Destaca como a crise da Covid-19 marcou o naufrágio do multilateralismo, e ainda como expôs a insuficiência das Nações Unidas e de outros grandes organismos internacionais. Para não falar dos problemas financeiros que aproximarão a Europa do cenário da América do Sul pelos piores motivos. “Estamos todos a argentinizar-nos”, ao contrair dívidas gigantescas, alerta o ex-primeiro-ministro de Itália (2013-2014) e um dos fundadores do Partido Democrático, Enrico Letta.

Numa entrevista ao diário argentino La Nación, o atual presidente da Association of Professional Schools of International Affairs avalia ainda os desempenhos dos principais protagonistas na gestão da pandemia que teve o seu foco na China, sendo “fundamental” manter essa mesma China “dentro do sistema de relações”.

“Creio que o Papa cresceu muito nesta fase. A sua grande capacidade de empatia e comunicação. Reconduziu a Igreja à sua liderança moral e isso parece-me positivo”. Para lá da referência a Bergoglio, Letta enumera “outros líderes europeus que estão a atuar muito melhor que Trump, Bolsonaro ou Boris Johnson. Líderes europeus como Merkel, Macron, Sánchez, Costa o Conte estiveram melhor“, considera, notando ainda as fragilidades que se tornam mais visíveis num momento como este.

“É verdade que vivemos um tempo no qual a política se debilitou e em que a competência não é a característica principal para selecionar líderes e hoje paga-se muito caro a consequência disso”.

Neste seguimento, o antigo primeiro-ministro confia ainda que da crise sairá também uma lição, sobre a relação entre responsáveis políticos e autoridades técnicas e científicas que têm vindo a acompanhá-los nesta fase: “os políticos devem confiar neles, mas ao mesmo tempo as decisões que devem ser tomadas são decisões políticas: as aberturas, os encerramentos, o funcionamento das escolas, etc, são decisões políticas. Este é o momento em que se pede aos políticos que assumam as suas responsabilidades”, define, explicando a subida de popularidade ao atual primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, por oposição à presidência de Emmanuel Macron, que continua a “dividir”.

“Penso que em Itália não estamos habituados a um Estado eficiente e quando foi preciso apoiar esse Estado, representado pelo primeiro-ministro, Conte ganhou uma popularidade que não tinha”.

Ainda sobre os destinos da Europa, “demasiado inter-governamental e pouco inter-comunitária”, a maior preocupação centra-se no “crescimento do euroceticismo e anti-europeísmo”, segundo mostram as sondagens em Itália, aponta. “É algo que não se justifica porque a Europa está a fazer muito por Itália”, defende. “No outro dia uma sondagem perguntava aos italianos quais eram os países amigos e os inimigos. Os países amigos são China, Rússia e EUA. Os inimigos são Alemanha e França”.

Já esta segunda-feira, agora em entrevista ao diário italiano La Stampa, Letta, professor e diretor do Centro de Estudos Políticos de Paris, reforça a importância da coesão numa altura decisiva. “A política une-se como a seleção nacional. É uma semana crucial para as negociações europeias, e há o abismo à nossa frente.”