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Vincent Lupo

Vincent Lupo

Gina Bennett, agente da CIA: "Este trabalho devora-nos a mente e o coração"

Foi a primeira agente na CIA a alertar para a ameaça Bin Laden que se confirmou anos depois. Analista de contraterrorismo há 25 anos, é mãe de cinco filhos: a cada um deles, associa um atentado.

O filho mais velho de Gina Bennett tinha apenas cinco anos quando a mãe o levou pela primeira vez ao local de trabalho. Não era uma prática habitual, sendo ela uma agente de contraterrorismo da CIA. Mas, naquele fim-de-semana, não teve hipótese: o marido estava fora, ela tinha papelada para adiantar e era apenas por umas horas. “Nunca pensei que ele pudesse perceber o que eu realmente fazia estando sentado ao meu lado no meio de uma série de cubículos aborrecidos e sem janelas”, recorda. Só que Gina Bennett esquecera um detalhe: o seu chefe tinha as paredes do escritório forradas com cartazes e fotografias dos terroristas mais procurados.

A certa altura, o filho quis saber por que estava ali a fotografia de um homem encapuzado a apontar uma arma à cabeça de uma mulher. “Receosa de que poderia estar a aterrorizar o meu filho para o resto da vida com aquelas imagens, disse-lhe que eram falsas.” Mas ele não ficou convencido e quis saber o que a mãe fazia no computador. Bennett teve então de elaborar um pouco mais. “Expliquei-lhe que reunia informações sobre homens maus e que depois as enviava à polícia para os apanharem.” Ele ficou impressionado. “Uau…! Trabalhas numa cave, usas um computador e ajudas os polícias a apanhar homens maus… Tu és como o Batman!”, um super-herói. Gina Bennett recorda o episódio em tom divertido: sim, pela primeira vez ouvia uma descrição que parecia fazer justiça ao seu trabalho.

Gina Bennett é agente da CIA (Central Intelligente Agency), o serviço secreto de informação norte-americano, onde trabalha como analista de contraterrorismo. Nos últimos 25 anos, identificou e perseguiu ameaças e vilões, preparou informação privilegiada para vários presidentes, de George Bush a Bill Clinton – e é a ela que se deve o primeiro relatório da CIA, em 1993, a alertar para um nome: Osama bin Laden.

Capas de relatórios, preparados em alturas diferentes (1993 e 1996), alertando para o perigo potencial de Osama bin Laden. Estes documentos perderam o estatuto confidencial e foram entretanto libertados (conforme se pode ver nos links assinalados neste artigo)

Bennett identificava-o como um perigo para a segurança norte-americana, num relatório que, na altura, foi desvalorizado pelos próprios serviços que não levaram a sério a possibilidade de aquele homem se tornar no maior inimigo dos EUA. Os ataques do 11 de Setembro de 2001, oito anos depois, acabariam por lhe dar razão. Esses relatórios confidenciais foram divulgados mais tarde, confirmando os avisos de Bennett: Osama bin Laden era um homem perigoso, estava a financiar uma rede terrorista e determinado a atacar os Estados Unidos.

É na altura destes atentados, os mais mortíferos em território norte-americano, que nasce o seu quarto filho. “É o meu bebé do 11 de Setembro”, explica Gina Bennett, que tem um atentado ou “homem mau” associado a cada um dos seus cinco filhos. Neste caso, recorda, estava nas primeiras semanas de gestação quando se deram os ataques e, “apesar dos meus constantes enjoos matinais, a maioria das pessoas nem sabia que eu estava grávida”. O primeiro filho “foi o meu bebé do ataque bombista do World Trade Center, em 1993.” O segundo filho foi o bebé das torres Khobar, nascido pouco depois do bombardeamento de um complexo militar na Arábia Saudita. O terceiro filho, uma menina, em 1998, foi o seu bebé dos ataques às embaixadas americanas no Quénia e na Tanzânia, onde chegara poucas semanas antes. O quinto e último filho, outra menina, foi o seu bebé Fallujah.

