Quarto lugar do Campeonato a 19 pontos da liderança e 12 da Liga dos Campeões, afastado de forma precoce da Taça de Portugal, eliminado nas meias da Taça da Liga, goleado na Supertaça, nos 16 avos da Liga Europa. Se os números na principal prova do calendário nacional só encontram comparativo com a época de 2012/13 (a pior de sempre do clube), as outras competições à exceção da internacional também deixaram de existir quando a época vai ainda a meio. Esta é a realidade do futebol do Sporting. Mas ainda existem outros pontos como a já crónica divisão interna, as questões de ordem financeira e até a realidade distinta das próprias modalidades. E agora?

De acordo com informações recolhidas pelo Observador, e apesar dos pedidos que se vão tornando públicos de sócios mais moderados mas com maior “notabilidade” no sentido de haver uma Assembleia Geral que permita aos associados discutirem a situação do clube, as atenções dos responsáveis leoninos estão focadas em dois pontos: o fecho do mercado e a eliminatória com os turcos do Basaksehir. Pelo meio, Frederico Varandas até poderá falar para explicar as mexidas no plantel, entre as quais a possível saída de Bruno Fernandes, mas nada mais será feito até que se tenha um quadro mais real de como pode terminar a época dos leões. A possibilidade de haver uma reunião magna de destituição do Conselho Diretivo, que foi pedida pelo movimento “Dar Futuro ao Sporting”, deverá ser recusada por Rogério Alves, por falta de requisitos estatutários. E existem outros pontos paralelos de relevo em negociação, como a reestruturação financeira ou uma possível parceria com Cristiano Ronaldo.

Movimentações à parte, o Sporting teve até ao momento uma época falhada. E é possível encontrar seis argumentos internos e externos mas da órbita do clube para justificar os seis meses que colocaram a equipa verde e branca só a três derrotas do pior registo de sempre neste capítulo, das ações no mercado às restrições financeiras (que obrigaram a uma adequação de custos ainda não suficiente perante a atual folha salarial e o quadro de receitas da SAD), passando pela troca de treinadores, pela queda a nível de camadas jovens e pela guerra sem fim com as claques, este é o cenário atual de um conjunto que vê o fosso com os principais rivais cada vez mais agudizado.

O 31 de agosto, reflexo de todos os dias que se seguiram

“Tudo isto é anormal. Sempre disse que 80% do sucesso desportivo é delineado entre o mês de junho e 31 de agosto. É aí que se constrói o plantel, onde se impõem rotinas, princípios de jogo”. A 1 de fevereiro de 2019, pouco depois da vitória na Taça da Liga, Frederico Varandas falava da época a projetar a seguinte, neste caso a de 2019/20. E ainda ganharia a Taça de Portugal, no último jogo da temporada. A 25 de julho, por altura do particular do Sporting com o Liverpool nos Estados Unidos, o líder leonino argumentou que convivia muito bem com o mercado. “Que todos estejam tranquilos, se porventura sair alguém, virá alguém com qualidade. Se podia fechar já? Era bom…”. Mesmo no último dia de mercado, confirmada a saída de Raphinha, chegaram Jesé Rodríguez, Bolasie e Fernando.

O plantel do Sporting apresenta carências que nunca foram colmatadas. Umas mais visíveis, como a falta de opções ofensivas a Luiz Phellype, outras menos notadas mas com tanto ou mais peso – e foi o próprio Bruno Fernandes, em entrevista recente, que abordou o “vazio” deixado por Gudelj pela importância que tinha na ideia de jogo da equipa. Ainda assim, foram as cinco mexidas nos derradeiros dias que funcionam como exemplo paradigmático de uma época que não cumpriu as tais balizas temporais de preparação e que no plano interno “acabou” a meio: a saída de Dost e a venda de Raphinha (que não contava ir para o Rennes) também por condicionantes financeiras não foram colmatadas, Fernando já saiu, Jesé nunca apareceu e Bolasie tem sido muito curto para o pretendido. Já antes, em janeiro, o conjunto verde e branco gastara 12,1 milhões no mercado de inverno.

