Lobo Xavier: “Mário Centeno é Vítor Gaspar com açúcar” /premium

03 Fevereiro 2019515

Confessa que mudou por causa da Quadratura do Círculo. Defende Marcelo. Lembra o PSD "glorioso" de Passos. E fala sobre temas inesperados. António Lobo Xavier em entrevista a Maria João Avillez.

Homem de boa cepa, advogado de boa reputação, cidadão de boa palavra, gosta-se dele. António Lobo Xavier, 56 anos, habituou o país à fluidez e ao brilho do raciocínio, à subtileza da sua forma mentis, ao humor navegante entre a ironia e a mordacidade, ao tom (demasiado?) cordato que usa no seu nunca esmorecido gosto pela política. Foi dirigente do CDS, a “casa” partidária desde sempre, deputado, líder parlamentar, recusou convites para o governo e depois escolheu: a advocacia e uma “vida confortável”, o outro nome para o dinheiro e os outros mundos que ele possibilita quando bem usado. Ficou com a televisão, que é uma forma de praticar a política e “não vive sem ela”: Lobo Xavier esteve nos écrãs da SIC durante 14 anos e a partir de 7 de Fevereiro estará na TVI, com os seus companheiros desta estrada há tanto trilhada em comum. Uma mudança de morada para a Quadratura do Círculo, com foros de acontecimento no acanhado espaço público português, onde eles sabem que será porventura preciso mudar alguma coisa para que tudo fique na mesma. Isto é, com os ingredientes que fizeram a história e a marca do programa.

E se este cavalheiro dissertou com surpreendente detalhe sobre o “efeito Quadratura” — em si, nos seus comportamentos, sociais e humanos, na sua vida privada e na sua actividade profissional – foi igualmente bom ouvi-lo falar do resto, que foi muito. E saber que “ninguém em sítio algum faz lampreia como ele”; que “trocaria tudo ( e “tudo” era mesmo “tudo”) por ser um virtuoso da guitarra; que convidado dia sim, dia sim para intervir, conferenciar ou debater, foi há dias falar a 50 padres sobre “o modo como um observador da sociedade vê a importância dos seminários”. “Lá fui eu sozinho para Felgueiras, num mar de chuva, a pensar no que havia de dizer. Não sabia bem o que havia de dizer, não se pode fazer um sermão a 50 padres, não é, mesmo havendo muitos na minha família…”.

[Veja aqui o best of da entrevista]

A Quadratura do Círculo: “Muito do que sou hoje devo-o um bocado à Quadratura. Eu não era assim, tornei-me assim”

Comecemos por esse acontecimento que foi a mudança de morada da Quadratura do Círculo. Como foram as conversas, as negociações, como se chegou à TVI? Falava-se também na RTP?
Foi para nós uma surpresa o termo do programa, mesmo sabendo que todas as coisas acabam. Mas umas acabam de melhores maneiras, outras, de piores. A nossa foi pelo menos inesperada: não nos pareceu natural que, num programa com 15 anos, fosse anunciado aos seus participantes — que não são nenhuns garotos — que dentro de 15 dias já não contavam connosco. Sim, houve um certo desconsolo, houve o nosso brio, mas não guardo rancores. Gostei muito deste tempo na SIC, e agora mudámos para outra estação que queria a Quadratura com muita vontade…

…negociado por quem?
O nosso delegado sindical sempre foi o Pacheco Pereira, e portanto aqui continuou. Mas, sabe?, ao longo do tempo, todas as decisões na Quadratura foram tomadas por unanimidade: escolhas, mudança de pessoas, quem substituía quem, e agora também: para que sítio ir? É que não se tratou só de escolher uma estação melhor do que outra, foi imaginar qual o “sítio” onde estivéssemos menos expostos a certas ideias do mundo da política, sobre o que deve ser uma estação pública.

Ah quanta água nesse bico!
Eu explico melhor: a Quadratura assenta na ideia de que não há representação de partidos. Nem o Pacheco Pereira — o que me parece bastante óbvio — é representante do seu partido, nem eu do CDS, nem o Jorge Coelho do PS. Isto é, são estes nomes e não outros. E também há mais partidos no Parlamento, mas não há na Quadratura. Pareceu-nos que esta fórmula, digamos, livre, em que nós somos donos e tratamos da composição do programa por unanimidade, talvez fosse mais fácil…

…de encaixar numa estação privada?
As pessoas da RTP também estariam dispostas a lutar por isso, mas não teriam a vida facilitada do lado de fora… Quisemos evitar alguns desses aspectos – a política é assim.

