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Em 2018, a Unidade de Cibercrime da PJ investigou mais de uma centena de casos relacionados com dating apps

oatawa/Getty Images/iStockphoto

Em 2018, a Unidade de Cibercrime da PJ investigou mais de uma centena de casos relacionados com dating apps

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Burlas, extorsões sexuais, violações. Há predadores portugueses no Tinder e os crimes estão a aumentar /premium

Burlas e violações não são crimes novos, mas ganharam outro espaço: são praticados em apps de encontros, que não estão obrigadas a monitorizar criminosos. PJ está atenta a nova tendência em Portugal.

Entre as 300 imagens de abusos sexuais encontradas pela Polícia Judiciária (PJ) no computador de Rui Luís estavam também 22 pastas organizadas. Cada uma designada por um nome de mulher, uma localidade, ou, por vezes, ambos. “patrícia_silva”, “josefa.Aveiro”, “Ritinha 3” ou “Leiria” são nomes fictícios, mas podem servir de exemplo. Lá dentro, divididas pelas pastas, estavam guardadas 188 fotografias e vídeos dessas jovens — todas menores de idade, como se viria a confirmar —, despidas em frente às webcams, em atos sexuais.

O nome das pastas correspondia, na verdade, ao nome das vítimas — de algumas vítimas. É que, além dos ficheiros encontrados no computador, Rui Luís tinha ainda um arquivo semelhante no seu telemóvel. No total, 791 imagens e vídeos de abusos sexuais de mulheres, 300 dos quais de crianças com menos de catorze anos, encontrados pelos inspetores da PJ.

Durante quatro anos, Rui Luís tinha navegado por aplicações de encontros amorosos e outras redes sociais para aliciar potenciais vítimas: mulheres inscritas à procura de relacionamentos, mas que acabavam manipuladas e forçadas a práticas sexuais; ou simples utilizadoras de sites como o Facebook ou Twitter com quem Rui Luís iniciava, sem pretexto, uma conversa até conseguir marcar um encontro. Pelo menos 11 das vítimas eram menores, inscritas à revelia da idade mínima permitida por este tipo de aplicações.

Foram encontradas 791 imagens e vídeos de abusos sexuais de mulheres — 300 eram menores de idade — no computador de Rui Luís

Getty Images/iStockphoto

Foi pelos crimes praticados com estas menores que Rui Luís, conhecedor das suas idades, acabou condenado, em julho de 2018, a 14 anos de prisão, reduzidos depois para 12 pelo Supremo Tribunal de Justiça. De acordo com o acórdão que o condenou em primeira instância, Rui Luís apresenta “uma perturbação da preferência sexual”, que não o impede, porém, de fazer uma “distinção entre o bem e o mal” — não sendo, por isso, inimputável. O homem já tinha sido condenado a três anos de pena suspensa, em 2015, por um crime de pornografia de menores.

O caso aconteceu em Portugal, mas não é único. Os crimes associados a aplicações de encontros amorosos estão a crescer “exponencialmente” e as autoridades estão atentas a esta tendência. Em 2018, a Unidade Nacional de Combate ao Cibercrime e à Criminalidade Tecnológica (UNC3T) investigou quase duzentos casos — extorsão sexual, devassa da vida privada, burla ou gravação e fotografias ilícitas — em que foram usadas aplicações de encontros amorosos, mas também outras redes sociais. Isto porque a PJ não faz distinção entre os crimes cometidos numas plataformas ou noutras. Ainda assim, “é mais nestas plataformas de encontros que os predadores costumam andar, com identidades falsas, com idades falsas e fotografias que não correspondem à realidade”, aponta Pedro Maia.

Se olharmos apenas para os crimes de violação, a PJ está a investigar, em média, três a quatro casos relacionadas com dating apps por ano, apurou o Observador junto deste órgão de polícia criminal. Na maioria dos casos, as vítimas são adolescentes entre os 14 e os 16 anos e o abusador é maior de idade. “Não é uma realidade alarmante, mas as pessoas têm de estar em alerta porque as surpresas existem e podem acontecer a qualquer um”, disse ao Observador o coordenador da PJ Pedro Maia.