A organização do futebol que mudou mas continua numa troika

Ao longo da campanha para as eleições de setembro de 2018, Frederico Varandas assumiu que ficaria com a pasta do futebol por ser a mola real de toda a vida do Sporting e colocou três grandes pilares numa “estrutura vencedora com equipa coesa e coordenada”: o team manager (com funções balizadas), o head scout (chefe de recrutamento, área onde recaía a grande aposta) e o treinador da equipa principal. Três meses depois, o plano tinha mudado.

Por um lado, houve a passagem de Hugo Viana de diretor das Relações Internacionais para diretor desportivo, já com a função de ajudar o número 1 do clube no mercado de inverno; por outro, na mesma fase, a aposta em Raúl José, antigo adjunto de Jorge Jesus no Sporting e no Al-Hilal, para liderar o tal departamento que seria reforçado de prospeção e recrutamento – com notícias entretanto vindas a público e desmentidas de que não estaria satisfeito por não ver o seu trabalho aproveitado e ter pouca influência no momento das decisões. Mais do que nomes, funções ou cargos, a ideia de Varandas passava por criar uma espécie de troika que blindasse o futebol; no entanto, essa ideia está blindada em parte pela troika que os condicionamentos financeiros impõem. “Não conseguimos dispor dos recursos suficientes para reforçarmos o plantel como planeámos”, assumiu em novembro.

A Supertaça como ponto sem retorno e o “modelo Lage” que falhou

Numa temporada marcada pelos estilhaços da invasão à Academia e consequente instabilidade diretiva que levou o clube para eleições antecipadas depois da destituição em Assembleia Geral de Bruno de Carvalho, o Sporting teve o melhor resultado desportivo a nível de conquistas desde 2002, ganhando com Marcel Keizer (que substituíra logo em novembro de 2018 José Peseiro, técnico que nunca teve a confiança do atual elenco) a Taça da Liga e a Taça de Portugal frente ao FC Porto. Ainda assim, pela prestação do Campeonato e pelo desconhecimento da “realidade” do futebol português, o holandês não gerava consenso interno. Varandas, olhando para os resultados e percebendo o contexto em que foram conseguidos, manteve a aposta. A goleada na Supertaça acabou por mudar tudo.

Como o próprio líder leonino viria a admitir após a rescisão, esse resultado acabou por sentenciar o futuro no clube numa decisão que começou logo no início de agosto a ser ponderada. A seguir à derrota com o Rio Ave em Alvalade para a Primeira Liga, um mês depois, Keizer foi despedido e a primeira alternativa tentada foi uma espécie de “modelo Lage” com a promoção de Leonel Pontes (até aí a fazer uma Liga Revelação irrepreensível pelos Sub-23). Também não funcionou. Entre currículos que foram chegando ao Sporting, perfis desejados pela estrutura verde e branca e recusas por motivos desportivos e financeiros, Silas foi apresentado no final de setembro mas, cerca de quatro meses depois, resta aos leões a Liga Europa e a luta pelo terceiro lugar do Campeonato.

O problema da formação e a lógica de uma semente que tem de crescer

Frederico Varandas focou atenções desde que foi eleito presidente do Sporting na Academia e a vários níveis: 1) tentar reerguer a marca depois do episódio da invasão a Alcochete; 2) voltar a estabilizar os elementos que estavam no plantel de 2018 mesmo com o julgamento a decorrer em paralelo; 3) recuperar infraestruturas e construir mais campos de relva natural para as equipas mais jovens; 4) assegurar alguma rentabilidade financeira da estrutura e do que representa através do naming; 5) reformular a formação para voltar a servir a equipa A como na última década. Ali, no coração do futebol leonino, já há mudanças palpáveis; no entanto, os resultados, a chegarem, terão de forma inevitável de surgir apenas a médio/longo prazo. E essa é uma aposta que acarreta também os seus riscos.

Fosse por falta de condições físicas, pelo abandono dos cuidados com a rede de observadores e olheiros espalhada a nível nacional (que em 2013 chegaram a ter vários meses de avenças em atraso, situação entretanto regularizada) ou pela inexistência de um projeto sustentado como os rivais mais diretos foram conseguindo construir, o Sporting caiu a pique na formação – algo bem visível nas convocatórias das seleções nacionais. A breve prazo, o clube apostou nas subidas de escalão mais céleres dos melhores talentos, como Joelson Fernandes ou Eduardo Quaresma, entre outros; a médio e longo prazo, espera que as “sementes” possam trazer frutos. Se chegará ou não a tempo, só o futuro o dirá; agora, no presente, a verdade é que os mais novos não são solução como antigamente.

