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Experimentalismo, elegância e opções pouco óbvias para vestir foram os pilares das sugestões da dupla Alves/Gonçalves para a próxima estação. Entre brilhos com lantejoulas, drapeados, franjas e folhos, tanto em mangas oversized como nas bainhas de calças, foram as estrelas estampadas através de várias técnicas em casacos e vestidos que saltaram mais à vista.

“Quando olhamos lá para cima as estrelas representam milhares de coisas, mas sobretudo uma esperança no futuro. O que temos passado tem sido doloroso e temos de superar, pensar nas estrelas é sonhar um bocado e pensar que daqui para a frente vai tudo correr bem”, explicam os designers.

Neste caminho de esperança por dias melhores, a dupla de criadores apresentou coordenados arrojados onde o trabalho artesanal feito ateliê torna-se evidente em detalhes com tule, plumas, couro, verniz e materiais sintéticos.

“Nesta coleção trabalhamos materiais pouco nobres para fazer coisas mais sofisticadas, misturando a tecnologia e olhando para o futuro. Numa altura em que se fala tanto de sustentabilidade na moda, os designers têm a obrigação de se reinventar e se adaptar. É completamente errado associarmos as boas coleções à riqueza dos materiais, aliás, nesta coleção temos apenas um vestido em seda natural.”

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O preto, o branco e o rosa dominaram a paleta de cores na passerelle, que também teve apontamentos de laranja, verde néon e azul noite, já os padrões geométricos, as mangas em balão e as aberturas nas costas marcam a silhueta feminina. Os dois últimos coordenados reinventaram o vestido de noiva, tendo como acessório chave um chapéu, estilo apicultor, feito com renda de várias tonalidades. “Nessas peças o nosso ponto de partida foi mostrar e não esconder nada. Mostramos estrutura com que fazemos as coisas para poder chegar aquele resultado, o pano cru cai sobre as saias rodadas e os corpetes e o chapéu dá aquele toque dramático.”

A celebração dos 20 anos de Alexandra Moura, que usou o rosa choque pela primeira vez

Ao completar 20 anos de marca, Alexandra Moura juntou-se ao fotógrafo e amigo Rui Aguiar, cujas imagens estão presentes no vídeo que antecedeu o desfile e os recortes fotográficos de trabalhos editoriais estão presos por alfinetes em algumas peças, como blazers, saias e t-shirts. “Pensámos juntar imagens que nos tragam todo o conceito da coleção, do lado mais underground ao mais psicadélico, transportando a nossa visão das coisas para outras dimensões e fazer com que as pessoas saiam um bocadinho da cabeça. Há 20 anos que o Rui faz fotografa muitas coisas da marca e dá a sua visão, ele identifica-se connosco e eu identifico-me com ele. É o casamento perfeito quando dois criativos entendem tão bem a cabeça um do outro e se inspiram mutuamente.”

Alexandra fez uma verdadeira viagem no tempo e nesta coleção, intitulada “Confia na tua visão” e composta por 36 coordenados, compilou alguns detalhes que já fazem parte do seu ADN enquanto designer de moda. “Fui buscar o meu lado mais rock dos inícios, o lado conceptual, o mais romântico, a desconstrução e o desportivo. Tentei fundir tudo isto numa linguagem que penso ser a certa para o momento que estamos a viver. Todas as peças acabam por ter momentos desde 2002”, explica.

Os volumes, as sobreposições, os comprimentos distintos continuam a ser protagonistas no seu trabalho, assim como os laços, as fitas, os botões, os bolsos e as aberturas, tanto nas mangas como nos ombros. Na passerelle reinaram conjuntos acetinados em tons caramelo, peças oversized em azul fantasma, blazers estruturados ou vestidos rosa choque, uma cor usada pela primeira vez.

