PSD e CDS são “tu cá, tu lá” com a extrema-direita, acusa Jerónimo de Sousa

19 Maio 2019854

Depois de uma manhã passada no shopping a defender o fim do trabalho ao domingo e de um piquenique com apoiantes, João Ferreira recebeu de novo o reforço de Jerónimo de Sousa na campanha da CDU.

Foi um fim de semana em cheio para a caravana da CDU, com o cabeça de lista da coligação às europeias, João Ferreira, a receber o reforço de Jerónimo de Sousa por duas vezes, em dois comícios muito concorridos — no sábado em Almada e no domingo em Alhandra. No comício desta tarde, no salão apinhado da Sociedade Euterpe Alhandrense, o secretário-geral do PCP foi buscar (num literal copy-paste) alguns parágrafos do discurso de sábado, sobre o “profícuo trabalho” dos “candidatos com provas dadas”, para depois subir de tom nas críticas à direita, acusando PSD e CDS de serem “tu cá, tu lá com a extrema-direita” europeia.

Os três partidos, “que se apresentam hoje e nestas eleições, assumindo-se como salvadores da Europa da extrema-direita xenófoba, com quem alguns até são tu cá, tu lá no tratamento, seja o PSD de Rangel com os seus amigos na Hungria, na Polónia, que em tempos de eleições renegam, os amigos do CDS de Cristas e tão elogiados por Melo, os protofascistas do partido Vox, admiradores de Franco”, afirmou Jerónimo de Sousa, perante uma sala que apupava sempre que ouvia as siglas “PSD” e “CDS”.

Jerónimo de Sousa juntou-se a João Ferreira para um comício em Alhandra (JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA)

Outros, continuou Jerónimo numa referência ao PS, vão “fechando os olhos em conivência com a política que alimentou e que alimenta esses regimes autoritários”.

O secretário-geral do PCP criticou também o “falso dilema” daqueles que “falam muito da Europa ameaçada” e que “pretendem com esta operação salvar a Europa”, para de seguida dar a resposta: “Os perigos combatem-se combatendo a exploração dos trabalhadores e dos povos, combatendo as desigualdades”, com “políticas que sirvam os povos e não o grande capital transnacional”.

“Cada deputado eleito pela CDU é para estar no Parlamento Europeu a defender os interesses de Portugal” e não para “defender a UE em Portugal”, assegurou depois à plateia de apoiantes — que meia hora antes tinha entrado no espírito do comício com um concerto composto, essencialmente, por música de intervenção.

Noutro literal copy-paste de sábado, Jerónimo de Sousa voltou a recusar uma “campanha entregue à troca de piropos” entre partidos que estão “a gerir as suas secundaríssimas diferenças”. “O que eles não querem é discutir as opções de fundo que fazem na União Europeia”, onde, como têm repetido Jerónimo e João Ferreira ao longo da campanha, PS, PSD e CDS votam juntos — “juntinhos” como disse Jerónimo no sábado.

Antes, no mesmo comício, João Ferreira trouxe à campanha o tema da renegociação da dívida pública portuguesa, defendendo que o país “precisa de encarar a renegociação” da dívida em “juros, prazos e montantes” — um processo que terá de ser assumido em simultâneo com a “possibilidade de recuperar a soberania monetária” e ser articulado “com a libertação do euro”.

Classificando a dívida pública como um “enorme sorvedouro” que é “inseparável das imposições da União Europeia”, João Ferreira disse também que, num cenário otimista em que não haja mais nenhuma crise financeira no mundo e a situação económica internacional se mantenha estável, poderia ser possível reduzir “paulatinamente” a dívida. Mas “só lá para 2038 é que Portugal viria a ter a dívida inferior a 60%, como a União Europeia impõe”. “Mas são muitos ses”, repetiu.

