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Buda Mendes/Getty Images

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"Agora sabemos que o Rio pode ser um lugar melhor"

Acaba a festa dos Jogos Olímpicos, volta a realidade. Que Rio de Janeiro é este? Quais são os maiores desafios? O Observador conversou com a Amnistia Internacional Brasil, uma jornalista e um taxista.

“A cultura aqui é ser farto”, diz Edvaldo Moraes um taxista com o cabelo branco encaracolado, que mete e tira o pisca como se estivesse a dar uma chapada em alguém. Falava na comida. Os Jogos Olímpicos foram bons para ele, deram mais trabalho, apesar “daquela coisa da Uber”, que o irrita ligeiramente. É feriado no Rio de Janeiro (segunda-feira), por isso fica mais fácil chegar ao aeroporto internacional: “Ohhh, cara. Isso aqui normalmente ‘tá parado mesmo”.

Edvaldo é dos que acredita que o Rio de Janeiro ficou melhor depois dos Jogos. Durante estes 20 dias ouvia-se muito pelas ruas que tudo foi feito para os que vêm de fora. Para quem fica, fica igual. Este taxista considera que, embora tenha havido obras à pressa, os transportes e acessos melhoraram bastante, há mais soluções no centro da cidade, há uma nova linha de metro, há elétricos evoluídos. Até o bondinho de Santa Teresa voltou a mostrar a sua beleza diariamente, entre as 8h e 16h, saradas as feridas do acidente que matou cinco pessoas e deixou feridas 57. Foi em 2011. Cinco anos depois, o amarelinho que tresanda a Lisboa volta a levantar-se todas as manhãs para fazer a travessia Largo do Guimarães-Carioca.

RIO DE JANEIRO, BRAZIL - JULY 27: Passengers ride across the Lapa Arches on the first day of pre-operations on the partially re-opened Santa Teresa tram line, or 'bonde', on July 27, 2015 in Rio de Janeiro, Brazil. The historic tram has been closed since a derailing accident in 2011 which left six dead and fifty injured. The first stretch to re-open covers about one kilometer of the scenic ten kilometer route. It has been operating since the late 19th century and is one of the oldest electric streetcar lines in Latin America. Rio is working on various transportation upgrade projects ahead of the games. August 5 marks the one-year mark to the start of the Rio 2016 Olympic Games. (Photo by Mario Tama/Getty Images)

Bondinho nos Arcos da Lapa (Mario Tama/Getty Images)

“Não é só prender e matar”, diz, sobre a atuação do Governo e polícia. “O país é maravilhoso, a cidade é maravilhosa, o problema são os governantes. São uma porcaria! É preciso investimento na favela, na Saúde, nos professores, têm de ganhar mais. Os nossos artistas, os medalhados [nos JO], nem recebem ajuda do Governo. Num país de primeiro mundo ajudam, dão um salário para eles.” Ou seja, este adepto do Fluminense, que nunca saiu do Brasil mas tem um desejo antigo de ir a França, não tem fé que o país vá melhorar

“Os Jogos, junto com os outros mega-eventos dos últimos anos, trouxeram, num contexto de grandes mudanças políticas, sociais e económicas, a noção de que o Rio pode ser uma metrópole melhor do que costumava ser”, explica ao Observador Julia Michaels, jornalista, criadora do blogue Rio Real. “De 1960 até 2009 não havia essa noção. Agora há mais gente com a sensação de potência, de querer ser melhor, de poder exigir melhorias, sobretudo nos serviços públicos.”

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"O país é maravilhoso, a cidade é maravilhosa, o problema são os governantes. São uma porcaria! É preciso investimento na favela, na Saúde, nos professores, têm de ganhar mais"
Edvaldo Moraes

Julia Michaels salienta a abertura do centro da cidade à baía, algo que Edvaldo mencionara também. Há, no entanto, a noção de que as águas têm de ser limpas, algo que melhorou por haver exigências devido a competições. Nesta segunda-feira, curiosamente, começou a circular um vídeo em que se mostrava alegadamente a abertura dos esgotos na lagoa de Botafogo.

“Em conjunto com as investigações Lava Jato, os Jogos trouxeram reflexões sobre o nosso sistema político no contexto mundial”, explica Michaels, “pois forçaram os brasileiros, que tradicionalmente olham fixamente o umbigo, a olhar para fora, a trabalhar com estrangeiros, foram obrigados a adotar novas maneiras de cumprir metas”. E aprofunda: “Temos a certeza, hoje, de que o sistema político não pode continuar do jeito que era e, mais importante, somos nós que temos de agir para mudá-lo”.