“Foi a primeira vez que usei um rosa destes numa coleção e sempre associei o rosa ao amor. Por acaso, sinto mais o rosa do que vermelho, acho que tem a ver com o nosso chacra ao lado do coração, que é o amor incondicional. Daí esta vontade de mergulhar em tanto cor de rosa naquele atelier durante tantos meses e absorver se era mesmo aquilo que queria. Nunca me cansei dele e isso foi logo um indício de que era uma cor que tinha de usar.”

Na escolha de materiais, a designer optou por algodões, viscoses e cetins, desconstruindo rendas com um processo de jacquard e usando tecido workwear e felpa mercerizada nas peças mais clássicas e de alfaiataria. “Trouxe coisas do dia a dia e quase pobres para trabalhar peças com valor, foi fazer um bocadinho esta brincadeira entre essa ideia e as silhuetas e as próprias peças.”

Durante o seu processo criativo, que tem tanto de intuitivo como de experimental, Alexandra Moura revisitou alguns conceitos e acabou por fazer uma seleção natural do que queria passar neste momento de comemoração. “Desenho sempre imenso e depois é uma grande chatice quando preciso de editar e saber qual é o caminho, mas a fórmula foi seguir a minha visão e o que estava a sentir. Há coisas que no processo criativo que não são nada fáceis de verbalizar, não existem palavras no alfabeto para explicarmos as emoções, sensações, necessidades e intuições que estamos a ter e que nos fazem querer desenhar isto ou aquilo.”

O glamour do rock n’roll em decadência de Hugo Costa

Durante o fitting, umas horas antes de “rockar”, literalmente, a sua nova coleção, Hugo Costa ajeitava um kilt a um dos modelos já em linha antes de seguir para o cabelo e maquilhagem. “Não vistas já isso porque faltam os calções, é preciso ver o look como um todo se não o kilt não assenta bem”, vai dizendo sobre a tradicional peça escocesa que estará presente em vários looks desta coleção “Welcome to the Jungle”. A referência ao universo dos Guns N’Roses é clara e é Hugo que a expõe com criações que quis que fossem inspiradas numa estrela de glam rock em decadência.

“Esta ideia veio de uma  estrela decadente de glam rock que não se conseguiu libertar das mudanças dos tempos e que continua a defender a sua ideologia, a sua forma de estar, a sua forma de vestir, embora possa ser, por momentos, descontextualizada e ultrapassada”, explica ao Observador. “A base disto tudo são os Guns n’Roses e, claro, o styling do Axel Rose que era muito vanguardista para a época dele. Para mim fazia sentido fazer aqui uma recolha de imagens e referências do styling dele e trazer elementos à coleção da sua linguagem.”

Hugo Costa levou à passarelle os tais kilts, saias de pregas, biker shorts, combat boots, crops, e o esse rock n’roll esteve também muito presente nos detalhes: os cabelos escorridos dos manequins, as bandanas, os anéis, as correntes ou os bonés virados para trás. O preto foi uma escolha óbvia para dominar a coleção, com coordenados depois em azul e lilás, “para dar aquela vibe de decadência e depressão”, mas também um padrão de zebra em denim “que podia perfeitamente ser usado pelo Axel Rose”, justifica o criador.

A surpresa veio no final, quando pela passerelle entra um músico pronto para um solo de guitarra que musicava a passagem dos modelos, tudo num ritmo mais lento que o que seria de esperar de um momento de apogeu do rock. Mas foi tudo pensado. “A nossa abordagem à música não foi propriamente a de usar uma base de glam rock , mas sim um tema que tivesse uma vibe de rock mas que ao mesmo tempo tivesse um lado decadente, e depressivo até”, refere.

Maria Gambina apresentou de frente para o rio mas com a praia no coração

No dia em que o sol se escondeu, veio a praia. Mais concretamente a praia do Furadouro, junto a Ovar, mas para Maria Cristina Lopes, a designer por detrás da marca Maria Gambina, o astro maior não ter aparecido não foi surpresa, nem tampouco a aragem que se fazia sentir. “O Furadouro é uma praia fria também, por isso estou habituada, daí também ter trazido uma série de sweaters para a coleção”, explica.

