Quando Miguel Sousa Tavares era Miguel “carapau”. O livro das memórias de infância do escritor

26 Maio 20181.730

"Cebola Crua com Sal e Broa", de Miguel Sousa Tavares, é um livro de memórias e reflexões. O Observador publica o primeiro capítulo da nova obra do autor: "Um comboio para longe de casa".

Miguel Sousa Tavares decidiu fazer uma pausa no romance e escrever um livro de memórias. ‘Cebola crua com sal e broa’, que chegou às livrarias no passado dia 24 de maio, percorre as primeiras décadas de vida do autor, desde o período passado numa quinta da serra do Marão com a madrinha, a Tia Mariazinha, grande amiga da mãe e sobrinha do poeta Teixeira de Pascoaes, à juventude “numa Lisboa cinzenta interrompida por uma revolução muito familiar, a descoberta do mundo através dos livros, dos jornais e da televisão, e as incursões na política numa democracia cheia de encantos e contradições”, referiu a editora, a Clube do Autor.

Pelo meio, há verões passados nas praias da Granja, em Espinho, e de Lagos, no Algarve, “com um ‘Melville’ e a sua pesca ‘ao candeio’, uma educação numa casa diferente e alternativa”, a entrada na faculdade, marcada por Marcelo Rebelo de Sousa e pelas lutas estudantis, o 25 de Abril, a extinção da PIDE, as loucuras do PREC e tantos outros momentos que marcaram profundamente a vida do escritor de 67 anos que, a data altura, questiona:

“Pode um homem viver impunemente começando a sua infância numa aldeia do Marão, comendo cebola crua com sal todas as merendas? E daí saltar para o mundo cinzento e as manhãs submersas da vida salazarenta da Lisboa dos anos sessenta? Acordar na manhã luminosa do 25 de Abril e descobrir que, afinal, éramos todos antifascistas e revolucionários e, logo depois, ir ao encontro do mundo e descobrir-se a si mesmo como uma testemunha privilegiada de tempos incríveis que, não os narrando, teria sepultado para sempre na cinza dos dias inúteis? Declaro que vi. E, por isso, conto. Antes que a água tudo lave e tudo apague.”

‘Cebola crua com sal e broa’ começa com a viagem de comboio até ao Porto, e do Porto até à quinta da madrinha e “Tio” Manuel Alvito, “um Príncipe magro, de olhos azuis e longas pernas”. E é precisamente esse capítulo que o Observador agora publica:

O novo livro de Miguel Sousa Tavares, publicado pela editora Clube do Autor, chegou às livrarias a 24 de maio

I

Um comboio para longe de casa. Uma quinta no Marão. Uma escola pobre, laica e igual para todos. Aprender para sempre

Eu estava sentado no chão da copa da casa dos meus pais em Lisboa, a brincar com uns pequenos búzios com os quais ensaiava a formação de um comboio, curvando no seu percurso imaginário. Devia ser Inverno porque me lembro que o sol entrava pela janela e vinha bater no chão, dando-me uma sensação de calor e conforto. Olhei o raio de sol e reparei, pela primeira vez, que ele não era apenas composto de luz, mas também de milhares de poeiras suspensas no ar que pareciam dançar em volta dele. É a coisa mais antiga de que me lembro.

Poucos anos depois, no dia em que fiz seis anos de idade, a minha mãe, as minhas três irmãs e a nossa eterna Luísa Gorda, a empregada dos “meninos” e de tudo o resto em geral, estavam sentadas na mesa dessa mesma copa a cantar-me os parabéns, num lanche de aniversário assim reduzido ao estrito mínimo, com o bolo de laranja lá de casa, que nunca mais ninguém conseguiu imitar. Quando a pequena celebração terminou e fiquei a sós com a minha mãe, ela virou-se para mim e disse-me:

— Miguel, amanhã vais fazer uma grande viagem de comboio até ao Porto. Aí vai estar um senhor que é um grande amigo meu e do pai e que te vai levar de carro até uma quinta muito bonita onde ele vive com a tua madrinha e a filha deles, que é uns anos mais velha do que tu.

Eu ia então andar finalmente num comboio a sério! Mas também ia, pela primeira vez, sair de casa, separar-me da minha mãe e das minhas irmãs!

— Mas porquê, mãe, porque é que vou para essa quinta?

— Vais lá viver uns tempos.

— Mãe, eu não quero! – e desatei a chorar, como muitas vezes depois choraria outras separações.

Naqueles tempos, as viagens entre o Porto e Lisboa tinham qualquer coisa de aventuroso, de tal forma que era comum saber-se antecipadamente quem viajaria do Porto para Lisboa e vice-versa. Suponho que tal decorreria das conversas entre homens ou senhoras na Brasileira do Chiado, onde a pequenez de que se compunha a vida social, cultural e política da cidade, se não mesmo do país, era sabida, falada e comentada. Para ir de Lisboa ao Porto, havia a Estrada Nacional n.o 1, que demorava entre sete a nove horas a ser feita, com paragem obrigatória no Pedro dos Leitões, na Mealhada (um ritual que não perdi, até hoje). E havia a alternativa do comboio, muito mais elegante e cosmopolita — sobretudo, desde que ao Rápido, que demorava umas cinco horas a fazer a viagem, se veio juntar o mítico Foguete, uma automotora com motor Fiat, que durava apenas três horas e meia (e apenas vinte minutos a mais do que, após sessenta anos e milhares de milhões de euros de “modernizações”, projectos e estudos, demora hoje o Alfa Pendular, nas felizes ocasiões em que não se atrasa até uma hora, devido a “avaria na sinalização” ou “problemas de circulação”. Ou seja, o resultado do total desinvestimento no transporte ferroviário do país, nos anos oitenta e noventa do século passado, quando já tínhamos idade para ter juízo e não apenas espatifarmos os dinheiros europeus em auto-estradas).