João Ferreira foi ao shopping para defender fim do trabalho ao domingo

shopping é o mercado do século XXI, e a campanha da CDU adaptou-se aos tempos e passou a manhã de domingo no Fórum Sintra. Em vez de percorrer os corredores da fruta, dos legumes e do peixe (como o tinha feito no Algarve, na quinta-feira), João Ferreira andou esta manhã entre as lojas de roupa e de joias a cumprimentar os comerciantes e a distribuir panfletos. A visita ao domingo não foi inocente. O funcionamento das grandes superfícies comerciais aos domingos e feriados é uma das principais marcas da precariedade que a CDU quer combater.

João Ferreira chegou logo com um alerta aos jornalistas para “dificuldades” no trabalho da comunicação social que são “paradigmáticas da realidade” que a campanha queria evidenciar. Por um lado, as televisões não puderam filmar no interior do shopping. Por outro lado, o candidato da CDU pediu aos jornalistas e aos membros da comitiva que não entrassem nas lojas com ele. João Ferreira entraria apenas com João Pimenta Lopes, eurodeputado da CDU e também candidato na lista deste ano, para falar com os comerciantes e deixar os programas eleitorais.

O motivo não foi falta de vontade da campanha em mostrar o momento — antes pelo contrário. É que as entradas de muitas lojas nos shoppings estão equipadas com contadores eletrónicas do número de pessoas que entram e saem, e esse número é utilizado para aferir a produtividade dos funcionários em cada turno. Se entrassem todos, explicou João Ferreira, a dimensão da comitiva iria contribuir para a queda a pique dos níveis de produtividade deste domingo e os trabalhadores seriam prejudicados.

À saída do shopping, João Ferreira explicou que o contacto com os comerciantes lhe permitiu confirmar “um quadro, no essencial, conhecido”, de “generalização da precariedade laboral, uma multiplicação de todo o tipo de contratos, com horários desregulados, com muito baixos salários, e com obrigatoriedade de trabalho ao domingo e feriados”.

“Nós estamos a falar de milhares e milhares de trabalhadores nesta situação. Não há país, não há sociedade que se desenvolva assente numa multiplicação da precariedade e dos baixos salários. Combater a precariedade laboral, combater esta instabilidade permanente no trabalho e na vida, combater os baixos salários, é um fator essencial para o país se desenvolver”, sublinhou o candidato da coligação PCP-Verdes às eleições europeias.

João Ferreira voltou também a falar da possibilidade de acabar com o trabalho aos domingos em setores que não respondam a necessidades que obriguem à laboração contínua, destacando que o domingo deve ser um “dia de descanso, de lazer, de convívio com a família” — e que as grandes superfícies comerciais são um exemplo do tipo de serviços que não devem funcionar ao domingo.

"Domingo deve ser dia de descanso, de lazer, de convívio com a família"

Até porque, acrescentou, o encerramento dos shoppings ao domingo também favoreceria o comércio tradicional. “A possibilidade de estas grandes superfícies não funcionarem ao domingo e aos feriados — naturalmente que isto tem de ser coordenado também com medidas que permitam à generalidade da população, que muitas das vezes é obrigada a fazer compras nestes dias, o poderem fazer noutros dias, com horários também decentes — é também uma medida de defesa e de salvaguarda do comércio tradicional”, explicou João Ferreira.

Nas arruadas nas vilas e cidades, “a queixa que ouvimos de todo o comércio tradicional é a concorrência desleal por parte das grandes superfícies, nomeadamente também por funcionarem ao domingo”, destacou.

Num centro comercial do grupo Jerónimo Martins, João Ferreira criticou também o “agressivo planeamento fiscal” de empresas que levam as suas sedes para países onde pagam menos impostos — o que só é possível porque há na Europa “regras que assim o permitem” — enquanto mantêm um “mar de precariedade” entre os seus trabalhadores.

Proibir a precariedade. “Não basta uma demonstração de intenções”

Ao lado de João Ferreira esteve este domingo o eurodeputado comunista João Pimenta Lopes, que é o número 3 da lista da CDU e que no último mandato foi membro da Comissão do Emprego e dos Assuntos Sociais — e que, nas palavras de João Ferreira, tem um “volume de trabalho muito considerável” na área do emprego.

