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epa12029030 A handout photo made available by the State Emergency Service of Ukraine (SES) shows Ukrainian rescuers working at the site of a rocket strike in downtown Sumy, Ukraine, 13 April 2025, amid the ongoing Russian invasion. At least 31 people were killed, including two children, and 84 people were injured, including 10 children, after a Russian rocket hit downtown Sumy in the morning, according to a report by the State Emergency Service.  EPA/STATE EMERGENCY SERVICE OF UKRAINE HANDOUT  HANDOUT EDITORIAL USE ONLY/NO SALES
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STATE EMERGENCY SERVICE OF UKRAINE HANDOUT/EPA

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"Arrastar" negociações, espalhar o "caos" ou abrir uma nova frente de guerra. Qual é a estratégia de Putin em Sumy?

O ataque em Sumy foi o mais mortífero de 2025. Zelensky acusa Putin de "arrastar" um acordo, os seus aliados dizem que está a manipular Trump. Mas a região também tem interesse estratégico.

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Svitlana saía de uma igreja no centro de Sumy quando dois mísseis russos atingiram a cidade no passado domingo de manhã. Refugiou-se num abrigo. A amiga com quem tinha assistido à missa seguia num autocarro que foi atingido, ficou gravemente ferida e está internada, relatou a mulher de 51 anos à BBC. Ao todo, este ataque russo matou 35 pessoas e deixou outras 120 feridas, segundo números das autoridades ucranianas — tornando-se o ataque mais mortífero deste ano na guerra na Ucrânia.

A violência visível nos vídeos do momento e o “cenário de horror”, relatado pelas pessoas que presenciaram o ataque, foram o mote para as duras críticas deixadas pelo Presidente ucraniano: “O ataque atingiu o centro da cidade no Domingo de Ramos”, apontou, numa referência à celebração religiosa do último domingo antes da Páscoa. “Só escumalha completamente perturbada é que pode fazer uma coisa destas”, acusou Volodymyr Zelensky.

O ataque em Sumy aconteceu menos de duas semanas depois de um outro bombardeamento russo, na cidade de Kryvyi Rih, que matou 19 pessoas. Os relatos das autoridades ucranianas sobre os dois ataques são semelhantes: um míssil balístico Iskander, com munições de fragmentação, foi disparado sobre uma zona residencial e matou dezenas de civis.

O aumento nos números de civis mortos em ataques contra a Ucrânia já tinha sido relatado pelas Nações Unidas em março, depois de a missão de monitorização da organização na Ucrânia ter registado um aumento de 50% no número de mortes civis em relação a fevereiro. No mesmo período, as movimentações diplomáticas para pôr fim à guerra também aceleraram, fruto da mediação dos Estados Unidos. Aliás, dois dias antes do ataque em Sumy, o enviado de Donald Trump, Steve Witkoff, deslocou-se pela terceira vez à Rússia, para discutir o fim da guerra. Depois de uma reunião de quatro horas com Vladimir Putin, Moscovo classificou o encontro como “produtivo”.

epa12029025 A handout photo made available by the State Emergency Service of Ukraine (SES) shows Ukrainian rescuers working at the site of a rocket strike in downtown Sumy, Ukraine, 13 April 2025, amid the ongoing Russian invasion. At least 31 people were killed, including two children, and 84 people were injured, including 10 children, after a Russian rocket hit downtown Sumy in the morning, according to a report by the State Emergency Service.  EPA/STATE EMERGENCY SERVICE OF UKRAINE HANDOUT  HANDOUT EDITORIAL USE ONLY/NO SALES

O ataque aconteceu numa zona central da cidade, depois de uma missa

STATE EMERGENCY SERVICE OF UKRAINE HANDOUT/EPA

O facto de os encontros diplomáticos não terem resultado em nenhuma trégua com efeitos concretos no terreno leva Kiev a apontar o dedo ao que diz ser uma estratégia consciente de Moscovo. “A Rússia vai continuar a arrastar esta guerra. É já o segundo mês em que Putin ignora a proposta dos EUA para um cessar-fogo completo e incondicional“, argumenta Zelensky.

