O Chega é contra um novo referendo ao aborto, pelo menos enquanto André Ventura for presidente do partido. Foi com esta garantia que o líder do Chega reagiu às declarações de Paulo Núncio que marcaram o dia de campanha. “Temos uma posição clara sobre isso: enquanto eu for presidente do Chega entendo que não devemos voltar à crimininalização do aborto. É uma posição minha, pessoal, sei que muita gente no partido entende diferente”, explicou, sublinhando que, na sua opinião, “é um assunto que a sociedade portuguesa não deve voltar a referendar e voltar a criar uma penalização”.

O líder do Chega reiterou ser “contra o regresso à criminalização da interrupção voluntária da gravidez” para sublinhar que “enquanto for presidente o Chega não promoverá o regresso a uma lei que já não funcionava muito bem e não resolve o problema”. “O partido não vai voltar a propor a criminalização do aborto e, por consequência, não alinhará num referendo sobre isso”, refere, lembrando que o tema não está no programa do partido.

À entrada do comício da noite, em Vila Real, voltou ao tema com o objetivo de dizer que tudo o que se passou “é uma trapalhada absoluta”. Recordou o que Nuno Melo afirmou, numa entrevista à CNN sobre governabilidade, e o que Luís Montenegro disse “umas horas depois”, contrariando o presidente do CDS ao garantir que “não deve ser assim” — e  comparou-o com o que se passou hoje com Paulo Núncio: “Isto não é uma coligação, é um albergue espanhol onde cabe toda a gente.”

“Isso é que está a ajudar o PS, não é o Chega que está a prejudicar, quem está a ajudar o PS é o albergue espanhol que a coligação se tornou”, atirou, enquanto lembrou também o PPM e Gonçalo da Câmara Pereira, sem referir o nome, para dizer que “não aparece” e “não querem que apareça”.

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Ventura espera resposta e cola-se a “direita democrática”

Num dia marcado pelo ataque com tinta a Luís Montenegro, André Ventura condenou com palavras fortes o ato que obrigou o presidente social-democrata a cancelar a ação de campanha que tinha marcada para a Bolsa de Turismo de Lisboa (BTL) e recusou segurança oferecida por António Costa por considerar que não devem ser “desviados recursos fundamentais para a PSP” porque o Chega tem uma “equipa de segurança paga pelo partido”.

Por muito que os temas sejam externos, ao almoço o líder do Chega fez questão de voltar ao tema da imigração. Já o tinha feito na noite anterior, num comício em Guimarães, à boleia das palavras de Passos Coelho, dizendo que o ex-primeiro-ministro entrou na campanha da Aliança Democrática para dar “dois estalos” ao PSD e sugerindo uma leitura — “A legenda de Passos Coelho podia ser assim: ‘idiotas úteis, acordem porque o Chega tem razão nesta matéria” — e voltou a fazê-lo, num comício em Viana do Castelo, com garantias de que a proposta do Chega não tem “nada de racismo nem de xenofobia” e para pedir um “grande consenso” a “toda direita democrática” — uma expressão usada pelos outros partidos exatamente para deixar o Chega de parte.

Fica a “aguardar uma resposta de todos” à direita, mas, apesar de abrandar no tom, voltou a dizer que é preciso controlar a imigração com um intuito: “Não podemos dar aos outros o que não temos para nós em primeiro lugar.” E insistiu que “quem vem para Portugal” deve ser para “trabalhar, para se integrar e fazer parte” e “não para cometer crimes”. “Não sei qual é o espanto quando o Chega diz que quem, sendo imigrante, cometer crimes será expulso depois de cumprir a pena de prisão porque não queremos mais bandidos, já temos cá suficientes”, repetiu, frisando que também no caso da Segurança Social é “perfeitamente razoável” que “quem procura Portugal tenha de descontar antes de receber subsídios” — outra dos reptos do Chega para esse tal pacto à direita.

“Se não fizermos isto não seremos um país de boa imigração, seremos um país de turismo de subsídios”, alertou, numa comparação que tem feito constantemente entre aquilo a que chama “emigração boa” e “imigração má”. No mesmo sentido, insistiu num pacto para a imigração assente numa maioria parlamentar que “possa reverter os disparates que foram feitos nos últimos anos” e “devolver a sensação de segurança, estabilidade e justiça às políticas de imigração”.

Ventura em resposta a Pedro Nuno e à conquista do voto das mulheres

Pedro Nuno Santos cavalgou a questão do aborto levantada pelo vice-presidente do PS para apelar ao voto às mulheres e André Ventura não fez por menos: “O Chega é o voto seguro para as mulheres portuguesas.” Justificou-o com o encerramento da maternidade de Chaves e as “mães que mandaram ter os filhos ao país vizinho”, “as urgências de obstetrícia fechadas pelo país todo que penalizaram mulheres” ou os “votos contra do PS” em questões como o “aumento de penas para violadores, pedófilos e agressores sexuais” ou para que “houvesse penalização mais severa para casos de violência doméstica”.