"Quando se trabalha há décadas num trabalho que exige que sejamos estoicos, reprimir sentimentos que devem ser naturais - como o medo ou o horror - devora-nos a mente e a capacidade do coração de sentir: de sentir qualquer coisa"

Leva duas vidas há mais de 25 anos: uma como agente da CIA, outra como mãe. Como se conciliam?
A minha resposta a isso não é a que todos podem esperar, não é sequer a mais popular. Mas a verdade é que a coisa mais perigosa que me parece que alguém faça – quer seja o meu trabalho ou qualquer outra tarefa intensa – é compartimentar os seus corações e cabeças. Quando se trabalha há décadas num trabalho que exige que sejamos estoicos, reprimir sentimentos que devem ser naturais – como o medo ou o horror – devora-nos a mente e a capacidade do coração de sentir: de sentir qualquer coisa.

Quais foram os momentos mais críticos que enfrentou?
Quando olho para trás, e já são quase 30 anos, não é o meu trabalho, mas a forma como eu me compartimentei para lidar com um trabalho que punha a minha família em risco. Isso deixou os meus filhos com uma mãe que, na maior parte das suas vidas, não se emocionou com eles. Isso é horrível, os nossos filhos acharem que não nos interessamos, independentemente do que lhes aconteça ou do que eles façam.

E conseguiu resolver isso?
Estou grata por os meus filhos me terem alertado para isso a tempo de eu poder mudar. Agora consigo sentir e estamos muito mais próximos. Considero-me extremamente sortuda por ter conseguido mudar antes que fosse tarde demais. Prefiro que saibam que a mãe deles é humana e sentiu todas as emoções possíveis em vez de os levar a acreditar que sou uma espécie de super-herói que podia lutar, mas cujo coração era intocável.

Escreveu a certa altura: “A cada novo ano ou arranque do ano escolar ou nova presidência na América, os pais esperam por um mundo melhor”. Mantém a esperança?
Sim, sou uma mãe com esperança. Estive por todo o mundo e nunca encontrei grandes diferenças na forma como as mães se comportam com os seus filhos. Não sei como é que uma mãe pode trazer um filho a este mundo e perder por completo a esperança. A maternidade é, desde o primeiro dia, um ato de esperança. Os meus filhos são resilientes. São mais fortes do que eu e mais diversificados na sua forma de pensar do que eu era na idade deles. Confio neles para serem líderes na próxima geração.

A maternidade nunca foi, aliás, um problema para Gina Bennett. A analista ainda se recorda do dia em que fez um briefing para a então secretária de Estado norte-americana, Condoleezza Rice, enquanto se preparava para entrar em trabalho de parto. E nunca deixou de participar em gabinetes de crise, mesmo que isso a obrigasse a levar os filhos. Numa das vezes, após os atentados nas embaixadas africanas, foi o seu chefe que tomou conta da sua bebé de três semanas enquanto ela atualizava mais um relatório. Mais tarde, a sua filha esteve no mesmo gabinete do diretor da CIA enquanto decorria uma reunião com o então presidente Bill Clinton para discutir um raide de retaliação no Afeganistão – Bennet só soube disse muitas semanas depois.

Gina Bennett, em 2003, durante uma reunião de briefing com o presidente George Bush, o vice-presidente Dick Cheney, a secretária de Estado Condoleezza Rice, Stephen Hadley (na altura conselheiro adjunto para a Segurança Nacional) e outros especialistas em segurança. George Tenet está a entrar na sala. (foto White House)

Terrorismo e maternidade são os dois mundos que melhor conhece e estão na base do livro “National Security Mom” (da Wyatt-MacKenzie) que escreveu em 2008. O objetivo, explica, era revelar como é que a segurança de um país tem muito em comum com a forma como os pais garantem a segurança das suas casas e famílias. Ainda em 2006, foi a principal autora do relatório de 2006 intitulado “Trends in Global Terrorism: Implications for the US” A sua análise foi elogiada como “profética” e “genial” pelos media e antigos oficiais de governo, que reconheceram depois a relevância do seu trabalho.

