As equipas de saúde pública — que são responsáveis por traçar os contactos de um doente infetado — estão a ser reforçadas com alunos estagiários de enfermagem “dos últimos anos” de curso, adiantou a diretora-Geral da Saúde, na conferência de imprensa sobre a Covid-19, esta sexta-feira. Graça Freitas reconhece que há uma “enorme pressão sobre os serviços de saúde pública“.

“Houve um contacto do Ministério da Saúde com o Ministério do Ensino Superior para que, através das escolas de enfermagem, os alunos dos últimos anos, acompanhados com os professores, possam fazer estágio nestas unidades de saúde pública e receber treino, que numa primeira fase é dado pela DGS”, explicou. Estes estudantes vão ajudar as equipas de saúde pública a fazer os inquéritos epidemiológicos — ou seja, a detetar contactos “o mais rapidamente possível” e a acompanhá-los.

Este reforço com estagiários de enfermagem “varia conforme a região“. Cada uma fez as suas “estimativas de necessidades, entrou em contacto com escolas” e, entre elas, chegaram a acordo sobre “o número razoável” de alunos destacados para estas equipas.

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Além disso, as equipas de saúde pública, segundo Graça Freitas, têm sido reforçadas de outras formas. Nas cinco administrações regionais de saúde, há um departamento de saúde pública, onde existe uma “equipa de retaguarda” que pode “em qualquer altura dar ajuda a um agrupamento de centros de saúde que necessite mais de apoio para fazer os seus inquéritos”.

Em cada agrupamento de centros de saúde — são mais de 50 no país — existe, por sua vez, uma unidade de saúde pública que tem uma autoridade de saúde coordenadora, mas também outros profissionais — como técnicos de saúde ambiental, enfermeiros, etc. “Essas equipas, desde o início da pandemia, têm estado em expansão conforme as necessidades”, disse Graça Freitas. Por exemplo, há equipas de saúde escolar que, num ano normal, estariam a trabalhar junto das escolas na higiene oral, mas agora “considera-se que é mais importante estarem a fazer inquéritos”. Por último, os internos “do ano comum” são “uma ajuda preciosa para o reforço destas equipas”.

Semanalmente, o Ministério da saúde faz duas a três reuniões com as autoridades de saúde das zonas mais afetadas “para saber o ponto de situação dos inquéritos”. “Todos os dias há um numero diferente de inquéritos que entra, há dias em que, felizmente, conseguimos fazer todos os que entram no sistema, outros recuperam-se no dia seguinte”.

Graça Freitas reconhece que “existe uma enorme pressão sobre os serviços de saúde pública”

Perante o aumento do número de novos casos, Graça Freitas admite que “existe uma enorme pressão sobre os serviços de saúde pública”. “Estamos com muitos doentes e casos e a investigação epidemiológica implica que a partir de cada caso diagnosticado se vá à procura dos contactos”.

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A diretora-Geral da Saúde informou ainda que já morreram 860 pessoas em lares desde o início da pademia — 349 pertenciam à região Norte, 152 à região centro, 333 a Lisboa e Vale do Tejo, 20 ao Alentejo e 6 ao Algarve. “É uma situação monitorizada diariamente”, garantiu.

Sobre as eventuais sequelas dos doentes, Graça Freitas avançou que começam a surgir estudos. Mas há que distinguir duas situações: “As do foro neuromuscular e relacionadas com a perda de capacidade física que podem ter diretamente a ver com a doença Covid — ainda não temos a certeza absoluta — ou com o facto de alguns destes doentes terem tidos internamentos prolongados, nomeadamente em unidades de cuidados intensivos”. Segundo a diretora-Geral, “quem fica em unidades de cuidados de intensivos, nomeadamente ventilado e por períodos longos, independentemente da doença que deu origem a esse internamento, pode apresentar sequelas que muitas vezes não ficam permanentemente” — podem ser reversíveis, por exemplo, com fisioterapia.

Os médicos dos hospitais que deram alta a estes doentes “acompanham a sua convalescença e vão monitorizando o aparecimento e desaparecimento destas sequelas”.

A diretora-geral da Saúde informou ainda que já foram distribuídas 785 mil doses de vacina para a gripe no Serviço Nacional de Saúde. “Na próxima semana, chegaremos a 1 milhão e 400 mil doses”, sendo que foram adquiridas dois milhões de doses. A vacinação foi antecipada em cerca de duas semanas.

Público na Fórmula 1 e no Moto GP? Está a ser “equacionado”

Quanto ao regresso do público aos eventos desportivos, como a Fórmula 1 e o Moto GP, no Algarve, Graça Freitas diz que “ambas as questões estão a ser equacionadas conforme a situação na região do país”. “Sabemos que a situação não é favorável, é preocupante”, adianta ainda Graça Freitas, respondendo que a presença de público nos eventos desportivos “está a ser equacionada”, e a DGS está ainda a definir quais eventos se realizam com público e com que lotação. “Estamos a ser muito cautelosos.”

Segundo a diretora-Geral da Saúde, em 60% dos casos de infeção, os doentes ainda conseguem dizer a fonte do contágio. “Quando aprofundamos mais ainda aumenta este número”, disse ainda.

Já sobre a situação nos hospitais Amadora-Sintra e Beatriz Ângelo, que pediram para não lhes encaminharem doentes urgentes, Diogo Serra Lopes, secretário de Estado da Saúde, respondeu que “existem casos pontuais que não são específicos nem novos da pandemia”: “Já aconteceram noutras situações”.

“Há situações em que um determinado hospital não consegue dar a resposta necessária”, mas, diz, “faz parte da gestão do dia-a-dia. Não é uma questão particularmente nova”.