A guerra sem fim com as claques, sem vencedores e quase só com vencidos

A necessidade de Frederico Varandas deixar o Pavilhão João Rocha sob escolta policial numa noite de jogo de futsal com os Leões de Porto Salvo onde Miguel Afonso, vogal para as modalidades, viu o seu carro ser vandalizado, tudo já depois da “invasão” das claques à bancada central do recinto para contestarem o número 1 leonino, foi a gota de água para a Direção revogar o protocolo que mantinha com duas das quatro claques, Juventude Leonina e Diretivo Ultras XXI – até porque, de acordo com os dirigentes verde e brancos, a escalada de violência era crescente e já tinha sido manifestada noutros momentos como na última Assembleia Geral, em outubro. Entretanto, deixou de haver regalias, descontos nos bilhetes, apoios em viagens, entrada de tambores, bandeiras e inclusive adereços que estejam associados a qualquer um desses grupos, tudo menos a saída dos espaços que ocupam (que não têm luz nem água desde o final do ano passado). E essa guerra aberta promete não ficar por aqui.

O arremesso de tochas e potes de fumo ou o rebentamento de petardos nos vários encontros que se seguiram em Alvalade, em especial nos últimos com FC Porto e Benfica, mereceram a condenação da maioria dos adeptos que estavam presentes no estádio. E Frederico Varandas continua a sua cruzada com estes comportamentos, que o levou a ter reuniões com governo e Liga. As claques defendem-se dizendo que não é o dinheiro que as movimenta e dando exemplos de ações que vão mesmo contra os sócios, como aconteceu com elementos do Diretivo Ultras XXI quando compravam Gameboxes 2 com o aval de um Oficial de Ligação aos Adeptos mas que viram essa intenção negada a meio do processo, tendo sido canceladas as que já estavam asseguradas ao preço normal. Dia 9 de fevereiro a Juve Leo estará numa manif que deverá juntar as outras claques mas essa estará longe de ser a última ação entre os dois lados da barricada num braço de ferro onde não há propriamente vencedores e quase todos são vencidos.

A reestruturação financeira (ainda em curso) e a maioria da SAD

As conversas em torno da parte económica e financeira do Sporting clube e SAD, que se tornaram recorrentes nos últimos anos, tiveram uma espécie de momento de pausa que não durou muito. A auditoria financeira interna (que não demorou a tornar-se pública através de um leak que levou à abertura de um processo que não trouxe respostas às perguntas de como tinha acontecido) mostrou alguns negócios considerados duvidosos mas em montantes quase residuais perante a realidade verde e branca. O problema, esse, era maior. “A anterior administração, encostada às cordas e afogada em dívidas, tinha levantado a conta reserva dos bancos para pagar salários”, recordou Varandas. “O Sporting voltou a estar em cumprimento com a banca. Existia uma dívida vencida de 40 milhões que implicou um acordo difícil entre as partes para a sua regularização”, acrescentou sobre a reestruturação financeira que foi anunciada em outubro mas que, segundo o Expresso, ainda não se tornou uma realidade.

No último sábado, o jornal escreveu que o Millennium BCP já teria dado o aval para a concretização do acordo que foi comunicado a 9 de outubro à CMVM mas que o Novo Banco não tomara ainda esse passo numa solução que ia envolver (ou envolve) o fundo Apollo – com quem a anterior administração da SAD já tinha também conversado a propósito da possibilidade de garantir a recompra dos VMOC a 40,5 milhões de euros, 70% abaixo do valor a que foram colocadas (um euro por ação, num total de 135 milhões), e que terá funcionado como “ponte” em termos financeiros para aguentar este período recebendo em troca os direitos leoninos da NOS relativos a 2019. Ainda assim, há outro “fantasma” a pairar: a possibilidade de perda de maioria da SAD, que começa a ser defendida por alguns antigos dirigentes e que promete tornar-se um assunto cada vez mais fraturante.