Um jornalista etíope freelancer a trabalhar para a agência noticiosa Reuters, Kumerra Gemechu, detido quinta-feira em Adis Abeba, continuará preso mais 14 dias sem acusação, disse esta segunda-feira a agência noticiosa canadiana e britânica.

Kumerra, 40 anos, que trabalha como operador de câmara, em regime de freelancer, para a Reuters há uma década, foi preso em casa na quinta-feira à noite “em frente da sua mulher e filhos” por “cerca de 10 polícias armados”, afirmou a agência num comunicado.

“Numa breve audiência, na sexta-feira, onde não esteve presente nenhum advogado, um juiz ordenou a detenção de Kumerra por mais 14 dias para dar tempo à polícia para investigar”, acrescentou a Reuters, citando a família do operador de câmara.

O seu telefone, um computador, discos rígidos e documentos foram apreendidos em sua casa. “Não foi dada nenhuma razão à família para a prisão” e “a polícia não respondeu aos pedidos de comentários da Reuters”, sublinhou a agência.

A Reuters disse que não confirmar neste momento se a detenção de Kumerra está ligada à sua cobertura do recente conflito na região etíope de Tigray, mas avançou que as autoridades etíopes tinham “acusado a Reuters e outros meios de comunicação internacionais (…) de cobertura ‘falsa’ e ‘desequilibrada'” do conflito.

O governo etíope lançou uma operação militar nesta região independentista do Norte a 4 de novembro, para derrubar os líderes locais que tinham desafiado a sua autoridade durante meses. “Os jornalistas devem ser capazes de cobrir as notícias no interesse público, sem medo (de serem) ameaçados ou atacados fisicamente, onde quer que estejam”, afirmaram os Repórteres sem Fronteiras.

“Não abrandaremos os nossos esforços até que Kumerra seja libertado”, disse o editor da agência, Stephen J. Adler.

A Reuters adiantou ainda que um dos seus fotógrafos, Tiksa Negeri, foi espancado por dois polícias em meados de dezembro. Os aliados da Etiópia, os Estados Unidos, através do Secretário de Estado para os Assuntos Africanos, Tibor Nagy, condenaram a detenção e, de um modo mais geral, as violações da liberdade de imprensa naquele país.

A liberdade de imprensa é fundamental para qualquer sociedade democrática. Estou extremamente preocupado com os relatórios regulares de intimidação de jornalistas na Etiópia”.

A Etiópia, cujo Primeiro Ministro, Abiy Ahmed, foi galardoado com o Prémio Nobel da Paz em 2019, ocupa o 99º lugar entre 179 países no índice de liberdade de imprensa dos Repórteres Sem Fronteiras.

O Comité para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) classificou a Etiópia como um dos países onde houve mais prisões de jornalistas no mundo, no seu relatório de 2020. A ONG salienta que pelo menos sete jornalistas foram presos durante o ano, a maioria deles “acusados de crimes contra o Estado” e que a sua detenção foi prorrogada várias vezes, sem que fossem apresentadas provas.