Herói de guerra ou assassino? A história do SEAL acusado de 14 crimes que Trump quer perdoar /premium

25 Maio 2019377

Era uma lenda entre os SEALs, mas foi denunciado por eles. Acusado de 14 crimes, Eddie Gallagher está preso, mas ainda pode ser amnistiado por Trump. Ao Observador, o seu advogado fala numa invenção.

Quando souberam que iam ter o duro e implacável Eddie “Blade” Gallagher como comandante, os homens do Alpha Platoon, enviado para o Iraque em fevereiro de 2017 para ajudar à reconquista de Mossul, durante uma comissão de sete meses, ficaram entusiasmados.

No universo dos Navy SEALs — a força especial de elite treinada para operar no ar, na terra e no mar, que foi responsável pela morte do então inimigo número 1 da América e do mundo, Osama bin Laden —, Gallagher era uma espécie de “lenda”. O que por si só já é dizer bastante: não há muitas no grupo de elite cujo programa de treino só 20% dos recrutas conseguem terminar e que, desde 2013, tem sido responsável por mais mortes do que os combates efetivos no terreno.

Filho de um oficial do Exército graduado na famosa academia militar de West Point, Edward “O Lâmina” Gallagher era um sniper certeiro e um médico de campanha com várias vidas salvas e uma série de honras militares no currículo.

Na altura com 37 anos de idade, 19 de carreira e sete comissões no estrangeiro, era um exemplo a seguir. Mais: era uma honra servir sob o seu comando, confessaram aos investigadores da Marinha vários dos membros do seu pelotão, segundo o relato, feito em novembro, do agente especial Joe Warpinski, dos Serviços de Investigação Criminal da Marinha, numa audiência preliminar na Base Naval de San Diego.

Quando souberam que era Edward Gallagher quem iria comandá-los, os homens do Alpha Platoon ficaram entusiasmados

Não ficou esclarecido se a admiração começou a passar logo quando Gallagher assumiu que um dos seus objetivos de vida era ultrapassar o body count — o número de mortes causadas — de Chris Kyle (outra das raras “lendas” dos SEALs, celebrizado após a morte como o “Sniper Americano”); ou apenas mais tarde, quando alegadamente cometeu os crimes de que está agora acusado.

Ao contrário de Kyle, que foi assassinado em 2013 por um veterano esquizofrénico com transtorno de stress pós-traumático, sem que nenhuma das suas 160 mortes, em cinco comissões no Iraque, fosse considerada irregular, Eddie Gallagher tem julgamento marcado para o próximo dia 28 de maio, acusado de 14 crimes. Se for considerado culpado, pode ser condenado a prisão perpétua.

“Esta tem uma boa história. Apanhei-o com a minha faca de caça”
Mensagem que Eddie Gallagher terá enviado a um amigo a legendar uma foto na qual posava com um cadáver

Isto se chegar mesmo a sentar-se no banco dos réus: de acordo com o New York Times, o presidente Donald Trump terá requerido, na passada sexta-feira e com a máxima urgência, a papelada necessária para conceder indultos a uma série de militares acusados de ou condenados por crimes de guerra — “incluindo casos de homicídio, tentativa de homicídio e profanação de cadáver” — e Eddie Gallagher estará entre eles. Também segundo as fontes do jornal, os perdões deverão coincidir com o Memorial Day, o feriado onde se recordam os que morreram a lutar pelos Estados Unidos. Este ano calha a 27 de maio, um dia antes da data marcada para o início do julgamento.

O crime principal: “Ninguém lhe toca, esse é meu!”

Para já, continuam a pender sobre Eddie Gallagher 14 acusações. Entre elas estão agressão agravada, obstrução da justiça e até abuso de drogas e esteroides anabolizantes, mas o alegado homicídio de um adolescente, combatente do Estado Islâmico ferido e capturado pelas forças americanas, foi a gota de água para os sete homens do pelotão que, em março de 2018, o denunciaram formalmente aos superiores — depois de meses e meses a tentar (já lá iremos).

