Anthony Fauci era desconhecido do grande público, mas tornou-se, nas últimas semanas, numa figura nacional. O maior especialista em doenças infecciosas do país – que trabalha há 36 anos na Casa Branca e colaborou com seis presidentes – teve a ousadia de corrigir Donald Trump e a coragem de defender medidas que beliscam o sucesso da maior economia do mundo. Neste momento Fauci é uma super star que oscila entre os que o ameaçam de morte e os que fazem donuts com a sua cara a agradecer-lhe por estar a salvar o país. Mas se Trump já disse que “toda a gente o adora“, numa alusão à alta popularidade de Fauci, agentes federais tiveram de reforçar a segurança pessoal do especialista.

O epidemiologista de 79 anos entrou para a Casa Branca em 1984, numa altura em que se tinha destacado no combate à propagação do HIV/SIDA nos EUA. No início dos anos 80, Fauci conseguiu grandes avanços em estudos sobre a doença e convenceu o Congresso a conceder fundos para combater a doença que se tornaram essenciais no combate à SIDA. Trabalhou com Ronald Reagan, George Bush (pai), Bill Clinton, George W. Bush, Barack Obaama e agora com Trump e enfrentou pandemias ou surtos como o SARS, MERS e ébola. Mas nunca com esta dimensão, em que se sente como um general numa guerra sangrenta. “Estamos numa guerra. Penso que é isto que os generais  sentem quando uma guerra com combates violento“, disse o especialista ao The New York Times (NYT).

Mas se agora saltou para a frente das câmaras, há muito que Fauci é uma estrela na comunidade científica e que, ao mesmo tempo, tem influência nas políticas de saúde pública seguidas pelo país. É ele que, conta o NYT, decide em última análise para onde é que a investigação deve ser direcionada na procura da resposta a um surto, uma cura ou uma vacina. Lidera uma agência que tem um orçamento de 5,9 mil milhões de euros (5,5 mil milhões de euros) só para 2020.

Nascido em Brooklyn nos anos 40, filho de um farmacêutico e neto de imigrantes italianos e suíços, Fauci entrou para a Faculdade de Medicina da Universidade Cornell com 22 anos, terminou o curso cm a melhor nota da turma e, a partir daí,  que teve uma carreira em ascensão. De tal forma que já em 1994, o The New York Times escrevia um perfil sobre o conselheiro da Casa Branca: “Se todos fossem como o Dr. Anthony S. Fauci, ninguém precisaria de tomar Prozac“. Isso não significa que tenha uma vida calma, já que Fauci dorme quatro a cinco horas por dia e está a trabalhar nas outras 20.

O “explainer-in-chief” que corrigiu Trump e fez direto com estrela da NBA

Anthony Fauci é aquilo que o NYT chama de “explaner-in-chief“, uma espécie de explicador supremo sobre doenças infecciosas, em particular do novo coronavírus. O epidemologista é um dos mais importantes membros da task force criada pela Administração Trump para responder ao vírus e presença assídua nas conferências de imprensa do presidente sobre o assunto.

Na conferência de 21 de março, os jornalistas voltaram a perguntar se um medicamento para a malária, a hidroxicloroquina, poderia ser utilizada para prevenir a Covid-19. No dia anterior, quando Fauci não estava na sala, Trump tinha alertado para essa solução. Desta vez, o especialista respondeu prontamente: “Não. A resposta é não”. E depois explicou que a informação não estava validada cientificamente.

Quando Trump disse que uma vacina podia estar disponível “rapidamente“, Fauci também fez questão de corrigir e dizer que levaria pelo menos entre um ano a 18 meses. Perante a contradição, o presidente dos EUA respondeu de forma mais titubeante: “Pode haver como pode não haver e concordo com o doutor (…) É apenas um feeling que eu tenho. Sou uma pessoa inteligente. Sinto-me bem com isso. Vamos ver. Vamos ver em breve”.

A expressão de Fauci durante as declarações de Trump numa das conferências de imprensa também se tornou viral, já que o especialista parece algo agastado perante o que o Presidente está a dizer.

Sobre o facto de Trump ter dito que o surto podia durar até ao verão, Fauci também respondeu: “É o vírus que determina a linha do tempo, não nós”. O especialista foi sempre desmentido as afirmações do presidente norte-americano em entrevistas a vários órgãos de comunicação. Às vezes de uma forma mais direta, de outras mais indireta.

Numa entrevista à revista Science, Fauci explicava porque não corrigia de imediato o presidente quando Trump fazia declarações descuidadas sobre o vírus: “Não posso saltar para a frente do microfone e empurrá-lo. Na oportunidade seguinte, tentamos corrigir o que foi dito.”

