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O chefe da delegação da televisão Al Jazeera no Sudão foi detido este domingo, dia 14, depois de a sua casa ter sido invadida por forças militares, ato imediatamente condenado pela estação árabe.

 El Musalmi El Kabbashi foi levado durante a madrugada, em Cartum, sem que tenha sido prestada qualquer justificação, até ao momento, diz o canal.

Num mundo onde o jornalismo e os media enfrentam cada vez mais ameaças, a Al Jazeera vê isto como um ataque à liberdade de imprensa no seu todo e apela às organizações dos direitos humanos e aos media uma condenação a esta violação do jornalismo”, refere a organização de notícias sediada em Doha, capital do Qatar.

A detenção ocorreu um dia depois de forças militares do Sudão terem matado pelo menos sete civis que protestavam contra o golpe militar ocorrido a 25 de outubro no país, avança o Comité de Médicos Sudaneses, citado pela Reuters.

Ainda de acordo com a agência de notícias, o número de feridos nos protestos de sábado ultrapassou já as duas centenas, sendo que, destes, mais de 100 manifestantes foram feridos em consequência de tiroteios realizados pelos militares do Sudão. Além de munições reais, foi utilizado gás lacrimogéneo contra a população civil.

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A Al Jazeera informou ainda que um hospital em Omdurman foi invadido por forças militares, que detiveram vários dos feridos que se encontravam a receber tratamento.

O Comité contabiliza, até ao momento, pelo menos 22 pessoas mortas em manifestações contra o novo regime sudanês após o golpe de Estado deste ano.

Esta não é a primeira vez que as autoridades do Sudão atacam a Al Jazeera, recorda o órgão de comunicação social. Em 2019, as forças de segurança encerraram os escritórios de Cartum e cancelaram os vistos de trabalho dos correspondentes no país.

Golpe de Estado militar realizado pelo general Abdel Burhan, que não queria dividir governação com representantes civis

Em 2019, a população sudanesa, auxiliada por um setor do corpo militar, fez uma revolução que depôs o autocrata Omar al-Bashir, no poder durante três décadas.

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De modo a assegurar uma transição democrática pacífica, cujo objetivo final seria a realização de eleições democráticas, foi criado um governo provisório, o Conselho Soberano, que reunia militares sudaneses, liderados pelo general Abdel Fattah Abdelrahman Burhan, e representantes da população civil, chefiados pelo primeiro-ministro interino Abdalla Hamdok.

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Este órgão de governação estaria vigente até à realização das primeiras eleições livres, apontadas para 2024.

Os militares, contudo, assumiram desde 2019 a concentração do poder, com o então primeiro-ministro interino a assumir que 80% dos recursos do país estariam “fora do controlo do ministério das Finanças”, o que, segundo o Daily Sabah significava serem controlados pela fação militar do Conselho Soberano.

Na manhã de dia 25 de outubro, o primeiro-ministro Abdalla Hamdok foi detido, bem como a mulher, pelos militares, e encontra-se até ao momento em prisão domiciliária. O general Abdel Burhan anunciou, ainda nessa segunda-feira, o estado de emergência no país e justificou a intervenção militar que levou à detenção de vários ministros em funções desde 2019 com as divisões internas na governação do Sudão.

Várias organizações internacionais, incluindo a Organização das Nações Unidas, expressaram a sua preocupação com a regressão da liberdades asseguradas no Sudão. O secretário-geral da ONU, António Guterres, condenou na rede social Twitter o golpe de Estado levado a cabo no dia 25, e apelou à libertação dos representantes civis no governo provisório.

Também o Representante Especial da ONU no Sudão, Volker Perthes, que é o líder da missão de transição democrática da ONU no Sudão (UNITAMS), apelou nas redes sociais “aos militares e forças de segurança para que respeitem os direitos dos manifestantes que demonstrem contenção, abdicando do uso de força excessiva”.

Ao longo das últimas semanas, o general Abdel Burhan tem substituído vários membros do governo provisório por ex-apoiantes do regime autocrático de Omar al-Bashir, também ele um militar, o que tem apontado para uma consolidação do golpe militar de outubro.

Além disso, foi nomeado pelo líder militar um novo conselho para governar o Sudão, órgão que será responsável por eleger um novo primeiro-ministro.