São as memórias que tem das férias passadas nessa praia que lhe serviram de alicerce para criar mais uma coleção de verão, cheia de referências ao universo fluvial e marítimo, das cores aos tecidos. Com a passerelle repleta de bolas insufláveis, os modelos surgiam da zona inferior do cais da Alfândega e apareciam com uma paleta de cores amarela, laranja, branco e azul — como a caixa do creme Nivea. Esta é apenas uma das referências de Maria Gambina, que acabou a pegar no lettering do creme Nivea para estampar mensagens como “Blue Note”, por estar “muito relacionado com a identidade da marca isto de estar sempre ligada à música”, refere a criadora.

A banda sonora foi escolhida a dedo, em vez de música, ouviam-se diálogos de rua e o som das gaivotas a dominar o momento. “Esta coleção foi sobre fechar os olhos e pensar no cheiro, no toque, nos sons. A banda sonora é mesmo uma banda sonora que serve para envolver as pessoas no espírito da coleção”, explica a designer. “A minha ideia foi mesmo pensar o que é que eu me lembro melhor, o que é que eu identifico e que ainda hoje fazem parte desse imaginário.”

Vestidos, sweatshirts, t-shirts, calções e calças estavam marcados por uma construção gráfica, cores primárias e estampados como o floral a lembrar as colchas que cobriam camas de casas de pescadores. As referências iam mais além: as ricas a remeter para as camisolas dos marinheiros e para as barracas da praia, os chapéus e malas a remeter para as bóias de salvamento cor de laranja, numa coleção que deixou todos à tona da água a pedir por mais. Dos materiais usados, todos reciclados e orgânicos, saltou à vista o turco, usado em grande parte das peças e nos apliques das chinelas de praia.

Nem a maquilhagem escapou às referências: a simplicidade foi o truque e a simulação de pequenos escaldões na cara ou no peito davam ainda mais ênfase ao tema praia, assim como a areia colada ao corpo e as manchas de creme no nariz a relembrar as camadas de protetor de que se enchia a designer quando ia para o areal.

Nas alturas com Katty Xiomara e a sua necessidade de equilíbrio

O frenesim da sala de desfiles acalmou quando as luzes se apagaram, finalmente, e os grandes ecrãs se acenderam e começaram a passar um vídeo e ouvia-se a narração de um texto de Philippe Petit, o funâmbulo francês conhecido por ter atravessado as Torres Gémeas em cima de uma corda de aço. É precisamente a partir desta arte que a criadora se coloca para dar vida à nova coleção “Funambulando la Vida”, que mostra a necessidade de as pessoas encontrarem um equilíbrio mas quando a corda está bamba e tende para um dos extremos.

Já há várias coleções que Katty Xiomara faz uso de outros formatos para mostrar as coleções além do tradicional desfile — já o fez com uma exposição no Centro Portugues de Fotografia ou até através de uma instalação de arte urbana no Antigo Matadouro do Porto. Quando a pandemia bateu à porta, o digital foi o escape óbvio e necessário para os criadores poderem ter um palco na ausência da fisicalidade que a moda pede e continua a pedir.

Pegando nesta arte do funâmbulo, Katty Xiomara quis ilustrá-lo no exterior — onde decorria o vídeo com uma modelo como protagonista. “Tentámos replicar um bocadinho esta sensação de estar lá em cima e de sentirmos também que, em certa medida, está-se longe do mundo, mas que se sente essa vulnerabilidade do desequilíbrio constante”, explica.

Ao refletir sobre estes quase dois anos de pandemia, Xiomara admite que esta coleção teve que ver com esse constante caminho que se fez em que todos tiveram de “se equilibrar nesta corta bamba”, e em que perceberam que “nem tudo é garantido”, diz.

