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AFP/Getty Images

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A queda de Sócrates começou aqui. As escutas do curso mal explicado

"Cercado", o livro sobre "os dias fatais" de José Sócrates, mostra como o ex-PM foi lidando com os casos que o atingiram. Este é o capítulo com as escutas sobre o curso na Universidade Independente.

Ano de 2004. O encontro entre os dois homens fora marcado para uma conhecida superfície comercial. A confusão permitia‐lhes passar discretos entre a multidão. Objectivo: trocar informações sobre a licenciatura alegadamente duvidosa do primeiro‐ministro José Sócrates, realizada na Universidade Independente (Uni). Convencidos de que poderiam estar a ser vigiados, rodearam‐se de precauções. Tantas que acabaram por se desencontrar – talvez tivessem exagerado na comunicação encriptada. Encontro adiado, portanto.

Novo dia, nova tentativa. Cenário escolhido: um supermercado. Quando chega, António Caldeira, o organizador, concentra‐se nos detalhes. Tem de certificar‐se de que o local está imune a corpos estranhos. Circula lentamente pelo átrio enquanto agita umas chaves. A poucos metros, escuta um som semelhante – o sinal por que esperava. Segue com o seu contacto para um café. Sentam‐se junto a uma coluna de som. Falam ao ouvido – e apenas o indispensável. Pouco depois saem; um primeiro do que o outro; um por cada porta. António Caldeira, um professor anónimo de Alcobaça, acaba de juntar mais uma peça ao enorme puzzle em que se transformou a sua investigação à suposta irregularidade do curso de engenharia de José Sócrates.

Tudo começara uns meses antes, através de um simples comentário de um leitor do seu blogue – o Portugal Profundo. O apontamento escrito remetia para outro blogue: o Porta Bandeira. Aí, num post intitulado «O passado misterioso de Sócrates», dava‐se conta de que o primeiro‐ministro «mascarara» a sua licenciatura – ou seja: de engenheiro pouco teria.

Quarta‐feira, 16 de Fevereiro de 2005

A quatro dias das eleições legislativas, António Caldeira possui informação suficiente para escrever um post explosivo sobre o assunto. Pensa que talvez não seja prudente lançar a bomba de imediato. Sabe que o seu blogue é muito visitado por jornalistas e não deseja ser acusado de tentar influenciar o resultado eleitoral. Decide esperar.

Segunda‐feira, 21 de Fevereiro de 2005

José Sócrates é dono há 24 horas de uma maioria absoluta mas ainda não estreou o seu futuro gabinete em São Bento. No entanto, Caldeira não vai esperar que isso aconteça. Quer avançar já. Contacta Maria Rui, a assessora do líder do PS. Pretende confirmar as informações a que tivera acesso. A resposta é surpreendente: vão ajudá‐lo na procura da verdade.

Um dia depois, o professor recebe um telefonema da directora dos serviços jurídicos da Uni. Tem duas notícias para lhe dar: 1) claro que José Sócrates é licenciado; 2) obviamente que as informações pretendidas (notas, equivalências, resultados de exames, tudo o que fora colocado em causa no post do Porta Bandeira), são da reserva da intimidade da vida privada. Nada que trave Caldeira: no dia seguinte, a 23 de Fevereiro, publica mesmo o texto mais lido da história do Portugal Profundo: «Os cursos de Sócrates».

As acusações são esmagadoras. Se todas corresponderem à verdade, aproxima‐se do palácio de São Bento um tsunami político de considerável dimensão. Assim que a blogosfera toma contacto com o post assassino, a esquizofrenia instala‐se, nomeadamente entre os blogues políticos e jornalísticos. Uma agitação estranha, no entanto, porque se lhe segue um imenso, um estrondoso, um improvável silêncio. Ao contrário do que Caldeira espera, a imprensa mainstream não dá importância – leia‐se credibilidade – ao tema. Dentro das redacções, o autor do Portugal Profundo é visto como um senhor razoavelmente desequilibrado com demasiado tempo livre para escrever num blogue potencialmente irresponsável.

Teríamos de chegar a 2007 para que um jornalista de uma publicação de referência fizesse do assunto notícia. Ricardo Dias Felner, que era então responsável pela pasta de São Bento no Público, foi incentivado pela sua editora a pegar no tema. Pensou: e se isto for tudo verdade? E se o primeiro‐ministro tiver mesmo uma licenciatura irregular?

Assim que é informado da publicação, Sócrates fica furioso. Um «professorzeco» ousa colocar o seu estatuto em causa. Caldeira tinha feito o trabalho de casa. Ciente de que lidava com matéria inflamável, rodeou‐se de cuidados durante a investigação. Utilizava processos de comunicação encriptados e nunca usava o telemóvel ou o telefone fixo para conversas com fontes sensíveis – partia sempre do princípio de que poderia estar a ser escutado. Além disso, marcava os encontros pessoais com muito pouca antecedência. Objectivo: evitar preparativos de vigilância. Durante os encontros, desligava o telemóvel e removia a bateria. Escolhia frequentemente locais públicos, barulhentos e movimentados, de modo a complicar o trabalho de quem, eventualmente, pretendesse interceptar as conversas. A informação mais perigosa não era oralizada: escrevia‐a, codificada, à frente da pessoa com quem estava, destruindo o papel de seguida.

Teríamos de chegar a 2007 para que um jornalista de uma publicação de referência fizesse do assunto notícia. Ricardo Dias Felner, que era então responsável pela pasta de São Bento no Público, foi incentivado pela sua editora a pegar no tema. Pensou: e se isto for tudo verdade? E se o primeiro‐ministro tiver mesmo uma licenciatura irregular? Não tinha nada a perder. Decidiu avançar, mas não sem antes deixar um aviso ao director do jornal, José Manuel Fernandes:

– Vou fazer isto, mas vai dar merda. Vai ser violento, daqui a umas semanas não terei condições para continuar a fazer São Bento.

Os dias que se seguiriam seriam alucinantes – mesmo.

Terça‐feira, 13 de Março de 2007

Logo pela manhã, Ricardo Dias Felner desloca‐se ao edifício da Uni, situado perto do bairro dos Olivais. Quando chega bate com a cabeça na porta do arquivo: a menos que José Sócrates expressamente o autorize, não o deixam tocar no seu dossiê de aluno. Passo seguinte: ligar a Luís Bernardo, o assessor de imprensa mais próximo do primeiro‐ministro.

– Luís, o Público, na sequência de alguns boatos que correm na blogosfera, nos corredores da Assembleia e entre a classe jornalística sobre a legalidade da licenciatura do primeiro‐ministro, decidiu fazer um trabalho sobre o caso. Tenho aqui um conjunto de questões que lhe quero fazer e para as quais preciso de uma resposta escrita.

O assessor de maior confiança de Sócrates responde com cautela.

– Eh pá, espera aí, são questões tão concretas, dados que têm a ver com a própria pessoa… Manda‐me um e‐mail porque é mais fácil assim, já que falamos de situações que ocorreram há cerca de 11, 12 anos.

Ciente de que o gabinete de José Sócrates frequentemente protela as respostas para lá daquilo que considera razoável, Felner opta por encostar Bernardo às cordas.

