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Diminuição da imunidade em Inglaterra? Estudo divulgado não suporta as próprias conclusões /premium

Os investigadores do Imperial College apresentam conclusões fortes — perda de imunidade e aumento do risco de reinfeção —, mas no próprio artigo dizem que não têm base para afirmá-lo e contradizem-se.

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Os testes rápidos feitos em casa usam uma gota de sangue

Dickson Lee/South China Morning Post via Get

Os testes rápidos feitos em casa usam uma gota de sangue

Dickson Lee/South China Morning Post via Get

O Imperial College de Londres reportou esta terça-feira, com base num artigo que ainda não foi revisto pela comunidade científica, que a proporção de pessoas com anticorpos contra o SARS-CoV-2 diminuiu em Inglaterra desde o pico da primeira onda em abril. Os autores sugerem assim que é provável que se verifique uma diminuição na imunidade e um aumento do risco de reinfeção na população.

Em entrevista ao Observador, Marc Veldhoen, investigador no Instituto de Medicina Molecular (Lisboa), levanta várias questões sobre a forma como foi feito o estudo e as conclusões a que chegou — até porque em parte contradiz um trabalho que publicou recentemente na revista científica European Journal of Immunology. “Muito será discutido quando este artigo chegar à revisão por pares [para publicação numa revista científica]”, diz o investigador.

O ministro da Saúde britânico, Lord Bethell, por sua vez, elogiou a importância do estudo num comentário publicado na página do Imperial College. “Contamos com esse tipo de investigação importante para basear a nossa resposta contínua à doença, para que possamos continuar a tomar as medidas certas no momento certo.”

O Observador enviou perguntas aos autores do estudo, mas até ao momento não obteve resposta.

O que podem dizer os testes?

Para saber se uma pessoa teve contacto com o SARS-CoV-2 e se o sistema imunitário respondeu fazem-se testes serológicos que detetam a presença de anticorpos e, dependendo da sensibilidade do teste, é possível analisar a quantidade de anticorpos presentes por amostra de sangue. Estas análises, de forma a serem o mais rigorosas possível, são normalmente feitas em laboratório.

A equipa do Imperial College de Londres usou um método diferente: requer apenas uma gota de sangue (de uma picada na ponta do dedo) e pode ser feito em casa. Isto permite fazer mais testes em menos tempo e chegar a muito mais pessoas, mas apresenta algumas desvantagens.

Primeiro, só permite dizer se a pessoa tem ou não tem anticorpos. Depois, tem uma sensibilidade reduzida: só conseguiu identificar anticorpos em 84,4% das pessoas num grupo de médicos que tinha tido um teste de diagnóstico positivo para o coronavírus — logo, esperava-se que 100% tivesse anticorpos. Isto quer dizer que em 10.000 pessoas que efetivamente tenham estado infetadas, 1.560 ficam por identificar com este tipo de testes.

“A sensibilidade é maior do que a dos primeiros testes a surgir no mercado, mas ainda assim baixa. O teste ELISA tem 99 a 100% de sensibilidade”, diz Marc Veldhoen sobre o tipo de análise feito pela equipa que coordena. O teste ELISA só pode ser feito em laboratório e é, neste momento, a melhor análise para detetar e quantificar anticorpos, segundo o investigador.

Além dos testes não serem muitos sensíveis, as pessoas podem não os ter realizado corretamente, justificando os resultados negativos

JUSTIN TALLIS/AFP via Getty Images

E o que não podem dizer os testes?

Os testes feitos em casa com base numa gota de sangue usados pela equipa do Imperial College classificam as amostras de positivas (com anticorpos contra o SARS-CoV-2) e negativas. O problema é a capacidade de deteção dos testes — o sangue pode ter anticorpos que o teste não é capaz de detetar, originando um falso negativo.

Se se soubesse o limite de deteção do teste, ou seja, a quantidade mínima de anticorpos necessária para dar positivo, era possível dizer se essa quantidade de anticorpos era ou não relevante. Mas como os próprios autores dizem no artigo: “O limite de deteção não é indicado nas instruções do fabricante”.

“Se os cientistas não sabem os limites do ensaio que estão a usar, isso não é bom”, diz Marc Veldhoen. E a solução que tentaram arranjar para obter uma aproximação ao limite de deteção não tem sentido, diz o investigador. “Neutralização e níveis de anticorpos estão correlacionados, mas não são a mesma coisa”, diz, sobre a comparação entre duas análises feitas pelos autores do artigo.

Os testes e o trabalho de investigação também não permitem saber quando é que as pessoas terão sido infetadas (em particular aquelas que nunca tinham feito nenhum teste de diagnóstico) ou qual a quantidade de anticorpos inicial, que permitisse verificar se houve diminuição ao longo dos meses e quão acentuada foi.

A diminuição de anticorpos significa diminuição de imunidade?