E o que mudou, então? “Os Jogos trouxeram grandes mudanças na área da mobilidade, cujo impacto saberemos daqui a mais tempo, apenas. Trouxeram deceção em questões de segurança pública, Justiça e moradia. Não teve a prometida integração entre as áreas formais e informais da metrópole. Levaram ao infeliz espraiamento urbano em direção ao oeste, que irá custar caro a todos, na provisão de serviços públicos.”

RIO DE JANEIRO, BRAZIL - JULY 04: Aerial view of Christ the Redeemer with Maracana Stadium in the background in preparation for the 2016 Olympic Games on July 4, 2016 in Rio de Janeiro, Brazil. (Photo by Matthew Stockman/Getty Images)

(Matthew Stockman/Getty Images)

Para esta jornalista, o Rio é já um sítio melhor do que era antes de 2009. “Lembra como era decrépito o centro da cidade? Há nova vida na Lapa e na Praça Mauá. Ouvem-se muitas reclamações sobre o legado olímpico, a mobilidade. Falta saber o real impacto, daqui a um tempo, da extensão do metro, quatro BRT, o VLT, a duplicação do Elevado do Joá, melhoras na SuperVia, a racionalização dos autocarros, a derrubada da Perimetral e os túneis que a substituíram”, escreveu Michaels no Globo. “Mesmo para os críticos, e eu sou um deles, a ideia de virada em si é nova no Rio. Acabou a acomodação”, avisa.

Esta jornalista garante que os cariocas gostaram dos Jogos. “Ficaram aliviados de não termos nenhum grande acontecimento negativo. Ficaram com raiva dos jovens nadadores [norte-americanos e a história do roubo inventada], que não respeitaram o Brasil.” Esse desrespeito ganha vários rostos, seja por preconceitos, seja por generalizações. Às vezes, dá a sensação de que há quem olhe para este país como um garoto mal comportado, a precisar de uns açoites. Isto porque é relaxadão, sabe dar festas e tem má fama de trabalhador. O Rio é tudo. Tem tudo. É céu e inferno ao mesmo tempo.

"Mesmo para os críticos, e eu sou um deles, a ideia de virada em si é nova no Rio. Acabou a acomodação"
Julia Michaels

Os dramas do Rio de Janeiro, finda a festa, mantêm-se. “Agora é saber como vamos pagar nossas contas, com menos receita e grandes compromissos de despesa, tanto na esfera estadual como municipal”, reflete a jornalista. “Veremos também como fica o partido dominante do Rio, o PMDB, com as investigações da Lava Jato. As demandas sociais só crescem, agora que sabemos que o Rio pode ser um lugar melhor. Teremos um desencontro entre as demandas e a real capacidade de preenchê-las, que pode desaguar em crime, violência social e ruturas políticas. Fundamentalmente, chegou a hora, no Rio e no Brasil, de enfrentar a questão da desigualdade, o cerne de tudo.”

“O estado de Direito está abraçando a barbárie”

A desigualdade observa-se sobretudo nas favelas, onde a segregação “é o normal” no Rio. “No Complexo do Alemão tem havido muito tiroteio, com mortes”, informa Michaels. Durante a primeira semana dos JO, foram registados 14 mortos e 32 feridos, resultantes de 59 tiroteios que tiveram lugar nas ruas do Rio, sobretudo nas favelas e periferia, informou ao Observador a Amnistia Internacional Brasil.

“Os mega-eventos desportivos tendem a aprofundar violações de Direitos Humanos que já acontecem na cidade”, explica ao Observador Renata Neder, assessora de DH da Amnistia Internacional Brasil. “O Rio de Janeiro teve a oportunidade e o fardo de sediar três mega-eventos desportivos nos últimos dez anos — jogos Pan-americanos 2007, Copa do Mundo 2014 e agora Jogos Olímpicos.”

A violência policial é o foco da AI. “A polícia do Rio de Janeiro é uma polícia que mata muito. Em dez anos, a polícia do estado do Rio matou oito mil pessoas em operações policiais. Quase cinco mil só na cidade do Rio de Janeiro, é um número dramático. Nos anos de mega-eventos desportivos a tendência é aumentar.”