Para bom entendedor: as complicações que anteciparam foram cortadas à nascença e optaram por um sítio onde elas corriam menos riscos?
E de que gostamos, onde temos liberdade editorial, onde explicámos que só aceitávamos se tivessemos liberdade, inclusivamente, para criticar a própria orientação editorial da estação, como também sempre fizemos na SIC.

“Na Quadratura não gritamos, não nos agredimos. O programa durou 15 anos, devia ter alguma coisa boa…”

O país ganhou alguma coisa com a Quadratura ao longo de 14 anos?
É-me difícil enaltecer uma coisa onde estive muito tempo e ainda conto estar. Que me parece que há de diferente connosco? Desde logo o contraditório, num país com muito comentário e pouco contraditório; depois, o contraditório independente: várias vezes não estivemos alinhados com as posições dos nossos partidos, embora uns mais, outros menos. E finalmente isto: o hábito, a permanência, o convívio, criaram uma confiança em que sabemos que podemos dizer as coisas sem que haja picardias inaceitáveis, mentiras, agressões desonrosas. Não gritamos, não nos agredimos. O programa durou 15 anos, devia ter alguma coisa boa…

Os ditados são muitas vezes sábios, há um que diz: “Não voltes ao sítio onde foste feliz”. Tudo o que abordou — a cumplicidade, a independência, os vossos hábitos — são facilmente transferíveis para outro lugar?
São porque esse clima é totalmente independente da estação televisiva, é uma continuação mais do que uma mudança. Eu percebo que os programas têm um tempo de vida e este também terá, mas não nos pareceu que fizesse sentido, num ano eleitoral, em que há eleições para o Parlamento Europeu, haverá legislativas e eleições na Madeira, acabar com um programa que é contundente, e que vê as coisas com autenticidade, ou, pelo menos assim o queremos.

E António Lobo Xavier, que ganhou com tudo isso?
Volto um pouco atrás: sempre quis ser político, sempre quis estar na vida política…

…e esteve: foi deputado, líder parlamentar, dirigente partidário, recusou convites para o governo…
…mas há que fazer escolhas, a minha vida profissional tornara-se muito difícil de compatibilizar com a política e houve também um certo egoísmo da minha parte: preferi uma vida mais confortável. Mas quis sempre que essa vida, onde me realizo melhor, não representasse um corte total com a política e o meu gosto por ela. Ora, pareceu-me que para certas funções profissionais delicadas que eu tenho, o “aceitável” e o compatível era dar a minha opinião de forma independente, tendo outras pessoas a contrariar-me. É o limite do que posso fazer no mundo político. E já me dá muita satisfação.

Deve dar bastante porque pareceu muito penalizado naqueles dias em que ainda não havia morada certa para vocês nas televisões. Pareceu ter ficado sem ar…
As sensações foram mistas, também senti alívio: desde 1992, houvesse o que houvesse, vinha para Lisboa todas as semanas. Nesse sentido era um bocado de vida que acabava, sim. Um súbito vazio. Quando fiz mudanças na vida profissional — para trabalhar menos, ou recuar para lugares não executivos — senti sempre uma enorme descompensação… Não sabia o que havia de fazer, estava em casa cedo demais, cheguei a ir buscar os meus filhos à escola, coisa impensável na maior parte da minha vida. Desta vez, aquela quinta-feira à noite desaparecia, aqueles companheiros de debate sumiam-se, a discussão desaparecia. Aquilo era um bocado de mim. Sim, foi melancólico, cheguei a confessá-lo. As pessoas mais perto de mim dizem que não, que sou feito de pedra ou que fui treinado para disfarçar sentimentos e há nisso um bocado de verdade, mas… verdadeiramente sou um sentimental.