Ao Observador, João Pimenta Lopes sublinhou a “muito intensa atividade [da CDU] no Parlamento Europeu no sentido de contrariar as tendências — baixos salários, contratos temporários e desregulação do horário de trabalho. Apontando que atualmente 40% da população trabalhadora em Portugal tem trabalho ao sábado e 20% ao domingo, João Pimenta Lopes destacou que entre os principais objetivos da CDU está a “defesa da contratação coletiva, instrumento fundamental na regulação” do trabalho e a “proibição da precariedade”, já que “não basta uma demonstração de intenções”.

O eurodeputado sublinhou também que a cada posto de trabalho permanente (“e eles estão identificados”) deve corresponder um contrato efetivo e que os horários de trabalho não só têm de ser regulados como devem ser reduzidos. “Se há 100 anos já se determinou como meta as 8 horas de trabalho, 8 horas de descanso e 8 horas de lazer”, então “o progresso e a evolução social” devem fazer com que “as pessoas possam trabalhar cada vez menos e desfrutar mais da sua família”.

João Pimenta Lopes apontou ainda a necessidade de proteger a família e a parentalidade, destacando que atualmente as mulheres estão sujeitas a “discriminações” e “violações da lei laboral”, por exemplo quando são questionadas sobre se são mães ou se pretendem ter filhos. “Há relatos de muitas mulheres que abdicam do tempo de licença com receio de perderem o seu vínculo”, disse, defendendo que “as licenças devem ser alargadas e pagas a 100% do salário” — medida que deve ser acompanhada de alargamento da rede pública de creches, que “permita desonerar as famílias” neste âmbito.

Discutir helicópteros ou feiras? “Questões de quem tem muito para esconder e pouco para dizer”

A rota de João Ferreira pelo distrito de Lisboa levou-o a seguir diretamente do shopping para um piquenique domingueiro num parque de merendas em Sobral de Monte Agraço, mais uma autarquia CDU visitada pela caravana da coligação na campanha. Recebido pelo vice-presidente da câmara, Luís Miguel Soares — porque o presidente, José Alberto Quintino, ainda estava, àquela hora a aterrar em Lisboa depois de integrar uma comitiva nacional aos Estados Unidos —, o cabeça de lista elogiou o piquenique e usou-o como metáfora para a prioridade da CDU em sair à rua.

“Enquanto nós estamos aqui neste almoço, há homens e mulheres que andam na rua em centenas de ações de campanha”, disse o candidato, recordando mais uma vez que não é “espetador” da campanha. “Estamos a construir um resultado”, garantiu João Ferreira.

O candidato voltou depois a sublinhar os pontos em que tem insistido ao longo da campanha: está disposto a — e desejoso de — prestar contas aos leitores. “Temos por hábito prestar contas. Sentimos que fizemos aquilo com que nos comprometemos”, disse, para logo acrescentar: “Não fizemos mais do que a nossa obrigação”. Mas “não é coisa pouca alguém, nos dias que correm, apresentar-se a eleições e dizer ‘cumprimos'”, destacou.

“Muitos dos que chegam a esta campanha pouco mais têm a dizer além do ataque pessoal. Um que vai andar de helicóptero, outro que entrou ou não entrou na feira. Tudo questões de quem tem muito para esconder e pouco para dizer”, resumiu João Ferreira.

João Ferreira, que falou por poucos minutos de improviso em frente a uma carrinha pintada com as cores da coligação — porque estava com o tempo contado, para seguir depois para Alhandra, para um comício ao lado de Jerónimo de Sousa —, aproveitou ainda o piquenique para deixar mais críticas ao PS, ao PSD e ao CDS e para lembrar que foi a CDU quem há quatro anos “chamou a atenção” para o facto de PSD e CDS (“que já faziam a festa e se preparavam para lá continuar mais quatro anos”) não tinham ganhado, mas perdido, e que só continuariam no Governo se o PS quisesse.

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