Rui Luís ameaçava, comprava e carregava telemóveis às vítimas

O plano começou antes de 2012. À data com cerca de 30 anos, Rui Luís criou contas em mais de uma dezena de aplicações e começou conversas com várias utilizadoras. Quando foram feitas as buscas domiciliárias, em 2016, tinha já “411 ficheiros referentes a comunicações e conversações em redes sociais” no seu computador, segundo apurou a investigação da PJ. Mas até conseguir acumular estas centenas de ficheiros, teve de ser cauteloso na forma como começava por abordar as vítimas.

“Avançam devagar”. É assim que Pedro Maia descreve o modus operandi destes “predadores”. E continua: “Adequam a sua linguagem à de quem querem cativar. Começam a ser feitos pedidos de fotografias e, normalmente, este envio é recíproco — embora as que são enviadas do lado do predador não correspondam à realidade. Começam por pedir fotografias de corpo inteiro, com roupa. Depois, vão avançando para fotos sem roupa, até que conseguem que quem está do outro lado lhes envie imagens e vídeos em práticas sexuais, como masturbação”.

"Começam por pedir fotografias de corpo inteiro, com roupa. Depois vão avançando para fotos sem roupa, até que conseguem que quem está do outro lado lhes envie imagens e vídeos em práticas sexuais, como masturbação"
Pedro Maia, coordenador da PJ

À medida que ia conseguindo as fotografias, Rui Luís ia guardando as imagens na pasta que criava para cada uma das vítimas — às quais acrescentava imagens retiradas das páginas do Facebook das mesmas. “Depois de terem fotografias do lado deles, exercem coação”, diz ainda o coordenador da PJ. E basta uma fotografia íntima para tornar os passos seguintes mais fáceis. Foi assim, pelo menos, para Rui Luís: sempre que alguma das menores com quem falava recusava enviar fotos ou fazer videochamadas, ameaçava contar tudo aos seus pais. Com receio, as menores cediam.

O passo seguinte é o encontro pessoal. Em casos em que ainda não foram ameaçadas com a divulgação das fotografias, “muitas vezes, as vítimas acabam por ir aos encontros voluntariamente”, explica Pedro Maia, adiantando: “Outras vezes vão já sob coação. Isto porque, se as vítimas mostrarem resistência, [os agressores] começam a jogar com o material que já tem”. No caso de Rui Luís, os encontros aconteciam na sua casa, na casa das menores, numa carrinha ou em locais públicos, onde realizou, com elas, diversos atos sexuais, segundo o acórdão.

Uma das provas recolhidas pela UNC3T de que o arguido sabia que as utilizadoras que abordava eram menores de idade foi o registo de conversas que manteve com um amigo — cuja identificação nunca foi apurada — sobre os atos sexuais que praticava com as vítimas e nas quais lhe contava a idade que tinham. “Também tem 10/11 anos. Nunca mais me ligou”, disse numa dessas conversas, segundo o acórdão que o viria a condenar.

Mais: numa troca de mensagens com uma das menores, mostrou que sabia que não estava a falar com uma mulher adulta. “Tipo não me posso esquecer que és nova e falar de certas cenas não é apropriado”, disse. Com outra, chegou mesmo a pedir-lhe que “não contasse a ninguém” o que se passava, uma vez que “podia ser apanhado” e “podia ir preso”, lê-se também no acórdão.

Aém de fotografias, Rui Luís tinha também 14 ficheiros no seu computador, com o registo de carregamentos para vários telemóveis

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Além de fotografias, Rui Luís tinha também 14 ficheiros no seu computador com o registo de carregamentos para vários telemóveis. Era assim que conseguia manter contacto regular com as vítimas, garantindo que estas não ficavam impossibilitadas de falar com ele por falta de dinheiro. A uma delas chegou mesmo a comprar um telemóvel. A PJ concluiu, porém, que não era por causa dessas ofertas que as vítimas não o denunciavam, mas sim pelas ameaças.

“As crianças ou adolescentes ficam completamente perdidas porque não conseguem contar isto a ninguém, a não ser aos pares da idade deles. Têm vergonha porque já avançaram com muita informação para o outro lado. Felizmente, não temos tido notícias de suicídios, mas pode acontecer”, diz Pedro Maia, adiantando que é quando o abuso sexual “acontece ou está na iminência de acontecer” que as vítimas “decidem contar alguém: pais, familiares próximos ou a professores”.

