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50 anos do primeiro transplante de coração. Tornou um médico superstar, envolveu o apartheid e passou por Portugal

A 3 de Dezembro de 1967, é realizado o primeiro transplante cardíaco. O coração era de Denise Darvall. O peito que o recebe de Louis Washkansky. As mãos que tornaram isto possível são de Barnard.

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Louis Washkansky era um comerciante de 54 anos. Denise Darvall uma jovem de 25. Ambos viviam em Cape Town, África do Sul. Louis era judeu e nascera na Lituânia. Chegara à África do Sul em 1922. A II Guerra trouxe-o de novo à Europa: combate em Itália. No fim do conflito volta à África do Sul, casa-se e torna-se comerciante. Mas o seu coração começa a falhar e desde 1965 que sofre de insuficiência crónica. A 2 de Dezembro de 1967 o homem robusto que Louis fora em tempos está reduzido a um doente com poucas semanas de vida. Denise pelo contrário tinha razões para acreditar no futuro quando nesse dia 2 de Dezembro entrou no carro com os pais. Iam para um lanche. Param para ir comprar um bolo. Denise e a mãe saem do carro. Quando regressam são atropeladas por uma viatura que vinha em sentido contrário. A mãe morre imediatamente. Denise fica em morte cerebral. Mantém-se viva ligada a um ventilador.

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No dia seguinte, 3 de Dezembro, a equipa de reanimação considera que já não pode fazer nada por Denise. Mas no Groote Schuur Hospital, onde Louis Washkansky, sem nada a perder, já dera o seu aval a ser o primeiro ser humano a submeter-se a um transplante de coração, há uma equipa que se prepara para explicar ao pai de Denise que a filha vai morrer mas pode ainda salvar uma vida: caso ele autorize, o coração de Denise será transplantado para o peito de Louis Washkansky. Ao fim de uns breves quatro minutos, o pai de Denise dá autorização. Começa de imediato uma espécie de corrida contra o tempo: Denise Darvall é levada para uma sala do primeiro piso do Groote Schuur Hospital. Ao lado, numa outra sala, está Louis Washkansky. Durante cinco horas, da uma às seis da manhã, uma equipa dirigida por Christian Barnard transplanta o coração de Denise para o peito de Louis. Ao amanhecer estava realizado o primeiro transplante de coração.

E de repente transplantes em todo o mundo

O entusiasmo suscitado por esta intervenção foi imenso. A evolução do estado de saúde de Louis Washkansky foi seguida nas primeiras páginas de jornais de todo o mundo. Como um rastilho que atravessa os quatro cantos da Terra outros transplantes têm lugar noutros continentes. Escassos três dias depois de na África do Sul Barnard ter feito História, Adrian Kantrowitz, que em Junho de 1966 esteve à beira de ser o primeiro cirurgião a fazer um transplante de coração ( só não o foi porque já dentro da sala de operações dois médicos da sua equipa levantaram questões de natureza ética sobre o momento em que o coração poderia ser retirado do corpo do dador) realiza o primeiro transplante de coração nos EUA. E a 2 de Janeiro de 1968 o próprio Barnard faz um segundo transplante. A 6 tem lugar outro transplante nos EUA. Em Março de 1968, no Brasil realiza-se o primeiro transplante de coração não só daquele país mas de toda a América latina e em França duas equipas médicas declaram-se prontas para fazerem transplantes.

Em Maio de 1968 fazem-se os primeiros transplantes de coração em Inglaterra e em França. Na URSS o sucesso de Barnard gera algum incómodo pois os soviéticos que contavam com um pioneiro dos transplantes – desde os anos 50 que Vladimir Demikhov efectuava transplantes em animais – tinham ficado para trás. A Espanha é um dos países onde foi mais intensa a colagem governamental ao sucesso da medicina nacional simbolizado pelos transplantes: em Setembro de 1968 é feito pelo cirurgião Cristobal Martinez-Bordiu o primeiro transplante cardíaco realizado naquele país. Além de médico, Cristobal Martinez-Bordiu era também o genro de Franco…

A Espanha é um dos países onde foi mais intensa a colagem governamental ao sucesso da medicina nacional simbolizado pelos transplantes: em Setembro de 1968 é feito pelo cirurgião Cristobal Martinez-Bordiu o primeiro transplante cardíaco realizado naquele país. Além de médico, Cristobal Martinez-Bordiu era também o genro de Franco…

Em Novembro de 1968, portanto menos de um ano depois da primeira destas cirurgias tinham sido efectuados 85 transplantes de coração.

Um médico ou uma estrela?

Para o enorme entusiasmo em torno dos transplantes de coração concorria o que este órgão simboliza para nós: imaginar as mãos de um cirurgião retirando o coração de um corpo que a vida abandona para o colocar noutro onde volta a bater é algo que toca fundo no nosso imaginário sobre a vida, a morte e de alguma forma sobre a própria ideia de ressurreição. Mas não só. Barnard vai contribuir em muito para essa popularidade. Além de ser um excelente comunicador, Barnard era particularmente fotogénico. Parecia irradiar juventude. A sua maneira de estar, falar e comunicar nada tinham a ver com a imagem clássica dos médicos europeus.

