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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

O que é que Santana já tem (e não tem) para tentar conquistar o PSD

Tem o "glamour" que o partido quer, mas já não tem tantos fiéis. Tem Relvas, que já não tem (tanto) o PSD. Tem os anti-Rio, mas tem também anticorpos. Tem hipóteses de ganhar, mas tem tudo a perder.

Não há sede, ainda não há slogan, não há logótipo, não há equipa, não há programa. Mesmo assim, a entrada de Pedro Santana Lopes na corrida à liderança do PSD, confirmada de viva voz esta terça-feira à noite, agitou há dias o aparelho social-democrata. À velocidade a que a decisão foi tomada (nem cinco dias foram), são mais as dúvidas do que as certezas — mesmo entre o inner circle de Santana Lopes. Com as diretas atiradas para janeiro, que agora se sabe que foi por pedido do próprio, Santana sente que não há pressa e que até convém deixar Rui Rio controlar o calendário, para não parecer que está condicionado por ele. A decisão de desfazer já o tabu foi rápida para garantir que eventuais apoios estratégicos não fugiriam para Rio. O anúncio formal foi feito esta noite no espaço de comentário que tem na SIC Notícias, mas a apresentação formal só será feita “na semana que vem”. Ou seja: “Keep cool“.

Rui Rio anda “há um ano” a preparar a candidatura, enquanto Santana só se está a mexer “há uma semana”. Sempre de telefone na mão. Com as sucessivas notícias a darem conta das movimentações de Rui Rio há largos meses, desdobrando-se em almoços e jantares com os representantes das estruturas, os apoiantes mais próximos de Pedro Santana Lopes não resistem em provocar. “O Pedro não é muito de almoços e jantares. Há quem faça política assim. Mas os partidos não são confrarias“, diz ao Observador fonte próxima do social-democrata. “Almoços e jantares? Isso são tangas“, completa outro dos seus homens fortes.

Depois de apresentar formalmente a candidatura, Santana terá dois meses para “correr o país” e “falar com os militantes todos”, como disse esta terça-feira à noite na SIC Notícias. Mas, para já, os contactos têm sido feitos maioritariamente por telefone. Desde o anúncio da retirada de cena de Pedro Passos Coelho, “os telefonemas e as mensagens de autarcas, militantes anónimos e líderes de concelhias e distritais não têm parado“.

“O Pedro diz-nos que nunca recebeu tantas mensagens de apoio como agora. Está cansado, naturalmente, mas é o velho Santana que pega nas armas e vai à luta”, completa outra fonte, igualmente sob anonimato — regra geral para todos que se arriscam a falar da candidatura do ex-primeiro-ministro. A ordem é prudência, até porque todos sabem que este momento é decisivo para a definição dos próximos passos a seguir.

"O Pedro não é muito de almoços e jantares. Há quem faça política assim. Mas os partidos não são confrarias", diz fonte próxima de Pedro Santana Lopes

É que, de Pedro Santana Lopes ser apenas um nome “lançado por Miguel Relvas para baralhar”, e para pressionar os então putativos candidatos Luís Montenegro ou Paulo Rangel, a Pedro Santana Lopes ser mesmo um nome real e uma hipótese concreta foram apenas cinco dias. “Nem uma semana”, foi tudo muito rápido. Mas sem tempo a perder. Logo que viu uma abertura para avançar, o antigo enfant terrible pegou no telefone e desatou a “ouvir” o partido. Desde líderes das distritais a presidentes de algumas das concelhias mais importantes do norte do país, passando por autarcas que conseguem mobilizar mais votos, e até por nomes ditos mais independentes, como o comissário europeu Carlos Moedas, Santana “ligou a muita gente”. Mas não pressionou nem sequer pediu apoios, preferiu ouvir. E isso agradou a muitos dos interlocutores.

