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A pandemia está a inverter os papéis: como os filhos podem convencer os pais "teimosos" a ficar em casa

Em plena pandemia, as gerações mais velhas são as mais frágeis, mas muitos recusam ficar em isolamento. Relatos de filhos e netos preocupados e conselhos para convencer os pais e avós a ficar em casa.

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“Temos de manter os idosos protegidos.” A afirmação de Graça Freitas, diretora-geral da Saúde, é de sexta-feira. Mas, em boa verdade, passe o tempo que passar, será válida até a pandemia provocada pelo novo coronavírus estar resolvida. Numa altura em que o número de infetados em Portugal já passa os 1.000, a preocupação das autoridades de saúde e até dos líder governamentais está particularmente centrada nos mais velhos, um grupo de risco para quem os alertas mais recentes se têm dirigido.

Se, no início, quando havia poucos pacientes portugueses infetados com a Covid-19, a geração mais nova estava a gerar discórdia — como se viu com a enchente de jovens na praia de Carcavelos ou na zona de bares no Cais do Sodré, em Lisboa —, decretada a pandemia e o estado de emergência no país, os polos inverteram-se. Agora são os filhos que ligam aos pais, alertando-os para ficarem em casa, zangando-se até perante a descontração daqueles que começam a entrar ou que já entraram na terceira idade.

Histórias de teimosia sucedem-se. A avó de Reinalda, uma das pessoas ouvidas pelo Observador, continua a encontrar-se com o namorado de 80 anos e a fazer “a vidinha” com tranquilidade. “Claro que já a avisei… até já estou a desistir. Ela está cheia de teorias da conspiração e mantém a vida dela como se nada fosse”, conta. A frustração é notória no discurso.

“Tenho pedido aos meus pais para, pelo amor de Deus, ficarem em casa e para esquecerem os cafés, para pensarem duas vezes antes de começarem uma discussão, porque os próximos meses vão ser duros”, desabafa Marta, de 26 anos. Os pais, de 49 e 53 anos, reconhecem que a filha tem razão, ainda assim “é complicado” seguir à risca as suas recomendações. “Na realidade, não é nada a que não esteja habituada, mas nunca na minha vida me imaginei nesta situação, de ficar genuinamente irritada. De, mesmo com argumentos fortes, ouvir ‘mas e mas’ do outro lado do telefone e de me apetecer gritar com o meu pai: ‘PORQUE EU ESTOU A DIZER QUE NÃO!'”, conta ainda.

Madalena, de 32, também fala todos os dias com os pais, uma a duas vezes — têm 62 e 66 anos. Pergunta como estão, o que andam a fazer em tempos de quarentena, como tem sido a experiência de ir ao supermercado, entre outros assuntos que, mesmo perante a distância física, ajudam a pôr a conversa em dia. “O meu pai hoje tinha uma consulta, ainda não sei se foi, liguei agora e não atenderam”, comenta no decorrer da conversa com o Observador. “Está muito teimoso…”, desabafa. “No início, ia ao café e ao supermercado porque faltavam bananas…. Esse tipo de coisas. Acho que os meus pais estão informados, parece é que não querem crer que já têm idade para serem grupo de risco. Como são pessoas ativas e independentes, são eles que se sentem cuidadores, da minha avó e de nós, as filhas.”

A avó de Reinalda continua a encontrar-se com o namorado de 80 anos e a fazer a “vidinha” com tranquilidade. “Claro que já a avisei… até já estou a desistir. Ela está cheia de teorias da conspiração e mantém a vida dela como se nada fosse”, conta. A frustração é notória no discurso.
Reinalda, 32 anos

Os motivos da descontração dos “Baby boomers”

As histórias de resistência às medidas de proteção levam à pergunta: porque é que, em pleno estado de emergência, que não era decretado desde novembro de 1975, a geração mais velha (os chamados “Baby Boombers”, uma expressão associada ao aumento da natalidade no período pós-guerra, entre 1946 e 1964, nos EUA e no Reino Unido) continua a encarar a realidade com alguma descontração?