"O nosso delegado sindical sempre foi o Pacheco Pereira, e portanto aqui continuou. Mas, sabe?, ao longo do tempo, todas as decisões na Quadratura foram tomadas por unanimidade"

Que idade tem?
59 anos. E quantos mais anos, mais sentimental. Ainda no outro dia fiz o discurso anual para todos os alunos do Colégio Inglês no Porto. Era o dia do colégio, fui convidado a falar. Eles não aguentam mais que cinco minutos, falei-lhes sete…

Que se pode dizer a alunos do primeiro ciclo ao último? Como abordar idades tão diversas?
Tentei explicar-lhes como é que a minha vida fora conseguida, se o tinha sido apenas com estudo e conhecimento e disse-lhes que não. Apesar de algum medo de que os professores se zangassem, disse-lhes que não era só com estudo e conhecimento que se faz uma vida e confessei-lhes até que havia muitas pessoas que sabiam muito mais da minha especialidade do que eu! O importante era uma espécie de combinação entre o aprender a respeitar os outros, a compreendê-los, a saber falar com eles. A estar atento: ouvir, perceber o argumento, contrapor. E com isto volto à Quadratura: fui para lá com 40 e poucos anos, mas muito do que sou hoje — no BPI, na minha sociedade de advogados, na vida familiar quando discuto com os meus filhos, ou quando brinco com eles — devo-o um bocado à Quadratura. Eu não era assim, tornei-me assim. Não era tão competitivo na articulação da palavra, na vontade de polemizar, de ganhar um debate, de ser irónico. Ou por vezes tão mordaz na discussão com os outros… e a Quadratura tornou-me assim. E embora goste de mim como estou, agradeço ao programa estas mudanças.

Também aprendeu a tolerância?
Sabe que a minha mulher diz que eu gasto toda a tolerância na Quadratura? Quando ela precisa, eu já não tenho nenhuma, mas curiosamente não tenho nada essa noção. Nos tempos da troika – em que me incomodei vivamente e não tive um único programa sossegado — o combate com o António Costa e o Pacheco era vivo e duro e os tempos também eram duros — saía do programa convencido que tinha ultrapassado todos os limites da educação. E depois em casa, a minha mulher, ou a minha irmã, que eu ouço bastante e é exigente para comigo, diziam “Sim, devia ter sido mais mas… não foi. Não é capaz!”.

Vê os programas a seguir?
Não. Quando o programa antes repetia às 13h acontecia-me por vezes, quando estava na passadeira do ginásio, ver, mas sem som…

O CDS: “Se eu fosse do PSD, talvez não tivessem tanta paciência para mim…”

A televisão pode ter sido – e ser — o oxigénio para um dia vir a concretizar uma ambição política?
Ó Maria João, isso de todo. Vamos ser sinceros: isto é um país muito pequeno, com uma elite muito pequena e um núcleo muito pequeno de pessoas que vêm estes programas no cabo, e, portanto, haverá alguma influência e eu não sou indiferente a ela: não a desconheço, nem a ignoro, nem lhe sou alheio. Nem direi que “isso para mim não interessa nada”. Mas se não procuro essa influência, ela tem alguns efeitos nos sítios onde eu estou: antes de me insultarem as pessoas pensam duas vezes (risos). Sim, eu sei que o actual Presidente passou do comentário televisivo para Belém, que se diz que Marques Mendes não sei o quê, que o António Costa saiu da Quadratura para… Digamos que eu tenho o gosto mas não uso o programa como ferramenta.

Um dia usará?
Não sou capaz de dizer que nunca farei mais nada na política, mas sou capaz de jurar que nunca me sento na cadeira da Quadratura a pensar que aquilo é uma ferramenta.

Falemos então da sua relação com a política quando não está a comentá-la. Vê a política como um espectador interessado, distante, comprometido? Com saudade?
Na política vejo tudo com todo o cuidado, com grande preocupação, e mesmo com vontade de intervir. De pegar num telefone e dizer porque é que os deputados do CDS, ou os seus dirigentes, disseram isto ou aquilo, porque é que não pensaram nisto ou naquilo…

Mas pega ou não no telefone?
Às vezes. Não os pressiono para que eles também não me pressionem a mim e tem funcionado muito bem. Nunca ninguém do CDS, onde me tratam com muita benevolência — e eu sou sentimental, e portanto agradeço e aprecio isso — nunca ninguém me pediu “Por favor não defenda isto, ou, por favor proteja-nos aqui ou ali”. Nunca aconteceu.

"Dizem que no CDS há três 'xavieristas': o Diogo Feio, o Nuno Magalhães… e o terceiro devo ser eu!"