“É como quando vamos a uma loja só para ver, quando não temos a certeza do que queremos: não gostamos de ter a empregada a pressionar-nos para levarmos a camisa azul. Quando nos fazem isso temos tendência a dizer obrigado e a ir embora”. Foi essa situação que, nas palavras de um líder distrital, Santana tentou evitar. Telefonou a todos os líderes distritais e limitou-se a perguntar algo como “o que espera de mim daqui para a frente?”. E depois ouviu. Segundo outra fonte social-democrata, a quem Santana Lopes também telefonou no passado sábado, o telefonema durou cerca de 20 minutos. “Eu fui muito sincero, fiz a minha análise, e ele agradeceu a honestidade e não me perguntou se tinha o meu apoio ou não“, conta ao Observador. Outras abordagens, como às estruturas autónomas do PSD, como a JSD ou os TSD, foram mais institucionais — telefonemas curtos e obrigatórios a anunciar que era candidato. Tudo o resto foi mais uma operação de charme.

Tudo se precipitou quando Passos Coelho garantiu que não ia mesmo avançar. “O Pedro nunca enfrentaria Passos Coelho. Sempre teve uma boa relação com ele. Não ia fazer nada contra ele. Se Passos não se retirasse, Santana Lopes não se candidataria“, assegura uma fonte que tem acompanhado todo o processo bem de perto.

Pedro Correia / Global Imagens

Com as mensagens de incentivo a chegarem de todos os lados e com os primeiros sinais positivos, a decisão de avançar foi maioritariamente pessoal. “Ele tem estado com pessoas amigas, que estão com ele desde sempre, e com a família. Apesar de agora estar mais sensato, o Pedro sempre foi um político muito sui generis. Toda a decisão foi muito pessoal e individual. Ouviu muito a família, sobretudo os filhos. Ouve agora os filhos como antes ouvia o pai. E a família não se opôs”, garante a mesma fonte.

Pedro Santana Lopes já não é um franco-atirador. Esses tempos já lá vão. Tem agora muito mais experiência, conhecimento e sensibilidade”, sublinha uma das pessoas mais próximas do ex-presidente da Câmara Municipal de Lisboa. “É evidente que sentiu que tinha um lastro de apoio no partido e na sociedade civil que sustentavam as suas aspirações. Caso contrário, não teria avançado. Mas foi uma decisão maioritariamente pessoal e não foi condicionado pelo apoio de X ou Y“, nota.

Santana telefonou a todos os líderes distritais e limitou-se a perguntar algo como "o que espera de mim daqui para a frente?". E depois ouviu, conta ao Observador um líder distrital do PSD.

Entre alguns pesos pesados do partido, habituados a estas andanças, a leitura é menos romântica. “A ideia de que Santana Lopes avançou sem auscultar o aparelho é música celestial. Isso é mentira. É evidente que já sabe, ou tem uma ideia, dos apoios com que pode contar e de quem estará com ele”, sublinha fonte social-democrata, enquanto alerta para o alto risco desta manobra.

“Pedro Santana Lopes tem bastante a perder. Já foi presidente do partido, já foi primeiro-ministro, perdeu as eleições para José Sócrates, perdeu as diretas para Manuela Ferreira Leite, perdeu depois a eleição para a Câmara Municipal de Lisboa e agora abdica do cargo de provedor da Santa Casa da Misericórdia. Se perder estas diretas é a quarta derrota consecutiva. São derrotas a mais para as aspirações de Santana Lopes”, argumenta.

"Pedro Santana Lopes tem bastante a perder. Já foi presidente do partido, já foi primeiro-ministro, perdeu as eleições para José Sócrates, perdeu as diretas para Manuela Ferreira Leite, perdeu depois a eleição para a Câmara Municipal de Lisboa e agora abdica do cargo de provedor da Santa Casa da Misericórdia. Se perder estas diretas é a quarta derrota consecutiva", nota um alto quadro do partido.