– Eh pá, eu vou enviar‐te isto, mas é para amanhã…

O jornalista faz bluff, claro. Mas o assessor não parece especialmente inclinado a ir a jogo, pelo menos tão repentinamente.

– Vou tentar obter as respostas, mas isto tem a ver com questões que ocorreram há muito tempo, tens de compreender que não é fácil obter uma resposta logo no imediato […]. Deixa‐me ver a agenda do primeiro‐ministro para ver se posso falar com ele.

Já com as perguntas na mão, Luís Bernardo dirige‐se ao gabinete de José Sócrates. O que se segue não o surpreende: o primeiro‐ministro tem uma das suas épicas explosões de fúria. Irado, diz que não tem culpas na desorganização da universidade, que não caiu lá de paraquedas, que quando lá chegou já possuía vários anos de ensino superior. Não percebe a insistência do Público. Ou melhor, até percebe: Belmiro de Azevedo [dono da Sonae, a empresa proprietária do jornal] nunca lhe perdoou a sua oposição à OPA da Sonae sobre a PT.

Luís Bernardo ouve os berros enquanto pensa sobre o melhor a fazer para resolver o problema. Há uma potencial desgraça a caminho. Convicto de que Sócrates fala verdade, aconselha‐o a colaborar.

– Quem não deve não teme. O melhor nestas coisas é esclarecer ao máximo. Vamos dar o máximo de informação ao rapaz.

Sócrates não se opõe. Aparentemente está de consciência tranquila.

Mas é impossível atender atempadamente a todas as dúvidas. Bernardo telefona de volta a Felner.

– Olha, hoje é impossível ter respostas para tudo, mas amanhã é possível.

O jornalista concorda com o adiamento da publicação. A verdade é que nunca esperou escrever para a edição seguinte. Aproveita para colocar uma nova questão a Bernardo.

– Já tentei ir à própria universidade e o reitor não me deu autorização para consultar o processo. Queria ver com o primeiro‐ministro se ele ma concedia.

A decisão é chutada para o dia seguinte.

– Olha, isto como são questões muito específicas, espera que amanhã a gente dá‐te a resposta.

Já com as perguntas na mão, Luís Bernardo dirige‐se ao gabinete de José Sócrates. O que se segue não o surpreende: o primeiro‐ministro tem uma das suas épicas explosões de fúria. Irado, diz que não tem culpas na desorganização da universidade, que não caiu lá de paraquedas, que quando lá chegou já possuía vários anos de ensino superior.

Quarta‐feira, 14 de Março de 2007

Ricardo Dias Felner está impaciente com o facto de o gabinete do primeiro‐ministro, ao contrário do que fora combinado, ainda não lhe ter respondido às questões, quando o telemóvel finalmente toca. O número é o de Luís Bernardo, mas quem surge de rompante do outro lado da linha é José Sócrates, que decidiu convencê‐lo pessoalmente de que a informação que possui é uma mão cheia de nada. Entra ao ataque, como sempre.

– Isto são rumores como os que foram postos a circular na blogosfera sobre a minha alegada homossexualidade! São lançados por anónimos a quem eu não respondo porque não respondo ao bas fond. E se você pertence ao bas fond isso é consigo!

Felner não quer acompanhar a violência verbal. Encaixa os murros de Sócrates e tenta baixar o tom da conversa.

– Senhor primeiro‐ministro, estamos a fazer esta investigação com o objectivo de esclarecer tudo e esta é uma boa oportunidade para esclarecer boatos que correm há muito tempo.

Quando desliga o telefone, José Sócrates continua frenético. A conversa ainda não tinha acabado. Poucos minutos depois, liga de novo ao jornalista.

– Queria dizer‐lhe que eu estou aqui de boa‐fé mas que me sinto muito insultado, muito ofendido, só com as suas perguntas!

Naquele final de tarde, é já um dado praticamente adquirido que a notícia será publicada na edição do dia seguinte. Perante a iminência do abismo, Sócrates dá um salto em frente.

– Você pode consultar o dossiê da Uni, porque é que não o foi consultar?
– Tentei fazê‐lo mas foi‐me negada a consulta porque precisavam de autorização do próprio.
– Mas então eu disponibilizo. Vou falar com o reitor da Uni e depois você liga para ele e combinam; você vai lá, não tem qualquer problema.
– Muito bem, então eu assumo o compromisso de adiar a notícia; não queremos publicar coisas que não sejam verdade.

Quinta‐feira, dia 15 de Março de 2007

A meio da manhã, Ricardo Dias Felner liga a Luís Bernardo. Quer saber se o contacto com Luís Arouca, reitor da Uni, já foi feito. Não foi. Bernardo empurra de novo o relógio.

– Só te posso dar a resposta da universidade no final do dia.

O jornalista fica fulo. Está cansado daquele jogo do gato e do rato.

– Não foi isso que foi combinado ontem, estão a faltar à palavra!

Sócrates está aflito. O cerco do Público ao aluno número 95.385 é real – é bem apertado. Precisa rapidamente de um aliado – e Luís Arouca, reitor da Uni, que estava desesperado por ajuda governamental para salvar a instituição, é o parceiro mais óbvio.

Desde a sua fundação que a Uni era um viveiro de políticos – os seus fundadores perceberam muito cedo que para sobreviver era necessário criar raízes dentro do establishment – à esquerda e à direita. «Quem saía dos governos buscava lá algum consolo intelectual e respeitabilidade pública – além de ir também, por vezes, procurar negócios. Geralmente, quando caía um governo já sabíamos que nos iam aparecer vários ex‐ministros ou ex‐secretários de Estado à porta. Nunca vinham directamente. Algum amigo comum aparecia para um almoço, por acaso, e dizia que fulano tal tinha imenso potencial e know‐how e poderia ser uma excelente aquisição para a universidade. Porque não o convidamos?»

A pergunta era retórica, claro – desse ponto de vista os dirigentes da Independente eram muito previsíveis. Um dos políticos que por lá passou foi Luís Marques Mendes. Começou a dar aulas em 1995, na ressaca do cavaquismo, de que fora uma das figuras mais destacadas. Currículo que apresentou para convencer a gestão da universidade do seu virtuosismo académico: estava na política desde os 18 anos, aos 20 era vice‐presidente da Câmara Municipal de Fafe e aos 28 tornara‐se secretário de Estado Adjunto do ministro‐Adjunto. Na cadeira de Direito da Comunicação, nunca conseguiu implementar o programa da disciplina. Rapidamente se afastou. Outras figuras que pontificavam na universidade: Arlindo de Carvalho, ex‐ministro de Cavaco Silva; Álvaro Campos Ferreira, deputado social‐democrata; Pedro Duarte, jovem deputado do PSD; Rui Paulo Figueiredo, socialista próximo de José Sócrates; Ana Catarina Mendes, também deputada socialista. E mais, muitos mais – Alberto João Jardim, por exemplo, que, ao contrário da esmagadora maioria dos políticos que passaram pela Uni, deixou óptima imagem.

Desde a sua fundação que a Uni era um viveiro de políticos – os seus fundadores perceberam muito cedo que para sobreviver era necessário criar raízes dentro do establishment – à esquerda e à direita. 