A equipa de Marc Veldhoen e uma equipa da Universidade do Arizona mostraram, em dois estudos independentes, que os anticorpos neutralizantes (os que destroem o vírus) podem manter-se pelo menos por seis meses (aqui e aqui). No entanto, nenhuma das equipas consegue dizer, neste momento, se isso significa que as pessoas estão imunes ao vírus ou não.

Anticorpos contra SARS-CoV-2 podem manter-se seis meses

Se não podemos afirmar que a presença dos anticorpos confere imunidade, também não é possível dizer que a diminuição da quantidade de anticorpos significa uma perda de imunidade, até porque não se sabe se existe uma quantidade mínima de anticorpos para que o corpo se defenda do SARS-CoV-2. Os próprios investigadores do Imperial College admitem que “a importância da diminuição da quantidade de anticorpos na potencial reinfeção com SARS-CoV-2 ainda não está resolvida”.

Estes investigadores acrescentam também que uma parte da imunidade pode ser desencadeada por células T. Neste momento, ainda não se sabe que papel podem ter  as células T no caso de uma reinfeção — por exemplo, se podem conferir imunidade, mesmo que a quantidade de anticorpos seja pequena. “Não é possível dizer com certeza que a diminuição de testes positivos [como aqueles feitos em casa] possa estar correlacionada com um risco aumentado de uma pessoa ser reinfetada”, escrevem os autores no artigo. O que põe em questão a conclusão dos próprios quando dizem: “Os dados sugerem a possibilidade de um decréscimo da imunidade na população e um aumento do risco de reinfeção à medida que os anticorpos detetáveis diminuem na população”.

Quando foram feitas as análises?

O pico da pandemia em Inglaterra aconteceu no início de abril e esse foi o ponto de partida para os investigadores definirem as datas das três campanhas de testes feitos em casa: ao fim de cerca de 12, 18 e 24 semanas (aproximadamente três, 4,5 e seis meses) — entre 20 de junho e 28 de setembro.

No inquérito feito aos participantes era pedido que indicassem se já tinham estado doentes com Covid-19 ou se tinham testado positivo para o SARS-CoV-2. A maior dos participantes que respondeu que sim indicou que a infeção tinha acontecido nos meses de março ou abril — mesmo no caso dos voluntários da terceira campanha de testes —, ou seja, mais de três meses antes do início dos testes em casa para alguns participantes, mas para outros há seis meses ou mais.

O Reino Unido atingiu o pico da primeira onda no início de abril — Worldometer

O Reino Unido atingiu o pico da primeira onda no início de abril — Worldometer

Sabe-se que, mesmo nos casos em que há uma elevada produção de anticorpos pelo sistema imunitário, a quantidade no sangue começa a diminuir ao fim de alguns meses. Os investigadores da Universidade do Arizona reportaram uma quebra a partir dos 2-3 meses depois da infeção — que também é referida pela equipa do Imperial College, que só começou os testes depois deste período. Se a diminuição tiver sido muito abrupta ou se a quantidade inicial de anticorpos não for muito grande isso pode refletir-se numa quantidade de anticorpos a partir da qual o teste com uma gota de sangue deixa de ser capaz de detetar.

Esta diminuição ao fim de alguns meses é normal numa resposta imunitária, porque o organismo que não precisa de estar constantemente a produzir anticorpos contra um vírus que está parcialmente ou totalmente eliminado. O que não quer dizer que os anticorpos não se possam manter estáveis (em menor quantidade) por vários meses, como já foi referido.

Quem participou?

O objetivo dos investigadores do Imperial College era ter cerca de 100 mil testes realizados em cada uma das duas primeiras campanhas e 150 mil na terceira. Acabaram por conseguir que 99.908, 105.829 e 159.367 participassem nas rondas, respetivamente. No total houve 17.576 situações em que o teste conseguiu detetar a presença de anticorpos. Em termos de proporção de testes positivos por total de testes realizados, os investigadores registaram 6,0%, 4,8% e 4,4% em cada uma das campanhas respetivamente — daí falarem numa diminuição da frequência de testes positivos.

Os voluntários eram todos adultos (com 18 anos ou mais), estavam registados em algum centro de saúde em Inglaterra e foram selecionados ao acaso. A única regra que prevaleceu foi que a mesma pessoa não recebeu o teste mais do que uma vez. Logo, a comparação da diminuição da quantidade de testes positivos pode ser feita ao nível da comunidade, mas não se sabe o que aconteceu a cada indivíduo que teve um teste positivo.

Uma das limitações assumidas pelos autores do estudo é que, tendo em conta que as pessoas contactadas podiam escolher não participar no estudo, “é possível que, ao longo do tempo, quem tivesse estado exposto ao vírus tivesse menos vontade de participar no estudo, o que pode ter contribuído para a aparente diminuição de anticorpos na população”.

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