Um país partido e muita indefinição a norte

Com duas candidaturas de peso como estas vai haver muita divisão“, diz um santanista convicto da dificuldade que vai ser uma disputa deste calibre. A contagem de espingardas já começou, claro, mas há muita gente que ainda prefere esconder o jogo. Das 21 distritais, poucas são as que assumem de que lado estão. Primeiro, porque algumas ainda nem reuniram a comissão política distrital, e em muitos casos há concelhias que puxam para lados diferentes e a distrital não pode falar em nome de todas. Depois, porque assumir um apoio é provocar uma onda de pressão desnecessária. “Se alguém se atravessar agora vai ficar muito pressionado”, diz um presidente de uma distrital. “Muita tinta vai correr ainda, e de certeza que há gente que hoje diz que está com o Rio e vai acabar com o Santana, ou o contrário”, diz outra fonte social-democrata. “Mais uma semana e vai definir-se tudo melhor, ainda nem há candidatos oficiais”. É este o sentimento generalizado.

O facto de o Conselho Nacional da última segunda-feira à noite ter aprovado a realização de eleições diretas a 13 de janeiro, optando por não apressar os cavalos, fez com que as tropas parassem para respirar. “Ganhámos tempo com a marcação do calendário para janeiro e fevereiro, e isso fez com que parássemos. Ninguém se quer precipitar, as distritais que não são tontas vão esperar para ver”, diz um conselheiro nacional. Esperar pelo quê? Pela definição dos projetos e das equipas de cada um, mas também para ver se alguém surpreende, pela positiva ou pela negativa. “O Rio ainda pode fazer disparates à Rio, o Santana ainda pode conseguir afirmar-se à Santana de antigamente“, diz a mesma fonte.

PSD escolhe data de 13 de janeiro para eleições, contra vontade de apoiantes de Rio

Já há, ainda assim, apoios declarados. Guarda, Leiria, Portalegre, estarão seguros para Rio. Álvaro Amaro, presidente da Câmara da Guarda, também é muito próximo de Rio, o que faz daquele um território garantido. O mesmo com Leiria, sendo Rui Rocha e Feliciano Barreiras Duarte assumidos apoiantes de Rio; e com Aveiro, local escolhido por Rio para anunciar amanhã a sua candidatura, estando o líder distrital Salvador Malheiros a ser apontado como o seu diretor de campanha.

O caso de Aveiro, contudo, é peculiar, porque é uma distrital dividida. “A divisão não é tão grande quanto isso, será mais numa ótica de 70%-30%: os que estiveram com Salvador Malheiro na disputa pela distrital estão com o Rio, os que estiveram contra ele não estão com o Rio”, diz uma fonte. Esta terça-feira, também o líder da distrital de Portalegre, Armando Varela, disse, a título individual, que o ex-autarca do Porto era o candidato com “melhores condições” para suceder a Passos Coelho. De resto, distritais como Coimbra, Viseu, Bragança ou Vila Real, poderão pender mais para o lado do portuense.

No partido, muitos ainda esperam a definição dos dois candidatos. "O Rio ainda pode fazer disparates à Rio, o Santana ainda pode conseguir afirmar-se à Santana de antigamente", sublinha uma fonte do PSD.

O jogo ganha-se, contudo, em Lisboa, Porto e Braga, que têm algumas das concelhias mais valiosas do partido, pela dimensão e número de militantes que agregam. É o caso de Barcelos, Vila Verde, Vila Nova de Famalicão e Guimarães, em Braga, ou de Vila Nova de Gaia, Trofa ou Lousada, no Porto. “70% dos militantes do PSD estão concentrados a norte de Leiria”, pelo que há certos distritos a sul que contam pouco. O problema é que a norte ainda há muitas peças soltas.

Quem está do lado de Santana Lopes? Lisboa estará certamente, segundo confirmou ao Observador o líder da distrital, Pedro Pinto. Mas Lisboa tem o fator Rodrigo Gonçalves, o presidente interino da concelhia de Lisboa, que apoia Rui Rio e ainda tem muito poder local. Castelo Branco, por sua vez, é seguro para Santana, sendo Manuel Frexes um amigo de longa data do ex-primeiro-ministro. De resto, há luzes verdes vindas de Faro, Santarém, Évora, Setúbal (embora o presidente da distrital, Bruno Vitorino, preferisse uma terceira via chamada Miguel Pinto Luz), e vários presumíveis pontos de força nos distritos de Porto e Braga, sobretudo entre aqueles que querem tudo menos Rui Rio. José Manuel Fernandes, eurodeputado e líder da distrital de Braga, mantém para já o silêncio oficial — embora tenha sido apoiante de Santana Lopes nas diretas de 2008, em que ganhou Manuela Ferreira Leite.