José Sócrates conhecera Arouca em 1995, ano em que António Guterres venceu as eleições legislativas, apoiado por uma nova geração de militantes em que se destacavam figuras como Jorge Coelho, António Vitorino, António José Seguro – na altura presidente da Juventude Socialista – e, claro, José Sócrates. Quem os apresentou foi António Morais, professor de Engenharia na Uni.

Nessa altura, o socialista queria concluir a sua licenciatura, depois de ter feito um bacharelato no Instituto Superior de Engenharia de Coimbra (ISEC) e mais dois anos no Instituto Superior de Engenharia de Lisboa (ISEL). Faltar-lhe‐iam poucas cadeiras. Arouca não hesitou em ajudá‐lo. Nessa altura ainda não era reitor – assumiria o cargo no Verão de 1996 –, mas o seu poder interno dava‐lhe autonomia para fazer quase tudo o que queria sem dar satisfações a ninguém. Chamou a si o processo, que geriu, do ponto de vista académico, com António Morais. O processo de adesão nunca chegou a dar entrada oficial na universidade, o que explica que Sócrates não aparecesse nas estatísticas que as instituições eram obrigadas a enviar regularmente para o Ministério da Educação.

Quinta‐feira, 15 de Março de 2007

As questões levantadas por Ricardo Dias Felner são muitas – demasiadas para que Sócrates possa responder‐lhes sem ajuda. Dá instruções à sua secretária para o colocar em contacto com Luís Arouca.

Secretária de José Sócrates (JS): Está sim? É do gabinete do primeiro‐ministro. Estou a falar com o senhor professor Luís Arouca?
Luís Arouca (LA): Sim, é o próprio.
Secretária de JS: Posso passar‐lhe o senhor primeiro‐ministro?
LA: Com certeza que sim.
JS: Tá lá, como está, senhor professor? Desculpe falar‐lhe num momento chato para si, pá. Eu tenho acompanhado… imagino que tenha aí…
LA: … Tem sido complicado. Felizmente vamos mantendo isto mas não há dúvida nenhuma que tem sido uma situação complicada…
JS: Sim, muito difícil. Eu tenho acompanhado e tem sido horrível para si… lamento muito, pá, que isso tenha acontecido.
LA: Também eu, pá. Ainda por cima quem pôs cá o Rui [Rui Verde, ex‐vice‐reitor da Independente e seu grande rival na guerra interna que minava a Uni] fui eu, pá, que tratei como um filho. E você não sabe metade da história. Quando souber, enfim…
JS: Enfim, olhe, lamento muito que isso tenha acontecido… Quando eu puder ajudar lá o farei.
LA: Obrigadíssimo.
JS: Mas eu ligo‐lhe por causa do seguinte, pá: anda para aí uma campanha absolutamente miserável, e muito semelhante à que me fizeram aquando da campanha eleitoral pretenderam insinuar que eu era homossexual… e que visa, no fundo, dizer o seguinte: ele não concluiu a licenciatura. Esta campanha é uma campanha recente que também está ligada com a Independente e com problemas na Independente, não é verdade?
LA: Sim, sim…
PS: Bom, isto é uma campanha que se passa ao nível desses répteis, ao da blogosfera e do anonimato… e da ordinarice… à qual eu tenho reagido com superioridade e indiferença que acho que é a única atitude para com essa canalha.
LA: Absolutamente, absolutamente.
JS: Mas recentemente ligou‐me um jornalista do Público, imagine, dizendo, enfim, que tinha conhecimento destas coisas que circulavam através dos blogues e que queria tirar isto a limpo. Eu decidi falar com ele. Lá lhe contei a minha história académica, bacharelato em Coimbra, fui para o ISEL [Instituto Superior de Engenharia de Lisboa], a meio do ISEL decidi ir para a Independente, onde me licenciei; e depois fui tirar o MBA no ISCTE [Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa]. Mas ele queria confirmar umas coisas e perguntava‐me notas na Independente e equivalências […] e pediu‐me autorização para ir ao meu dossiê na Independente. Eu disse‐lhe que não tinha nenhum problema com isso, não tenho nada a esconder.
[…]
JS: A ideia deles… esses marotos, é basicamente a seguinte: ele foi para a Independente, já era secretário de Estado, o que eles procuram insinuar é que a Independente me deu basicamente a licenciatura.
LA: É o que eles pretendem insinuar, claro. Mas é um disparate que já está suficientemente rebatido. Você é que tem que dizer, ou, se quer que a gente lhe diga as notas e as equivalências ou pura e simplesmente manda‐os a tal lado… é como você quiser.
JS: Eu estava a pensar, se o professor me fizesse esse favor, era telefonar ao jornalista a dizer que falei com o senhor reitor e que ele o receberá e mostrará todos os documentos.
LA: Ele chega cá com essa indicação sua e está perfeito, pá.
JS: O que é que eu lhe pedia? A ideia deles é… Universidade Independente, ele já era secretário de Estado e tal… e portanto facilitaram. O que eu acho importante… Nós podíamos combinar, o que é verdade; primeiro, nós só nos conhecemos pessoalmente depois de eu terminar a licenciatura…
LA: É a pura das verdades…
JS: … A pura das verdades. Em segundo, este processo seguiu os seus trâmites… Nós [universidade] temos muitos alunos que vieram do ISEL.
LA: E todos tiveram equivalências como você teve.
JS: Mas repare, professor, há uma coisa muito importante que é a seguinte, só para lhe recordar: o meu bacharelato em Coimbra foi de quatro anos. Eu já não me lembro de quantas cadeiras é que fiz no ISEL… mas fiz… [pausa]… Lembro‐me que fiz um ano, pelo menos.
LA: Era um curso avançado que eles davam.
JS: Era um curso avançado com equivalência à licenciatura… e eu fui para a Universidade Independente como muitos outros alunos do ISEL foram porque a Universidade Independente era próxima do ISEL, e a universidade tinha um apelo que, por exemplo, o ISEL não tinha, e muitos alunos do ISEL terminaram aí a sua licenciatura.
LA: Sim senhor, é a pura das verdades.
JS: Bom, há uma coisa que talvez fosse de evitar, e que é a seguinte: os nomes dos professores…
LA: … Sim, mas não fazemos tenção de dar os nomes dos professores, a menos que você queira.
JS: Não, não, não, não… não há nomes de professores, nem o professor se lembra, nem tem, enfim… [pausa], e portanto era apenas as cadeiras que eu fiz no ISEL e no… [pausa]
LA: … Primeiro no ISEC…
JS: … Primeiro no ISEC, depois no ISEL e as equivalências dadas. Eu já nem me lembro de quantas cadeiras é que fiz aí, mas acho que foram quatro.
LA: Salvo erro fez três ou quatro, mas dentro de toda a legalidade porque as equivalências que lhe foram dadas a si foram dadas a várias pessoas que tinham condições semelhantes.
JS: Bem, eu acho que nem tinham condições semelhantes, tinham condições piores porque o meu bacharelato foi de quatro anos. Somado com aquele ano do ISEL dava cinco anos.
LA: Tem muita razão. Tinha condições, comparativamente, mais favoráveis.
JS: Mas foram exactamente as mesmas…
LA: … Exactamente, as mesmas…
JS: Mas antes disso posso pedir‐lhe um favor, professor?
LA: Diga. Todos.
JS: Se o professor chamasse a si esses papéis e lhes desse uma vista de olhos, ainda poderíamos voltar a falar.
LA: Com certeza. Eu vou ver os papéis e ligo‐lhe amanhã e depois quando você quiser… no fim‐de‐semana… um dia qualquer, quando entender estou ao seu dispor porque realmente estes gajos precisam de uma lição, pá.
JS: Ouça, quer dizer, eu já tenho a experiência suficiente e a pele dura para lidar com esta gente ignóbil, absolutamente ignóbil.
LA: É verdade, é verdade. Aliás, deixe‐me felicitá‐lo, eu sempre me sinto um homem ligado a vocês, não é? Embora não esteja inscrito no partido, mas devo‐lhe dizer que você tem feito uma acção brilhante.
JS: Muito obrigado, muito obrigado. Eu também fico muito satisfeito por o ver combater. E agora é preciso combater. Também gostava de lhe dar uma palavra de moral… para recuperar isso…
LA: Obrigado… vai‐se recuperar.
JS: E quando eu puder ajudar, que agora não posso, bem sei, mas quando eu puder ajudar cá estarei, cá estarei.
LA: Sim, sim, contamos consigo…
JS: Cá estarei, cá estarei…

