Vinte e cinco pontos de desvantagem para a liderança (com um jogo em atraso), sete derrotas em 28 encontros, a média de mais de um golo sofrido por partida. O Manchester City ganhou a Supertaça como na época passada, teve o quarto triunfo em cinco anos na Taça da Liga e mantém intactas as aspirações de revalidar também a vitória na Taça de Inglaterra. Sobre a Premier League, pouco ou nada para recordar – até porque, em paralelo, o Liverpool arrancou para a sua melhor época de sempre com apenas cinco pontos perdidos em 29 jogos. Após uma paragem de 100 dias, o Campeonato inglês estava de regresso mas nem por isso estava preparado para isso.

A Premier League começou com o maior erro da época: tecnologia da linha de golo falhou e lance claro não foi validado

“Esta quarta-feira veremos o nível da equipa e a partir daí o que poderemos melhorar. Sabemos que este tempo que tivemos de pré-temporada não foi suficiente. Todas as equipas tiveram apenas três semanas ou três semanas e meia de preparação, é o que há… Todos sofremos durante este período, em termos pessoais e económicos, mas devemos adaptar-nos agora”, recordava na antecâmara do encontro Pep Guardiola, treinador espanhol do Manchester City que em abril perdeu a mãe de 82 anos, Dolors Sala Carrió, vítima do novo coronavírus.

É um momento complicado para toda a gente que perdeu familiares e amigos mas agora temos de nos manter fortes para o que aí vem”, destacou, num momento de maior reflexão sobre a pandemia.

Sobre o futebol, houve mais notas além das queixas pelo pouco tempo de preparação (dois exemplos: em Portugal ficou estipulado que a retoma teria de ser antecedida por quatro a cinco semanas de preparação, em Espanha esse período foi inicialmente apontado para um mês e meio) e visando também aquele que é o grande objetivo da equipa até ao final da temporada: a Liga dos Campeões. “Preocupam-me as lesões. Estamos prontos para fazer um jogo, mas jogar de três ou quatro dias em três ou quatro dias não. Teremos de fazer muita rotação, de utilizar todos os jogadores. É como recomeçar a temporada”, prosseguiu Guardiola no lançamento do jogo com o Arsenal.

Guardiola quer fazer de Sterling um novo Romário – o estilo é diferente mas os golos estão lá

Mais do que nunca, o Manchester City teria de valer-se da grande ideia que melhor identifica qualquer equipa de Guardiola: posse. Com posse, as equipas correm o que querem e fazem correr. Com posse, as equipas marcam os momentos de jogo e onde querem jogar. Com posse, as equipas ficam mais perto de marcar e não podem sofrer. “Desde a chegada de Pep que temos um estilo implementado que tenta convencer os jogadores a seguirem uma filosofia. É obcecado com o trabalho, com o futebol bem jogado, com a forma como começas e acabas um jogo. Podemos dizer que com ele a bola é a nossa eterna namorada porque temos de tratá-la com carinho”, explicava Fernandinho, elemento mais experiente e capitão, numa entrevista a um blogue do Globoesporte.

Na teoria, a ideia era essa. Na prática, o objetivo seria mais complicado de alcançar. Até porque, do outro lado, o Arsenal contava com a pessoa que melhor percebe como joga o Manchester City: o antigo adjunto Mikel Arteta. E muito do que os gunners poderão ser no futuro com o novo treinador tem na génese a ideia de jogo de Guardiola. “O Pep é uma influência para mim desde os 15 anos, quando jogámos juntos em Barcelona, tem uma enorme influência não só na minha carreira como treinador mas também na minha vida. Falando da pessoa, da forma como lida com os jogadores ou como trata os adjuntos, é fenomenal”, destacou o espanhol. “Estou ansioso por vê-lo. Tenho a sensação de que está feliz e a fazer um trabalho incrível. Agora, ele conhece tudo sobre nós, foi uma parte importante do nosso sucesso e ajudou-nos a ser quem éramos e quem somos”, respondeu Guardiola.

Esse pode ter sido o problema de Arteta. Por conhecer tão bem o City, teve mais preocupações em não sofrer do que vontade em marcar. Com isso, cometeu um erro de principiante e deu o primeiro passo para a derrota.

Depois de um arranque marcado por uma bomba de Kevin De Bruyne de livre direto para desvio de Leno para canto logo no segundo minuto, o Arsenal perdeu por lesão Xhaka pouco depois (com o médio suíço a ter de sair de maca por uma entorse, sendo substituído por Dani Ceballos) e ficou também privado de Pablo Mari, antigo central de Jorge Jesus no Flamengo, que deu lugar a David Luiz ainda nos 25 minutos iniciais – isto depois de Cédric já ter ficado de fora do encontro por um choque num treino que provocou uma fratura no nariz. Entre a toada do pára-arranca-pára-arranca onde se jogava pouco, Aubameyang teve um remate (25′). E fechou a loja.

Com linhas demasiado baixas com a preocupação única de tirar espaço ao jogo rendilhado dos jogadores mais ofensivos do Manchester City, o conjunto londrino ainda resistiu meia hora até ser atropelado pela equipa de Pep Guardiola que, aumentando a velocidade e procurando outros movimentos dos alas, chegou com facilidade a zonas de finalização: Sterling atirou para defesa de Leno para canto (34′), Mahrez viu o guarda-redes alemão negar mais uma vez o golo após surgir isolado na área descaído na direita (37′), Sterling rematou por cima quando estava isolado em frente ao guardião dos gunners (40′). O golo era uma questão de tempo e chegou ainda antes do intervalo, com David Luiz a falhar o corte e a deixar Sterling isolado para o 1-0 no segundo minuto de descontos.

O avançado inglês, que tem sido um dos principais rostos na luta contra o racismo em Inglaterra há largos meses, marcou o primeiro golo na retoma da Premier League e foi um autêntico pontapé numa causa que abordou duas vezes na última semana. “A luta contra o racismo é algo que dura há muitos anos. Tal como acontece em relação à pandemia, queremos encontrar uma solução para o parar. As pessoas que se manifestam nas ruas estão a tentar encontrar uma maneira de parar as injustiças que veem, lutando por uma causa. Desde de que o façam de forma segura, sem originar desacatos, podem continuar a protestar de forma pacífica”, disse à BBC. “Posso falar pela nação africana. Estamos todos cansados. Vemos o que acontece com as manifestações nos Estados Unidos e agora em Inglaterra. Muitos têm estados silenciosos até agora e estão a usar este momento para estar unidos. Não querem apenas respostas, mas mudanças na sociedade. Chegou o momento de agir”, acrescentou à Sky Sports.

Raheem Sterling. O miúdo que lavava casas de banho e apanhava três autocarros para treinar

Se as coisas já estavam complicadas para o Arsenal, pior ficaram nos dez minutos iniciais da segunda parte: David Luiz fez falta na área sobre Mahrez, culminou uma exibição para esquecer com o cartão vermelho, De Bruyne fez o 2-0 de grande penalidade (51′) e Mustafi também se lesionou na perna, tentando aguentar o encontro até ao final apesar de serem evidentes em alguns lances as dificuldades. Com um calendário carregado e a partida decidida, o conjunto de Pep Guardiola foi gerindo a vantagem sem que Ederson tivesse trabalho – pelo contrário, ainda chegou a fazer uma fantástica assistência de 70 metros para Mahrez que podia ter dado golo. Só mesmo no final haveria mais incidências, com uma arrepiante lesão de Eric García após choque com o guarda-redes brasileiro (tendo de sair de maca, com colar cervical e oxigénio) e o 3-0 por Phil Foden já em período de descontos.