pessoas por suspeitas de envolvimento no caso. Três delas, dois homens — um de 38 e outro de 45 anos — e uma mulher de 38 anos foram libertados sob fiança depois de terem sido interrogados. O outro suspeito, o condutor do camião, de 25 anos, foi detido na quarta-feira e acusado formalmente de homicídio involuntário e de conspiração com vista ao tráfico de pessoas.

Maurice Robinson foi esta segunda-feira presente a tribunal. O interrogatório aconteceu por videoconferência e ficou definido que o jovem, natural da Irlanda do Norte, ficaria em prisão preventiva, voltando a tribunal a 25 de novembro. Só nessa data é que se dará como culpado ou não.

A polícia deteve ainda um quinto homem, “na casa dos vinte anos”, em Dublin.

Inicialmente, as autoridades informaram que as vítimas eram de nacionalidade chinesa, mas acabou por admitir que a identificação dos corpos ainda estava a decorrer. O Reino Unido pediu ajuda às autoridades vietnamitas para identificar as vítimas.

Até agora, 24 famílias vietnamitas relataram o desaparecimento de familiares que suspeitam poderem estar entre as 39 pessoas encontradas mortas no camião.