“A recetividade que Santana Lopes está a ter junta as duas dimensões: os que o querem a ele e a esmagadora maioria que não quer Rui Rio, não pela pessoa que é, mas pelas discordâncias políticas”, diz um apoiante de Santana. A bandeira da regionalização, tantas vezes erguida pelo ex-autarca do Porto, e tão odiada pelo partido, é logo o que vem à cabeça das várias fontes contactadas pelo Observador. Por isso, muitos dizem que é preciso esperar para ver o que defendem os candidatos. “O que quer o Rui Rio? Quer um bloco central? Vai continuar a defender a regionalização? O que espera do PSD nos próximos dois anos? É preciso saber“, ouviu o Observador.

"A recetividade que Santana Lopes está a ter junta as duas dimensões: os que o querem a ele e a esmagadora maioria que não quer Rui Rio, não pela pessoa que é, mas pelas discordâncias políticas", diz um apoiante de Santana.

Renovação? Ou Pinto Luz avança ou Santana chama os jovens

Entre alguns sociais-democratas ouvidos pelo Observador, a convicção é de que há um espaço vazio na corrida à liderança do PSD que pode ser preenchido por outra pessoa que não Santana ou Rio. Depois de excluídos os nomes de Rangel e Montenegro, e depois de “Pedro Duarte ter perdido a oportunidade dele”, os mais novos do partido ficaram “órfãos”. Por isso, a hipótese de Miguel Pinto Luz, ex-líder da distrital de Lisboa e vice-presidente da Câmara de Cascais, entrar na corrida ganha alguma força — é tido como alguém capaz de representar a geração de dirigentes e militantes mais novos, que não se revê nos dois tubarões que vão a jogo.

“É evidente que se Miguel Pinto Luz avançar — e acho muito provável que avance — não o fará como candidato em nome próprio, mas antes numa lógica geracional. E aí poderia ter apoios importantes, como Pedro Duarte [ex-líder da JSD e ex-secretário de Estado de Santana], José Eduardo Martins [antigo secretário de Estado de Durão e Santana e crítico assumido de Passos], Paulo Veríssimo [ex-vereador em Sintra], Bruno Vitorino [líder da distrital de Setúbal] ou Sérgio Azevedo [deputado e vice-presidente do PSD e uma peça importante partido em Lisboa]”, nota uma fonte próxima de Santana.

Neste contexto, e apesar da evidente desvantagem em relação às duas velhas raposas sociais-democratas, Miguel Pinto Luz podia roubar alguns votos a Pedro Santana Lopes — mesmo sem reais aspirações de vencer, mais numa lógica de preparar terreno para uma futura disputa interna e ter um resultado honroso, na ordem dos 5% a 15%.

Há, no entanto, quem diga que o vice de Carlos Carreiras “não está a conseguir capitalizar o apoio total dos mais novos“, limitando-se a algumas concelhias de Lisboa e ao amigo Bruno Vitorino, em Setúbal. Então para que lado vão pender os “órfãos” de um rosto jovem como Luís Montenegro, Paulo Rangel ou Pedro Duarte? Para o de Santana Lopes, acreditam várias fontes.

“Portugal ganhou e eu sou candidato à liderança do PPD/PSD”, anuncia Santana Lopes

“Se eu fosse o Santana fazia um discurso a assumir-se como delfim de Sá Carneiro, a dizer que vai refundar a social-democracia e que vai rodear-se de gente nova para modernizar o partido“, diz uma fonte. Outra, mais próxima de Santana, mostra-se convicta de que o atual provedor da Santa Casa vai “apostar na renovação do partido”. Na verdade, foi exatamente essa a mensagem que o próprio Santana Lopes deixou passar quando anunciou que era candidato, esta noite na SIC: “Gosto de estar com a malta nova, é com quem aprendemos mais”, disse, desvalorizando o facto de ter 61 anos.

