Terry Jones, membro fundador dos Monty Python e realizador de “A Vida de Brian” e dos outros filmes do grupo de comédia, morreu na terça-feira, anunciou a família. O comediante tinha 77 anos e sofria de demência.

Em comunicado, a família do ator e guionista adiantou que Jones morreu pacificamente na sua em casa, no norte de Londres, depois de “uma longa, muito corajosa mas sempre bem humorada batalha contra uma forma de demência”. A mulher, Anna Söderström, estava ao seu lado. A doença de Terry Jones foi revelada publicamente em 2016, um ano depois de ter sido diagnosticada. A partir dessa data, Jones tornou-se num rosto público da demência. Em 2017, deu uma entrevista a Michael Palin, amigo e colaborador de longa data, em que falou das suas consequências.

Descrevendo-o como um homem “extraordinariamente talentoso, divertido e feliz que viveu uma vida verdadeiramente autêntica, nas suas palavras ‘adoravelmente decorada com glucose”, a família disse esperar que a “doença seja um dia erradicada” e pediu privacidade neste “momento sensível”.

“Perdemos um homem bondoso, divertido, carinhoso, criativo e muito querido cuja personalidade inflexível, intelecto implacável e humor extraordinário deram prazer a incontáveis milhões durante seis décadas. O seu trabalho com os Monty Python, os seus livros,filmes, programas de televisão e outros trabalhos irão viver para sempre, um legado digno de um verdadeiro polímata.”

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

John Cleese, provavelmente o mais popular dos seis Monty Python (e que vai estar em Portugal em maio para uma série de cinco espectáculos no Coliseu dos Recreios, todos esgotados), reagiu à morte de Terry Jones no Twitter:

“Acabei de saber as notícias sobre o Terry J. É estranho que um homem de tantos talentos e de interminável entusiasmo tenho desaparecido de forma tão gentil… Dos seus muitos feitos, o maior presente que nos deu foi o facto de ter realizado “A Vida de Brian”. Perfeição. Dois já foram, faltam quatro.”

Eric Idle, também dos Monty Python, usou o Twitter da mesma forma:

“Apaixonei-me por ele no momento em que o vi em palco no Festival de Edimburgo, em 1963. Tantas gargalhadas, momentos totalmente hilariantes no palco e fora do palco que partilhámos com ele. É demasiado triste para quem o conhecia, mas quem nunca o conheceu vai sempre rir-se dos magníficos e divertidos momentos que ele nos deu.”

A carreira de Terry Jones começou no final dos anos 60, com participações em várias séries televisivas britânicas, algumas na companhia de Palin, que tinha conhecido na Universidade de Oxford, onde estudou Literatura Inglesa. Em 1969, estreou-se na televisão com o grupo de comédia — composto por si e por Eric Idle, Graham Chapman, John Cleese, Michael Palin e Terry Gilliam — que o tornaria famoso. A série “Monty Python’s Flying Circus”, que foi exibida até 1974, é considerada uma das mais importantes na história da BBC por ter não só revolucionado o formato de comédia, mas por ter inspirado várias gerações de comediantes.

[O trailer do filme “Monty Python e o Cálice Sagrado”, de 1975:]

Em 1975, o grupo embarcou no seu primeiro filme e Jones teve a sua primeira experiência na realização, uma área que o interessava cada vez mais. “Monty Python e o Cálice Sagrado” foi realizado por si juntamente com o colega Terry Gilliam. Os filmes seguintes, “A Vida de Brian” (1979) e “O Sentido da Vida” (1983), foram realizados apenas por Jones. Este último contém uma das personagens mais famosas de Jones no cinema, Mr. Creosote.

Além dos trabalho com os Monty Python, que ajudou a fundar no final dos anos 60, Terry Jones colaborou em muitos outros projetos dentro e fora do pequeno ecrã. Criou, juntamente com Michael Palin, a série de grande sucesso “Ripping Yarns”, e realizou filmes como “Personal Services”, “Erik the Viking” e “The Wind in the Willows”. Criou uma série para a televisão sobre história medieval, escreveu perto de 20 livros infantis e colaborou com o The Guardian e Observer, para os quais escreveu vários artigos de opinião. Feroz opositor da guerra no Iraque, lançou, em 2004, o livro Terry Jones’s War on the War on Terror, uma coletânea de textos sobre o tema, alguns deles publicados em jornais.

[O trailer de “A Vida de Brian”, de 1979:]

O último trabalho de realização de Jones aconteceu em 2015, com a comédia “Absolutely Anything”, em que participaram os quatro membros sobreviventes dos Monty Python mas que, segundo o The Guardian, não teve as melhores críticas.

Terry Jones esteve em Portugal em 2011, a convite do Festival Internacional de Cinema do Funchal. Em 2008, apresentou em Lisboa o musical Evil Machines, do qual assinou o libreto e a encenação. A música era do compositor português Luís Tinoco.

Entre os momentos que protagonizou enquanto parte dos Monty Python, alguns transformaram-se em símbolos do trabalho da troupe humorítsica e em referências para comediantes que os seguiram. Na verdade, Jones foi um dos principais responsáveis pela estrutura em sketches — e pelo formato e objetivos dos mesmos — que os Monty Python adotaram desde, sobretudo, que escreveram e gravaram os episódios da série “Flying Circus”.

Terry Jones foi a mãe do protagonista em “A Vida de Brian”, o filme em que grita, para a multidão que lhe procurava o filho, “He is not the Messiah, he is a very naughty boy”; foi o senhor Creosote, o homem que come até rebentar, num dos sketches que compõe “O Sentida da Vida”; é o cavaleiro Sir Belvedere, ponderado e cuidado, que afirma, num julgamento público, algo como “se pesares tanto como um pato, é porque és uma bruxa” (no filme “Monty Python e o Cálice Sagrado”); e é a empregada de balcão num estabelecimento que só serve pratos com SPAM, uns mais, outros menos.

Apesar das evidências, Terry Jones foi sempre reservado e até cético em relação ao legado dos Monty Python em geral e ao seu próprio trabalho em particular. Modesto e, acima de tudo, mais preocupado com o dia a dia do que com qualquer noção de estrelato humorístico ou cultural, Jones dizia em 2013 ao jornal galês “Wales Online”: “Para dizer a a verdade, é uma enorme surpresa para mim que ainda estejamos a falar disso, o quê… 40 anos depois?”