Maria José Núncio, doutorada em Sociologia, professora universitária, mediadora familiar e coautora do livro “Os meus pais estão a envelhecer”, recusa os termos “descontração” e “irresponsabilidade”, e apressa-se a enumerar os quatro possíveis motivos para isto estar a acontecer. Ao Observador, começa por explicar que as rotinas são essenciais para as gerações mais velhas. Muitas vezes, são a única forma de essas pessoas se sentirem úteis e vivas, bem como a forma de interagirem socialmente, sobretudo num contexto urbano e suburbano.

“Muitas vezes negligenciamos, enquanto sociedade, esta questão: a passagem à reforma, e estamos a falar de Baby Boomers que já trabalharam uma vida inteira, tem um significado pesadíssimo do ponto de vista social. É o corte com todo um conjunto de rotinas que eram estruturantes para a vida em geral e para as interações sociais. As rotinas são pequenas saídas. As pessoas mais velhas que saem 3 a 4 vezes por dia — não são necessidades reais, mas idas à farmácia ou à padaria, por exemplo, contrariam o isolamento. São, por vezes, as únicas interações possíveis que as pessoas encontram”, alerta a socióloga.

Outro potencial motivo está diretamente relacionado com a noção de tempo, que é percecionado de forma diferente pelas também diferentes gerações. Para pessoas acima dos 70 anos (mais ano, menos ano), que representam o grupo de risco em tempos de pandemia, a noção de “medidas temporárias”, como é o isolamento social, podem rapidamente passar de “provisórias” para “definitivas”, uma vez que existe o receio de se estar mais perto do fim de vida — daí a resistência. “Isso faz com que muita gente pense que pode estar na última fase da vida e, nesse contexto, não quer estar privada de contactos sociais, sobretudo dos contactos com as pessoas que lhes são mais importantes”, acrescenta Núncio, que lembra ainda o papel fundamental dos netos. É preciso lembrar que, em alguns casos, senão muitos, falamos de pessoas que, até à recomendação de ficar em casa, eram a rede de suporte dos mais novos. “De repente, veem-se privados de tudo isto. E eu digo sempre: os avós são o grande património dos netos.

A fase de negação pode estar também na origem de um comportamento menos cuidadoso por parte dos mais velhos — mesmo numa altura em que, por exemplo, do Norte de Itália surgem notícias de que bastaram duas semanas para “morrer uma geração”. Não vivemos numa sociedade que prestigia o avançar da idade, pelo que ser velho “é estar um pouco à margem”, continua a docente universitária. É fácil compreender que, nesse sentido, as pessoas tenham dificuldade em reconhecer que pertencem ao grupo de risco, porque não se querem assumir como idosos e também “porque ainda não se sentem velhos, quer pela pressão social para sermos jovens, quer pelo reconhecimento de que o envelhecimento é a aproximação do fim”. A isso acrescentam-se as pessoas que se acreditam “rijas” demais para sofrer com os efeitos do novo coronvírus — isso pode acontecer, sobretudo, a quem já passou por sérias dificuldades durante a vida. Mas Núncio deixa o alerta: “Isto é tudo tão novo… Ainda nenhum de nós percebeu bem aquilo com que estamos a lidar…”

“Habitualmente, quem já viveu mais tempo é cuidadoso com os outros, sobretudo protetor dos netos quando existem, mas nem sempre cuidadoso de si mesmo. A sensação de que já se viveu muito, e a experiência de vida poder constituir uma fonte de sabedoria, gera com frequência uma postura mais rígida em algumas pessoas mais velhas”, acrescenta também Filipa Jardim da Silva. Ao Observador, a psicóloga clínica fala de como algumas pessoas de idade se fecham, por isso, “à novidade ou a tudo o que não vai ao encontro das suas opiniões”, tornando-se num público-alvo mais difícil de chegar.

Os papéis de proteção e cuidado inverteram-se em plena pandemia, pelo que Filipa Jardim da Silva faz o apelo: “Tal como, nos tempos remotos de infância e adolescência, os pais destes adultos fizeram aprendizagens importantes sobre as relações de amor, também agora estes filhos têm de as fazer. Aprendizagens como as de que não controlamos ninguém, de que a nossa ação e poder têm limites, de que podemos alertar e educar, mas não podemos por absoluto determinar a maneira como o outro se vai comportar”.

