O que define uma crise é a “interrupção do fluxo normal das coisas”, o que provoca uma “série de reações e emoções” que, muitas vezes, deixam as pessoas assustadas. Em declarações à Rádio Observador, Maria Palha, psicóloga clínica, referiu que esta interrupção pode ser uma pandemia como a que estamos a viver, mas também um processo de divórcio ou uma mudança de cidade. O processo de adaptação do ser humano é muito semelhante. “Independentemente do contexto ou da crise, o que facilita a forma como a superamos é o conhecimento que temos da nossa saúde emocional”, afirmou.

“Temos de aprender a nos zangar melhor”. Saúde mental em tempos de pandemia

Uma situação como a que estamos a viver pode deixar marcas, sobretudo numa “sociedade que já está adoentada”. “Portugal é um dos países com maiores taxas de depressão na Europa e de consumo de antidepressivos. Não estamos muito habituados a cuidar da saúde mental.”

Questionada sobre que ferramentas utilizar, Maria Palha insistiu no conhecimento das emoções que, mesmo que sejam “extremamente desagradáveis ou difíceis”, têm a função de nos ajudar a sobreviver. “A zanga transmite uma necessidade interna que não está a ser satisfeita e precisa de ser ajustada para nos ajudar a sobreviver. É esta informação que, às vezes, as pessoas não têm e que se tivessem conseguiriam ajustar para se zangarem melhor”, continuou, afirmando que em fase de quarentena é normal que as pessoas estejam mais zangadas umas com as outras. É, pois, preciso “aprender a justificar a zanga e aprender a expressá-la”.

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Relativamente aos mais novos, a psicóloga clínica esclareceu que é importante “conhecer as informações reais e corretas, e partilhá-las com as crianças”, ajustando-as à sua linguagem, transmitindo que estão em segurança independentemente do que acontece lá fora. A forma como as crianças vão lidar com a situação depende, acima de tudo, da “confiança, segurança e tranquilidade” dos cuidadores.

Se com as crianças é necessário repetir as mensagens muitas vezes, o mesmo acontece com os idosos, que podem estar a enfrentar uma sensação de maior fragilidade. É, então, fundamental clarificar a doença, o vírus e a pandemia, e fazer o reforço de que o que está em causa é a preocupação e o amor da família.

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Durante este mês de isolamento é natural que surjam muitas reações, mas é preciso estar atento ao que acontece depois: “Nos primeiros três meses há muitos sinais de alerta. É o momento para, a cada caso, procurar ajuda”, disse, referindo-se às reações que, com o tempo e com o descuido, podem tornar-se patológicas. Exemplo disso é o sentimento de desesperança.

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“O distanciamento físico não é um distanciamento emocional”, afirmou ainda Maria Palha. “A frustração do isolamento traz uma mensagem clara: temos de reajustar a forma como nos relacionamos.”