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Esse choque entre o Novo Mundo do qual provinha Barnard e esta velha Europa é muito patente na visita que o cirurgião sul-africano faz a este continente no início de 1968: enquanto Barnard mostra o maior interesse em debater os transplantes nas televisões os médicos europeus não consideram adequado discutir-se medicina em programas televisivos. Por contraste 500 médicos brasileiros propõem Barnard para Nobel da Medicina: “Na Europa ninguém deixa agir ninguém” – declara Barnard. Esta informalidade de Barnard a par do enorme interesse gerado pelos transplantes, tornam as suas viagens em acontecimentos mediáticos. Nada distingue o “homem das mãos de ouro”, como lhe chamavam os jornais, de uma estrela de cinema e as visitas que Barnard faz a Portugal provam-no.

Quando a convite da Universidade de Coimbra o cirurgião sul-africano visita Portugal em Março de 1968, médicos, estudantes, jornalistas e curiosos enchem os espaços por onde Barnard passa e as salas onde fala. Milhares de pessoas tentam levantar um convite que lhes permita assistir, em Coimbra, à conferência de Barnard

Quando a convite da Universidade de Coimbra o cirurgião sul-africano visita Portugal em Março de 1968, médicos, estudantes, jornalistas e curiosos enchem os espaços por onde Barnard passa e as salas onde fala. Milhares de pessoas tentam levantar um convite que lhes permita assistir, em Coimbra, à conferência de Barnard no Teatro Gil Vicente. Um número de telefone, o 22456, foi afectado para o pedido de bilhetes. Barnard sai em ombros do Teatro Gil Vicente. O cirurgião acaba alta noite a assistir a uma serenata cujas fotos confirmam os efeitos do líquido que terá bebido directamente do garrafão na República Pagode Chinês, onde foi feito sócio honorário da JAC (Juventude Amiga dos Copos).

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Dois meses depois, em Maio, Barnard volta a Portugal dessa vez a convite do ministério do Ultramar para participar num ciclo de conferências sobre transplantação cardíaca e anestesia. Visita vários hospitais, janta no Grémio Literário mas ainda arranja tempo para lançar piropos às funcionárias do Hospital do Ultramar e ir à Chamusca assistir a uma tourada. Tal como acontecera na visita a Coimbra também em Lisboa foram instalados circuitos internos de televisão para que todos aqueles que não conseguiram entrar nas salas de conferências não ficassem privados de assistir às conferências de Barnard.

Barnard, o único homem do Mundo que poderá prolongar-lhe a vida”

Entre os assistentes mais ansiosos das intervenções e sobretudo dos momentos em que Barnard se desloca e fica mais próximo das multidões estão as pessoas que viam nas mãos daquele homem a última esperança de se salvarem ou sobretudo de salvarem alguém que lhes era próximo.

Foram vários os portugueses que procuraram ser observados por Barnard, deslocando-se para o efeito ao aeroporto da Portela quando o médico aí desembarca ou simplesmente se detém por algumas horas durante as suas muitas viagens intercontinentais. Mas são dois rapazes, António Santos Lemos e Paulo Alexandre Oliveira, que protagonizam os casos mais mediáticos daqueles para quem Barnard representou em Portugal a derradeira esperança.

A 12 de Março de 1968, Belmiro Oliveira, pai de Paulo Alexandre Oliveira, espera Barnard no aeroporto de Lisboa mas não lhe consegue falar logo sobre a doença de coração que ameaça levar-lhe o filho de cinco anos. O antigo tipógrafo do Diário de Lisboa não desiste, integra-se na comitiva dos jornalistas e segue com estes para Coimbra onde Barnard vai dar uma conferência. Mas eis que a meio do caminho Barnard ou a sua mulher, Louwtjie, resolvem parar nas Caldas da Rainha onde decorre uma feira. Aí Belmiro consegue falar-lhe pela primeira vez. Segundo relata aos antigos colegas Barnard ter-lhe-á dito: “Escreva tudo em pormenor Mr. Oliveira. Respondo-lhe assim que puder.”

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Quando no dia seguinte regressa a Lisboa, Barnard tem à sua espera o próprio Paulo Alexandre graças a uma iniciativa de O Século que reivindica para si o ter promovido “o encontro entre o Paulinho e o único homem do Mundo que, talvez, poderá prolongar-lhe a vida”. Semanas depois os pais de Paulo Alexandre recebem um telegrama do Groote Schuur Hospital que informa estar a equipa de Barnard disponível para observar a criança. A viagem de Paulo Alexandre em Maio de 1968 será o pretexto para muitas notícias e para a manifestação de várias solidariedades que ajudam a suportar as despesas da deslocação. Barnard optará por não operar Paulo Alexandre recomendando sim tratamentos na clínica Mayo, nos EUA.

