Chega à liderança do CDS-PP no ano em que completa 32 anos, dois anos depois de a revista Forbes o ter considerado um dos jovens “mais brilhantes”, na lista anual para os 30 mais influentes com menos de 30 anos, e sem medo dos rótulos de conservador. A candidatura à liderança do partido fê-lo abdicar do lugar que ocupava na direção de Frederico Varandas no Sporting. Irá agora exercer a sua influência tentando “reafirmar” o CDS como um partido de direita, sem aspirar ao centrismo.

Ainda com 31 anos, já que nasceu a 29 de setembro de 1988, Francisco José Nina Martins Rodrigues dos Santos tenta descolar-se agora do cognome de “Chicão” — que os amigos lembram ser uma alcunha recente. O pai de Francisco Rodrigues dos Santos era militar em Tancos. Como é comum nas famílias de militares, o filho fez os oito anos de escolaridade no Colégio Militar, em Lisboa. Entrou no Colégio Militar aos 10 anos e lá a alcunha era outra, devido aos “dotes de retórica com capacidade de entusiasmar quem o ouvia”: o “rato” (a alcunha passou depois para os irmãos que também frequentaram a instituição).  O aluno 128 do curso de 1998 chegou a ser escolhido pelos colegas para adjunto do comandante da 1ª companhia, apurou o Observador.

Daí seguiu para a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, onde se licenciou (acompanhado por alguns colegas do curso do Colégio Militar). Entre os colegas de curso há um padre, vários advogados, um militar da GNR, outro da Marinha, um piloto e vários empresários, com quem ainda vai falando. Reconhecem que Francisco Rodrigues dos Santos é o que tem uma vida mais atarefada de momento e daí que se tenha “afastado um pouco nos últimos tempos, embora procure manter o contacto”.

Francisco Rodrigues dos Santos durante a campanha para as legislativas de 2011, na Feira de Loures. (Facebook: JP Distrital Lisboa)

Da Juventude Popular à liderança do CDS em 13 anos

A maior inspiração política foi o avô, ex-vice-presidente da Câmara de Oliveira do Hospital pelo PSD. Tinha apenas um amigo na Juventude Popular, dos tempos do Colégio Militar, mas ficou “maravilhado” com a retórica e eloquência de um discurso de Paulo Portas na abertura do ano letivo na instituição, como contou nesta entrevista ao i. Francisco Rodrigues dos Santos filiou-se na Juventude Popular em 2007, quando o líder do CDS era Ribeiro e Castro. Três anos depois filiou-se também no partido, já durante a segunda presidência de Paulo Portas. A postura mais conservadora valeu-lhe a alcunha de “Chicão”, já que desde cedo marcou a sua posição contrariando a designação ‘casamento’ para uniões de pessoas do mesmo sexo e contra a despenalização do aborto.

[“Não seremos muleta de ninguém”. O primeiro discurso de “Chicão” como líder]

Em 2015 foi eleito presidente da JP e reeleito em maio de 2018, cargo do qual se demitiu na manhã deste domingo, antes de tomar posse como presidente do CDS. Durante a sua liderança dos jovens centristas, foi idolatrado pelos militantes da Juventude Popular. Em vários episódios tornou-se evidente o culto do líder.

Em 2016, quando Chicão moderou um debate entre Paulo Portas e o socialista António Vitorino na Escola de Quados do CDS, os jotas que fizeram perguntas iniciaram cada intervenção agradecendo-lhe e elogiando-o a ele, o moderador, sendo cada elogio seguido por uma torrente de aplausos e gritos de guerra da Juventude Popular. “É bem!”, aplaudiam sistematicamente. Vários dos militantes responderam mesmo que Francisco Rodrigues dos Santos era a sua principal inspiração política, ao lado de nomes históricos como Lucas Pires e Adelino Amaro da Costa.

No véspera do Congresso de 2018, em Lamego, os militantes da Juventude Popular receberam uma mensagem com instruções: que tipo de roupa vestir para se “diferenciarem dos restantes congressistas” (evitar fato ou blazer e vestirem-se como jovens) e como reagir caso fossem “encurralados” pela comunicação social. Chicão garantiu na altura ao Observador que não foi dele a iniciativa de enviar essa mensagem.

Depois, durante o congresso, dezenas de militantes da Juventude Popular subiram ao palco durante a noite e madrugada, arrastando os trabalhos até às 5 da manhã, apenas para dizer que exigiam a integração de Francisco Rodrigues dos Santos nas listas de candidatos a deputados. Pareceu ensaiado, mas o novo líder do CDS garantiu este sábado em entrevista à Rádio Observador que não foi, dando mesmo a sua “palavra de honra”: “Sei que sou suspeito, mas não fiz nenhum briefing”. 