"Mesmo à distância, vamos ter de continuar a passar aos nossos pais a noção de que continuamos a ouvi-los, a querer animá-los, a querer cuidar deles", diz Maria José Núncio

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Como falar, então, com pais “teimosos”?

Também André, de 41 anos, tem reparado que a geração mais nova está bastante mais “reativa” ao novo coronavírus. Em conversa telefónica com o Observador, admite que existe uma certa despreocupação por parte dos pais — dos seus e de muitos outros. “Os meus pais estão reformados, acompanham as notícias, mas não parecem preocupados. Sou eu que lhes digo para fazerem compras com tempo, ligo-lhes duas vezes por dia, de manhã e à tarde, e peço-lhes para não saírem de casa nem para estarem com outras pessoas”, conta. Apesar dos avisos, ainda no outro dia os pais de André, de 69 e 68 anos, estiveram com amigos próximos, situação que o obrigou a ser mais ríspido e a explicar que tais ações podem trazer sérias consequências para a saúde deles e dos que lhes são próximos. “Já eu tinha comprado comida há mais de um mês, antes de haver casos em Portugal, quando tive de ir tratar deles. Fui às compras por eles… Quando entrámos em estado de emergência, percebei que eles não se tinham preocupado. Entreguei as compras sem lhes tocar. É uma sensação estranha não poderes abraçar os teus próprios pais…”

É fácil para as gerações mais novas — filho e até mesmo netos — julgar a atitude de quem não fica em casa, de quem sai à rua mesmo em altura de pandemia, quer seja “descontração” e “irresponsabilidade”, quer não seja. “Tanto a sociedade mais jovem como nós, os filhos, tendemos a adotar uma atitude condenatória. Mas, antes de condenarmos, é preciso perceber as razões por detrás deste comportamento”, assegura Maria José Núncio. “Obviamente que não nos devemos desresponsabilizar. Passámos a ter de proteger a geração mais velha”, atesta.

"Tanto a sociedade mais jovem como nós, os filhos, tendemos a adotar uma atitude condenatória. Mas antes de condenarmos é preciso perceber as razões por detrás deste comportamento", assegura Maria José Núncio. "Obviamente que não nos devemos desresponsabilizar. Passámos a ter de proteger a geração mais velha."
Maria José Núncio, socióloga

A docente — que já antes foi entrevista pelo Observador, numa entrevista em que diz que “temos medo de envelhecer” — explica que a recriminação, a zanga e a comunicação autoritária não jogam a favor dos filhos, que, por estes dias, andam a monitorizar o comportamentos dos pais. “A única maneira é munirmo-nos da nossa maior paciência, o que nem sempre é fácil porque estamos todos a viver um momento de tensão”, diz. O ponto fundamental é traduzir de maneira afetiva, considerando sempre as circunstâncias familiares, as recomendações oficiais. Ou seja, falar sobre os cuidados a ter, e que são amplamente divulgados nos media, de maneira a que estes percebam que é algo que lhes diz respeito e que não é informação abstrata.

“Não basta dizer à minha mãe ‘tens de ficar em casa’ e saber que ela vai resistir. Vale a pena perguntar ‘porque é que te está a custar tanto a ideia de ficar em casa?’. Isto vai permitir que as pessoas falem daquilo que mais as apoquenta. A possibilidade de desabafar com alguém que nos é querido funciona como uma espécie de segurança, porque alguém se está a preocupar connosco. Quando usamos uma linguagem mais autoritária, acabamos por falar com os pais como falamos com os filhos — há uma infantilização que é sentida pelos mais velhos como desrespeito. Nós não voltamos a ser crianças”, continua. Além disso, a zanga pode criar tensões entre o seio familiar e estimula o sentimento de incompreensão.

A negociação também é uma ferramenta eficaz, pelo que é possível argumentar com os pais que, ao invés de saírem à rua, os filhos comprometem-se a telefonar três vezes ao dia. “Mas telefonar a sério, para ouvi-los e tentar desviar a conversa deste assunto [Covid-19].” A negociação pode até incluir a participação dos netos num esforço global de família: “Não vês os teus netos, mas falas com eles todos os dias”, é um exemplo. Ir às compras por eles é outra ideia a propor. Quando se dá o caso de os pais estarem longe, Maria José Núncio recomenda que se garanta que existe alguém por perto capaz de ajudar. “Há sempre um vizinho disponível ou um familiar por perto… Nestas alturas, é importante desencadear estas redes de entreajuda.”