Já António Santos Lemos, um menino de 12 anos cuja vida estava seriamente comprometida por um problema cardíaco, que O Século apresenta como “o doentinho seu protegido”, tem um diagnóstico diferente: como era previsível os transplantes não se adequavam ao seu caso optando Barnard por operá-lo em Março de 1969 com vista à correcção do seu problema cardíaco. António Santos Lemos morre no Groote Schuur Hospital pouco depois de ter acordado da operação.

Diplomacia rima com cirurgia

A operação pioneira que Barnard realizou a 3 de Dezembro de 1967 teve como é óbvio o seu lado polémico. Que não foi médico, nem religioso mas sim político. Barnard era sul-africano e fora num hospital da África do Sul que fora feito o primeiro transplante cardíaco. Intensamente pressionada por causa do apartheid a África do Sul usava o sucesso dos seus médicos e o pioneirismo dos seus serviços de saúde como forma de se afirmar internacionalmente. E nesse sentido o sorriso aberto de Barnard e a sua política de transplantes eram óptimos cartões de visita: Barnard não só se manifesta contra as diferenças salariais entre médicos brancos e de cor então existentes na África do Sul – na sequência das greves dos médicos indianos nos hospitais de Durban e Pietermaritzburg, Barnard apresenta, segundo revela O Século de 22 de Abril de 1969, uma declaração propondo o fim dessa discriminação – como faz questão de sublinhar como sucedeu em Coimbra na conferência que aí proferiu a 12 de Março de 1968, que O Século transcreve na sua edição do dia seguinte: “Não há problemas de raças nos transplantes de coração.”

Aliás logo no transplante que efectuou a 2 de Janeiro de 1968, Barnard coloca o coração de um negro, Clive Haupt de 24 anos, vítima de hemorragia cerebral, no corpo de um dentista branco, Philip Blaiberg, de 58 anos. Esse coração “pode até constituir um importante passo para as melhorias das relações entre as raças” respondeu, segundo o Diário de Lisboa de 8 de Março de 1968, Philip Blaiberg aos médicos que lhe perguntavam se não se importava de receber o coração de um negro. Curiosamente, Barnard poderia ter feito o primeiro transplante antes de Dezembro de 1967 caso tivesse aceite que o dador fosse negro mas isso ia contra uma decisão que tomara: o primeiro dador para o transplante cardíaco teria de ser branco. Porquê? Porque Barnard temia que se o primeiro dador fosse negro os transplantes de coração fossem vistos como uma forma de os brancos sobreviverem à custa dos corações dos negros.

Barnard poderia ter feito o primeiro transplante antes de Dezembro de 1967 caso tivesse aceite que o dador fosse negro mas isso ia contra uma decisão que tomara: o primeiro dador para o transplante cardíaco teria de ser branco. Porquê? Porque Barnard temia que se o primeiro dador fosse negro os transplantes de coração fossem vistos como uma forma de os brancos sobreviverem à custa dos corações dos negros.

Os anos trouxeram outra polémica racial ao primeiro transplante de coração: esteve ou não presente nessa cirurgia Hamilton Naki, um negro que que começou por trabalhar como jardineiro no Groote Schuur Hospital e que se tornaria técnico de laboratório? Naki não só dirá que sim como afirmou que foi ele quem retirou o coração do corpo de Denise Darvall. Membros da equipa de Barnard, como a enfrmeira Dene Friedmann, garantem que não.

A obra do Criador

Mas para lá das questões raciais e políticas, os transplantes colocavam problemas religiosos ou melhor dizendo receavam os cristãos que os colocassem. Contudo não foi isso que aconteceu.

Do mundo católico chegam rapidamente sinais de aprovação face aos transplantes: logo no fim de Janeiro de 1968 Paulo VI concede uma audiência a Barnard que decorre de forma muito amistosa. E em França um dos primeiros transplantados, Damien Boulogne, era padre.

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O facto de o próprio Barnard se apresentar como um homem de fé que reza antes e sobretudo depois das operações e que reivindica a sua educação num ambiente marcadamente cristão – o seu pai era pastor numa igreja protestante – desempenha um papel decisivo no afastar a questão religiosa dos transplantes cardíacos.

Quando a 12 de Março de 1968, em Coimbra, lhe perguntam “Que pensa dos problemas religiosos levantados pelas suas operações?”, Barnard responde taxativamente “Não percebo bem o que pretendem com essa pergunta. Sou um homem religioso e não vejo que haja qualquer problema contra os princípios enunciados na Bíblia. (…) Eu e a minha equipa estamos a fazer aquilo que o Criador quer e vamos continuar a desenvolver essas possibilidades”.

É aliàs à fé que Barnard declara ir buscar a confiança em si mesmo. Viesse donde viesse, essa confiança que Barnard parecia irradiar tornou-se um símbolo desses anos 60, a década em que tudo parecia possível, fosse um astronauta chegar à Lua ou um médico a fazer bater noutro peito o coração que acabou de segurar nas suas mãos.

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