“Dá-me um milhão que eu dou-te o meu coração”. PJ investigou 11 casos de ‘romance scams’ em 2018

Nem sempre o objetivo final dos agressores é o abuso sexual. Por vezes, é o dinheiro. São os chamados romance scams“Acontece quando o criminoso utiliza uma fotografia de uma pessoa com boa aparência para estabelecer o relacionamento com outras pessoas, visando ganhos financeiros”, explica ao Observador o coordenador da UNC3T, Pedro Vicente.  Assim que atraem a vítima, “passam para um discurso de grande paixão”.”Na base está sempre uma grande engenharia social, para ganhar a confiança de outra pessoa”, acrescenta.

Depois, por uma razão ou por outra — por exemplo, alegam que querem sair do país onde estão e precisam de ajuda —, acabam por pedir dinheiro à vítima, aproveitando-se do facto de esta estar apaixonada. Também nestes casos, “se tiverem sido trocadas imagens íntimas, há sempre a possibilidade de o agressor coagir a outra pessoa a produzir mais imagens ou pedir dinheiro, sob pena de as publicar”.

Em 2018, foram 11 os casos de romance scams que chegaram à PJ. No entanto, apenas um aconteceu integralmente através do Tinder. Os restantes aconteceram no WhatsApp, no Instagram e no Facebook — o que não quer dizer que o primeiro contacto não tenha começado em dating apps. É que os burlões procuram “ficar o mínimo tempo possível nestas aplicações [de encontros amorosos]: tentam passar logo para o WhastApp, porque as mensagens são encriptadas, ou até para o Messenger”, explicou ao Observador Ricardo Estrela, gestor da Linha Internet Segura da APAV (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima). Daí que a grande maioria dos casos de romance scam que chegam à APAV acontecem noutras redes sociais. Casos como o de Mónica.

Em 2018, foram 11 os casos de "romance scams" que chegaram à PJ

Getty Images/iStockphoto

O alerta foi dado por uma irmã que, apercebendo-se de que Mónica estava mais magra e não tirava os olhos do telemóvel, a questionou. A mulher tinha recebido um pedido de amizade de um homem que dizia ser formado em Política numa universidade britânica, mas que agora vivia em Marrocos. Assim que conseguiu fazer com que Mónica se apaixonasse por ele — de tal forma que a levou mesmo a pedir o divórcio ao marido —, deu o segundo passo: sugeriu-lhe um encontro em Portugal e disse-lhe que ele próprio apanharia um voo para a poder ver.

A partir daí, começaram os problemas. No momento do embarque, disse-lhe que havia um problema com o passaporte e os serviços de fronteira estavam a pedir-lhe 500 euros. Mónica acabou por transferir-lhe o dinheiro. E depois deste alegado imprevisto surgiram outros. A mulher continuou a enviar-lhe quantias cada vez maiores e a contrair dívidas para o continuar a ajudar. Até que o agressor pede a Mónica que seja ela a ir visitá-lo a Marrocos.

O caso acabou por ser descoberto quando os familiares estranharam a pressa de Mónica em querer fazer um passaporte. Não sabiam que a mulher já tinha enviado fotografias íntimas, que agora serviam de ameaça: se não se apressasse a ir para Marrocos, as imagens seriam divulgadas. Mónica, sem perceber os perigos que corria em ir para Marrocos e com a saúde a deteriorar-se cada vez mais, acabou por ser internada compulsivamente, por intervenção dos familiares. O caso foi investigado pela PJ e a burla foi rapidamente descoberta: uma simples pesquisa no Google Images da fotografia que o agressor usava nas redes sociais como sendo a dele permitiu concluir que aquela imagem era, afinal, de um ator espanhol.

Apesar de o caso de Mónica ter acontecido no Facebook, a PJ não o distingue deste tipo de crimes e investigações. “Não sentimos que haja uma grande diferença de modus operandi entre as plataformas de relacionamento online com as outras plataformas normais de interação social. Sempre que há relacionamento social, há possibilidade de correr mal, por isso estamos atentos”, explica o coordenador Pedro Vicente.