Quem são os seus próximos, as “suas”pessoas no CDS? Os amigos, os companheiros?
São muitos. No dia de hoje entendo-me muito bem com Assunção Cristas, tenho grande apreço por ela. O Diogo Feio sempre foi uma pessoa muito próxima, um bom amigo. O líder parlamentar do CDS, o Nuno Magalhães, é um bom amigo. Dizem que no CDS há três “xavieristas”, que o Diogo e o Nuno seriam xavieristas…

E o terceiro?
O terceiro devo ser eu! E há o Francisco Mendes da Silva e várias pessoas da nova geração. Uma justiça deve aliás ser feita ao Paulo Portas, além de outras: ele renovou aquilo. O partido é hoje outra coisa diferente…

O CDS é hoje uma herança facetada por Paulo Portas?
Em grande parte está hoje na mão, ou é dirigido, por gente dele. As pessoas com relevo chegaram à política por causa dele. Não quer dizer que pensem exactamente como Paulo Portas, mas foram descobertas e empurradas por ele. E isso é um mérito enorme. Também falo bastante com o Adolfo Mesquita Nunes, temos um belíssimo entendimento. Claro que tudo isto é mais fácil num partido não tão grande como o PSD. Se eu fosse do PSD, talvez não tivessem tanta paciência para mim…

Marcelo: “O Presidente funcionou como tempero de soluções que podiam ter sido muito piores no funcionamento da geringonça”

Quando vê actuar o Presidente da República e o primeiro-ministro, aplaude o quê, lamenta o quê, retém finalmente o quê, dessa dupla poderosa?
Retenho em primeiro lugar que os tempos mudaram muito. Nada disto que hoje ocorre seria possível quando eu era deputado. Em 1994, nada do que nós hoje vemos seria possível! O parlamento era uma coisa diferente, as pessoas eram uma coisa diferente, as relações entre os partidos eram uma coisa diferente, a Presidência da República era uma coisa diferente, escondida, comedida. E mesmo este primeiro-ministro tem características próprias que eu não encontrei quando estava na política activa.

Santo Deus temos de concretizar… Da Presidência escondida de ontem a quê, hoje?
A esta Presidência. Um desempenho que traduz uma opção clara pela genuinidade ou pelo menos é assim que eu a vejo. Como se o Presidente tivesse dito a ele mesmo: “Aquilo que eu fui como pessoa toda a vida, é, para o mal e para o bem, como vou ser na Presidência”. O Presidente é genuíno mas age em torno de valores.

Valores?
Sim. A genuinidade dele seria perigosa se não estivesse sempre organizada por valores. Mesmo para mim, que sou relativamente conservador nalgumas coisas — vendo aqui e ali algum excesso – quando olho para o trabalho do Presidente vejo sempre, muito claramente, os seus valores, a começar por exemplo nos valores da preocupação social e da aflição com a pobreza, que estão lá sempre. Mas saiamos desse campo — onde facilmente toda a gente concorda – e sigamos para a primeira metade do mandato do Presidente da República, onde ele tratou de um lugar que estava vazio. À direita do PS estava tudo vazio: os partidos que tinham ficado chocados com a solução governativa, tendo sido corridos após terem ganho as eleições, demoraram muito tempo a encontrar um caminho, estiveram muito tempo obstinados. E o Presidente da República funcionou como tempero de soluções que podiam ter sido muito piores no funcionamento da chamada geringonça.

"Acha que as indemnizações tinham sido pagas – no caso dos incêndios — com a velocidade com que foram se não fosse a intervenção do Presidente da República?"

Considera então que o eleitorado da anterior coligação se sentiu representado pelo Presidente? Tem essa convicção?
Alguém tinha de representar o centro…

O ponto não é que o Presidente tenha “ocupado” o centro, é se esse eleitorado ou parte dele considerou que estava a ser representado.
A Maria João confia nas sondagens? Olhando para elas só é possível achar que sim, que uma grande parte de toda essa gente se sentiu representada. Talvez não os indefectíveis, ou as pessoas que sofreram mesmo com a surpresa de uma decisão completamente fora dos padrões da democracia, que foi a composição do governo e o retirar a governação a quem tinha ganho as eleições. Eu sei que há essas pessoas que não se sentiram representadas pelo Presidente da República, achando que ele deveria fazer frente ao Governo, mas não concordo: a única forma de um governo com o Bloco e o PCP não ser uma tragédia era poder puxar António Costa para o centro, dar-lhe alguma força e o chefe de Estado fez isso durante um tempo, e depois deixou de fazer. Julgo até que as pessoas também têm de notar isso: quando deixou de ser necessário, ou quando até o próprio espaço à direita se começou a reorganizar — e onde por isso mesmo essa actuação seria descompensadora e, porventura, intrusiva no funcionamento da política — ele deixou de o fazer.

