O Presidente da República fez saber, nas audiências com os partidos (e continuou esta quarta-feira), que quer um plano de desconfinamento rapidamente, mas também revelou recear que a melhoria da situação epidemiológica nos próximos dias possa colocar pressão para um alívio de medidas antes do tempo. E isto porque Marcelo Rebelo de Sousa quer a Páscoa confinada e até lá há três estados de emergência (a contar com o que começa na próxima terça-feira) em decisão e, com eles, a expectável pressão social para desconfinamentos. Rui Rio só quer que isso aconteça quando houver condições e que até possa haver um desconfinamento por regiões. De qualquer forma, diz que o planeamento do Governo para essa fase que todos esperam “já vem tarde”.

O Presidente da República já preparou o terreno para o desconfinamento, ao trocar a expressão “medidas de confinamento”, nos anteriores decreto do estado de emergência, por “medidas de restrição dos contactos” e também por dizer que os peritos não recomendam a suspensão de restrições “no imediato”, fazendo prever que já o possam fazer algures nesta fase. Mas aos partidos que recebeu esta quarta-feira, Marcelo mostrou preocupação com a pressão que uma melhoria de números possa trazer, até porque também deu a entender que quer medidas restritivas fortes durante a Páscoa.

Marcelo avisa que desconfinamento deve ser planeado “por fases”, mas diz que restrição defendida por peritos vale para o “imediato”

E aqui o calendário dos estados de emergência, renovados por 15 dias, está a preocupar, até porque ainda falta um mês até à Páscoa e neste momento já há aumento significativo da mobilidade e também é expectável que os números diários continuem a melhorar — aliás, os especialistas deram conta disso mesmo na última reunião do Infarmed. Marcelo mostrou preocupação com o aumento da impaciência dos portugueses, mas não quer que isso implique o desconfinamento imediato até porque “não quer dar a ideia de que a Páscoa vai ser à vontade”, como descreve ao Observador um dos participantes desta segunda leva de audiências do Presidente (a primeira foi na terça-feira).

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Olhando para o tal calendário que preocupa Marcelo, o problema que ressalta é que o estado de emergência que começa na terça, termina a 16 de março, com um segundo previsto logo para o dia seguinte. E esse terminará a 30 de março, portanto antes da Páscoa. E a alguns partidos o Presidente confidenciou que isso o preocupa, já que é muito tempo a travar a pressão social até à celebração pascal que quer que seja com as regras que hoje existem.

Não insistiu mais na ideia que já tinha passado de alguma impaciência com a falta de um plano de desconfinamento — que várias fontes diferentes garantiram ao Observador que existiu nas reuniões dos primeiro dia — mas concordou com os líderes políticos que se queixaram dessa ausência. Entretanto, o Observador noticiou que não é tão cedo que o Governo vai apresentar um plano para começar a aligeirar restrições, pelo que o repto deixado nas entrelinhas das audiências com os partidos por Marcelo não terá resposta por parte de António Costa que esta quinta-feira vai manter medidas e ainda está a estudar com os peritos as linhas vermelhas para nortearem os confinamentos e desconfinamentos a partir de aqui.

Marcelo pressiona, mas Governo só apresenta plano de desconfinamento daqui a 15 dias

A regionalização do desconfinamento

O líder do PSD entrou na reunião com o Presidente a pedir isso mesmo, que sejam definidos critérios claros, “em que circunstâncias” o país vai poder ver medidas levantadas. “Não vamos dizer que desconfinamos daqui por uma semana, ou duas, ou um mês. Não é isso que interessa. Interessa é em que circunstância é que desconfinamos”, afirmou Rui Rio que considera que “hoje” já devia existir um plano de desconfinamento e que esse “já vem tarde”.

Mas Rui Rio deixou ainda outra ideia, na audiência com Marcelo: o desconfinamento por regiões. Mais uma pressão. “Se todos estes indicadores não evoluírem de forma tão positiva como nos últimos dias, então, penso que o país deverá também ter um planeamento de desconfinamento por regiões”, afirmou o presidente social-democrata apontando que há regiões com dados epidemiológicos menos graves que não devem “ser prejudicadas” neste processo de confinamento geral do país.

Do Bloco de Esquerda, o Presidente da República ouviu queixas sobre a falta de um plano de desconfinamento, mas sobretudo a falta de uma preparação para esse momento. Catarina Martins defende que os primeiros ciclos de ensino possam ter rapidamente aulas presenciais, mas avisa que “as escolas não têm ainda mais condições e este era o momento em que precisávamos de estar a por no terreno todos os meios”.

“O povo português cumpriu na sua obrigação de controlar a pandemia”, mas, “infelizmente, o Governo não cumpriu”, afirmou a bloquista apontando a falta de apoios sociais à economia e uma testagem e rastreamento nos valores que eram desejáveis nesta fase.

No PS, o discurso saiu alinhado com o que tem vindo do Governo. A linha é evitar “precipitações” e aguardar que o Governo chegue aos critérios para confinar e desconfinar com os especialistas.