Até porque este tipo de burlas não é novo. Já em 2015, a APAV lançou uma campanha de alerta. Só que, nos anos noventa, acontecia através de cartas — as chamadas cartas da Nigéria —, depois por fax e passou, mais tarde, a ser feito através de emails. Este esquema é antigo e recebeu este nome porque, inicialmente, era usado um remetente da Nigéria — que se fazia passar por um alto quadro de governo ou de uma empresa estatal — que contactava uma potencial vítima, lê-se num alerta publicado pela PJ no seu site.

A APAV lançou, em 2015, uma campanha sobre "romance scams", onde revelava que quase metade dos portugueses já tinha sido vítima de cibercrime

APAV

Na carta ou email ou, mais atualmente, em mensagens trocadas em redes sociais, o burlão explica que precisa de usar a conta bancária da vítima para fazer uma transferência urgente de valores muito elevados. A justificação varia: ou é dinheiro proveniente de lotarias e heranças ou conseguido devido ao estatuto que tem no seu país, que o remetente diz querer enviar para o estrangeiro. As vítimas facilmente cedem porque lhes é prometido uma contrapartida de 20% a 35%, alertava a PJ.

O objetivo do burlão também varia. Por vezes, com esta proposta vem um pedido: é pedido à vítima que lhe envie algum dinheiro, antes de lhe transferir o valor milionário para custear despesas — por exemplo, para a obtenção de visto para o remetente poder vir a Portugal para melhor negociarem. Assim, as vítimas acabam por transferir dinheiro e não recebem nada em troca, porque tudo não passa de uma encenação. O objetivo pode também passar por obter os dados pessoais das vítimas e das suas contas bancárias para, com eles, cometer novas burlas.

Ou, então, a finalidade é arranjar um money mule — pessoas que cedem as suas contas bancárias para receber dinheiro e transferir para outra pessoa, indicada pelos criminosos, muitas vezes sem saberem que estão a ser cúmplices da prática de crimes, como branqueamento de capitais. Aliás, entre setembro e novembro, Portugal participou numa operação internacional que resultou na detenção de 228 pessoas e na identificação de 3.833 ‘transportadores de dinheiro’, em 1.025 processos abertos para investigar.

[Veja o vídeo explicativo da Europol sobre money mules]

No âmbito desta operação, a Europol constatou que os criminosos estão a utilizar dating apps para recrutar money mules (mulas de dinheiro), que convencem a abrir contas bancárias para receber e enviar fundos, ganhando dinheiro com isso. O pedido é mesmo apresentado como uma proposta de trabalho real, segundo a qual as pessoas apenas têm de aceitar fazer circular dinheiro na sua conta, recebendo quer comissões, quer remunerações fixas. As vítimas, muitas vezes, aceitam sem terem sequer noção de que estão a cometer um crime. A tendência levou até a Europol e a Eurojust a lançar a campanha #dontbeamule (Não seja um transportador de dinheiro, em português).

Nem sempre os casos são tão organizados como o de Rui Luís, os romance scams, ou o recrutamento de transportadores de dinheiro. Por vezes, uma simples vingança transforma-se num caso de polícia, quando um relacionamento amoroso acaba mal e uma das partes publica, por exemplo, fotografias íntimas ou dados da outra pessoa — o que constitui um crime de devassa da vida privada. “Nas aplicações de encontros amorosos há muitos casos destes. Pegam nos dados pessoais do ex-companheiro e colocam-nos em sites de encontros. Então, a pessoa começa a ser contactada, sem perceber porquê”, explica ao Observador Ricardo Estrela, da APAV, que lançou este ano a campanha “Não é preciso ver para crer”.

É à APAV que, muitas vezes, chegam primeiro os casos que acabam por ser investigados pela PJ. Mesmo assim, raramente são as vítimas que vêm pedir ajuda: muitas vezes, nem se reconhecem enquanto tal. “Só se apercebem se houver um terceiro que as alerte para os perigos. Ou se a pessoa já arruinou de tal maneira a sua vida que se apercebe. Mesmo quando as vítimas começam a ser ameaçadas com a publicação das fotos, como há este vinculo emocional, só quando estão numa situação limite é que se apercebem de que foram enganadas”, explica o coordenador da Linha Internet Segura (800 219 090) que, de janeiro a novembro, recebeu, em média, 50 pedidos de ajuda por mês, segundo dados fornecidos ao Observador.