Terá sido na manhã de 4 de maio de 2017 que aconteceu “o” crime. De acordo com o The New York Times, que teve acesso às 439 páginas do relatório confidencial da investigação criminal levada a cabo pela Marinha, o soldado inimigo teria entre 12 e 17 anos e foi capturado na sequência de um ataque aéreo. Assim que soube da captura, Gallagher terá dito aos seus homens, via rádio: “Ninguém lhe toca, esse é meu!”

Eddie Gallagher fez oito comissões no estrangeiro, no Afeganistão e no Iraque

O rapaz estaria a receber tratamento por parte de um médico quando o comandante, alegadamente, se aproximou e, com a sua faca de caça, feita à mão e por encomenda, atacou-o com vários golpes no pescoço e um no peito, matando-o.

Depois, garantiram aos investigadores pelo menos duas testemunhas, terá chamado alguns membros do pelotão para se lhe juntarem numa sessão fotográfica com o cadáver. Pelo menos uma das imagens terá sido enviada para o telemóvel de um outro Navy SEAL, na altura nos Estados Unidos: “Esta tem uma boa história. Apanhei-o com a minha faca de caça”, terá escrito Gallagher ao amigo. Meses antes, ao veterano a quem encomendara não só a faca como também um machado, também tinha agradecido via sms: “Vou tentar espetar a faca ou o machado no crânio de alguém!”

“O vídeo mostra o comandante de operações especiais Gallagher a fazer aquilo para que foi treinado, que é providenciar cuidados médicos de emergência.”
Timothy Parlatore, advogado de Gallagher, sobre um vídeo que a acusação diz que é a prova do homicídio

Segundo o Navy Times, várias destas imagens constam do processo, como prova. Tal como um vídeo, captado pela câmara do capacete de um outro militar, que, de acordo com a acusação, é a prova inequívoca de que Gallagher assassinou a sangue frio o prisioneiro de guerra, que estaria apenas ferido superficialmente. E que, segundo a equipa de defesa do SEAL, é o documento que o vai ilibar e comprovar que o rapaz morreu dos ferimentos sofridos durante o ataque. Sobre as imagens em questão, Philip Stackhouse, o advogado militar do comandante, garante que não podiam ser mais corriqueiras: “Este tipo de fotografias tem aparecido em todos os casos de Iraque que eu alguma vez fiz, isto não é único”.

Antes de ir para o Iraque, Gallagher encomendou uma faca de caça e um machado, feitos à medida

Ao Observador, o advogado civil de Edward Gallagher, Timothy Parlatore, garante que tudo não passa de uma invenção de um grupo de SEALs ressentidos contra o comandante e que o seu cliente se limitou a tentar salvar o adolescente ferido: “O vídeo mostra o comandante de operações especiais Gallagher a fazer aquilo para que foi treinado, que é providenciar cuidados médicos de emergência”. “Estamos confiantes de que os motivos que levaram os membros do pelotão a mentir vão ser revelados em tribunal e a verdade vai provar a inocência do nosso cliente”, rematou Parlatore, recusando concretizar que motivos serão esses.

Soldados contra o comandante

De acordo com os membros do pelotão ouvidos pela equipa chefiada pelo agente especial Joe Warpinski, os horrores cometidos por Gallagher não acabam aqui. Para além de ser descrito como um líder pouco preocupado com a segurança do seu pelotão — e muito menos da população civil –, o Navy SEAL é acusado de práticas sádicas e sanguinárias que incluíam o hábito de estacionar um veículo blindado numa das margens do Tigre e de descarregar a metralhadora sobre a margem oposta, sem quaisquer alvos discerníveis.

Segundo a acusação, Gallagher, que dispararia dez vezes mais do que qualquer outro sniper do pelotão, terá sido responsável por pelo menos duas mortes civis, durante aquela que foi a sua oitava comissão no estrangeiro: a de uma rapariga, atingida enquanto caminhava junto à margem do rio, e a de um idoso, carregado com um cântaro cheio de água.