A leitura ucraniana deste ataques encontra eco entre os aliados europeus, mas não é unânime. Alguns analistas veem em Sumy uma estratégia militar, mais do que uma estratégia política, da parte de Vladimir Putin. E o Presidente dos Estados Unidos, que continua focado em pôr fim à guerra, declarou que o ataque deste domingo se tratou de um “erro”.

A paciência de Putin contra a pressa de Trump

“Os temas em discussão são muito, muito complexos. Por isso, não se justifica continuar à espera de resultados imediatos. O trabalho continua”. As declarações do porta-voz do Kremlin foram deixadas esta segunda-feira, em relação ao encontro entre Witkoff e Putin, da passada sexta-feira. As palavras deixam transparecer a paciência com que Moscovo está a lidar com as negociações com Washington, que se opõe à urgência de Volodymyr Zelensky nos apelos que faz aos seus aliados para que ponham fim à guerra.

Mas o “arrastar das negociações”, como define o chefe de Estado ucraniano, pode ser uma estratégia para “ganhar tempo” nas negociações com Donald Trump, escreve o correspondente da CNN, Nick Paton Walsh, num artigo de análise. “[Putin] acredita que Trump se distrai com facilidade e está interessado numa vitória fácil e não num compromisso complexo”, argumenta. A opinião é partilhada pela antiga correspondente da Sky News em Moscovo, Diana Magnay: “Talvez [Putin] saiba que, se mantiver este impulso, o Presidente Trump se vai cansar de um conflito que não pode resolver e esquecer o assunto, para se focar nas suas prioridades económicas e esgotar os fundos para a Ucrânia”, escreve.

A natureza acelerada do Presidente norte-americano verifica-se nas declarações que tem feito. Ainda em campanha eleitoral, Trump prometia pôr fim à guerra “em 24 horas”. Meses depois, na passada sexta-feira, o chefe de Estado escrevia na Truth Social que a Rússia “tinha de se mexer”. “Temos de fazer com que [a guerra] PARE, E RÁPIDO”, reiterou esta segunda-feira na Truth Social.

"Espero que o Presidente Trump e a administração dos EUA vejam que o líder da Rússia está a troçar da sua boa vontade e espero que as decisões corretas sejam tomadas."
Radosław Sikorski, ministro dos Negócios Estrangeiros da Polónia

Não são só estes repórteres que encontram nas ações de Moscovo uma tentativa de manipular Washington. Na reação ao ataque russo em Sumy, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Polónia — um dos aliados mais próximos de Kiev — deixou um alerta aos Estados Unidos: “Espero que o Presidente Trump e a administração dos EUA vejam que o líder da Rússia está a troçar da sua boa vontade e espero que as decisões corretas sejam tomadas”, afirmou Radosław Sikorski.

As vantagens desta estratégia não se esgotam na relação de Vladimir Putin com Donald Trump. Alexander Kovalenko, fundador da associação ucraniana Information Resistance, que combate propaganda russa, destaca que os ataques não são apenas uma óbvia pressão militar sobre as forças ucranianas, mas uma pressão moral e psicológica sobre a população — que diz ser visível no facto de os ataques mais recentes terem visado zonas civis, como um parque infantil ou um largo de uma igreja. Esta pressão junto da população e não das Forças Armadas cria uma instabilidade interna que pode forçar a uma rendição ucraniana, elabora.

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Ou seja, à luz desta interpretação, os recentes ataques russos são uma jogada política com vários ângulos: por um lado, mantém Trump ocupado, revelando um falso interesse em negociar até que este desista de o pressionar. Por outro lado, pressiona Kiev a render-se ao criar medo e “caos” entre os civis.

Oleg Ignatov, analista sobre a Rússia no think tank Crisis Group, também considera que que “os russos não querem um cessar-fogo“. “Acho que não escondem isso. Olhando para as negociações, eles põem diferentes condições”, afirma ao Observador, elencando exemplos concretos: “Dizem que concordam com um cessar-fogo energético, depois dizem que não funcionou e depois querem negociar um acordo no Mar Negro [mas não chegam a acordo]”. No entanto, Oleg Ignatov não concorda que o ataque em Sumy também faça parte desta estratégia política.