“Acho que a nossa vida sempre foi uma corda bamba e continuará ser, mas se calhar neste período de confinamento sentimos, mais do que nunca, que nos tiraram o chão. O equilíbrio na corda faz todo o sentido”, explica a criadora no fim da sua apresentação. “A ideia é equilibrarmo-nos entre a loucura e a cordura. Qual delas é melhor? Se calhar o melhor é estar mesmo a meio, a tentar equilibrar estas duas vertentes porque as duas são importantes.”

A criadora rejeita, de certa forma, que nos posicionemos em extremos, porque “pode ser perigoso” e que o ideal é encontrar um equilíbrio que não choque, tal como a sua coleção que tem tanto de leveza como de arrojo. E tal como essa tentativa de equilíbrio se move entre um lado e outro, também a própria coleção oscilava entre contrastes de peças justas e largas, claras e escuras, cortes direitos e outros assimétricos, silhuetas leves e volumosas. Apesar de querer evitar comparar a figura do funâmbulo ao de um malabarista, o que é certo é que as roupas tinham algumas referências circenses, sem nunca ser óbvio — é visível nas silhuetas mais justas nas pernas e no efeito peúga e drapeado de alguns tops e vestidos, e até no tule com um padrão ilustrado de um funâmbulo na sua arte, como se de um homem vitruviano se tratasse.

Os óculos de sol maxi que desfilaram na cara das modelos foram desenhados pela criadora em parceria com a Shamir que os produziu para casar com os coordenados da coleção, complementados também com sapatos rasos e sabrinas da portuguesa Josefinas.

A simplicidade, os contrastes e a inclusão

Tal como tinha acontecido com a dupla Unflower, também Carolina Sobral deixou de ser bloomer e passou a apresentar na passerelle principal, tendo escolhido o exterior da Alfândega para apresentar o seu verão de linhos e formas leves, com uma simplicidade e elegância que já lhe é inerente, das cores às formas. Nesta estreia à mesa dos crescidos, Carolina apostou novamente no conforto e na funcionalidade das peças, em tons de brancos, crus, beges e cinza, com apontamentos em laranja e acessórios em cobre metalizado. As grandes argolas de onde saíam longos cordões de algodão — semelhantes a uma obra de macramé — destacaram-se entre os vestidos e conjuntos de calções e calças leves conjugados com kaftans e blusas soltas.

Quanto ao brasileiro Davi, radicado em Portugal, levou à passerelle as criações da coleção “Balance of Contrasts” da sua marca Davii. Os contrastes dividiam-se entre tradição e contemporaneidade, passado e futuro, masculino e feminino, num jogo de materiais como a organza, seda, algodão, crepe egípcio e neoprene. As suas coleções são simples e minimalistas, quase sempre de inspiração oriental, e esta pintou-se de preto, azul, camel e cor de leite.

Neste último dia de Portugal Fashion, chegou à sala de desfiles o projeto (re)veste, uma iniciativa de Miguel Flor que pretende promover a inclusão social e a empregabilidade de jovens portadores de deficiência ou com necessidades educativas especiais (entre os 15 e os 35 anos) através do desenvolvimento de competências sociais, pessoais, digitais e profissionais. Estes jovens são capacitados através da transformação de roupa através de customização da mesma, para que dali surja uma marca que seja comercializada online e em eventos deste tipo, criando oportunidades financeiras e criativas para os envolvidos. Neste desfile, viram-se várias peças com patches, sobreposições e tie dye a dominar a passerelle.

Ainda a meio da tarde, houve tempo para o habitual desfile da indústria de sapatos e malas onde apresentaram as suas propostas as marcas Ambitious, Fly London, Gladz, J. Reinaldo, Leather Goods by Belcinto, Mariano, Nobrand e Rufel.

Pela passerelle do Portugal Fashion passaram ao longo de cinco dias os jovens designers da plataforma Bloom, veteranos como a dupla Marques’Almeida, Inês Torcado, Diogo Miranda, Miguel Vieira, Luís Onofre e vários criadores de moda africana numa parceria com o programa Canex.