De que se recorda como intervenções presidenciais com valores, como disse há pouco?
Quais são hoje as intervenções de que eu me recordo? São aquelas sobre os incêndios, sobre Tancos, sobre a responsabilidade, sobre as pedreiras, sobre a falta de ambição, sobre os perigos da economia, sobre muita coisa. Eu, se juntar as declarações principais do Presidente da República na segunda fase, noto que são muito exigentes. E, mais do que isso, elas não aparecem no PSD, por exemplo. Nem aparecem nos partidos. Vão aparecer, espero eu, agora nas eleições…

Gosta do contraditório, deixe-me aplicá-lo. Há pouco falou de Tancos, mas já se passou bem mais de um ano e nós não temos ainda nem explicação nem conclusão — e, se eu quiser explicar a um estrangeiro ou a um marciano o que aconteceu, não conseguirei. Falou dos incêndios, mas todos os dias temos notícias tristes — ou de corrupção, ou de atrasos lamentabilíssimos de casas prometidas em que não estão sequer as fundações feitas, de decisões relacionadas com escolhas de plantações, agricultura, que não atam nem desatam. Não considera que uma postura política presidencial, deve pressupor dois momentos, o de alertar e o de cuidar pelos resultados?
Mas acha que as indemnizações tinham sido pagas – no caso dos incêndios — com a velocidade com que foram se não fosse a intervenção do Presidente da República? E se não fosse a dureza da intervenção na véspera da demissão da ministra Urbano e a exigência de responsabilidades? Porque acha que o Governo assumiu o pagamento das indemnizações na questão da pedreira senão para acautelar aquilo que o Presidente faria fatalmente, que era exigir a responsabilidade? Nestes aspectos mais negativos da vida do governo, a presença do Presidente e o modo como ele fala dão stress e este governo precisa do stress que não tem tido.

A que chama stress?
Chamo stress a desafio, medo, necessidade de superar. E como isso não tem vindo do PSD… Digo isto assim porque o CDS, na sua dimensão, tem feito o possível, e vejam-se os debates da Assunção Cristas com António Costa, que chegam a pontos de uma violência surpreendente. Mas a verdade é que o grande partido historicamente alternativo ao PS não tem tido essa energia. O instrumento acutilante do governo têm sido estas intervenções do Presidente.

"A presença do Presidente e o modo como ele fala dão stress e este governo precisa do stress que não tem tido"

Ainda sobre os valores que, segundo diz, têm guiado as intervenções presidenciais, pergunto-lhe: qual foi o valor que norteou o chefe de Estado a receber Rui Rio e Luís Montenegro, vinte e quatro horas após ter garantido publicamente “não interferir na vida interna dos partidos”, e logo no dele?
O Presidente já recebera Pedro Santana Lopes, que ia – nem mais nem menos — criar um partido à margem do PSD.

É a mesma coisa? Este gesto ocorreu no meio de uma tensa corrida eleitoral.
Acho que, aparentemente, o Presidente quis perceber quais eram as motivações de quem punha o partido numa crise semelhante àquela, quando o próprio PSD está a meses de ter de disputar eleições. O Presidente sempre disse que era preciso uma oposição forte. Cheguei a ouvi-lo dizer isto diante de Pedro Passos Coelho, numa cerimónia pública, quando a oposição estava fragilizada a um ponto inconcebível. Ele quis dizer isso de viva voz e só uma pessoa com um enorme poder, uma enorme influência e uma enorme capacidade de enfrentar a crítica é que podia ter um gesto daqueles. O gesto foi inútil? O gesto foi útil? Não sabemos.