O seu nome aparece ainda associado em vários documentários sobre segurança nacional, terrorismo, espionagem e serviços secretos, como o filme produzido para o canal HBO, em 2013 – ‘Manhunt – The Search for Bin Laden’ e, mais recentemente, em 2015, ‘The Spymasters – CIA In The Crosshairs’.

Gina Bennett – que vai estar em Lisboa esta semana para participar nas Conferências do Estoril sobre o tema das migrações e segurança, num painel agendado para o dia 31 de maio – é uma das muitas agentes da CIA e considerada uma das seis mulheres que fizeram parte do “bando de irmãs” que perseguiu e tentou caçar Osama bin Laden no terreno. Há mesmo quem especule que Bennett e essas agentes de elite tenham sido a inspiração para as protagonistas do filme de 2012, ‘Zero Dark Thirty’, com Jessica Chastain e que valeu a Kathryn Bigelow o Óscar de melhor realização – o primeiro para uma mulher também. Bennett desvaloriza essa questão e considera que é preciso separar a realidade da ficção.

"Uma grande parte deste trabalho governamental significa trabalhar nos bastidores todo o tempo e nem todos têm acesso a ver isso. Claro que este trabalho implica ser feito em segredo. Por causa disso, penso que o trabalho de inteligência é muito mais vulnerável para ser glamorizado em livros, filmes e até nos media"

Diz que as mulheres dos serviços de informação dos EUA são “a mais poderosa, secreta e inteligente irmandade no planeta.” O que a torna tão especial?
Acredito que as mulheres em qualquer força de trabalho são naturalmente uma irmandade poderosa, porque se unem no facto de, sendo mulheres, terem de lutar para provar algo. Pense em quantos filmes são feitos retratando essa ligação normal entre homens, quer estejam a lutar juntos nas trincheiras, sejam bombeiros ou nas praças das bolsas de valores. Os homens unem-se enquanto lutam. E as mulheres também – só que as nossas batalhas são diferentes. As mulheres lutam para serem aceites, para serem tratadas como iguais. Há muito que a segurança nacional e os serviços de informação são domínios masculinos. As minhas colegas foram sempre as mulheres mais espertas, fortes e inspiradoras que eu conheci.

Serviços secretos e contra-terrorismo não são trabalhos glamourosos, defende.
Realcei isso no meu livro, porque sei que é difícil para as pessoas perceberem o que realmente se faz nestes trabalhos. Uma grande parte deste trabalho governamental é difícil de entender até ser feito, porque significa trabalhar nos bastidores todo o tempo e nem todos têm acesso a ver isso. Claro que este trabalho implica ser feito em segredo. Por causa disso, penso que o trabalho de inteligência é muito mais vulnerável para ser glamorizado em livros, filmes e até nos media. Mas é um grande erro considerar isso que se lê e vê nos filmes e nos livros como informação. É entretenimento e os dois não são a mesma coisa. Os que tratam ficção para entretenimento e aqueles que pesquisam factos sabem qual é a diferença. Pesquisar factos é um trabalho intensivo, rotineiro. Não é matéria para Hollywood.

Divorciada e mãe de cinco filhos, Gina Bennett é autora do livro “National Security Mom”, onde compara o trabalho de segurança de um país com a forma como lida com a família e gere a sua casa.

Filha de uma enfermeira e de um oficial da Marinha “de muito poucas palavras”, Gina Bennett é a mais nova de cinco irmãos. A mãe ainda é hoje um dos seus grandes modelos: obstinada, decidiu voltar a universidade depois de criar os filhos para fazer enfermagem. Bennett recorda-se de ir ter com a mãe ao hospital e de fazer trabalho voluntário. Já o pai era menos emotivo, mas nem por isso esqueceu algumas lições que lhe deu para a vida – como quando lhe dizia o que fazer se aparecesse um obstáculo: “dizia que eu podia encarar como uma barreira, um desafio ou uma oportunidade. Mas só dependia de mim e da minha perspetiva”.

