Isabel Capeloa Gil iniciou esta sexta-feira um novo mandato à frente da Universidade Católica Portuguesa. Para a reitora, a pandemia obrigou a repensar o modelo de formação, mas também permitiu chegar a novos públicos.

Em entrevista à Rádio Observador, a sexta reitora da Universidade, nomeada em 2016 pela Congregação para a Educação Católica, falou ainda dos desafios que os próximos quatro anos de incerteza trazem ao seu novo mandato, explicou quais as medidas implementadas para conter a pandemia nos campi e deixou um pedido à população face aos casos detetados na comunidade Erasmus.

“Pandemia foi um acelerador de transformação das universidades”

O que é que está na cabeça de uma reitora que começa agora um mandato de quatro anos num dos períodos de maior incerteza de que temos memória?
Há duas questões centrais: a primeira é que é necessário executar aquilo a que nos comprometemos e executá-lo num ambiente em que a incerteza em termos daquilo que será não só o futuro, em termos económicos, sociais, mas a também coesão “societal” é muito grande.

Mas também devo dizer que a função da universidade é ser “aspiracional” e dar à sociedade algo que se orienta para além daquilo que é o presente. E se nós vivemos um presente com muitas incertezas temos que ter um projeto, um caminho daquilo que podemos ser no futuro. Eu acho que as instituições de ensino superior — e é assim que sempre olhei para a Católica e o trabalho que a Universidade tem vindo a fazer — situam-se muito neste campo, o de justamente contribuirmos, no presente, para darmos mais coesão, mais estrutura à sociedade, capacitar na formação de profissionais e de pessoas, mas termos sempre uma dimensão “futurante”. É claro que isto tudo é sempre feito com incerteza, a incerteza hoje em dia [dado ao contexto da pandemia] é maior.

Em termos logísticos, conseguimos antecipar como vai ser uma universidade daqui a quatro anos? Provavelmente a logística vai-se manter mas vamos ter mais ensino à distância, por exemplo, ou não?
Acho que o que aconteceu com a pandemia foi um grande acelerador de transformação das universidades. Não que fosse algo radicalmente diferente, que nunca tenho estado na mente das pessoas que estão à frente das instituições. Ou seja, estarmos a funcionar em zoom ou em plataformas virtuais, não foi uma absoluta novidade, a escala em que se fez é que foi brutalmente acelerado.

E provavelmente sem retorno, talvez…
Devo dizer que sim. Não quer dizer que nós mudemos para um modelo online porque há claramente uma perceção muito grande, e isso foi um dado que não era tão antecipado. Que foi o facto da geração dos millennials, que nós nos habituámos a pensar como os nativos digitais, os que nascem com os gadgets, que têm com uma relação intuitiva com as tecnologias. Para eles esta mudança seria expectável, natural e é o que desejam. E a resposta que temos tido dos alunos é que não é isto necessariamente no modelo absoluto e total que eles querem. Portanto, há uma necessidade de mantermos a ligação presencial, de mantermos no fundo a visão da universidade como comunidade de estudantes e professores, que se relacionam de uma forma ideológica permanente em presença. Claro que o digital se vai manter.

E já estão a preparar essa dicotomia de ensino à distância/ensino presencial? Já têm um modelo fechado para fazer esse equilíbrio?
Nós estamos a testar um modelo. O que estamos a fazer neste momento é um modelo híbrido. Devido às restrições e às indicações sanitárias, tivemos que aliviar a presença dos alunos no campus. Portanto, nós iniciámos com um modelo presencial, mas fazendo com que os estudantes possam estar em turnos no campus da universidade porque as instalações não são elásticas, não esticam. Temos, no fundo, que conseguir manter este distanciamento social entre os estudantes com sucesso. Para isso, tivemos que equipar os campus da Universidade com câmaras tracking e microfones profissionais para que os alunos que durante a semana ou numa determinada disciplina têm que assistir às aulas das suas residências, o possam fazer de uma forma cada vez mais “imersiva” porque acho que isso é que é importante. Ou seja, que eles possam estar fora do campus da universidade mas que sintam que podem participar e intervir no modelo educativo como se estivessem em presença. É claro que nunca é igual, e isso nós temos que ter consciência.

Não é a mesma coisa, certamente… Há uma área de ensino, que a Católica tem e outras universidades, que são os cursos e formações para executivos. Muitos deles são estrangeiros e imaginamos que sejam parte importante da receita de uma universidade como a Católica. Esta área caiu muitos nos últimos meses? Como é que vai recuperar, quais são as vossas perspetivas a este nível?
Devo dizer duas coisas. Em primeiro lugar, obviamente que a formação de executivos teve uma quebra. É global.

Para 0?
Não! Porque aquilo que aconteceu com os executivos, tal como aconteceu no modelo de formação de grau, é que a formação teve que se reinventar, teve que passar para plataformas online. Agora há uma dimensão da formação de executivos que tem a ver com a rede que se cria, com o networking, entre os formandos e os formadores que se perde, em parte, com a dimensão online.

Por outro lado, foi uma oportunidade de internacionalizar mais porque conseguimos aceder a outros públicos que estão fora do país, que não viriam necessariamente às formações presenciais. Portanto, estamos num momento de adequação e tentar repensar aquilo que é verdadeiramente o modelo das formações. Uma das coisas que fizemos foi o Católica Digital Hub que tem como objetivo desenvolver modelos de educação em contexto digital.