A direita e as direitas: “O PSD-troika foi um PSD glorioso”

Mas sabemos, o país sabe, que apesar de haver o anúncio de novos partidos e de estar aí uma nova geração a bater à porta do PSD, a oposição parece ter caído num buraco, tornando deficiente a actividade política e as suas regras de jogo. Como olha para a direita ou para as direitas, se quiser? Há dias defendeu a necessidade de uma federação, com uma frase interessante…
…chamei-lhes uma “federação permanente”, referindo-me à existencia de uma estrutura permanente. Sempre achei isso, sempre defendi que houvesse contactos regulares entre as direcções do PSD e do CDS, mesmo fora de coligações eleitorais. Há uns anos podia parecer um sacrilégio, hoje parece-me uma coisa absolutamente imprescindível…

…e a Aliança?
Não vejo porque não. Aliás, é Santana Lopes quem mais abertamente fala na necessidade de entendimento de todo esse espaço à direita do PS. Parece até ser uma verdade que todos reconhecem, mas sucede que ninguém ainda o quis assumir com a mesma força que ele. Deixe-me dizer-lhe que percebo que Assunção Cristas queira tentar a sua sorte e fazer o seu “número”, não querendo falar de coligações, já que os outros não querem, não é? Ninguém vai pedir a um líder partidário que diga “sou a favor de coligações” quando o outro partido — maior que ele – afirma não as querer ou não se mostra entusiasmado. Não quer? Então cada um vai pelo seu caminho, sendo porém que o entendimento nesse espaço é ainda fundamental porque aparecerão outras coisas. Outros partidos ou formações menos simpáticas, mais extremistas, numa aventura que só poderia ser travada por um entendimento sólido e credível dos partidos à direita do PS. Se não se acha isto imprescindível…

"O PSD-troika foi 'glorioso': foi fundamental para o país, foi muito corajoso e acho até que só pessoas com as características — para o bem e para o mal — de Pedro Passos Coelho é que podiam ter liderado um governo naquele tempo".

Sem mencionar o nome, tem estado a falar do PSD.
Confesso que me fazia muita impressão aquela fase do Rui Rio em que ele queria ser parecido com o PS… Percebe-se que tivesse querido cortar – e até que de algum modo fosse preciso fazê-lo — com o PSD-troika, que do meu ponto de vista é aliás um PSD glorioso, mas daí ao que Rio fazia…

Um PSD “glorioso”? Desde quando achou isso?
Sempre achei. Havia coisas com que não concordava — e disse-o — mas o meu juízo global é esse, “glorioso”: foi fundamental para o país, foi muito corajoso e acho até que só pessoas com as características — para o bem e para o mal — de Pedro Passos Coelho é que podiam ter liderado um governo naquele tempo. Voltando atrás, compreende-se que o PSD de Rui Rio quisesse fazer algum corte, mas esse corte não podia significar “somos iguais ao PS”. O drama disto tudo é justamente que Mário Centeno é uma espécie de Vítor Gaspar, embora mais disfarçado, mais suave, com a mesma eficácia ou até mais, e por isso é difícil fazer oposição e ser alternativa. Repare: Centeno cobra enormes impostos ou não? Cobra. Tenta equilibrar o Orçamento e consegue? Sim. Cumpre as coisas que Bruxelas quer? Cumpre. Cria austeridade em outros sectores da economia? Cria…

…e o excesso de cativações e as suas consequências nos serviços públicos? Como habitualmente, só os desfavorecidos ficam ainda mais desfavorecidos…
Sim, sim, os funcionários públicos têm a ADSE e vão aos hospitais privados. Tenho dito muito isso na Quadratura: são as pessoas sem seguros de saúde, com baixos rendimentos, trabalhadores por conta de outrem, que são afectadas pelos problemas hospitalares. Eu não estava a elogiar Mário Centeno, dizia-lhe apenas que ele é um Vítor Gaspar com açúcar e que isso tem servido para levar as pessoas atrás. Elas também gostam de um certo rigor orçamental, e Centeno consegue-o subindo os impostos como os outros. E seguindo os ditames de Bruxelas, mesmo que desprotegendo certas áreas de serviço público. Ora, o que é que se contrapõe a esta política, o que é que Passos Coelho podia dizer? Talvez algumas coisas: que há muitos sectores sociais desprotegidos, que os serviços públicos estão abandonados, que quase nada se conseguiu em termos de combate à desigualdade.

"Mário Centeno é um Vítor Gaspar com açúcar e isso tem servido para levar as pessoas atrás"

Uma argumentação que usasse as bandeiras da direita?
Acho até que se a direita, as direitas, não se comprometem com a redução da desigualdade não têm futuro. Não têm. Mas mais: aquilo que tem puxado a economia do país — aliás, a abrandar… — são exportações e investimentos privados. E isso não é de Centeno, ele nada fez para que isso acontecesse.

