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Mário Veríssimo foi massagista do Estrela da Amadora durante vários anos e cruzou-se com inúmeros treinadores e jogadores do clube

Mário Veríssimo foi massagista do Estrela da Amadora durante vários anos e cruzou-se com inúmeros treinadores e jogadores do clube

Dos sapatos que só viu aos dez anos às cabeças de garoupa com Jesus: quem era Mário Veríssimo, ou Foca, a primeira vítima por Covid-19

Trabalhou com Jesus, Fernando Santos e Mourinho no Estrela, fez suturas a frio, somou amigos no futebol, foi enfermeiro no St.ª Maria, onde veio a morrer. Mário Veríssimo, a 1.ª vítima do Covid-19.

Hoje falamos de Mário Veríssimo, os amigos mais próximos falam dele como o Foca. “O Foca fazia isto, o Foca fazia aquilo. Grande Foca…”, dizem. Mas de onde nasceu a alcunha do histórico enfermeiro massagista do Estrela da Amadora? “Ainda agora me ligou o Matine, que está há muitos anos em Moçambique, lá tive de dizer que sim, que era verdade que o Foca tinha mesmo falecido… Porquê Foca? Então, uma vez estávamos num hotel ali na zona do Guincho e havia uma foca à volta da piscina. Como ele era assim meio gordinho, acho que foi o Medeiros que disse que ele parecia uma foca e assim ficou”, recorda Marques Pedrosa, antigo dirigente do clube.

“Olhe, sou da idade dele. Conhecíamo-nos há uns 40 anos, mais até. Sabe, tínhamos um grupo que só agora é que ele falhou, que costumava ir almoçar às quartas-feiras sempre ao mesmo sítio, um cozido à portuguesa. A parte de trás do restaurante estava sempre guardada nesse dia para nós, para a malta do Estrela, e chegámos a ser ali umas vinte e tal pessoas. Chegámos até a ter cinco treinadores ao mesmo tempo porque o Estrela era visto como um clube simpático, com malta porreira. Dentro disso, o Foca era uma espécie de animador do grupo, em quatro palavras dizia três asneiras e também era por isso que nos fazia rir. Por ser extrovertido, bem disposto, brincalhão e inteligente, não havia jogador nem pessoa que não gostasse dele”, conta de forma emocionada.

Chegámos até a ter cinco treinadores ao mesmo tempo porque o Estrela era visto como um clube simpático, com malta porreira. Dentro disso, o Foca era uma espécie de animador do grupo, em quatro palavras dizia três asneiras e também era por isso que nos fazia rir. Por ser extrovertido, bem disposto, brincalhão e inteligente, não havia jogador nem pessoa que não gostasse dele", conta de forma emocionada Marques Pedrosa.

Mário Veríssimo, ao contrário de alguns dos (muitos) amigos próximos que ganhou no Estrela como o próprio Jorge Jesus, não tinha ligação à Reboleira e à Amadora. Aliás, faria no próximo mês 82 anos que nascera numa pequena aldeia na zona de Coimbra, onde viria depois a fazer a sua carreira académica. Antes, teve dificuldades. Mas até na altura de contar esses mesmos episódios invertia os tempos difíceis para fazer uma piada. “Quando começávamos a falar entre nós sobre quem andava de pé descalço quando era miúdo e nos metíamos com ele, dizia sempre o mesmo: ‘Então como é que tu achas que levava as canastas à minha mãe na praça? Era calçado, queres ver? Não, até aos dez anos não sabia o que era sapatos'”, prosseguiu Marques Pedrosa, uma das pessoas próximas que ganhou no futebol. Mais tarde, a seguir aos estudos, Veríssimo veio para Lisboa, ficando como enfermeiro na ortopedia do Hospital Santa Maria. No final dos anos 70, José Gomes levou-o para o Estrela.

O enfermeiro de Santa Maria que acabou por ser a primeira vítima em Santa Maria

O antigo dirigente do conjunto da Reboleira vai contando histórias que vão sendo interrompidas com lembranças das chamadas que recebeu ao longo da tarde, desde que a ministra da Saúde confirmou a primeira vítima mortal provocada pelo surto de coronavírus em Portugal: um homem, de 81 anos, que estava internado no Hospital Santa Maria há vários dias. Era mesmo Veríssimo. “Ainda agora me ligou também o homem do restaurante da Damaia, triste, a dizer que não podíamos deixar de vir cá. E eu disse logo que não, nem pensar, até em memória do Foca vamos continuar a juntar lá o pessoal”, atira, em mais um flash que lhe vai passando da tarde.

Aliás, esta “história” até tinha começado na noite do passado sábado, quando Jorge Jesus lançou o alerta na comunicação social portuguesa. “Já perdi um amigo em Portugal por causa do coronavírus”, disse o treinador português, na flash interview depois do jogo entre o Flamengo e a Portuguesa. A declaração depressa se espalhou nas redes sociais, nos jornais, nas televisões e nas rádios: afinal, no sábado, ainda não tinha sido confirmada qualquer vítima mortal por coronavírus em território português. A DGS respondeu que não tinha conhecimento de nenhum óbito provocado por Covid-19 e Jorge Jesus, primeiro por intermédio do advogado e depois num comunicado próprio, apressou-se a pedir desculpa por aquilo a que chamou “informação desencontrada”.