Como é que estão neste momento a lidar com a pandemia no ponto de vista das regras? Há universidades que estão a encontrar formas de garantir esse cumprimento, pensando que nem todos os alunos vão seguir as regras de forma sistemática. Esse tem sido um problema na Universidade Católica?
Não tem sido muito. Os campus estão certificados pela APCER, com o Covid Safe, implementámos as normas da DGS [Direção-Geral da Saúde], criámos um manual com as práticas que foi distribuído aos estudantes. Em todas as salas temos álcool, os estudantes têm que usar máscara dentro das instalações e no campus em geral, ao ar livre também. Isso é sistematicamente repetido pelos professores e pelos colaboradores. Costumo dizer que funciono, às vezes, um bocadinho como guarda prisional, quando estou no campus e vejo um estudante ao ar livre sem máscara vou lá e digo, mas eles põem.

Esse reparo é bem recebido por regra?
É, em geral é sempre. Nós não temos coimas, não fazemos vigilância dos estudantes 24 horas. Quando estão nas instalações, acentuamos muito a questão da responsabilidade individual de cada um porque só assim vamos conseguir ter sucesso. Uma coisa são as normas que nós implementamos, outra coisa é responsabilidade individual. Também vamos desenvolver e aplicar testes de anticorpos para podermos monitorizar.

Esses testes vão ser aplicados a toda a comunidade?
Vão ser feitos parcelarmente.

E por alunos? Por amostragem? Consegue dar-nos uma ideia? São 11 mil alunos que a Católica tem?
Em cursos conferentes de grau [académico] são 11 mil, 11.200.

Consegue indicar-nos que percentagem é que vai ser testada?
Aquilo que vamos fazer é começar, quando houver casos suspeitos, a testar as turmas e os professores que estiveram envolvidos, em vez de fazermos um rastreio sistemático da população. Já vimos, pelo exemplo já feito por outras universidades portuguesas, que é óbvio que a comunidade não tem imunidade. O que nos interessa fazer é testar a amostra à medida que forem surgindo casos, para fazer a despistagem.

Desde os 15 casos identificados nos alunos no programa Erasmus foram detetados mais alunos infetados na católica?
Há casos pontuais. Devo dizer que há, por exemplo, além desses casos, um professor que também foi diagnosticado e dois alunos da Faculdade de Direito.Mas são casos muito pontuais.

Como é que procedem nesses casos?
Primeiro comunicamos à Direção-Geral da Saúde, que depois faz a despistagem dos contactos dos estudantes ou das pessoas envolvidas. O que fazemos internamente, é que a turma e todos os contactos do estudante imediatamente passam para quarentena — durante os 15 dias seguintes a esse diagnóstico, os alunos passam a receber lecionação via streaming em casa. Fazemos a desinfeção das instalações, isolamos e retomamos a atividade. O primeiro passo é comunicar às autoridades, para poderem fazer o acompanhamento dos contactos da pessoa infetada. Os colaboradores, docentes e estudantes têm todos essa informação muito clara. Caso haja um diagnóstico positivo têm imediatamente que informar a instituição. Muitas vezes isso acontece fora, como o caso dos dois estudantes, que foram infeções fora das instalações da Universidade mas por precaução fazemos esta quarentena profilática obrigatória.

Em relação ao programa Erasmus, uma marca da Universidade na Europa, será que o coronavírus o matou?
Não acho que tenha acontecido, e a prova disso é que os estudantes continuam a vir e nós queremos que eles continuem a vir e que venham com segurança.

Mas vêm na mesma quantidade?
Vieram menos, nós tivemos uma quebra de cerca de 25% nos alunos que vinham da Europa e também nos nossos que estudantes que iam fazer as suas mobilidades fora. Mas aquilo que é importante é assegurar a confiança dos estudantes para os países onde vão fazer a sua mobilidade e termos os mecanismos na Universidade que lhes permitam dar essa confiança e também das autoridades públicas de saúde. Portugal é um país que tem todos os mecanismos adequados para lidar com situações que estão a acontecer de contágio.

Há uma coisa que gostava de dizer em relação aos Erasmus: é certo que estamos a ter muitos casos com estudantes internacionais mas isso, por favor, não nos pode levar “ostracizar” os responsáveis pelas contaminações. São os “bode expiatórios”, os “estudantes internacionais que estão a infetar os estudantes nacionais nas universidades”. O vírus não escolhe, nem fronterias, nem nacionalidades, nem diferencia estudantes Erasmus, nem estudantes portugueses. O que aconteceu é que foram infetados em espaços onde, por ventura, havia um aglomerado grande de estudantes que não eram nacionais. Mas não se trata de uma estigmatização e eu acho que é muitíssimo importante acentuar que não podemos, nem queremos, nem estamos a estigmatizar os estudantes Erasmus e os estudantes internacionais.

O final do seu último mandato como reitora ficou marcado com a acreditação do novo curso de Medicina e a promessa é que esteja já a funcionar no próximo ano letivo. Vai ser possível cumprir esta data?
Sim, estará em funcionamente em setembro de 2021.