RIO DE JANEIRO, BRAZIL - JULY 04: A boy wears a Neymar jersey as he flies a kite from a rooftop in the Cantagalo favela at the start of the Brazil-Colombia match on July 4, 2014 in Rio de Janeiro, Brazil. Kite flying and soccer are both popular pastimes in Rio's favelas. (Photo by Mario Tama/Getty Images)

Favela de Cantagalo, Rio de Janeiro (Mario Tama/Getty Images)

Segundo a assessora dos RH da AI brasileira, no ano do Campeonato Pan-americano registou-se um aumento de 30% de pessoas mortas. Em 2014, com o Mundial, o número aumentou 40% — no caso de São Paulo atingiu os 80%. Estes números comparam-se com os mesmos meses do ano anterior. “Em 2016 monitorizámos mês a mês e observámos que aumentou exponencialmente. Em abril, maio e junho o aumento foi de pouco mais de 100%. Ou seja, mais do que dobrou!”

Para Neder é uma questão de matemática: se uma polícia que mata muito tem mais operações policiais em anos de eventos desportivos, mais pessoas vão morrer. Simples. “Temos muito contacto com favelas no Rio de Janeiro, por isso começámos a perceber que o número de operações aumentou dramaticamente.” Tornou-se comum, diz, passarem de uma operação policial semanal para quatro.

“Toda a lógica das operações policiais no RJ é voltada e pautada pela lógica da guerra às drogas. Isso tem de mudar. A AI faz várias recomendações para redução da letalidade da polícia. O Brasil é o pais que tem mais homicídios do mundo. Já chegou a 60 mil homicídios por ano. É comparável a países que estão em guerra”, reflete. É por isso que defende que as operações deveriam visar a criminalidade violenta, apostando numa “prevenção da violência e redução da violência armada”, deixando as drogas para segundo plano. “A polícia enxerga os moradores das favelas como um exército inimigo a ser derrotado. As mortes são um mal necessário, um efeito colateral na lógica da guerra.”

"O Brasil é o pais que tem mais homicídios do mundo. Já chegou a 60.000 homicídios por ano. É comparável a países que estão em guerra"
Renata Neder

O combate às drogas falhou, acusa Renata Neder. “O consumo e o acesso às drogas não diminuíram nos últimos anos. Resulta antes em muitas mortes. A polícia do Rio mata muito e morre muito. A lógica deveria ser pautada pela redução de homicídios e preservação da vida”, insiste. “A polícia alega que mata em legítima defesa, mas em muitos casos ficamos sabendo que foram execuções. Há mortes que acontecem porque a polícia entra na favela atirando. Esse é um padrão. Há também o ‘Tróia’, uma alusão ao Cavalo de Tróia, que é uma emboscada. Os polícias escondem-se numa casa, horas e horas, esperando um indivíduo passar, para o executarem. É uma morte intencional.”

O problema, diz Neder, é a impunidade, que promove um aumento de casos. “Fazem o que fazem à luz do dia, sabem que nada vai acontecer com eles. Não adianta só olhar para o polícia que aperta o gatilho, há que olhar para cima na cadeia de comando. Há que olhar para a sociedade também. O polícia aperta o gatilho, mas a sociedade apoia isso. Na sociedade brasileira bandido bom é bandido morto. As pessoas olham para os territórios das favelas e os jovens negros, que são as principais vítimas da polícia, com enorme preconceito”, conclui.

E volta à carga: “O que acontece nas favelas é um estado de exceção. O Estado de Direito democrático não existe ali. O Estado de Direito está a abraçar a barbárie. Não é um problema novo, é estrutural e histórico.” Quanto ao perfil da vítima das operações policiais, a AI garante que 99.5% são homens, 79% são negros e 75% jovens entre 15-29 anos.

"O que acontece nas favelas é um estado de exceção. O estado de Direito democrático não existe ali. O estado de Direito está abraçando a barbárie. Não é um problema novo, é estrutural e histórico."
Renata Neder

“O perfil está claramente definido: jovem negro é a principal vítima da polícia. Antes que alguém fale que morrem mais negros porque a sociedade no Rio tem mais negros ou mais jovens, essa proporção não segue a da população em geral. A população carioca não tem 99.5% de homens, os jovens não representam 75% dos moradores do RJ.”

Se acontecer como no Campeonato do Mundo, as operações policiais terão abrandado durante a competição e voltarão em força a seguir. “A gente preocupa-se muito com o que vai acontecer quando os Jogos Olímpicos acabarem”, desabafa. Quanto a Julia Michaels, o amanhã é uma incerteza. Resta-lhe fazer uma coisa: “Não sei, mas vou rezar muito para que tenhamos alguma medida de tranquilidade…”

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