A posição estratégica na fronteira e o caminho em linha reta até Kiev

A pouco menos de 30 quilómetros a leste de Sumy fica a fronteira com a Rússia, mais precisamente com a região de Kursk. Desde que a Ucrânia invadiu esta região, em agosto do ano passado, a cidade ucraniana passou a estar na linha da frente. Oleg Ignatov considera que o ataque deste domingo é um reflexo dessa proximidade aos combates em Kursk.

Há cerca de um mês, o Exército ucraniano perdeu o controlo da maior cidade da região, Sudzha, numa contraofensiva das forças russas. Na semana passada, o Ministério da Defesa russo anunciou que tinham tomado uma localidade ucraniana perto de Sumy, empurrando esta linha da frente para o território ucraniano. O analista do Crisis Group admite que a contraofensiva em Kursk se pode tornar numa ofensiva em Sumy.

epa11964831 A handout photo made available by the Russian Defence Ministry's press-service shows Russian servicemen walking along at an area in the Kursk region, Russia, 14 March 2025. The Russian Defense Ministry claimed that in the past week Russian forces recaptured 28 settlements in the Kursk region and captured the Ukrainian village of Novenkoye in Ukraine's Sumy region.  EPA/RUSSIAN DEFENCE MINISTRY PRESS SERVICE HANDOUT -- MANDATORY CREDIT -- HANDOUT EDITORIAL USE ONLY/NO SALES

A ofensiva ucraniana em Kursk aproximou os soldados russos da cidade de Sumy

RUSSIAN DEFENCE MINISTRY PRESS SERVICE HANDOUT/EPA

“Sumy é uma opção, porque mobilizaram muitas forças para aí, para expulsar os ucranianos de Kursk, e ainda as têm aí”, nota. No entanto, argumenta que esse avanço, caso aconteça, não será fácil, pois as tropas ucranianas também estão em força na região, onde procuram furar as linhas de defesa russa na região vizinha de Kursk, Belgorod. O analista aponta, por isso, que Moscovo pode decidir recolocar as tropas noutras zonas de pressão, como o Donbass ou Zaporíjia, noutra zona do país.

Vladyslav Seleznyov, antigo porta-voz das Forças Armadas da Ucrânia, destaca um outro motivo para o interesse russo em Sumy: “É um dos caminhos mais curtos na direção de Kiev“, afirmou em entrevista aos media ucranianos — da fronteira Kursk-Sumy (que os russos dizem ter atravessado) à capital ucraniana são cerca de 350 quilómetros. No entanto, tal como outros membros das forças ucranianas, Seleznyov insiste que as forças russas não têm meios suficientes para avançar toda esta distância em linha reta.

Em vez disso, o mais provável é que sigam a mesma estratégia que estão a utilizar na frente leste: estender a linha da frente o mais possível e criar uma guerra de atrito. No Donbass, isso traduziu-se num avanço muito lento dos russos, onde a ofensiva mais significativa, na direção da cidade de Pokrovsk, se prolonga desde julho do ano passado.

Ainda de olhos postos no mapa da Ucrânia, o enviado de Donald Trump à Ucrânia, Keith Kellogg, sugeriu, numa entrevista publicada este domingo pelo The Times, que o país poderia ser dividido em três zonas, numa situação semelhante à da Alemanha no pós-Segunda Guerra Mundial. Segundo esta proposta, as tropas da “Coligação dos Disponíveis”, lideradas pelo Reino Unido e França, ficariam responsáveis por toda a zona a oeste do rio Dnipro — que corta a Ucrânia sensivelmente a meio –, enquanto a Rússia ocuparia a zona a leste da atual frente de batalha no Donbass.