Por estes dias, a Uni vive em tumulto permanente. Durante anos, os seus responsáveis, com Luís Arouca à cabeça, investiram somas milionárias num estilo de vida faraónico. Viagens em jactos privados, almoços com vinhos de 500 euros, carros de luxo, jóias e casas sumptuosas; tudo isso fazia parte do universo dos fundadores, devidamente financiados pelos cofres da instituição.

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Um acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa, baseado em milhares de provas, conta como os cabecilhas da universidade cometeram burlas e até inundaram uma cave para destruir documentos. Contra eles pendiam suspeitas de crimes de associação criminosa, burla, fraude fiscal, abuso de confiança, corrupção, falsificação, recepção ilícita de depósitos e branqueamento de capitais. Rui Verde, ex‐vice‐reitor, acabou preso na sequência da investigação do Ministério Público à Uni.

No mesmo dia 15 de Março, Sócrates pede novamente à sua secretária para ligar a Arouca. Quer falar com ele sobre um tema sensível: a prova da cadeira de Inglês Técnico, uma disciplina que não fazia parte do seu plano de estudos inicialmente previsto, mas que foi incluída manualmente e que Luís Arouca fez questão de leccionar – apesar de nunca ter ministrado aulas de inglês anteriormente. A avaliação consistiu de um trabalho previamente discutido por Arouca e Sócrates num almoço realizado no Pap’Açorda, entre pastéis de bacalhau e arroz de tomate. O exame foi feito em finais de Agosto, num domingo, e enviado por fax já depois de requerido o diploma. A pauta da cadeira não está sequer assinada na documentação original – embora posteriormente tenha surgido assinada em alguns jornais, um facto estranho que faz levantar a possibilidade de a mesma ter sido adulterada. Compreende‐se, por isso, a preocupação de José Sócrates quando fala com o reitor.

[…]

JS: Eu até me lembro de uma cadeira ter feito directamente consigo…
LA: Fez Inglês Técnico…
JS: …Inglês Técnico… Talvez até fosse bom ignorar isso… ou dizer «olhe fez comigo e foi aí que eu o conheci e tal»…

O primeiro‐ministro está a mil à hora. Telefona de novo a Luís Arouca, que se encontra a conduzir. Objectivo: certificar‐se das notas que obteve e das cadeiras que fizera. Felner consultaria o dossiê no dia seguinte e nada podia falhar.

JS: Mas portanto quantas cadeiras eu fiz na universidade?
LA: Na universidade teve, portanto, Inglês Técnico 1, Análise de Estruturas 2, Projecto e Interpretação 3, teve Betão Armado e Pré‐esforçado 4 e Estruturas Especiais 5.
JS: Portanto fiz cinco cadeiras. Cinco cadeiras com quatro anos de bacharelato e com mais um ano que fiz na…lá…no…
LA: … Aqui no ISEL.
JS: Sim, no ISEL. Sim, quer dizer, a questão é que me deram as equivalências exactamente que davam a todos os alunos do ISEL.
LA: Absolutamente. Oiça, a todos. Estão aqui pedidas, aqui dadas. Está tudo aqui. Isso, o processo está rigorosamente completo. Como lhe digo, renovo os… Agora não são só os parabéns pela magnífica legislatura de governo que tem tido, mas você foi um aluno óptimo.
JS: Oiça, fui aí como fui depois… Eu…sempre… sempre fui bom aluno. Nunca tive problemas. Fui o melhor aluno do MBA, não é? Mas esta campanha miserável…
LA: Mete nojo, está a ver…
JS: … Que se destina a diminuir um adversário político… Esta direita não tem escrúpulos… não tem escrúpulos…

Sócrates desliga. O reitor não é suficientemente ágil. Vai correr mal.

Sexta‐feira, 16 de Março de 2007

Foi difícil, mas possível. Finalmente Ricardo Dias Felner fala pessoalmente com o reitor e tem acesso ao processo, que consulta e fotocopia. Nesse mesmo dia, o jornalista toma conhecimento de novos dados que apontam para mais irregularidades no curso do que as que eram apontadas no post do Portugal Profundo. Contacta repetidamente Luís Bernardo. Quer uma reacção imediata do primeiro‐ministro, mas o que obtém é um adiamento – mais um. Envia as novas questões por e‐mail.

À mesma hora, em São Bento, Sócrates está ansioso por saber tudo sobre a visita de Felner à Uni. Pede à secretária para ligar a Arouca. O reitor, sempre fiel ao registo subserviente que caracteriza os seus diálogos com o primeiro‐ministro, desdramatiza o teor da conversa – mas não o suficiente para descansar Sócrates, que se já está agitado, fica chocado quando o reitor o informa de que deu cópias do processo a Ricardo Dias Felner – um lapso potencialmente fatal.