Mas a voz mais convicta e mais enérgica a favor dessas bandeiras é uma recém-chegada Aliança, mais do que um PSD ou um CDS que parece “ir a todas”sem uma hierarquização de prioridades.
Concordo inteiramente. O PSD e o CDS têm andado atrás da agenda do Governo e da vida pública: a greve dos serviços prisionais, dos enfermeiros, dos professores… Com o PSD e o CDS a quererem dar respostas a tudo, que necessariamente têm de ser ambíguas, porque eles são os partidos do rigor, do equilíbrio, da estabilidade das contas.

Um erro político?
Seguir essa agenda traz sempre confusão e ambiguidade: nem deve ser seguida, nem é preciso que o seja. E a verdade é que Santana Lopes não o fez: criou a sua. Não está centrado na greve dos serviços prisionais, na lei de bases da Saúde, nisto ou naquilo, mas em três ou quatro coisas que não se confundem com a agenda governamental, um mau terreno para o PSD e para o CDS.

Rui Rio animará?
Isso acho que sim, já vi que ele está mais animado.

A família,  cozinha e a vida: “Trocava tudo — Quadraturas, bancos, advogados — por ser um virtuoso da guitarra”

Há pouco falava da importância que teve — e tem — para si a A Quadratura do Círculo, assumindo mesmo que ela é “parte da sua vida”. Pergunto: qual é a outra grande parte? A família, antes do mais? A sua advocacia, a sua realização profissional? O berço e a educação que dele veio e que explicam também o que Lobo Xavier é hoje?
Sim, em primeiro lugar a família. Quando estou com a minha mulher e com os meus filhos, e agora também com as minhas netas, dificilmente concebo melhor tempo do que esse, em toda a minha vida. E mesmo que do ponto de vista da observação do público eu possa surgir como alguém bem sucedido nalgumas coisas, na verdade onde fui bem sucedido foi em casa. Aí, com todos eles, é que eu fui bem sucedido.

Consta que é também um bem sucedido cozinheiro… Um feito só ao alcance de alguns happy few. E que também é músico. E agricultor. E produtor de vinho. E transversal nas amizades. Ainda há dias Pedro Cabrita Reis me referia com grande alegria os vossos encontros, enquanto pessoas improváveis lhe gabam as delícias gastronómicas.
Na cozinha sou melhor do que na música, mas o meu filho tem muito mais jeito do que eu e já vai por esse caminho…

Qualquer dia temos um novo cozinheiro de apelido Lobo Xavier…
Sim, sim. Quanto a mim não cozinho muito, mas aquilo que faço, sei que faço muito bem.

Ah, bom. E qual é o seu grande ex-libris?
Aquilo com que as pessoas mais se deleitam é uma coisa que é muito difícil de ser boa e que para muita gente pode até ser repugnante, que é a lampreia. Toda a gente gosta da minha, acha piada àquilo, e a verdade é que a maior parte das lampreias que para aí existem…

… a sua não tem comparação?
Até hoje ainda não encontrei uma pessoa que realmente me batesse.

"Não tenho sempre essa espiritualidade presente na minha vida como gostaria, mas não tenho nenhuma dúvida sobre Aquilo. Sobre Aquilo com letra grande. Já sobre o resto, não tenho certeza nenhuma".

E tempo, onde vai buscá-lo?
Tudo isto se passa no meu tempo de descanso. Hoje em dia tenho aquilo a que nos ginásios os PT chamam “descanso activo”. Não se deve ter um descanso demasiado puro. O meu descanso é activo — alguns desportos de todo o terreno, cozinhar, tocar. Toco guitarra, o escritório tem uma banda onde toco há nove anos, em diversos espectáculos e em dois ou três grandes eventos por ano, mas também integro outras formações. Os advogados têm uma espécie de “Festival de Bandas” de advogados, que é sempre uma coisa muito divertida. E depois há as festas de Natal do escritório e, olhe, um dia a embaixada dos Estados Unidos até me convidou para tocar na Ajuda, num almoço. Mas… sou muito menos bom do que gostaria. Se eu pudesse trocava tudo por ser um virtuoso da guitarra.