Ao contrário do que tem acontecido noutros países, a PJ não tem registo de homicídios na sequência de encontros marcados em dating apps. Além dos romance scams, em 2018, a PJ investigou 91 casos de extorsão sexual em plataformas de encontros e noutras redes sociais, 50 de devassa da vida privada — nove aconteceram em dating apps — e 39 de gravações e fotografias ilícitas — quatro em dating apps. “São crimes que já existiam, mas que têm tido um aumento exponencial”, refere o coordenador Pedro Vicente.

No Reino Unido, por exemplo, o aumento foi ainda maior: de 382% em cinco anos. Entre 2011 e 2016, o número de crimes relacionados com dating apps registados passou de 140 para 676. De acordo com dados avançados pela Sky News, 106 dizem respeito a crimes sexuais — um número que, em 2011, ficava nos 14. Uma grande fatia foi registada como “ataques violentos”, que passaram dos 29 para 240. A polícia britânica recebeu, em média, mais de 20 chamadas por semana de ocorrências relacionadas com aplicações de encontros, no ano passado, escreve o Daily Mail. Em 2015, esse número ficava-se pelas oito chamadas — o que deu um total de 442 nesse ano. Em 2018, foram 1.087 as chamadas recebidas.

Dating Apps não estão obrigadas a monitorizar predadores sexuais nem outros criminosos

A melhor forma de inverter esta tendência é a prevenção. É isso mesmo que as plataformas de encontros amorosos tentam fazer aos estabelecer alguns avisos e conselhos de segurança. “Convém que as pessoas leiam. Normalmente, não o fazem”, diz o coordenador da UNC3T, acrescentando: “É importante desconfiar de contactos que rapidamente passem para um discurso apaixonado e, depois, ainda mais rápido passam para pedidos de financiamento. Os utilizadores não devem também revelar endereços de email, localização, rotinas pessoais”.

"É importante desconfiar de contactos que rapidamente passem para um discurso apaixonado e, depois, ainda mais rápido passam para pedidos de financiamento. Os utilizadores não devem também revelar endereços de email, localização, rotinas pessoais”
Pedro Vicente, coordenador da Unidade de Cibercrime da PJ

As aplicações de encontros amorosos não têm obrigação legal de monitorizar conteúdos. Ou seja, explica o coordenador Pedro Vicente, “não têm de estar a tentar detetar crimes nem investir em ferramentas de inteligência artificial para o efeito”. No entanto, acrescenta, a partir do momento em que tomam conhecimento de um crime, são obrigados a agir. “Podem tomar conhecimento através dos próprios utilizadores, se estes denunciarem, ou se for uma situação que envolva alguma contextualização criminal, e são obrigadas a colaborar”, diz ainda.

O Observador questionou o gabinete de comunicação do Tinder sobre os mecanismos de prevenção de crimes adotados, mas fonte desta plataforma remeteu para a lista de dicas de segurança para utilizadores disponibilizada no site, alegando que não podia responder às perguntas feitas porque o Tinder não tem um porta-voz em Portugal. Questionado ainda sobre o número de utilizadores em Portugal, o gabinete de comunicação disse que esse registo não era feito — apesar de, numa entrevista ao Observador, em 2016, o CEO do Tinder, Sean Rad, ter revelado que, só em Portugal, são feitos 2oo milhões de swipes (ato de deslizar o dedo para mostrar interesse no outro utilizador) por dia. O Observador contactou ainda outras plataformas, como o Grindr e o Coffee Meets Bagel, mas não obteve respostas.

Já foram, no entanto, tomadas medidas para além dos avisos aos utilizadores. Especialmente pelo grupo Match — que detém os principais sites de encontro online, incluindo o Tinder —, depois de, em 2011, uma utilizadora ter sido conectada com um homem condenado seis vezes por violação e que viria a abusar sexualmente dela no segundo encontro. A vítima acabou por processar a empresa.

Na sequência deste processo, o grupo Match assumiu que existem predadores sexuais nas suas plataformas e concordou em fazer uma triagem dos que se registaram naquele ano. Atualmente, segundo revelou uma investigação da ProPublica, a empresa verifica os dados e informações dos utilizadores, mas apenas nas plataformas pagas. Ou seja, aplicações gratuitas como o Tinder estão fora desta verificação.

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