JS – Está lá?
LA – Viva, como está?
JS – Ó meu caro reitor, como está?
LA – Cá vamos, meu caro primeiro‐ministro.
JS – Então, como correu a coisa?
LA – Olhe, correu bem, embora ele com uma postura um pouco ditatorial, lá lhe demos o que ele queria saber […]. Quanto ao resto, também fez uma pergunta de passagem que estava no dossiê… não sei se se lembra quando você mandou o seu trabalho sobre… sobre…
JS: Inglês Técnico.
LA: Sim, exactamente, o Inglês Técnico. Mandou‐me simpaticamente aquilo [o trabalho final, remetido por Sócrates aquando da conclusão do curso] com uma capinha por cima que dizia «Exmo. Sr. Reitor». O que é normal porque não se manda aquilo sozinho, manda‐se com uma capinha por cima. Bom… quis ficar com a capinha e perguntou‐me o que era aquilo. Eu disse que correspondia aqui ao trabalho. Disse que o trabalho não interessa mas ficou com a capinha.
JS: A capinha? Mas qual era a capinha?
LA: A capinha… uma capa branca, pá, que só tem escrito «Exmo Sr. Reitor da Universidade Independente» e, no canto superior esquerdo, José Sócrates. Pronto. Salvo erro, naquela altura que você mandou morava ali para o Restelo. Olhe, não me lembro, em cima, à esquerda, vinha José Sócrates e depois vinha «Exmo. Sr. Reitor da Universidade Independente». E pronto. É uma folha branca, que era a folha que capeava os elementos todos que você mandou que se tratava do Inglês Técnico. Que, se se lembra, era um problema de desperdícios e tratamentos e isso… Também não percebi bem porque quis ficar com uma folha que era uma simples folha de capeamento, mas pronto…
JS: A que horas é que foi isso?
LA: Isto passou‐se entre as 09h30, um quarto para as 10h, e as 10h30.
JS: Enfim, vocês tinham aí a minha informação escolar do ISEC e do ISEL.
LA: Tudo. Demos tudo. Fotocópias da informação toda.
JS: Ai sim? Os originais ou as cópias?
LA: Demos o que tínhamos. Os originais não temos nós. Nós temos fotocópias, não é? Viu lá as notas todas e inclusive quando se pediu aqui a equivalência, as equivalências que nós demos, as quatro ou cinco cadeiras que fez aqui, as notas, enfim, demos tudo o que, segundo as suas indicações, lhe podíamos dar, que constam do processo. Só não podíamos dar agora os pagamentos e essas coisas.
JS: Bem… Por acaso só não sei se lhe devíamos ter dado isso, podíamos ter‐lhe mostrado. Dar fotocópias… enfim, não sei…
LA: Mas oiça: se não lhe déssemos ele pedia a Lisboa e a Coimbra. São públicas. A mim pareceu‐me que não havia inconveniente nenhum. Porque é com base nessas notas e justamente foram dadas as equivalências.

A chamada termina e Sócrates não quer acreditar que a ingenuidade do reitor seja inversamente proporcional à dimensão de um micróbio. Como foi possível fornecer as fotocópias do processo a Felner?! Agora é oficial: o ouro está nas mãos do bandido.

A chamada termina e Sócrates não quer acreditar que a ingenuidade do reitor seja inversamente proporcional à dimensão de um micróbio. Como foi possível fornecer as fotocópias do processo a Felner?! Agora é oficial: o ouro está nas mãos do bandido.

Sábado, 17 de Março de 2007

Ricardo Dias Felner fuma um cigarro na companhia de duas colegas do Diário de Notícias e da Lusa quando recebe um telefonema de Luís Bernardo, com quem já se cruzou neste dia. Os dois estão na FIL, em Lisboa, para assistirem, cada um na sua qualidade, ao Fórum Novas Fronteiras, organizado pelo Partido Socialista. Bernardo pede‐lhe que vá ter com ele à entrada de uma das salas onde decorrem as conferências. Quando lá chega, é informado de que Sócrates quer vê‐lo pessoalmente. A possibilidade de recusar não lhe passa pela cabeça.

Num tom mais conciliatório do que o habitual, Sócrates tenta convencer o jornalista – uma vez mais – de que tem um percurso académico impoluto e completo, imune a conspirações tenebrosas que só visam prejudicá‐lo. Felner não vacila. Volta a colocar‐lhe as suas dúvidas – as antigas e as novas –, pedindo que elas fossem esclarecidas. A tentativa de doutrinação do jornalista falhara. Nesse mesmo dia, Sócrates telefona de novo a Luís Arouca.

JS – Está?
LA – Boa noite.
JS – Olá professor, como está? Eh pá, você desculpe mas eu tenho aqui um fax, um e‐mail, deste malandro deste jornalista, pá, com umas coisas extraordinárias. Diz ele assim: «De acordo com informações de um responsável da Universidade Independente, à época em que o senhor primeiro‐ministro frequentou aquela instituição, em 1995 e 1996, não foram ministradas quaisquer cadeiras do terceiro e do quinto ano nesse período.»
LA – É uma informação falsa.
JS – É falso, não é? A mesma fonte garante que o curso de Engenharia Civil se iniciou em 1994/95 e em 95 e 96 só foram ministradas as cadeiras do 2.o ano desse curso.
LA – Continua a ser uma informação falsa.
JS – Desculpe uma coisa mas eu lembro‐me bem de estar no exame e haver mais alunos.
LA – Mas claro que sim.
JS – Depois diz aqui: «Quem orientou o projecto de dissertação?» Eu não tive nenhum projecto de dissertação…
LA – Pois… ele pergunta isso, não? É estúpido, não tem que ter resposta nenhuma. Não há projecto de dissertação.
JS – Estes gajos… Eh, pá, mas oiça: pedia‐lhe, professor, que… isto tem de ser desmentido pela universidade, não é?
LA – Mas sem a mais pequena dúvida. Isso é tudo desmentido!
JS – Mas eu tive vários colegas a fazer o exame…
LA – Claro, mas é evidente. Não tem nada a ver uma coisa com a outra.
JS – Mas vamos lá ver. Ele diz aqui também um projecto de dissertação do quinto ano. Mas eu não me lembro de ter feito isto…
LA – Não há um projecto de dissertação, isso é… não percebo o que é que ele diz… um projecto de dissertação? Bem…
JS – Como conclui ainda a cadeira de Estruturas Especiais?
LA – Essas duas cadeiras, pelo menos o que lá está nos nossos registos é que foram dadas e feitas pelo António José Morais.
JS – Mas quais cadeiras?
LA – A cadeira de Estruturas Especiais, que é realmente uma das cadeiras que existe […] mas que está feito está. E o autor e a nota que lá tenho é do António José Morais. Se não se lembra ele talvez se lembre. Um projecto de dissertação também não é nada complexo. É você, por exemplo, fazer um projecto de uma casa.
JS – Mas na altura não havia outros alunos a fazer…
LA – O Morais deve ter, com certeza. É uma questão de se lembrar. Devem ter combinado os dois, devem ter feito, deve ter dado as suas orientações.
JS – Bom, ok, está bem professor. Vou remetê‐lo para si, pá, vou…
LA – Remeta à vontade, eu já lhe respondi a tudo isso.

JS – Ok, está bem, professor. Um grande abraço, adeus.
LA – Abraço, adeus, tchau, pá.

Sócrates está eléctrico. Ainda nesse dia, volta a ligar a Arouca. É que, em vez de esclarecer, a informação prestada a Ricardo Dias Felner pelo reitor ainda aumentou mais a confusão – e o jornalista fê‐lo sentir ao gabinete do primeiro‐ministro. As contradições acumulam‐se perigosamente.

JS – Está?
LA – Sim, diga.
JS – Olhe, meu caro, ele diz‐me que perguntou ao senhor reitor se aquelas cadeiras foram ministradas naquele ano e diz que o senhor reitor não lhe disse que sim.
LA – Ele pode dizer o que quiser. Obviamente que lhe disse que não poderia garantir que todas as cadeiras do curso autorizado tinham sido ministradas naquele ano. E a prova de que foram é que eu tenho em meu poder, embora eu não lhe tenha dado a ele, como digo, as suas notas das cadeiras ministradas pelo António José Morais, com as assinaturas dele.
JS – Pronto, ok, amanhã falaremos, professor. Já lhe disse que o senhor professor confirmava isso.
LA – Mas fica claríssimo. Foram ministradas.
JS – Talvez pudéssemos, sei lá, pá… falar com um professor qualquer que…
LA – …Sim, mas falamos. Já tinha pensado aqui… Não era um professor qualquer. Era com o Carvalho Rodrigues e com todos os outros professores. Claro que vamos agora atestar que o curso começou, que o curso foi dado, etc.
JS – Está bem, muito obrigado.
LA – Abraço, adeus.