Também em declaração à colunista Maureen Dowd, no The New York Times, Fauci justificou porque às vezes é mais passivo e permite que sejam ditas declarações enganadoras pelo Presidente: “Não quero embaraçá-lo, nem quero agir como um durão, como se estivesse a confrontar Presidente, quero apenas que os factos sejam conhecidos.”

Depois de várias notícias de que o presidente dos EUA queria afastar o cientista, o próprio deu uma entrevista à Fox News (a televisão em que o fez não terá sido um acaso) a dizer que Donald Trump nunca tomou uma decisão sobre este assunto contra os conselhos da comunidade científica. O presidente agradeceu a clarificação: “Thank you Tony”.

O discurso de Trump também está agora mais realista e adaptado àquilo que foram os apelos de Fauci. O presidente dos EUA deixou de desvalorizar a doença e avisou os norte-americanos que esta é “uma questão de vida ou de morte”.

Desde que está na task force de Trump, Fauci recebe solicitações de todos os lados (de jornalistas a governadores) para responder a questões sobre a doença. E que incluem também a população. Chegou inclusive a responder a perguntas sobre o vírus num direto do Instagram com uma estrela de NBA, o jogador dos Golden State Warriors, Stephen Curry.

“É uma questão de vida ou morte, francamente”, disse Trump, oferecendo uma avaliação sóbria do efeito da pandemia. “É uma questão de vida e morte.”

Fauci com segurança pessoal e alvo de teorias da conspiração

Anthony Fauci sofreu as consequências de ter sido o rosto que exigiu medidas de distanciamento social que obrigaram escolas e empresas a fechar e tiveram efeitos na economia, como dez milhões de desempregados. O cientista, que trabalhou com outros três presidentes republicanos e dois democratas, foi acusado por apoiantes de Trump de estar a tentar atingir a economia, para atingir a credibilidade de Trump e assim minar as hipóteses que este terá de vencer as próximas eleições presidenciais, marcadas para novembro de 2021.

O momento em que Fauci tocou na cabeça foi utilizado ad nauseum por apoiantes de Trump para mostrar como o especialista era um inimigo do presidente. A hashtag  #FauciFraud foi utilizada por mais de 70 contas do Twitter e alguns publicadas centenas de vezes por dia.

Vários apoiantes de Trump têm criticado Fauci. O presidente da Judicial Watch (grupo conservador que apoia Trump), Tom Fitton, bem como Bill Mitchell, apresentador do “Your Voice America”, um programa online de entrevista com ligação à exterma direita.

Há ainda acusações de que o especialista faz parte do “deep state”, uma teoria da conspiração em que há um Estado dentro do Estado que controla os destinos do país. O blogue conservador The American Thinker divulgou ainda um alegado email escrito por Fauci para um assessor de Hillary Clinton, em que este elogia a antiga candidata democrata (que enfrentou Trump).

Um e-mail de sete anos que ele escreveu para um assessor da ex-secretária de Estado Hillary Clinton foi publicado on-line pelo The American Thinker, um blog conservador. No e-mail, Fauci elogiou Clinton por sua resistência durante as audiências dos ataques de 2012 ao complexo americano em Benghazi, Líbia. O blogue sugeriu falsamente que o e-mail provasse que Fauci fazia parte de um grupo secreto que se opunha a Trump.

A superstar que aparece em donuts

Anthony Fauci continua a trabalhar 16 a 20 horas por dia e, por estes tempos, é preciso a mulher avisá-lo de que tem de comer para que o cientista se lembre de o fazer. Antigo maratonista, é conhecido por correr sete milhas (mais de 11 quilómetros) todos os dias à hora de almoço.

Nas redes sociais há várias páginas de fãs e apoiantes de Fauci, desde quem declare um crush até quem seja fã de todo o trabalho científico. Na Amazon há t-shirts com a frase: “O que faria Fauci?” Há pastelarias de todo o país que vendem donuts com a cara de Fauci em vermelho, branco e com creme azul.

Num dos dias em que Fauci não apareceu na conferência de imprensa a hashtag #WhereisFauci. No Facebook, o grupo “Dr. Anthony Fauci Fan Club” tem mais de 40 mil membros, onde podem ver-se slogans como “Fauci: Make Science Great Again 2020.”

Segundo a Business Insider, os americanos confiam mais em Anthony Fauci do que em Donald Trump para a gestão desta crise. O especialista é assim um fenómeno de popularidade, para o bem e para o mal.