Quando o Jesus podia também se juntava. Aliás, aquela história da cabeça da garoupa até começou connosco porque quando íamos para o Algarve os ingleses não gostavam da cabeça do peixe e nós, que éramos uma família, ficávamos com ela", recorda Marques Pedrosa, ex-dirigente do Estrela.

Esta segunda-feira, Mário Veríssimo, que chegou a arriscar o futebol jogado sem grande sucesso partiu mesmo. E Jorge Jesus perdeu um bom amigo, próximo, com quem costumava partilhar almoços e jantares e a já famosa cabeça de garoupa que o técnico tanto aprecia. Mas também trabalhou na Reboleira, de onde só saíria em 2009 e quando houve o mediático processo da insolvência do Estrela, com outras referências técnicas da atualidade como Fernando Santos ou José Mourinho, então adjunto de Manuel Fernandes. Sempre com boas relações. E quando não era cabeça de garoupa nem cozido, havia sempre espaço para uns caracóis.

“Os fixos, agora, éramos sete ou oito, era obrigatório almoçarmos às terças e às sextas. Ia eu, o Foca, o Tininho que era presidente quando o Estrela ganhou a Taça de Portugal, o Simão que tratava do campo. Quando o Jesus podia também se juntava. Aliás, aquela história da cabeça da garoupa até começou connosco porque quando íamos para o Algarve os ingleses não gostavam da cabeça do peixe e nós, que éramos uma família, ficávamos com ela. Estava a pensar ainda hoje que não estava num almoço com o Foca há um mês, porque entretanto fui para o estrangeiro. A última vez tinha sido um almoço no restaurante da filha, ali na Rua de Arroios”, recorda.

“Era muito próximo do médico da altura, o João Pedro Oliveira. Tinham mesmo uma relação chegada e veja lá como são as coisas: o doutor reformou-se, queria gozar a vida e passados três meses fomos juntos ao funeral dele… No Estrela, bastava meter os dedos e era sempre certo. Aliás, o João Pedro Oliveira dizia sempre aos jogadores para irem primeiro ao Foca porque aquilo entre eles batia sempre certo. Depois era alguém em quem os jogadores confiavam. Uma vez em Neuchâtel, num jogo europeu que fizemos lá, rasgaram a perna ao Baroti com um piton de alumínio e ele deu os pontos a frio, virou-o para o campo e deu-lhe um pontapé no rabo a dizer para ir lá para dentro e jogar à bola se soubesse… Também na festa da conquista da Taça, naquele jogo com o Farense que era finalíssima, andava a dizer que não sabia como tinham ganho se não jogavam nada enquanto o andavam a atirar pelo ar e o despiram para lhe dar um banho na festa”, recorda Marques Pedrosa, já com saudades do amigo.

O anti-picuinhas de barba rija que emocionou João Alves

Rui Neves, antigo lateral que cumpriu praticamente toda a carreira no Estrela da Amadora nos anos 80 e 90 e no início do milénio, recorda Mário Veríssimo como alguém “próximo dos jogadores e treinadores”. “Ele era mobília do clube. Esteve lá muitos anos, tantos como eu ou até mais. Era próximo dos jogadores e dos treinadores, estava sempre naqueles convívios habituais com os treinadores. Era amigo do Jesus, convivia muito com ele, fazia parte daquele grupo dele. A última vez que falei com ele foi por causa da insolvência [do Estrela da Amadora] e já apresentava sinais de alguns problemas de saúde”, conta ao Observador o antigo jogador, agora com 50 anos.

João Alves, antigo treinador do Estrela da Amadora em três períodos diferentes, no final dos anos 80, na década de 90 e também no início do milénio, recorda Mário Veríssimo como “um fantástico massagista, enfermeiro e psicólogo, até”. “Era uma pessoa que tinha uma importância muito grande no balneário, tinha uma ligação muito grande com os jogadores. Trabalhou sempre comigo, gostava muito do Estrela e faz parte da história do clube. Trabalhei com muitas pessoas, com muitos grandes profissionais mas o Veríssimo foi alguém por quem ganhei uma enorme amizade e idolatria. Muito do êxito que tive no Estrela, devo-o a ele”, confessa o antigo jogador do Benfica ao Observador, recordando os anos que passou na Reboleira, onde conquistou a Taça de Portugal em 1989, naquele que é o ponto alto da história do clube, quando Paulo Bento (o ex-selecionador e treinador do Sporting, outro amigo), marcou o golo da vitória ao Farense de Paco Fortes.