As conversas não acabariam por aqui. Sócrates está em pânico com a iminência da divulgação de «uma falsidade». Sabe que a humilhação pública será dura. Telefona de novo para o reitor.

JS‐ Olá professor, desculpe mas lembrei‐me aqui de uma coisa. Vamos lá ver: eu quando fiz as cadeiras havia outros alunos que certamente naquela altura fizeram as cadeiras.
LA – Sim, eu é que não me lembro de cor do nome deles e temos de ver se os encontramos.
JS – Sim, sim. Agora diga‐me uma coisa: era possível descobrir outros alunos que tivessem feito essas cadeiras nessa altura?
LA – Oiça, só procurando. Com certeza que há…
JS – Está bem, está bem…
LA – Para já, para já, tem as suas cadeiras todas com a nota, todas feitas, não quer dizer que tenham sido feitas todas nestes dias. Foram lançadas no mesmo dia. Nas nossas pautas, legalíssimas. Pelo António José Morais. Todas elas foram lançadas no dia 08/08/1996.
JS – Meu caro, então falamos amanhã.
LA – Está certíssimo.

Sócrates está eléctrico. Ainda nesse dia, volta a ligar a Arouca. É que, em vez de esclarecer, a informação prestada a Ricardo Dias Felner pelo reitor ainda aumentou mais a confusão – e o jornalista fê‐lo sentir ao gabinete do primeiro‐ministro. As contradições acumulam‐se perigosamente.

Terça‐feira, 20 de Março de 2007

A hora da verdade está perto: a publicação da notícia está por dias. No gabinete do primeiro‐ministro, o ambiente é irrespirável. Não podem desistir. O trabalho, que consideram incorrecto, injusto e manipulatório, tem de ser travado. E, se Felner se mostra tão rigorosamente inflexível, está na hora de falar com o seu chefe.

José Manuel Fernandes, director do Público, está fora de Lisboa, numa visita de vários directores de jornais ao Hospital Amadora‐Sintra, quando recebe uma chamada de Luís Bernardo.

O assessor vai directo ao que interessa.

– Eh pá, eu acho que vocês têm toda a legitimidade para fazerem o trabalho de investigação jornalística, mas têm de perceber uma coisa: um trabalho de investigação não se faz em dois, três dias, nem a correr, nem sob pressão constante.

José Manuel Fernandes tenta amenizar o clima. E aproveita a ocasião para se queixar do comportamento de Sócrates em relação ao jornal.

– Reconheço que é um trabalho que tem algum melindre, vou analisar, mas deixa‐me dizer‐te que sou director do Público há muitos anos e nessa qualidade sempre tive a oportunidade de falar com todos os primeiros‐ministros. Nunca falei com José Sócrates, apesar de já ter feito várias diligências nesse sentido. Acho que seria bom para as duas partes que isso acontecesse.

Bernardo vê uma janela de oportunidade.

– Mas tu queres falar com ele?
– Estou, estou interessado.
– Mas sobre quê?
– Sobre assuntos gerais, há aqui umas coisas que eu queria ver.

A chamada termina com o assessor a comprometer‐se a falar com o primeiro‐ministro sobre a possibilidade de este se encontrar com o diretor do Público. E com este a reforçar o que o seu jornalista já exigira: uma resposta formal, por escrito, às questões remetidas.

Ainda nesse dia a conversa produz efeito. Está José Manuel Fernandes em plena auto‐estrada, aflito com o facto de o seu carro se encontrar quase sem gasolina, quando o telefone toca. Do outro lado da linha encontra‐se o homem que há três anos se recusa a falar consigo. Entra na estação de serviço, pára o carro e ali fica 40 a 50 minutos a dialogar com o chefe do Governo. Sócrates fala ininterruptamente durante os primeiros cinco a dez minutos. Repete o que já dissera a Felner.

– Isto é um boato que vem do mesmo sítio de onde veio o Freeport e o da campanha eleitoral!

José Manuel Fernandes estende‐lhe uma solução.

– Se for um boato é fácil matá‐lo: é só mostrar todos os documentos.

Durante a conversa, Sócrates faz uma referência subtil ao facto de ter uma boa relação com Paulo de Azevedo, filho e sucessor de Belmiro de Azevedo na liderança executiva da Sonae, comentário que o jornalista entende como uma pressão subliminar: ou se porta bem ou o primeiro‐ministro reequaciona a relação com o seu patrão. Posteriormente, em declarações à Entidade Reguladora da Comunicação (ERC), no âmbito de um processo de averiguação destinado a identificar eventuais pressões de Sócrates sobre a comunicação social, o primeiro‐ministro viria a negar taxativamente o conteúdo do diálogo, qualificando José Manuel Fernandes como um «covarde» que fez uma «desprezível deturpação do que se passou» quando o narrou à ERC no âmbito da mesma investigação.

Quarta‐feira, 21 de Março de 2007

Na redacção do Público, o director faz questão de acompanhar de perto a edição dos textos que constam do trabalho de Ricardo Dias Felner. Quer assegurar‐se de que o caso é apresentado da forma mais seca possível, sem gorduras desnecessárias passíveis de lhe retirar credibilidade. Quer mais: que a nota que o primeiro‐ministro remeteu ao jornal a propósito do tema tenha especial destaque. Não pode dar o flanco. Às 00h15, Luís Bernardo faz uma última diligência junto de Ricardo Dias Felner, só para confirmar que a notícia será finalmente impressa. Resposta: sim.

Quinta‐feira, 22 de Março de 2007

Se o ódio e a irritação fossem material inflamável, Lisboa ardia nesta manhã, no preciso micromilésimo de segundo em que Sócrates olha para a peça assinada por Felner. Tanta conversa, tanto tempo, tanta pressão, frenesim e excitação para nada. O texto sai – e o socialista explode.

O seu teor é tão agressivo como antecipara – os indícios de irregularidades sucedem‐se. Quanto ao Boletim de Matrícula: «[…] o único documento junto ao processo foi uma fotocópia do BI». Quanto ao Plano de Equivalências: «[sem] qualquer timbre nem carimbo e onde se concretiza que cadeiras mereceram equivalência por parte da Uni […] uma folha não numerada (como todas as outras), onde apenas surge o nome José Sócrates Sousa, manuscrito pelo próprio, e o mapa de equivalências por ele proposto. Acresce que o número de cadeiras a que é requerida a equivalência, 25, tem menos uma cadeira do que o total das disciplinas a que José Sócrates viria de facto a obter equivalência no processo de transferência: 26. Por outro lado, o espaço onde o responsável do conselho pedagógico pelo processo deveria colocar a sua assinatura está em branco.» E mais, muito mais.