A sério?
Ah, trocava tudo. Quadraturas, bancos, advogados…

Mas que inesperado. Esse desejo de ser melhor na guitarra, de alcançar o virtuosismo, pode corresponder afinal a uma vocação que não seguiu?
Ah, não. Não é vocação. Não tenho o talento suficiente.Nas leis e noutras coisas que também lá vou fazendo, tenho um talento suficiente, assim uma coisa mais ou menos. Na guitarra, não. Acordei tarde, não se chega a um nível de mestria quando se começa aos 45 anos ou 46 anos, como foi o meu caso. Mas, se eu pudesse, o que eu pedia em primeiro lugar ao génio da lâmpada era “Põe-me a tocar decentemente guitarra como um dos meus heróis”.

Qual é a sua grande convicção. Aquilo em que mais acredita, aquilo que tem permanecido ao longo da vida e dos anos?
A fé, a fé. A fé em Deus, a fé cristã, a fé católica. A noção do bem, a diferença entre bem e mal. Sobre essas coisas nunca tive nenhuma hesitação. Sou católico, e isso é uma parte sempre muito presente na minha vida, embora me esqueça muitas vezes. Mas logo depois lembro-me. O que faço é pouco, enfim, não faço tão bem quanto quereria, não sou tão espiritual como gostaria, não tenho sempre essa espiritualidade presente na minha vida como gostaria, mas não tenho nenhuma dúvida sobre Aquilo. Sobre Aquilo com letra grande. Já sobre o resto, não tenho certeza nenhuma.

O futuro: “Afasta-me da política a dificuldade em confiar em todas as pessoas com quem fazemos equipa”

Daqui a três, quatro anos, poderei estar a conversar consigo onde? Bato à porta do seu escritório de advogados, entro num estúdio de televisão, visito-o na sua casa de Penafiel ou… entro nalgum palco político ou governamental?
Na televisão não será natural. Quanto à advocacia, temos umas regras de desligamento progressivo, o que tornará muito mais fácil combinar uma conversa do que foi agora.

E na política, não posso encontrá-lo?
Não nego isso. Gostaria muito, gostaria imenso.

A ponto de poder ser candidato à Presidência da República?
Não.

Não?
Não, Maria João, nunca tive essa ideia. E o padrão que este Presidente colocou – e escrevi recentemente sobre isso — torna a vida muito difícil ao seguinte. Ser Presidente da República nunca me passou pela cabeça, nem tenho categoria para tal, nem posso levar isso a sério. Noutras coisas da política, sim.

Sim sem reticências?
Posso dizer-lhe algo que me afasta… Por um lado, claro, a vida confortável. Mas um dia, quando eu já não tiver filhos dependentes de mim e estiver com uma vida tranquila, o que é que me afasta da política? Vou dizer-lhe: afasta-me a dificuldade em confiar em todas as pessoas com quem fazemos equipa. Tive grandes amigos nos ministérios — António Pires de Lima, por exemplo, o Paulo Portas, alguns outros — mas só é possível fazer aquilo tendo por exemplo a mesmíssima confiança que eu tenho, no meu escritório, com as pessoas que trabalham comigo. Não me mentem, não me vão trair, cumprem. Ora, a formação dos governos hoje não permite facilmente o estabelecimento deste espírito de total confiança e destas cumplicidades. É o que eu tenho visto nos últimos governos e é isso que mais me assusta na política.

E, claro, aprecia muitíssimo sentar-se no Conselho de Estado.
Gosto muitíssimo. Muitíssimo. Tive muita honra no convite do Presidente da Republica e aprecio quem lá está. As pessoas intervêm todas — isto não É segredo –, algumas são glórias da política portuguesa, outras pessoas muito inteligentes e de vez em quando passam por lá pessoas excepcionais, que é um previlégio ouvir. O Mário Draghi, por exemplo, o Michel Barnier, que esteve lá agora

Este último Conselho deixou sombras ainda mais pesadas no céu do país. Barnier, o negociador do Brexit do lado da União Europeia, teve uma intervenção pessimista.
Não posso fazer declarações sobre o que se passou, nem contar reuniões do Conselho de Estado, mas respondo-lhe de uma maneira que no CDS dizem que “é falar à Coimbra”, que foi onde eu nasci: se me pergunta se eu saí de Belém entusiasmado e cheio de esperança com o que ouvi de Michel Barnier e com as notícias que ele trouxe, eu não lhe posso dizer que sim.

[Veja aqui a entrevista completa]

Todos queremos saber mais. E escolher bem.

A vida é feita de escolhas. E as escolhas devem ser informadas.

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