Com o avanço da campanha torna-se fácil adivinhar as respostas que os candidatos vão dar a certas perguntas dos jornalistas ou que tipo de discurso vão fazer quando puxam mais pelo seu eleitorado. No caso de Marisa Matias é simples saber que sempre que for confrontada com questões relacionadas com o tema do dia ou com os ataques pessoais que pairam por outras campanha vai optar por não responder. Sondagens, bate-bocas, ataques pessoais ou o futuro da “geringonça” são obstáculos que a eurodeputada vai sempre contornar. Do outro lado vai acenando com temas relacionados com política europeia, com discursos pró-feminismo ou com argumentos em defesa do clima. A estratégia tem sido esta desde o início e desde então que a número um da lista do BE às eleições europeias tem conseguido mantê-la em movimento.

As alterações na postura da candidata têm sido notadas sobretudo no tipo de ações de campanha que faz. A segunda semana já conta com três dias e três feiras — e ainda duas arruadas. Algo que permite apresentar a imagem de uma candidata cada vez mais confiante, até na forma como se dirige aos populares.

Desde sábado que foram divulgadas duas sondagens que dão o Bloco de Esquerda como terceira força política mais votada nas eleições europeias, com percentagens que podem dobrar o resultado de há cinco anos e que se aproximam dos resultados que Marisa Matias obteve em 2016, nas presidenciais. Estes dados parecem ter aliviado a caravana que se apresenta menos tensa e mais animada nesta segunda semana.

Mais: nos discursos do comício de terça-feira em Braga, Catarina Martins e a eurodeputada conseguiram marcar a agenda ao atacarem a dupla Passos/Portas e a dupla face do PS, respetivamente. Tiradas que já suscitaram reações à direita, mas também entre os socialistas, com Pedro Marques a atacar a esquerda pela primeira vez.

Alto. Visita à feira de Famalicão. Marisa Matias está à vontade junto dos populares. A estratégia parece resultar sobretudo junto do eleitorado feminino. Uma postura que nas feiras sai reforçada e que dá corpo ao lema da campanha, “Lado a lado”. Esta quarta-feira, a candidata chegou a parecer um livro de reclamações, com várias pessoas a indignarem-se não com o partido mas com os problemas do dia-a-dia, pedindo ajuda para a sua resolução. Desde um combatente do Ultramar até uma pensionista que exigia mais justiça para “quem trabalhou toda uma vida”.

Baixo. A  esquizofrenia da estrada take II. A organização de campanha do Bloco de Esquerda tem feito de tudo para conseguir ganhar o campeonato dos papa-quilómetros nesta campanha. Está bem encaminhada. Hoje foram mais de 600 quilómetros de estrada para uma visita a uma feira — que apesar de ter corrido bem não trouxe nenhuma novidade — e uma passagem muito rápida por Évora, o dito toca-e-foge. No fim, o comício da noite em Almada. O sentido prático não parece ter abundado na cabeça de quem desenhou este décimo dia de campanha.

Combatente do Ultramar. As feiras são sempre momentos que emprestam uma certa dose de imprevisibilidade à campanha. Momentos próprios que distinguem umas feiras de outras, mesmo que a olho nu pareçam exatamente iguais. Como notou um membro da comitiva bloquista, as do norte são sempre mais quentes que as do sul. Mas o bom momento de Marisa Matias e a facilidade com que consegue desenvencilhar-se de diálogos mais embaraçosos. Foi o caso hoje de um ex-combatente do Ultramar, que muito protestou com Marisa Matias por representar os políticos que não querem saber “dos combatentes e das suas famílias”. Na resposta, a eurodeputada conseguiu acalmar o freguês, que, no fim, pediu desculpa. “Mas pelo menos desabafei”, admitiu.

O Bloco de Esquerda acordou em Gaia e cedo se fez à estrada. A primeira viagem foi relativamente curta: até Famalicão, para visitar a feira. A ação seguinte estava agendada apenas para as 17h15, em Évora. Um esticão que não ficaria por aqui. A caravana bloquista ainda seguiu para Almada, para o comício da noite. Um total de 621 quilómetros, que somados ao total fazem o contador disparar para os 5.549 quilómetros.