“O Eddie não é assim. Ele é alguém que salva-vidas. Ele é o tipo que corre para o prédio em chamas quando toda a gente foge de lá.”
Andrea Gallagher, mulher de Eddie

Não terá assassinado mais ninguém, explicaram membros do Alpha Platoon aos investigadores, porque eles próprios tomaram a iniciativa de desajustar a mira da arma do comandante e passaram também a antecipar os tiros dele, disparando para o ar de forma a assustar as pessoas, que, em fuga, tornavam-se mais difíceis de atingir. “Disseram-me que passavam mais tempo a proteger civis do que a combater o Estado Islâmico”, declarou na audiência preliminar o agente especial Warpinski. Que fez ainda referência a um caso de 2010, quando, no Afeganistão, ao serviço das Forças Especiais do Exército, Eddie Gallagher foi investigado por ter alvejado uma criança quando o seu alvo era o homem que a transportava ao colo — matou os dois, foi ilibado de qualquer suspeita.

40 congressistas, 520 mil dólares e a intervenção de Donald Trump

“O Eddie não é assim. Ele é alguém que salva-vidas. Ele é o tipo que corre para o prédio em chamas quando toda a gente foge de lá”, tem repetido, por seu turno, a mulher de Edward, Andrea Gallagher, na comunicação social. Detido desde o dia 11 de setembro do ano passado, o Navy SEAL tem contado com o apoio da família — tem um filho e dois enteados — e não só.

O crowdfunding criado em nome do militar já angariou mais de 520 mil dólares, cerca de 470 mil euros

A página de Facebook “Free Eddie Gallagher – Navy Seal Officer” tem 33 mil gostos; a marca de roupa “patriota” Nine Line Apparel tem uma linha de t-shirts com a cara do militar, com as receitas das vendas a reverter para a sua defesa; e o crowdfunding criado em seu nome já angariou mais de 520 mil dólares [quase 470 mil euros]. Há mais: em março, cerca de 40 membros republicanos do Congresso, liderados pelo representante da Carolina do Sul, Ralph Norman, assinaram uma carta em que reclamavam para Gallagher condições de prisão consonantes com o seu “ainda” estatuto de “soldado condecorado”.

Através do Facebook, Eddie Gallagher queixou-se de estar preso com apenas um cobertor numa cela sem aquecimento, onde podia ver o vapor da própria respiração, de ter de tomar banho no lavatório, porque os chuveiros estavam todos avariados, de ter ficado mais de seis semanas à espera de um corte de cabelo e de passar fome por, todos os dias, ser obrigado a jejuar durante 14 horas, entre o jantar e o pequeno-almoço. Mais: disse que havia ratazanas nos corredores das celas e fezes de ratazanas nos pratos de comida servidos aos prisioneiros; garantiu que estava proibido de fazer exercício físico após as 15h30; e assegurou que não foi levado a consultas previamente marcadas de psicologia, psiquiatria, fisioterapia, gestão da dor, dentista e acupuntura, tendo sido também impedido de ver, livremente, os seus advogados.

O próprio Donald Trump já tinha intercedido por ele: a 30 de março, publicou um tweet a informar que tinha resolvido o assunto — “Em honra do seu serviço passado para com o nosso país, o Navy Seal Eddie Gallagher será em breve transferido para condições de prisão menos restritivas enquanto aguarda pelo seu dia em tribunal. O processo deverá ser rápido!”

E foi mesmo: um dia depois, Gallagher foi transferido da cela individual que ocupava na Prisão Naval de Miramar, em San Diego, na Califórnia, para uma base da Marinha cuja localização não foi divulgada. “O comandante de operações especiais Gallagher está agora em reclusão numa caserna militar privada e, depois de inúmeros pedidos por parte da nossa equipa para que lhe fossem dadas condições para poder preparar-se para o tribunal, tem acesso a um telefone e a um computador portátil. Isto permite-lhe rever provas, bem como participar em discussões significativas e, mais importante do que isso, confidenciais com os membros da sua equipa de defesa”, congratulou-se Timothy Parlatore, na conversa com o Observador.

