O Liverpool atravessa nesta altura o pior momento da temporada. Depois da derrota em Espanha com o Atl. Madrid, que deixou os ingleses numa situação delicada ainda nos oitavos de final da Liga dos Campeões onde estão enquanto campeões em título, a equipa de Jürgen Klopp caiu com estrondo contra o Watford e voltou a perder a meio da semana, sendo eliminado pelo Chelsea da Taça de Inglaterra, ainda que com um onze com várias poupanças. Em duas semanas, o Liverpool viu a campanha europeia ficar mais difícil, perdeu pela primeira vez esta época na Premier League e desperdiçou a oportunidade de um treble (Champions, Premier e Taça) que em Inglaterra só o Manchester United alcançou.

Ainda assim, um dos jogadores do Liverpool viveu esta semana aquela máxima que normalmente se aplica em momentos mais difíceis: o futebol é a coisa mais importante das menos importantes da vida. Naby Keita, médio de 25 anos que tem sido fustigado por várias lesões desde o início da temporada, acabou por estar no centro de uma tragédia que aconteceu no país natal, a Guiné. Um autocarro da Étoile de Guinée, uma equipa de futebol guineense, despistou-se na passada quinta-feira com 28 pessoas a bordo — nove acabaram por morrer, os restantes 19 ficaram em estado crítico. As primeiras notícias davam conta de que o irmão de Naby Keita estava entre as vítimas mortais; os relatos seguintes corrigiram a informação e disseram que era afinal o primo do jogador, e não o irmão; a confirmação final acabou por sossegar a família de Keita, já que o primo do médio do Liverpool foi um dos 19 sobreviventes do grave acidente.

Naby Keita voltou aos convocados na semana em que viu a própria família estar envolvida numa tragédia na Guiné

“Estou chocado, triste e de coração partido com esta notícia terrível. As minhas sinceras condolências para a Étoile de Guinée e para o futebol guineense”, escreveu Naby Keita nas redes sociais, na mesma semana em que regressou aos treinos do Liverpool e estava já na convocatória da receção dos reds ao Bournemouth. Jürgen Klopp tinha então Keita no banco de suplentes mas não tinha Alisson no onze inicial, já que o guarda-redes brasileiro se lesionou durante a semana, nem Robertson, que entre um pequeno problema físico e a necessidade de rotação da equipa acabou por ficar de fora dos escolhidos.

Contra o antepenúltimo classificado da Premier League, atualmente em zona de despromoção, Jurgen Klopp lançava então Adrián na baliza e James Milner na esquerda da defesa, enquanto que Oxlade-Chamberlain, como tem sido habitual e no lugar do lesionado Henderson, fazia companhia a Fabinho e Wijnaldum no meio-campo. Com o jogo ainda a arrancar, os adeptos de Anfield foram surpreendidos por uma sensação que tem sido recorrente nas últimas partidas mas que há muito não pairava em Liverpool: a sensação da derrota. Depois de três derrotas nos últimos quatro jogos, a equipa de Klopp era surpreendida por um golo de Callum Wilson, que aproveitou um erro de Joe Gomez, e estava a perder ainda antes dos primeiros dez minutos (9′).

Klopp pediu o apoio das bancadas — depois de muito reclamar com a equipa de arbitragem por entender que Wilson fez falta sobre Gomez no lance do golo — e o Liverpool reagiu da única maneira que sabe. A equipa de Van Dijk colocou a primeira linha de construção quase no meio-campo, com todos os jogadores do Bournemouth atrás da bola, e ia lateralizando a posse para tentar chegar à grande área adversária. A reação à perda de bola, sempre muito intensa, permitia ao Liverpool ir empurrando o Bournemouth para trás, ainda que a equipa de Eddie Howe tenha assustado Adrián na sequência de um canto e de um remate de fora de área.

Roberto Firmino teve a primeira grande oportunidade do Liverpool, ao aparecer na cara de Ramsdale (17′), mas o golo acabou por aparecer por intermédio de um erro da defesa do Bournemouth, assim como tinha acontecido com Joe Gomez do outro lado. Simpson, que tinha entretanto entrado para o lugar do lesionado Steve Cook, foi desarmado por Mané, que assistiu Salah para o empate (25′): o avançado rematou de pé esquerdo e junto ao poste, num golo que acabou por ser o 70.º em 100 jogos na Premier League para o egípcio, mais sete do que qualquer outro jogador na primeira centena de partidas pelo Liverpool. Mais do que isso, Salah tornou-se o primeiro a marcar 20 ou mais golos pelo Liverpool em três temporadas consecutivas desde Michael Owen, entre 2000 e 2003.

Ainda antes do intervalo, e na sequência de um grande passe a rasgar de Van Dijk, Mané arrancou rumo à baliza e colocou o Liverpool a ganhar à saída de Ramsdale (33′). No fim da primeira parte, a equipa de Jürgen Klopp já tinha dado a volta ao resultado e tinha afastado o susto dos minutos iniciais mas existia uma ideia sempre patente de que o Bournemouth, principalmente em transições rápidas e no aproveitamento de erros defensivos do Liverpool, poderia causar alguns estragos.

Na segunda parte, o jogo desenrolou-se praticamente em sentido único, com o Liverpool a procurar claramente o terceiro golo que poderia oferecer a tranquilidade e Klopp a adiar a primeira substituição ao máximo, claramente à espera desse pretendido aumentar da vantagem. O Liverpool tinha muita posse de bola mas raramente conseguia romper a defesa do Bournemouth, que estava muito compacta e a colocar muita gente nas linhas de passe que os reds procuravam. Ainda antes de Mané acertar em cheio na trave, com um grande remate de fora de área (73′), James Milner acabou por colocar a capa e assumir o papel de super-herói ao evitar o golo de Fraser, que fez um chapéu a Adrián (60′). Milner correu, tirou em cima da linha de golo e segurou a vitória para o Liverpool.

A equipa de Jürgen Klopp derrotou o Bournemouth e regressou às vitórias na Premier League, dias antes da segunda mão dos oitavos de final da Liga dos Campeões contra o Atl. Madrid, onde vai tentar dar a voltar à eliminatória e seguir em frente na competição europeia. Pelo meio, é cada vez mais notório que o Liverpool está numa fase descendente da temporada: comete erros na defesa, tem pouca intensidade no ataque organizado e sobrevive graças à eficácia na transição ofensiva. Alisson vai fazer falta, Robertson é importante e não está mas o nome que maior vazio deixa na equipa de Klopp é Jordan Henderson, o médio que é capitão, líder dentro e fora de campo mas também um pêndulo imprescindível no meio-campo dos reds. Pelo meio, e na ausência de Robertson na esquerda da defesa e de Henderson com a braçadeira, James Milner foi lateral, foi capitão e foi super-herói no regresso às vitórias do Liverpool — que está já a três vitórias de conquistar a Premier League.