Pedro Granadeiro / Global Imagens

O peso relativo do aparelho e a sombra de Miguel Relvas

A convicção entre os apoiantes mais próximos de Santana Lopes é de que o aparelho do partido, as bolsas de votos e o caciquismo vão desempenhar um papel particularmente secundário nestas diretas. “Se o Pedro estivesse muito preocupado com o apoio do aparelho, não avançaria“, nota um dos seus soldados mais leais. O próprio Santana Lopes deixou essa mensagem bem clara quando se pronunciou pela primeira vez sobre a hipótese de avançar para a liderança do partido. “Não são os barões nem os baronetes que votam“, afirmou em plena noite eleitoral, no que foi entendido como um recado claro dirigido a Rui Rio.

O facto de Santana e Rio medirem forças em diretas dilui, precisamente, o poder dos grandes caciques do partido, como vão lembrando vários sociais-democratas ao Observador. Além disso, numa luta entre dois pesos pesados “o aparelho vai dividir-se muito”, nota uma fonte bem colocada. “O voto livre e os eleitores indecisos e não alinhados com as estruturas vão desempenhar um papel fundamental. É evidente que o aparelho conta, mas menos do que alguma vez contou.

Além disso, continua a mesma fonte, o facto de os grandes colecionadores de votos — Miguel Relvas e Marco António Costa — terem “perdido parte da influência que já tiveram” torna tudo “mais imprevisível“. O que não quer dizer que os dois não se movam nos bastidores. Segundo apurou o Observador, Miguel Relvas terá feito contactos em nome de Santana Lopes. “Ele está a ajudá-lo. E ainda chega a todo o lado, mesmo que não tenha a força de outros tempos, conhece muita gente”, conta um líder distrital.

Resta saber se os cordelinhos de Miguel Relvas são uma ajuda ou um ativo tóxico. Há quem aposte mais na segunda opção, lembrando mesmo um sussurro que ouviu entre apoiantes de Rui Rio: “Quanto mais o Miguel aparecer ao lado do Santana, melhor para nós”.

João Girão

O antigo homem forte de Pedro Passos Coelho não adora Rui Rio — “ele sabe que nunca o poderá controlar com fez com Passos“, chega a sugerir uma fonte do PSD. Além disso, a relação entre Relvas e Santana Lopes é “boa”, adianta outra fonte. Relvas foi secretário-geral de Santana Lopes, quando este era líder do PSD, e mesmo durante a era Passos cultivou sempre uma relação próxima com o atual provedor da Santa Casa.

Contactado pelo Observador, Miguel Relvas escusou-se a comentar esta questão, atirando mais esclarecimentos para a entrevista que vai dar à SIC, na quinta-feira. Será a segunda tentativa pública de condicionar a sucessão de Passos, depois de, em entrevista ao Expresso, ter dito que pagava para ver a candidatura de Rui Rio, deixando o autarca portuense ainda com menos margem para recuar. É a prova provada de que, parafraseando Santana Lopes, Miguel Relvas vai andar por aí.

"Miguel Relvas está a ajudar Santana Lopes. E ainda chega a todo o lado, mesmo que não tenha a força de outros tempos, conhece muita gente", assegura um líder distrital do PSD.

Outro foco importante de apoio é Marco António Costa. O homem forte do aparelho social-democrata no norte já garantiu que não vai assumir cargos partidários no futuro mais próximo, regressando à sua posição de militante de base. Ainda assim, a decisão, assumida na sequência do caminho escolhido por Pedro Passos Coelho não foi anunciada sem um aviso: o social-democrata “não vai prescindir de intervir politicamente no partido relativamente à definição do seu futuro”. Conhecida a rivalidade que a dupla Luís Filipe Menezes/Marco António Costa mantém com Rui Rio, é expectável que o vice-presidente de Passos faça tudo para impedir a vitória de Rio. O Observador tentou contactar Marco António Costa, mas não conseguiu uma resposta até à publicação deste artigo.