É urgente responder imediatamente ao Público. Conter a disseminação do escândalo é prioritário. Sócrates e Bernardo decidem emitir uma nota dirigida ao director do jornal. Fiel ao seu estilo, o primeiro‐ministro não poupa nas palavras: «Não posso […] deixar de me indignar com mais uma campanha de insinuações, suspeitas e boatos que me pretende atingir na minha honra e consideração e que, à semelhança de outras de triste memória, assume dimensão difamatória e caluniosa. E têm sempre a mesma natureza – são veiculadas pelos mesmos meios, sob o anonimato dos blogues ou por jornais de referência no sensacionalismo e no crime. E usam, também, o mesmo método, limitando‐se a levantar suspeitas insidiosas com base em dados falsos.»

Luís Bernardo tenta tranquilizar o chefe. Arquitectara um plano de damage control. Nesse dia irá, juntamente com o seu colega de assessoria David Damião, fazer uma ronda telefónica pelos directores e editores dos principais jornais, estações de rádio e de televisão, a sensibilizá‐los para a alegada «falta de credibilidade» da notícia do Público – tem de se evitar a todo o custo a formação de uma onda informativa imparável que, a verificar‐se, poderá ser ruinosa para a já pouco católica imagem pública de Sócrates.

A tarefa, quase impossível, é parcialmente conseguida. As televisões não pegam no caso e, entre os jornais, só o Expresso o começa a investigar. No Público, o tema continua a ser tratado. Depois do primeiro artigo, seguem‐se outros. A dada altura institucionaliza‐se a ideia de que por cada pedra que se pontapeie, salta vigorosamente mais uma irregularidade no processo. Não são apenas as equivalências que estão em causa; são as notas atribuídas; é a alegada ausência das aulas; é o facto de o curso ter sido terminado num domingo; é a inexistência de livros de sumários, de horários, de listas de alunos, de professores e de disciplinas do curso; é…

Sócrates arde penosamente em lume brando. «Foi muito complicado gerir isto com ele. Estava muito revoltado, parecia acreditar genuinamente que os seus adversários políticos estavam no centro de uma conspiração para o derrubar.»

JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA

Têm de passar 19 longos dias até que o primeiro‐ministro, que sempre recusara comentar o assunto na esperança de que este se finasse de morte natural, resolva falar sobre o caso, através de uma entrevista televisiva. «Foi uma estratégia deliberada. Decidimos deixar sair toda a informação para, no momento em que entendêssemos que o fluxo informativo estava esgotado, finalmente falarmos já com todos os dados em cima da mesa, evitando o risco de, depois disso, sermos surpreendidos com mais novidades.»

Ninguém fica propriamente surpreso quando é revelado que a RTP é a estação escolhida para Sócrates se defender. A fraca importância que o canal estatal tem vindo a atribuir ao caso é alvo de críticas dentro e fora da estação. Entretanto, o Expresso publica novas e gravosas informações, impossíveis de ignorar. A SIC dá‐lhe eco, pedindo uma reacção ao gabinete do primeiro‐ministro. A coordenadora do Telejornal, Fátima Silva, também liga para São Bento. Quer uma declaração oficial – a linha definida pelo director de informação, Luís Marinho, defendia que a RTP só devia dar a notícia se tivesse algum comentário do primeiro‐ministro. Problema: Sócrates recusa‐se a comentar para a RTP. Estamos num impasse. Resposta de David Damião a Fátima Silva:

– Essa informação já foi dada à SIC.

Fátima insiste:

– Sim, mas eu estou a pedi‐la também…

Minutos depois, a coordenadora recebe uma chamada de Luís Marinho. Quer saber o que se passa com a notícia sobre Sócrates; se ela faz assim tanta questão de a dar. A jornalista explica‐lhe os seus argumentos e deixa a decisão nas mãos do director. Que opta por não noticiar o assunto. Hoje não se recorda de o ter feito: «Não posso desmentir que isso tenha acontecido, mas não me lembro mesmo. Na altura, o gabinete do primeiro‐ministro telefonava‐me com regularidade mas achava isso normal. Também falava por vezes com o primeiro‐ministro. O que aconteceu é que não quisemos ir a reboque do Público; preferia divulgar notícias que fossem produto da nossa investigação.»

Em condições normais, a entrevista seria conduzida por Judite Sousa, a entrevistadora‐estrela da estação. Mas, ao contrário do que acontecia, por exemplo, com o seu colega José Alberto Carvalho, Judite tem muitos anticorpos no gabinete de Sócrates. O primeiro‐ministro não aprecia o estilo que a celebrizou. É independente do poder político, faz as perguntas difíceis e menos difíceis e possui um estatuto que dificulta qualquer tentativa de condicionamento – ao seu nível, dentro da estação, só mesmo José Rodrigues dos Santos.

Felizmente para José Sócrates, dá‐se a incrível coincidência de a jornalista estar de férias marcadas para o Quénia. Luís Marinho ainda lhe pede para ficar: «Tentei que ela desmarcasse, mas não conseguia mesmo; era um pacote, uma coisa complicada de marcar e ela disse logo que tinha imensa pena mas não era possível desmarcar.» A escolha recai em José Alberto Carvalho, director‐adjunto de informação, e em Maria Flor Pedroso, editora de política da Antena 1.

No gabinete, a ida a estúdio é milimetricamente preparada pelo inner circle. Vieira da Silva, Pedro Silva Pereira, Augusto Santos Silva, Almeida Ribeiro e Luís Bernardo só descansam quando sentem que o primeiro‐ministro atinge a perfeição. Juntamente com Sócrates simulam as perguntas com que ele poderá ser confrontado. Luís Bernardo faz o papel de polícia mau, tentando irritar o chefe. Conhece‐o; sabe que explode facilmente – e é imperioso prevenir a eclosão de uma desgraça em directo.

Preparada a substância, passa‐se à forma. Depois de escolher a gravata que usará – uma prerrogativa que não dispensa –, o primeiro‐ministro recebe a maquilhadora (ironia das ironias, a mesma profissional que é responsável pela imagem de Judite Sousa).

Como sempre acontece, o primeiro‐ministro chega ao estúdio em cima da hora. O que se segue é uma espécie de descontraído passeio na avenida. A tensão que se antecipava dilui‐se rapidamente. Os dois únicos momentos em que se sente um milímetro de frisson surgem quando se discute a sua alegada ausência das aulas e a relação que mantém com António Morais, o professor que lhe ministrou quatro das cinco cadeiras que lhe permitiram concluir a licenciatura na Uni.

Maria Flor Pedroso (MFP) – O senhor primeiro‐ministro já falou várias vezes das aulas. E senhor frequentava as aulas?
JS – Eu frequentava as aulas no regime pós‐laboral, cujo esforço… Nem sempre ia a todas as aulas, naturalmente, o regime pós‐laboral serve justamente para isso. Mas fiz aquilo que todos os alunos devem fazer, isto é, frequentar as aulas…
MFP – Pois, já percebemos…
JS – …Ter os exames e aproveitamento.
MFP – Sim, senhor. As outras quatro cadeiras, nesse ano que passou na Universidade Independente… as outras quatro cadeiras, foram todas leccionadas pelo mesmo professor. Isto pode acontecer? São cadeiras de anos diferentes […]. Quando é que o senhor conheceu António José Morais?
JS – Eu conheci António José Morais, o professor António José Morais, quando ele foi meu professor. Tive sempre com ele uma relação de aluno/ professor. E conheci‐o nessa altura – repare que não são os alunos que escolhem os professores, mais uma vez…
MFP – Claro, também já disse.
JS – Conheci‐o nessa altura e durante esse período. Depois de ter acabado a minha licenciatura não tive, nem tenho, nenhuma relação pessoal, próxima ou…
MFP – …E política, tem?
JS – …De qualquer tipo.

