Marrocos continua à espera de uma resposta da Espanha sobre o caso do Presidente saharaui, Brahim Ghali, enquanto a pressão migratória na fronteira espanhola se deslocou nas últimas 48 horas de Ceuta para Melilla, mas sem grandes avalanches.

Numa nova reação ao caso, o diretor-geral dos Assuntos Políticos do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Marrocos, Fouad Yazough, insistiu este sábado que em Espanha “deve ser realizada uma investigação (…) transparente” sobre o caso de Ghali.

Em declarações à imprensa, o responsável do Governo de Marrocos afirmou que “quatro generais de um país do Magrebe” estão envolvidos na admissão de Ghali em Espanha, onde está hospitalizado por coronavírus, mas sem mencionar expressamente a Argélia, embora nos dias anteriores o mesmo Ministério dos Negócios Estrangeiros tenha salientado que o Presidente saharaui entrou em território espanhol com um passaporte argelino e vindo de Argel.

Na sexta-feira, a embaixadora marroquina em Espanha, Karima Benyaich, advertiu que se Espanha não julgar Ghali e lhe permitir sair do seu território, a “grave crise” nas relações hispano- marroquinas irá agravar-se.

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Marrocos exigiu em várias ocasiões nas últimas semanas que a justiça espanhola tratasse das queixas apresentadas contra Ghali por “genocídio” e “tortura”, para além de outro caso de alegada violação, mas o juiz espanhol Santiago Pedraz, responsável pelo caso, recusou-se na terça-feira passada a impor medidas cautelares.

A crise entre Espanha e Marrocos agravou-se na passada segunda-feira, quando cerca de 8.000 marroquinos e estrangeiros invadiram ilegalmente a cidade espanhola de Ceuta perante a indiferença dos guardas fronteiriços marroquinos, tendo 7.000 já sido devolvidos a Marrocos.

Embora o país do Magrebe não tenha oficialmente ligado as duas questões, mesmo os media marroquinos, como o semanário Telquel, consideraram que Rabat está a utilizar a emigração como uma “arma de pressão” para forçar a Espanha a perseguir Ghali e a mudar a sua posição neutra sobre o conflito do Saara.

A pressão migratória deslocou-se nos últimos três dias para a cidade de Melilla, onde o Ministro do Interior espanhol, Fernando Grande-Marlaska, os diretores gerais da Polícia e da Guarda Civil, Francisco Pardo e María Gámez, respetivamente, chegaram este sábado.

Na sexta-feira, cerca de 70 imigrantes entraram na cidade espanhola de Melilla, de forma irregular, vindos de Marrocos, em várias tentativas de atravessar a fronteira, alguns deles em plena luz do dia.

As autoridades espanholas procederam ao reforço da polícia e da contenção nos pontos frágeis da vedação fronteiriça com Marrocos, e anunciaram a reparação imediata dos danos causados naquela estrutura.

Por outro lado, a delegada do Governo em Melilla, Sabrina Moh, dissociou a situação desta cidade da de Ceuta, e sublinhou o “papel importante” das forças de segurança marroquinas para evitar a pressão migratória.

Uma fonte oficial marroquina reconheceu à agência de notícias espanhola Efe que a chegada, no início desta semana, de milhares de pessoas ilegalmente e facilmente à costa de Ceuta, criou um efeito de chamada para Melilla.

A fonte, que solicitou o anonimato, salientou que as autoridades marroquinas reforçaram a sua presença no perímetro fronteiriço e multiplicaram os postos de controlo nas estradas que conduzem às cidades vizinhas de Ceuta, para evitar uma nova avalanche.

A fonte acrescentou que os serviços de segurança intercetaram dezenas de menores não acompanhados, vindos das cidades do centro de Marrocos e que pretendiam aceder ilegalmente a Melilla, devolvendo-os às suas famílias.

A crise diplomática entre Espanha e Marrocos tornou-se mais grave desde 2002, quando vários soldados marroquinos se instalaram no ilhéu de Perejil, de onde foram mais tarde desalojados por soldados espanhóis.