Posteriormente, Kellogg afirmou que este cenário se referia apenas a um cenário pós-cessar-fogo, de apoio à soberania ucraniana. No entanto, esta sugestão de divisão coloca toda a região no nordeste da Ucrânia sem qualquer apoio militar aliado. Ora, é nesta parte do país que ficam Sumy e Kharkiv, duas regiões onde as forças russas têm feito mais pressão, onde já passaram a fronteira, onde os ataques aéreos são mais frequentes e onde Zelensky tem pedido o reforço da ajuda aliada.

epa12029412 A handout photo made available by the National Guard of Ukraine shows the site of a rocket strike in Sumy, Ukraine, 13 April 2025, amid the ongoing Russian invasion. At least 32 people were killed, including two children, and 84 people were injured, including 10 children, after a Russian rocket hit downtown Sumy in the morning, according to a report by the State Emergency Service.  EPA/NATIONAL GUARD OF UKRAINE HANDOUT  HANDOUT EDITORIAL USE ONLY/NO SALESHANDOUT EDITORIAL USE ONLY/NO SALES

O ataque russo é justificado com um encontro militar na cidade

NATIONAL GUARD OF UKRAINE HANDOUT/EPA

O encontro de militares em Sumy que “justifica” o “erro” russo

Horas depois do ataque russo em Sumy, a deputada ucraniana Maryana Bezuhla escrevia no Telegram que a Rússia tinha tido acesso a uma informação dos Serviços de Segurança da Ucrânia: a de que vários militares ucranianos estariam reunidos em Sumy no domingo de manhã para uma cerimónia de entrega de prémios num edifício no centro da cidade, marcada para as 10h. Os mísseis atingiram o local por volta das 10h15. Para as 11h estava agendada uma atuação pública de crianças no mesmo local.

Bezuhla garante que “nada justifica o crime russo”, já que o Direito Internacional obriga a confirmar os alvos antes de um ataque. No entanto, critica as chefias militares ucranianas por realizarem encontros militares no centro de cidades populosas e principalmente quando coincidem com a presença de crianças no mesmo local. As suas críticas à administração militar ucraniana já a levaram, no passado, a abandonar o partido liderado por Volodymyr Zelensky, mas a deputada garante que continua a apoiar o Presidente.

A alegada presença de militares no local do ataque foi precisamente a justificação de Moscovo. “Temos provas sobre quem estava nas instalações que atingimos em Sumy”, declarou o ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, esta segunda-feira. Sergey Lavrov acrescentou ainda que se tratava de um encontro com comandantes da NATO. Já o Ministério da Defesa russo responsabilizou Kiev por “utilizar a população ucraniana como escudos humanos”.

Oleg Ignatov destaca que esta troca de acusações se tem repetido ao longo da guerra: a Rússia define um alvo militar, mata civis e responsabiliza Kiev pelas mortes. Mas destaca que isso continuará a acontecer nas regiões ucranianas densamente povoadas e com uma forte presença militar, neste caso Sumy: a cidade será sempre uma “zona de guerra”, em que os acontecimentos “trágicos” com “sofrimento civil” poderão acontecer, independentemente de estratégias diplomáticas e políticas.

"Parece que [os Estados Unidos] ignoram [estes ataques] de propósito porque estão mais interessados no contexto neste momento."
Oleg Ignatov, analista sobre a Rússia no think tank Crisis Group

A presença militar ucraniana no local serve não apenas como justificação para Moscovo atacar, mas como justificação para os Estados Unidos “fecharem os olhos” às mortes civis enquanto as negociações bilaterais com a Rússia decorrem, considera o analista. “Parece que ignoram isto de propósito, porque estão mais interessados no contexto neste momento”, aponta Oleg Ignatov, destacando as declarações de Donald Trump sobre o tema.

Questionado sobre o ataque, o Presidente norte-americano respondeu que “é horrível”. “Foi-me dito que [a Rússia] cometeu um erro. Mas acho que a guerra toda é uma coisa horrível. Milhões de pessoas estão mortas que deviam estar vivas”, afirmou horas depois do ataque, a bordo do avião presidencial.

Se a estratégia política de Putin é “manipular” Trump e a de Trump é “fechar o olhos”, Volodymyr Zelensky parece ter posto em cima da mesa uma alternativa: no domingo, em entrevista à CBS News, o Presidente ucraniano convidou o seu homólogo norte-americano a ver o resultado das ações russas. “Queremos que venha ver. Antes de qualquer decisão, qualquer forma de negociação, venha ver as pessoas, os civis, os guerreiros, hospitais, igrejas, crianças, destruídos ou mortos”, afirmou Zelensky. O convite permanece, até agora, sem resposta.

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