O objectivo número um – sobreviver à conversa – é atingido. Largamente. Fica por alcançar o segundo: apagar definitivamente a fogueira em que arde em lume acelerado. Apesar dos esforços dos jornalistas, a verdade é que fica quase tudo por clarificar. No dia 22 de Abril, precisamente um mês depois da publicação da primeira notícia, o jornal de Belmiro de Azevedo faz um ponto de situação especialmente doloroso para o primeiro‐ministro. Intitulado «O que ainda não foi explicado», o artigo elenca as 13 contradições, falhas, episódios duvidosos e declarações contraditórias que minam o processo:

  1. No dossiê de aluno estava um certificado, emitido em 2003, que referia que o curso de José Sócrates fora concluído a 8 de Setembro de 1996. Ora, noutro certificado, que foi enviado para a Câmara Municipal da Covilhã em 2000 para requalificar Sócrates como engenheiro civil, a data de fim de curso é de 8 de Agosto de 1996.
  2. As notas dos dois certificados de fim de curso não batiam certo.
  3. Teria sido, segundo a Universidade Independente, António Morais a definir o plano de equivalências com base nas cadeiras já terminadas no ISEC e no ISEL. Esse plano teria de ser aprovado pelo presidente do Conselho Científico da universidade. Não foi.
  4. Foram dadas a José Sócrates equivalências a cadeiras dificilmente coincidentes.
  5. O dossiê de aluno fornecido ao jornalista do Público foi alterado. Pelo menos duas pautas a que o Público teve acesso desapareceram quando, dias depois, o Expresso acedeu ao documento.
  6. O certificado que comprova que José Sócrates concluíra dez cadeiras no ISEL foi entregue na Universidade Independente quando o aluno já estava a acabar o ano lectivo – ou seja, as equivalências foram‐lhe inicialmente atribuídas com base na sua «boa‐fé».
  7. Numa folha que consta do dossiê de aluno, aparece a palavra «isento». Na entrevista que deu à RTP Sócrates apresentou um recibo, garantindo que pagou as propinas.
  8. Na entrevista à RTP, Sócrates afirmou que uma das razões para se ter transferido do ISEL para a Independente foi o facto de a universidade ser muito perto (a cerca de 500 metros). Mas a verdade é que quando requereu a transferência, em 1995, a Independente ainda funcionava nas instalações antigas, situadas na Rua de Fernando Palha, na Matinha, a cerca de cinco quilómetros do ISEL.
  9. Sócrates requereu ao reitor da Independente a sua transferência, mas quem a decidiu foi Luís Arouca, que naquela altura ainda não desempenhava aquela função.
  10. Na Independente, Sócrates teve apenas dois professores: Luís Arouca e António Morais. Arouca ministrou‐lhe a cadeira de Inglês Técnico (que nunca tinha ministrado anteriormente); Morais deu‐lhe quatro disciplinas, apesar de no seu registo de docente apresentar apenas quatro horas semanais de docência nesse período.
  11. Ao longo dos vários contactos que manteve com Ricardo Dias Felner antes da publicação da primeira notícia do Público, Sócrates nunca se lembrou do nome dos seus professores – apesar de terem sido apenas dois.
  12. Apesar de só se ter licenciado em 1996, em 1993 José Sócrates já surgia qualificado como engenheiro na Biografia dos Deputados.
  13. Sócrates nunca explicou por que motivo aparecia designado, na sua biografia oficial publicada no Portal do Governo, como «engenheiro civil» – e por que motivo só alterou a qualificação depois de ter sido confrontado pela imprensa.
No dia 22 de Abril, precisamente um mês depois da publicação da primeira notícia, o jornal de Belmiro de Azevedo faz um ponto de situação especialmente doloroso para o primeiro‐ministro. Intitulado «O que ainda não foi explicado», o artigo elenca as 13 contradições, falhas, episódios duvidosos e declarações contraditórias que minam o processo:

Apesar de todas as dúvidas, a verdade é que o tempo, devidamente empurrado pela avalancha da actualidade, encarrega‐se de ir fazendo a poeira baixar. Paulatinamente, Sócrates volta a poder respirar. Até que, em 2009, o advogado José Maria Martins, que ganhara visibilidade pública na defesa de Carlos Silvino – o motorista da casa Pia condenado à cadeia pelo crime de pedofilia –, decide avançar com uma acção de nulidade da licenciatura do então líder do Executivo.

Quando é informado da iniciativa, Sócrates desespera. É certo que José Maria Martins tem um enorme problema de credibilidade – as suas excentricidades valeram‐lhe mesmo uma suspensão de três anos pela Ordem dos Advogados por alegada violação de deveres previstos no estatuto da Ordem como a honestidade, a probidade, a rectidão, a sinceridade ou a independência – mas é um perigo à solta pela facilidade que exibe no acesso às páginas dos principais jornais e aos ecrãs das televisões. É um problema real, de nada vale escondê‐lo. Felizmente para o chefe do Governo, resolve‐se em velocidade supersónica: apenas duas semanas após a apresentação da acção, as procuradoras Cândida Almeida e Carla Dias decidem‐se pelo seu arquivamento.

«De toda a prova resulta claro que a ânsia de afirmação e aceitação rápidas da UNI – Universidade Independente, em fase de instalação, pelo mundo académico e científico, a desorganização do funcionamento administrativo, académico e pedagógico da mesma, pelo menos nos anos de 1993 a 1997, as deficiências do sistema informático de então, que lhe retiram credibilidade e rigor, bem como alguma anarquia vivida no seio daquela universidade, no confronto dos vários poderes entre os próprios docentes e responsáveis pelos órgãos e departamentos daquele estabelecimento de ensino superior são, em grande medida, causa directa do ambiente de facilitismo proporcionado aos alunos, fraco grau de exigência e falta de rigor pedagógico, numa exploração, ainda que se admita inconsciente, da vontade e determinação dos candidatos à obtenção de uma licenciatura.»

Dito isto, as procuradoras afirmam que Sócrates, em vez de culpado, é vítima: «Este [José Sócrates], como os restantes alunos em igualdade de circunstâncias, foram vítimas de uma publicidade agressiva e bem programada por parte da UNI – Universidade Independente.»

Conclusão: «Analisada e sopesada a prova produzida nos autos, conclui‐se não ter havido qualquer tratamento de favor do aluno José Sócrates.»

Estamos a 31 de Julho de 2007. O pesadelo acaba. Finalmente.

 

Este texto é a publicação integral de um capítulo do livro Cercado – Os dias fatais de José Sócrates, da autoria do jornalista da revista Sábado, Fernando Esteves, editado pela Matéria Prima

Os títulos, destaques e fotos são responsabilidade do Observador

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