Teve uma breve passagem de um mês pelo gabinete de Pedro Mota Soares, ministro da Solidariedade e Emprego, no último governo de Passos Coelho que foi substituído pelo acordo da “geringonça”. No currículo da experiência autárquica Francisco Rodrigues dos Santos conta com uma passagem pela junta de freguesia de Carnide, em Lisboa, e como deputado na Assembleia Municipal de Lisboa.

Francisco Rodrigues dos Santos pediu para deixarem de lhe chamar Chicão. (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

Conservador nos costumes: casamento gay, aborto, “sexualização” da educação

Entre a eleição de presidente da JP e a eleição para líder do CDS passaram pouco mais de quatro anos. Francisco Rodrigues dos Santos nunca receou ser catalogado como conservador. Numa entrevista recente ao Público, Francisco Rodrigues dos Santos clarificou que não disse ser contra o casamento entre homossexuais, mas sim contra o uso dessa designação que “tem uma origem canónica”. Quanto à adoção sobre casais do mesmo sexo, Rodrigues dos Santos diz que importa “o superior interesse da criança” e que na biparentalidade, masculino e feminino “são vetores importantes para o desenvolvimento harmonioso da criança”.

Em relação ao aborto, Rodrigues dos Santos parece ir “limando arestas”. Em 2016 chegou a dizer que “devia ser criminalizado”, agora diz que “não pretende criminalizá-lo”, mas que não concorda com a solução legal existente porque “o aborto não deve constituir uma opção”. Para Francisco Rodrigues dos Santos há outras opções que devem ser privilegiadas em detrimento da interrupção da gravidez: realça o saldo natural negativo do país e aproveita para recordar o “pacote de apoio à família e à natalidade” que o partido defende. Rodrigues dos Santos frisa, sempre que possível, “a dignidade humana que envolve a defesa intransigente da vida humana, desde a conceção até à morte natural”.

No verão passado, Francisco Rodrigues dos Santos contestou fortemente um despacho do Ministério da Educação sobre regras para a aplicação da lei da identidade de género aprovada em 2018: este foi um dos poucos temas mais “críticos” abordados na moção que ditou a sua eleição para líder do partido. Rodrigues dos Santos quer combater a “ideologia do género e a sexualização da educação de crianças e jovens”.

Mais recentemente, viu-se envolvido numa polémica: partilhou nas redes sociais uma fotografia ao lado da noiva, Inês Vargas, com a legenda: “Estabilidade emocional”. Tratava-se de uma referência ao banco Crédito Agrícola, que pagava à mulher do seu presidente uma avença para garantir “estabilidade emocional” ao marido. Na crítica que fez nas redes sociais, o candidato à liderança do CDS não referiu, porém, que a sua namorada e vice-presidente na direção da Juventude Popular foi avençada do CDS na Câmara de Lisboa. Francisco Rodrigues dos Santos veio depois negar ter tido qualquer influência na escolha da namorada e desvalorizar a comparação com o caso do banqueiro.

Antes da votação no congresso, foi violentamente atacado pelo ex-ministro António Pires de Lima, por usar a expressão “quadrilha” aplicada às “esquerdas unidas” (pode ouvir aqui): “Quem assim qualifica os adversários políticos, quem trata hoje desta forma maniqueísta os adversários, tratará no CDS assim quem tiver posições diferentes da sua”. E deu-lhe este raspanete: “Francisco Rodrigues dos Santos, se te queres dar ao respeito, começa tu por te dar ao respeito dos adversários”.

Pires de Lima, que apoiava João Almeida, pediu ao congresso que desse tempo a Francisco Rodrigues dos Santos “para apurar a sua cultura democrática, a cultura de respeito pelos outros.” O congresso decidiu de outra forma. Vaiou e apupou Pires de Lima e escolheu Chicão para líder.  Chicão, não. Na ‘mini’-entrevista que deu ao Observador antes do congresso, Francisco Rodrigues dos Santos, com o pin do Colégio Militar na lapela, explicou que já não queria que lhe chamassem Chicão, um nome atribuído num grupo íntimo de amigos que acha que agora é utilizado para o menorizar politicamente: “Todos os políticos em Portugal são tratados pelo nome, menos eu. Por isso, chamem-me Francisco”.