“As mulheres portuguesas dispensam o PS”, resumiu André Ventura, sublinhando que o Chega “dispensa a herança do PS em matéria de defesa das mulheres”. Aproveitando o embalo de mais de 200 pessoas numa sala de eventos em Vila Real, Ventura frisou que “o PS gosta sempre de agitar o papão do Chega” e sugeriu que “se as mulheres portuguesas desejam viver num país em segurança, que respeite a sua integridade e a dos seus filhos e netos não é no PS que tem de votar”.

E ainda seguiu com mais críticas a PS e PSD em áreas como as portagens, mas priorizou o ataque mais severo a Pedro Nuno Santos, depois de dizer que votou contra o tempo de recuperação de serviço dos professores: “Não sei se é o mais impreparado e o mais incapaz da história do PS, mas há uma coisa que sei: é o mais mentiroso.”

No discurso em que tentou apelar ao voto das mulheres, procurou também contrarias o voto útil, alimentando a narrativa de que PS e PSD tiveram “voto útil durante 50 anos” e que “o voto de protesto não é despiciendo ou desprezível” porque é a “alma de um país cansado”.

Os cenários para o dia seguinte e uma recusa

Em declarações aos jornalistas à chegada ao comício em Vila Real, o líder do Chega comentou a sondagem da Católica para a RTP e Público para sublinhar que “dos três partidos maiores”, PS e PSD “descem” e “Chega consegue manter resultado”. “Fica um cenário de difícil governabilidade, é verdade”, assume, com um “apelo a uma maioria clara de direita no Parlamento”.

Apontando para um “cenário de tripartidarização” a partir de 10 de março, Ventura voltou a chamar o ex-líder do PSD (“sem querer voltar a pôr Passos Coelho na campanha eleitoral”) para frisar que é preciso “buscar soluções de governabilidade”. “Ele disse ‘eu sei que o Luís irá buscar o que é preciso’ e eu espero que a frase esteja certa, mas que não seja o Luís e seja o André”, realçou.

Ainda sobre a moção de rejeição ao PS que assegurou que vai apresentar caso haja maioria à direita, André Ventura assume que servirá para o PSD clarificar e com esperança de que seja “antes das eleições”. “Não vamos deixar o país na ingovernabilidade, [mas] se essa maioria à direita existir significa que há condições para ir ao Presidente da República dizer que conseguimos construir uma alternativa e o PSD terá de decidir se quer apoiar o PS ou se quer um governo de direita”, antecipa o líder do Chega.

É o próprio que traz o cenário seguinte: “Já se está a colocar um cenário de como o Chega será um terceiro bloco isolado, para Pedro Nuno Santos, e fará as contas entre PS, CDU, BE e Livre contra PSD e IL e se eles [esquerda] tiverem maioria governarão.” André Ventura diz que, nessas condições, “governariam” porque “tinham de passar por cima de um muro chamado Chega”.

Embalado por ex-PSD, Ventura chegou à Madeira

Em Viana do Castelo, onde o cabeça de lista é Eduardo Teixeira, ex-PSD, André Ventura cavalgou as críticas ao partido que foi a casa de ambos e apanhou um curto “voo” até à Madeira para desafiar Luís Montenegro sobre Miguel Albuquerque.

“Miguel Albuquerque é o presidente do congresso do PSD, mas todos vimos o enriquecimento sem compreensão, o património de milhões espalhado pelas suas contas e vai-se recandidatar”, começou por dizer, à boleia da oficialização da candidatura ao PSD/Madeira.

Perante a situação, Ventura questionou se, para o presidente do PSD, “a conversa da corrupção é só para fora e para falar dos outros”. E deixa um desafio ao líder social-democrata: “Se está mesmo a sério nisto do combate à corrupção tem uma oportunidade de dizer que não dará apoio a Miguel Albuquerque. Se for um homem decente é isso que fará.”

E num restaurante junto ao mar, André Ventura colocou na campanha o tema da agricultura e pescas, recuperou o acordo entre o PSD e o PAN na Madeira para dizer que o líder dos sociais-democratas tinha dito que o partido de Sousa Real é “extremista” e que acabaram juntos. “Quando os tachos estão à vista de ser perder, juntam-se com qualquer um”, atacou. Sobre o assunto em si, pretende um “programa nacional de apoio à agricultura e pesca, que inclua a redução para menos de metade das taxas sobre a agricultura, uma redução do gasóleo agrícola e uma redução dos impostos sobre os adubos e os fertilizantes”.