“Ele ofereceu à máquina de propaganda do Estado Islâmico um maná dos céus”

O facto de Gallagher ser um líder duro e disciplinador — que, durante esta última comissão de sete meses no Iraque, terá obrigado, à laia de castigo, um dos seus homens a disparar 12 vezes em apenas 24 horas um lança-rockets que, é sabido entre os militares, se suspeita que poderá causar lesões cerebrais graves nos militares — tem sido usado pela defesa como justificação para aquilo que consideram uma vingança e um ataque infundado.

Eddie Gallagher com a mulher, nas instalações para onde foi transferido depois da intervenção do presidente dos Estados Unidos

A verdade é que, embora tenha sido denunciado pelos homens que comandava, Eddie Gallagher foi defendido pela cadeia de comando dos SEALs, que durante meses, primeiro no Iraque e depois de regresso aos Estados Unidos, terá tentado desvalorizar e abafar o caso. Os sete delatores terão sido inclusivamente ameaçados: se falassem, podiam dizer adeus às respetivas carreiras. “Acabei de saber que estes gajos foram chorar-se à pessoa errada”, terá escrito Gallagher a outro comandante, certo de que nunca seria acusado. “A única coisa que podemos fazer como bons membros de equipa é passar a palavra sobre estes traidores. Estes não são nossos irmãos”, terá enviado a outro.

Até ter sido finalmente detido, durante uma sessão de fisioterapia no simbólico Patriot Day, Gallagher ainda viria a ser condecorado. Mas em vez de lhe ser atribuída, como planeado, a Estrela de Prata, por atos de heroísmo, recebeu a de Bronze, um furo abaixo.

“Será que, depois de o Chefe Gallagher ter decidido agir como o monstro que os terroristas nos acusam de ser, a opinião pública ainda acredita que nós somos os bons? Ele ofereceu à máquina de propaganda do Estado Islâmico um maná dos céus. As ações dele são tudo aquilo que o Estado Islâmico nos acusa de sermos.”
Chris Czaplak, procurador da Marinha

A escassos dias do início do julgamento (ou do perdão), o Navy SEAL, de 39 anos, está  tranquilo e preparado para provar a inocência em tribunal, garantiu ao Observador Timothy Parlatore. “Ele está focado nessa missão e tem desempenhado um papel ativo na preparação do julgamento. Como seria de esperar, tem esperança de poder voltar rapidamente para junto da família e de poder recuperar o tempo perdido com a mulher e os filhos.”

Se depender da acusação, e se Edward Gallagher for mesmo a julgamento, não irá acontecer. Ou não fosse o caso, como alegou Chris Czaplak, procurador da Marinha, na audiência preliminar, estar a ser tratado como uma ofensa à própria instituição militar americana: “Será que, depois de o Chefe Gallagher ter decidido agir como o monstro que os terroristas nos acusam de ser, a opinião pública ainda acredita que nós somos os bons? Ele ofereceu à máquina de propaganda do Estado Islâmico um maná dos céus. As ações dele são tudo aquilo que o Estado Islâmico nos acusa de sermos”.

Todos queremos saber mais. E escolher bem.

A vida é feita de escolhas. E as escolhas devem ser informadas.

Há uns meses o Observador fez uma escolha: uma parte dos artigos que publicamos deixariam de ser de acesso totalmente livre. Esses artigos Premium, por regra aqueles onde fazemos um maior investimento editorial e que mais diferenciam o nosso projecto, constituem a base do nosso programa de assinaturas.

Este programa Premium não tolheu o nosso crescimento – arrancámos mesmo 2019 com os melhores resultados de sempre.

Este programa tornou-nos mesmo mais exigentes com o jornalismo que fazemos – um jornalismo que informa e explica, um jornalismo que investiga e incomoda, um jornalismo independente e sem medo. E diferente.

Este programa está a permitir que tenhamos uma nova fonte de receitas e não dependamos apenas da publicidade – porque não há futuro para a imprensa livre se isso não acontecer.

O Observador existe para servir os seus leitores e permitir que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia. Por isso o Observador também é dos seus leitores e necessita deles, tem de contar com eles. Como subscritores do programa de assinaturas Observador Premium.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: tpereirinha@observador.pt

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)