Em situações mais extremas e grande teimosia, a sugestão passa por reforçar a insistência diária e os alertas para o perigo. “Só num caso muito extremo é que se pode assustar”, diz a docente, referindo-se a um “assustar” comedido, com base em factos reais. “Mesmo à distância, vamos ter de continuar a passar aos nossos pais a noção de que continuamos a ouvi-los, a querer animá-los, a querer cuidar deles. Não os podemos fechar em casa!” Mais importante é a noção de que não são os pais que vão “perder” os filhos por uns dias, são os filhos que podem perder de vez os pais. “Isto acentua a perceção de utilidade e de responsabilidade.”

Para os filhos que agora se tornam “pais” de quem os viu nascer, a psicóloga Filipa Jardim da Silva aconselha que nos lembremos de que “não somos donos de ninguém, nem dos nossos filhos nem dos nossos pais”.  “Os filhos podem focar-se naquilo que está no seu campo de ação, que é sensibilizar os pais para adotarem comportamentos de proteção e prevenção — não em tons julgadores ou castradores, não os infantilizando ou limitando, mas sim fazendo valer a unidade de troca mais valiosa: o amor. É por amor que tantos filhos querem que os seus pais se cuidem. E é por amor que tantos pais mais velhos, alguns já avós, poderão flexibilizar-se.”

"Não basta dizer à minha mãe 'tens de fizer em casa' e saber que ela vai resistir. Vale a pena perguntar 'porque é que te está a custar tanto a ideia de ficar em casa?'. Isto vai permitir que as pessoas falem daquilo que mais as apoquenta. A possibilidade de desabafar com alguém que nos é querido funciona como uma espécie de segurança porque alguém se está a preocupar connosco. Quando usamos uma linguagem mais autoritária, acabamos por falar com os pais como falamos com os filhos — há uma infantilização que é sentida pelos mais velhos como desrespeito. Nós não voltamos a ser crianças."
Maria José Núncio, socióloga

A pandemia está a aproximar ou a dividir gerações?

Sim, alguns “Baby boomers” estão a suscitar preocupação dentro e fora das fronteiras nacionais  — nos EUA já se fala, inclusive, em “avós yolo” (acrónimo para a frase “you only live once”, o que em português se entende por “só vives uma vez”). Sim, também a geração millennial já saiu algumas vezes dos carris em diferentes contextos  — no fim de semana passado, os franceses ignoraram os alertas do Governo e foram para parques e jardins aproveitar o bom tempo, enquanto no Reino Unido os concertos continuaram, com a banda Stereophonics a cantar para uma multidão de pessoas.

Ainda assim, a pandemia parece estar a unir as diferentes gerações e exemplo disso são projetos como o português SOS Vizinho que nasceu para ajudar doentes e idosos. Trata-se de uma rede que pretende ajudar a levar bens essenciais a pessoas que se englobam no chamado grupo de risco e que estejam em isolamento devido à propagação do surto do novo coronavírus.

Também em meados de março era notícia que pelo menos 174 grupos de solidariedade já tinham sido criados no Reino Unido para ajudar com as compras, passear animais ou levantar medicamentos na farmácia a quem está isolado ou em situação de fragilidade. Um tipo de ajuda de bairro que não é caso único na Europa — incluindo em Portugal —, mas neste caso há coordenação a nível nacional através das redes sociais, o que tem permitido um crescimento da iniciativa.

Mas não é preciso ir tão longe: nas redes sociais é fácil de encontrar provas de que existe entreajuda entre vizinhos, sobretudo com os mais novos a disponibilizarem-se a amparar os mais velhos. Inês, 32 anos, é uma delas. “A minha porteira é velhota e tem hipertensão. Sempre que vou às compras, pergunto se ela quer alguma coisa. Uso um lenço para a tocar à campainha e mantenho a distância de segurança. E mando-a ir para dentro de casa porque ela está sempre no paleio com alguém.”

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