"Era um pai, um irmão. Tinha uma ligação aos jogadores que era fundamental, criava laços afetivos fundamentais no balneário e que facilitavam muito a vida ao treinador. Era de contacto fácil, era divertido, era aquela pessoa que gostamos de ter ao nosso lado a contar histórias. Uma peça muito especial da história do Estrela. Ajudou-me muito na minha carreira", acrescenta João Alves

“Era um pai, um irmão. Tinha uma ligação aos jogadores que era fundamental, criava laços afetivos fundamentais no balneário e que facilitavam muito a vida ao treinador. Era de contacto fácil, era divertido, era aquela pessoa que gostamos de ter ao nosso lado a contar histórias. Uma peça muito especial da história do Estrela. Ajudou-me muito na minha carreira”, acrescenta João Alves, delineando depois traços de caráter que vão ao encontro das histórias contadas por Marques Pedrosa. “Era alguém muito direto, era objetivo. Completamente anti-picuinhas. Tratava os jogadores e estava lá quando precisavam de uma voz forte para lhes tirar o medo. Era um homem de barba rija e tratava os outros como homens de barba rija”, recorda, confessando que já tem saudades do amigo sem conseguir evitar as lágrimas.

“Em primeiro lugar, gostaria de enviar à família os meus pêsames, um bocadinho de força. Ele era aquilo que nós costumamos dizer que é um 13.º jogador: entrávamos 11, o 12.º era o nosso público e depois havia o Mário Veríssimo, o 13.º. Tinham-me dito que não estava bem e hoje vejo que desapareceu… É por isso que nem vou falar do profissional, que era ótimo no que fazia, mas num amigo que passou grande parte da carreira no Estrela da Amadora, que dedicou uma vida ao clube e que era o nosso confidente”, começa por referir ao Observador Joaquim Melo, antigo guarda-redes que fez os últimos cinco anos da carreira no Estrela, de 1986 a 1991.

Num choque com o Domingos levei uma joelhada na testa e desmaiei, só recuperei depois bem os sentidos no hospital. Não tinha noção de nada. Ele não podia sair de onde estava naquela altura, porque não podia deixar o jogo, mas foi lá ter comigo depois ao hospital. Entrou, a perguntar como estava, como tinha o hematoma, o que se tinha passado...", conta o ex-guarda-redes Melo.

“Tinha competências fantásticas em termos profissionais, acreditávamos em tudo o que ele nos dizia e era muito amigo do amigo, sempre pronto a ajudar todos aqueles que precisassem. Olhe, eu precisei várias vezes, não que fosse nada de muito grave mas aquelas coisas de guarda-redes, um corte no sobrolho, uma joelhada, partir a cabeça… Quando olhávamos estava sempre ali, ao nosso lado”, prosseguiu. “Um massagista está connosco desde que entramos no estádio, para jogar ou para treinar. É sempre ele que está perto de nós para ver se temos alguma lesão, no fim para debelar algum problema, nos banhos de imersão e massagens. Até tínhamos um grau de convivência maior com ele do que com o treinador. Até mesmo em situações fora de campo, bastava um telefonema e ou íamos ter com ele ou vinha ter connosco”, acrescenta.

“Percebo aquilo que o próprio Jorge Jesus disse de ser um grande amigo. Um grande profissional e grande amigo. Quando as pessoas desaparecem há tendência para só dizer coisas boas mas acredite: o Mário Veríssimo era mesmo um amigo, dos jogadores e de todas as pessoas que privaram com ele”, diz ainda, antes de recordar um episódio com o antigo enfermeiro massagista do conjunto da Reboleira num jogo do Estrela em casa.

“Cheguei a ter cortes em que mesmo sem anestesia e mesmo sem pontos ele conseguia tratar-me na hora mas a história que mais recordo foi quase no final da carreira, num jogo entre o Estrela e o FC Porto. Num choque com o Domingos levei uma joelhada na testa e desmaiei, só recuperei depois bem os sentidos no hospital. Não tinha noção de nada. Ele não podia sair de onde estava naquela altura, porque não podia deixar o jogo, mas foi lá ter comigo depois ao hospital. Entrou, a perguntar como estava, como tinha o hematoma, o que se tinha passado… No dia a seguir estava recuperado e fui para casa mas no próprio dia, mal acabou o jogo, fez questão de ir ao hospital ver como estava. O Mário Veríssimo era mesmo assim”, conclui o antigo guarda-redes.

Também João Gonçalves, médico que passou pelas camadas jovens do Estrela da Amadora, recorda alguém que descreve como “uma excelente pessoa, excecional mesmo”. “Era um excelente profissional, que marcou a história do clube onde passou décadas e décadas, que deu tudo pelo clube trabalhando com vários treinadores. Tinha uma paixão enorme pelo futebol e pelo Estrela, era um líder e os jogadores sentiam-se à vontade com ele, sentiam que era alguém em quem podiam confiar. Além de ser um pessoa sempre presente, era bom a trabalhar com os médicos, em especial o doutor João Pedro Oliveira com quem tinha uma relação estreita, na forma como as lesões eram avaliadas mas também na definição de estratégias de recuperação”, sublinha.

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