Mário Centeno admite que “as divergências ainda existem” dentro do Eurogrupo sobre o plano para reconstruir a economia europeia depois da resposta de emergência à crise provocada pela pandemia da Covid-19, mas elogia a capacidade das instituições europeias para “inovar” na forma de lidar com “uma crise que só conseguíamos imaginar num cenário de ficção”. E volta a avisar que no segundo trimestre de 2020, haverá “uma recessão verdadeiramente avassaladora”.

Numa entrevista ao Público na qualidade de presidente do Eurogrupo, Centeno insistiu que a Europa está hoje a dar uma resposta à crise com mais “rapidez” do que aconteceu em 2008. “Temos de tentar perceber a vertigem que foi este mês para os governos, os Estados, as nossas comunidades e instituições, e ver a rapidez com que reagimos”, disse Centeno.

Quando foi necessário começar a construir soluções, elas apareceram, não só com rapidez, mas com uma intensidade sem paralelo em nenhuma crise anterior”, assegurou o ministro das Finanças.

Centeno lembrou que a crise de 2008 foi “pré-anunciada pelo menos com 10 anos de antecedência” por “muitos analistas, académicos, políticos, economistas”, e mesmo assim “a resposta foi tímida, nalgumas dimensões porventura mesmo errada”, tendo demorado “quase quatro anos”.

“Desta vez, esta crise não foi anunciada. É uma crise que só conseguíamos imaginar num cenário de ficção. Levou-nos 10 dias, entre a primeira reunião do Eurogrupo em que a solução começou a ser desenhada e a sua aprovação final”, destacou.

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Mário Centeno descreveu a fase de resposta de emergência a nível europeu em três linhas: o programa SURE da Comissão Europeia, de apoio ao emprego, no valor de 100 mil milhões de euros; os empréstimos do Banco Europeu de Investimento no valor de 200 mil milhões de euros; e ainda o recurso ao Mecanismo Europeu de Estabilidade, “uma rede de proteção, sem condicionalismos, sem troikas, sem programas de ajustamento, para que os Estados possam aceder a financiamento com custos equiparáveis entre todos”.

“Qual é a soma disto tudo? Era aí que queria chegar para comparar com os EUA. Até à data, a resposta orçamental dos Estados-membros soma cerca de 3% do PIB da UE. Estamos a falar de mais de 500 mil milhões de euros“, sublinhou.

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A esta fase terá de se seguir uma fase de reconstrução da economia europeia. Centeno não tem dúvidas: “Esta é uma crise simétrica que inevitavelmente vai levar a que todos os países fiquem com mais dívida no curto prazo e que enfrentem, no segundo trimestre de 2020, uma recessão verdadeiramente avassaladora”.

Muitas das estimativas para o segundo trimestre deste ano a nível europeu apontam para uma queda do PIB de 20%. No pior dos trimestres da anterior crise, a queda do PIB foi de 4% ou 5%. É uma escala que não tem rigorosamente nada que ver com qualquer situação anterior”, acrescentou.

O plano de recuperação, “que a presidente da Comissão e o presidente do Conselho Europeu têm agora a responsabilidade de preparar”, poderá passar pela criação de um “fundo de recuperação, que deverá jogar em complemento com o Quadro Financeiro Plurianual“.

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“É um fundo que possibilita uma repartição dos custos do período de recuperação ao longo do tempo”, explicou Centeno, sublinhando o “compromisso de prolongar ou distribuir ao longo do tempo o custo financeiro que será muito concentrado no período de recuperação imediato”.

O presidente do Eurogrupo repetiu aquilo que já tem dito noutras entrevistas sobre os valores em causa no plano a longo prazo, que ainda não podem ser corretamente estimados: “São doze zeros. As nossas calculadoras dos telemóveis não dão para introduzir esses números. Só calculadoras científicas conseguem lidar com doze zeros”.

Porém, Centeno mostra-se confiante na capacidade do Eurogrupo para chegar a consensos. “As relações entre a Alemanha e a França são um catalisador muito importante para todas as decisões”, admite. “Temos hoje a felicidade de ter no Eurogrupo, quer do lado francês quer do lado alemão, dois ministros que têm uma visão muito clara e muito construtiva do caminho que estamos a fazer.”

A pandemia da Covid-19 já atingiu perto de 2,5 milhões de pessoas em todo o mundo, tendo provocado a morte a mais de 170 mil pessoas. Só na Europa já morreram mais de 100 mil pessoas.