Tantas vezes acusados de serem polos opostos que se tocam, Catarina Martins e João Cotrim Figueiredo foram a debate prontos a mostrar o que os separa. E conseguiram-no: ao quarto dia de debates, os dois conseguiram pela primeira vez discutir ideias, de forma cordata ainda que assertiva, por cima da cacofonia que tem marcado esta pré-campanha.

Só isso seria já notícia. Mas esteve em jogo muito mais: uma visão do país e da sociedade que, para lá da chamada “agenda dos costumes”, que aproxima os dois partidos, é diametralmente diferente. Na Economia, Cotrim recebeu o rótulo de “radical” e acusou a bloquista de não ter uma palavra sobre crescimento económico; na Saúde, Catarina Martins falou em “irresponsabilidade” e ouviu de volta um remoque de falta de seriedade; e, finalmente, nas políticas para a Juventude, o candidato da IL sugeriu que o Bloco abdicou de ser o “farol” da modernidade para ouvir que os liberais querem hipotecar o futuro dos mais jovens.

De resto, este último ponto acabou por ser o remate do duelo a dois: Catarina Martins levou para o debate a proposta do programa eleitoral de 2019 da Iniciativa Liberal (o de 2022 ainda não existe) que prevê uma transição do atual modelo de financiamento do ensino superior assente em propinas para um sistema de empréstimos a 30 anos para estudantes universitários.

A bloquista acenou com a realidade norte-americana apesar do modelo defendido pela Iniciativa Liberal ser inspirado no sistema britânico, onde os estudantes só devolvem o dinheiro se e quando atingirem um determinado patamar salarial depois de começarem a trabalhar. Indiferente a isso, o ponto da bloquista era forte: a Iniciativa Liberal “fica muito cara” à nova geração.

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De Cotrim Figueiredo nem uma palavra. O candidato da Iniciativa Liberal preferiu não responder à bloquista, ficou em silêncio sobre o Ensino Superior e decidiu mudar rapidamente de agulha para o crescimento económico. “O Bloco de Esquerda perdeu a capacidade de ser um farol para aqueles que querem um Portugal mais moderno. Devia deixar de chamar Bloco para ser ‘bloqueio ao crescimento, ‘bloqueio ao futuro’

Apesar de estarem em polos opostos no que à economia diz respeito, os dois partidos estão cientes de que disputam um eleitorado mais jovem, menos ideológico e que pode balançar de um lado para o outro. Ao terminar sem uma resposta ao papão acenado por Catarina Martins, Cotrim Figueiredo perdeu uma oportunidade de marcar pontos sobre o Ensino Superior.

Antes, os dois já tinham medido forças na Saúde, o tema que mais aqueceu o debate. Catarina Martins tentou pintar Cotrim Figueiredo como libertário e irresponsável que teria sido um desastre na gestão da pandemia. “Há um elefante na sala. A IL votou contra quase todas as medidas sanitárias. Fez da irresponsabilidade a sua propaganda. O que é extraordinário é que o fez por considerar que os negócios não podiam parar. Morreram 19 mil pessoas em Portugal.”

Cotrim Figueiredo começou por corrigir a bloquista — a IL não votou contra as medidas sanitárias específicas, mas antes contra o quadro legal do estado de emergência em si e contra os excessos nele previstos.“Usar mortes não é fazer política séria”, devolveu o liberal.

Para lá da pandemia, a gestão da Saúde. Às críticas de Cotrim sobre a tentação do Bloco de responder a todos os problemas despejando mais dinheiro, Catarina Martins atirou direta e sem rodeios: é preciso reforçar o SNS e isso “vai ter o custo que tiver“.

A bloquista disparou ataques aos privados, que, como recordou, já são em boa parte financiados pelo Orçamento do Estado e faz “negócio com a doença”. O liberal garantiu que não se importa com um custo maior para o SNS, mas com reformas: “Quem não deixa que se modernize é o melhor amigo dos negócios privados”.

Por fim, a Economia e, de novo, sem consenso possível. Cotrim a sua receita (menos impostos, mais crescimento, melhores salários) e foi a jogo explicar a proposta faseada para chegar à “flat tax” (“uma proposta extremada da direita, muito boa para os ricos”, atirou a adversária).

Catarina Martins argumentou que o melhor caminho para o crescimento passa pela alteração das leis laborais e pelo dos rendimentos, nomeadamente do salário mínimo. “O crescimento económico devia ser a principal preocupação do país e gostava de saber qual é o país que tem o modelo económico que o BE defende”, contrapôs Cotrim. Catarina Martins não respondeu por falta de tempo.

O diálogo mais revelador

Catarina Martins – Há aqui um elefante na sala. Estamos a viver um momento particular, com seis milhões de mortos no mundo e 19 mil em Portugal. E a marca da IL, para usar as palavras do doutor Cotrim de Fugureido, foi votar contra quase todas as medidas sanitárias. E disse mesmo – espero estar a citá-lo bem, se estiver a citá-lo mal corrigirá – que se sentia num Estado policial…

João Cotrim Figueiredo – Não me recordo nada disso.

CM – Mas recorda-se de ter votado contra quase todas as medidas.

JCF – Quase todos os estados de emergência, sim. Estados de emergência, sim. À exceção do primeiro.

CM – O que é extraordinário é que o fez por considerar que os negócios não podiam parar. Morreram 19 mil pessoas com uma pandemia que ainda continua cá. O que pergunto é em que não termos as medidas teria poupado alguma das vidas que perdemos?

JCF – É uma forma típica de debater do BE, que é deturpar a posição política da IL. Votamos contra estados de emergência e até estranho que o BE não tenha votado contra porque impunham limitações à liberdade das pessoas, a começar pela liberdade de deslocação, direito à greve, obrigava as pessoas a estarem disponíveis para qualquer emprego e qualquer pagamento… Votámos contra esses excessos com muito orgulho. E sempre defendemos, faça-se Justiça, que com base em dados todas as medidas deviam ser tomadas. Esta é a verdade dos factos. Não me venha dizer, como vi num tweet do BE, que a IL teria morto pessoas se tivesse aplicado a sua política. Discutir e usar mortes de pessoas não é política séria. Teríamos de ir buscar quantas pessoas morreram com patologias não Covid.