Mesmo que esteja a contar espingardas — porque está –, mesmo que conte com o apoio de Miguel Relvas e, presumivelmente, de Marco António Costa — porque conta — e mesmo que se esteja a desdobrar em contactos — porque está –, a perceção de Pedro Santana Lopes é de que serão as bases a definir estas eleições.

“Pedro Santana Lopes sabe que o processo será difícil. Mas são eleições diretas, já lá vão os tempos dos congressos dos caciques e o voto é secreto. Vamos ver o que valem os sindicatos de votos num universo de 20 mil eleitores“, diz uma fonte muito próxima do social-democrata ao Observador.

"Quanto mais Miguel Relvas aparecer ao lado do Santana melhor para nós", ironiza um apoiante de Rio. 

Santana tem o “glamour de que o PSD gosta”

Pedro Santana Lopes tem o “glamour”, a “grande retórica”, os “afetos”, os aplausos e as multidões dos congressos de antigamente. Tem tempo até janeiro para ganhar debates televisivos e falar ao ouvido dos militantes, animando as bases. Mas não tem as sondagens do lado dele. O Observador sabe que vão começar a ser divulgadas sondagens “nos próximos dias” que espelham uma preferência “clara” da população geral (não militantes) por Rui Rio em detrimento de Pedro Santana Lopes.

Fora do partido, o provedor da Santa Casa Misericórdia não goza da popularidade de Rui Rio. Há o sentimento generalizado de que Rio será um primeiro-ministro mais capaz. E, mesmo dentro do partido, há militantes que acreditam que o ex-autarca do Porto tem melhores hipóteses de derrotar António Costa e devolver o poder ao PSD.

No entanto, comenta um alto quadro do partido, “Santana é um animal político e vai mediatizar estas eleições, explorando o lado afetivo das bases”. “Na sociedade dos afetos em que vivemos hoje, ele [Santana] leva vantagem”, ouviu o Observador de um dos seus apoiantes, que ficou “surpreendido” com a recetividade que a sua presumível candidatura teve no Conselho Nacional desta segunda-feira à noite.

"O Santana tem, ou pelo menos tinha, a grande retórica, as grandes multidões, a alma e o coração, mais do que a razão", recorda uma fonte do PSD

Depois há dois trunfos que Santana tem e Rio não. Numa campanha altamente mediatizada, o ex-presidente da Câmara de Lisboa deverá ganhar vantagem nos debates televisivos — terreno em que Rui Rio será, presumivelmente, menos talentoso. Além disso, Santana Lopes ainda é visto como a “alma e coração do partido”. “O Santana tem, ou pelo menos tinha, a grande retórica, as grandes multidões, a alma e o coração, mais do que a razão, e se ele conseguir dar isso ao PSD, consegue capitalizar o apoio das bases”, ouviu o Observador de uma fonte do partido.

Apesar de serem candidatos muito fortes, os dois têm debilidades. “Rio, apesar de ter estado fora das decisões do partido, não está fresco. É olhado, por uma parte do partido, como um provinciano e alguém pouco fiável. Santana, por sua vez, tem aquela passagem catastrófica como primeiro-ministro”. Além disso, foi com Santana que José Sócrates conseguiu a primeira e única maioria absoluta da história do PS e foi com Santana que António Costa conseguiu a primeira maioria absoluta na Câmara de Lisboa. “Nem o partido esqueceu isso, nem ele”, conclui um dos barões do PSD. Serão eleições “muito renhidas” e “todos os detalhes vão contar”.

E, nesta corrida, Rio soma já uma derrota: na reunião do Conselho Nacional do PSD ficou aprovado por “maioria esmagadora” que as diretas seriam a 13 de janeiro e não a 9 de dezembro, como pretendia Rui Rio — em teoria, um calendário mais apertado limitaria o debate e a margem para outras candidaturas. Com dois meses pela frente, espera-se que os candidatos corram o país para falarem às estruturas e para convencerem o universo de eleitores “pessoalmente e não por interposta pessoa”. Para Santana, a aposta vai ser nos afetos, à moda de Marcelo, e não nas bolsas de votos de outrora. Mas o tabuleiro de xadrez ainda mal foi aberto, e há ainda muitas peças à espera para se posicionarem.

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