Palavras que recordou no seu primeiro ano de trabalho como analista de terrorismo, no início dos anos 90. Gina Bennett tinha formado na Universidade de Virginia e entrara no departamento de Estado em 1989, para ser promovido à unidade de terrorismo apenas um ano depois. E é quando acontece o atentado bombista num voo da PanAm, em que morreram 270 pessoas.

"A maior fraqueza para um grupo terrorista é ser irrelevante. Eles usam o terrorismo, porque a estratégia é desproporcionar a sua real força. Temos a tendência para levar as emoções para fora do tópico da segurança. Mas as emoções e os sentimentos são uma dimensão crítica dessa segurança"

Como se tornou uma analista em terrorismo?
Como em tantas coisas na minha vida, foi uma “happenstance” – uma combinação de “circunstância” e da “coincidência” de estar naquele sítio naquele momento. Eu estava a trabalhar num centro de vigilância 24 horas para uma agência governamental quando se deu o ataque bombista ao voo Pan Am 103 e passei boa parte do meu tempo a monitorizar os relatórios sobre o ataque de forma a passar qualquer nova informação a quem estava a investigar o incidente. Estar envolvida nisto, entender a tragédia e aprender o que poderia ser feito para prevenir futuros ataques quando ainda era muito jovem marcou-me de forma significativa. Penso que acontece o mesmo quando se é polícia, bombeiro, médico ou professor. Você sabe que tem um objetivo e não vale a pena lutar contra isso, pois não terá sossego enquanto não estiver totalmente envolvido.

“A única maneira de derrotar um terrorista é ignorá-lo.” Como se faz isso?
Acredito que a maior fraqueza para um grupo terrorista é ser irrelevante. Eles usam o terrorismo porque a estratégia é desproporcionar a sua real força. Após um ataque, é muito difícil pensar claramente. Perdemos parentes, amigos, pessoas queridas e ocorre uma grande tragédia humana. No final do dia, cada um de nós tem de decidir qual a forma certa de reagir a essa tragédia. Temos de decidir qual a influência que queremos que essa tragédia tenha sobre nós, no curto e no longo prazo. Temos de ser honestos connosco próprios sobre isso. Temos a tendência para levar as emoções para fora do tópico da segurança. Mas as emoções e os sentimentos são uma dimensão crítica da segurança.

O medo tomou o controlo do mundo?
Deixe-me colocar desta maneira: se um incidente violento tiver lugar na escola dos meus filhos, tenho de decidir se os mando de novo para a escola no dia seguinte ou se os mantenho em casa. E se opto por mantê-los em casa, tenho de ter consciência de que não só o agressor fez vítimas durante o ataque, também influenciou a forma como me irei comportar no futuro. É este tipo de impacto que mantém o terrorismo vivo: mudar a forma como pensamos, como sentimos e como nos comportamos à medida que se degrada a nossa liberdade de escolha.

Ao fim de 25 anos de serviço, cinco filhos e um divórcio, Gina Bennett continua ativamente a trabalhar na unidade de contraterrorismo da CIA – e não tem plano para sair. Uma missão pela qual dá a cara, mas que a impede de partilhar opiniões políticas ou outros juízes de valor. Mesmo esta conversa com o Observador, a poucos dias de voar até Lisboa, entre trocas de email e telefonemas, estava condicionada por isso – e também pela aprovação da agência, conforme avisou previamente. É por isso que não comenta os mais recentes atentados, as políticas da administração Trump ou até em quem votou nas últimas presidenciais: “Hillary ou Trump?”. A pergunta ficou sem resposta, mas há muito que Gina Bennett lamenta não haver mais mulheres em cargos de topo. “Nunca houve uma mulher que tenha sido secretária de Estado da Defesa, do Tesouro ou da Segurança Nacional. Nunca houve uma mulher que tenha sido presidente ou mesmo vice-presidente dos Estados Unidos”, diz. Por agora, a sua missão mantém-se: ajudar a apanhar os “bad guys”, mesmo sem a máscara de Batman.

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