Foi, pois, confiado aos cuidados de um cavalheiro amigo dos meus pais e que fazia a viagem sozinho, que eu embarquei, abraçado a uma bola de futebol, o meu presente de aniversário da véspera, ao encontro da minha nova vida. E, apesar da angústia de estar a deixar para trás a minha mãe, a minha casa e as minhas irmãs, por esta ordem, a simples visão do focinho resfolegante e prateado do Foguete pôs-me num estado de excitação que tornou o embarque bem menos dramático do que os meus pais decerto esperariam: talvez tenha nascido aí a minha alma de viajante. Mas o pobre cavalheiro a cuja guarda fora confiado deve ter-se arrependido mil vezes do seu encargo, porque eu não lhe dei um instante de sossego em toda a viagem, insistindo em percorrer todo o comboio várias vezes, de trás para a frente e vice-versa, querendo debruçar-me em todas as janelas e, sobretudo, teimando em viajar entre carruagens, equilibrando-me de pé sobre as placas metálicas oscilantes que serviam para passar de uma carruagem para a outra. Acho que só parei quieto quando atravessámos a Ponte de D. Maria e eu me vi suspenso a cem metros sobre o Douro: também deve ter sido aí que nasceu o meu terror irracional de altitudes e de tudo o que se eleva acima do chão — elevadores, pontes, monta-cargas, helicópteros, aviões, por ordem crescente.

Mas o pobre cavalheiro a cuja guarda fora confiado deve ter-se arrependido mil vezes do seu encargo, porque eu não lhe dei um instante de sossego em toda a viagem, insistindo em percorrer todo o comboio várias vezes, de trás para a frente e vice-versa, querendo debruçar-me em todas as janelas e, sobretudo, teimando em viajar entre carruagens, equilibrando-me de pé sobre as placas metálicas oscilantes que serviam para passar de uma carruagem para a outra. Acho que só parei quieto quando atravessámos a Ponte de D. Maria e eu me vi suspenso a cem metros sobre o Douro: também deve ter sido aí que nasceu o meu terror irracional de altitudes e de tudo o que se eleva acima do chão — elevadores, pontes, monta-cargas, helicópteros, aviões, por ordem crescente.

Fiz várias travessias dessa ponte na minha infância — sempre em marcha muito lenta e antecedidas da reza de uma salve-rainha, que a minha avó impunha, coisa que também não contribuía para sossegar ninguém. Porém, nunca se confirmando o que vozes avisadas diziam sobre a sua iminente derrocada, num dia que só o destino sabia quando. E lembro-me também de atravessar o túnel fumarento e carregado de fuligem que antecedia a deslumbrante Estação de São Bento, onde então era chique desembarcar no Porto. À minha espera, nesse longínquo 26 de Junho, lá estava o meu “Tio” Manuel Alvito, que não era tio, mas sim marido da minha madrinha — a Tia Mariazinha, que também não era minha tia, mas sim madrinha de baptismo, grande amiga da minha mãe e sobrinha do poeta Teixeira de Pascoaes, o qual morrera no ano anterior, no seu lindíssimo Paço de Pascoaes, em Amarante, a vila que era o meu destino de referência desse dia e dos próximos dois anos. Assim que o cavalheiro que me aturara desde Lisboa, seguramente aliviado, me passou de mão para o Tio Manuel, este levou logo o primeiro susto, pois, ao descer do Foguete, a bola de futebol que me haviam dado de presente de anos na véspera caiu dos meus braços, escorregou para debaixo do comboio, e eu, sem hesitar um segundo e sem dar ao meu Tio tempo de me agarrar, precipitei-me para a linha e enfiei-me debaixo do comboio até recuperar a minha preciosa bola — que, além do mais, era agora tudo o que me ligava à vida que deixara para trás, a única que conhecera até então.

A ponte D. Maria

Eu gostei do Tio Manuel mal o vi, achei-o lindo, um Príncipe magro, de olhos azuis e longas pernas, e acho que ele também terá gostado de mim assim que me viu. Como mais tarde vim a saber, ele ansiava por ter um filho rapaz a acrescentar à sua única filha, e um dia, depois de nascer o meu irmão mais novo e último dos cinco filhos dos meus pais, ele veio a Lisboa

de propósito para pedir ao meu pai que o deixasse adoptar-me, dizendo-lhe que ele já tinha outro rapaz e filhos que chegassem. Nunca, ao longo do tempo que passei em Amarante, a minha mãe deixou de ser uma memória constante e uma saudade diária — como hoje ainda é. Em contrapartida, não conseguia lembrar-me bem do rosto do meu pai e, insensivelmente, dei comigo a tratar por pai o Tio Manuel. E ele nunca me disse que o não fizesse. O meu Tio-Príncipe também adorava automóveis e velocidades e, à custa das finanças familiares, pois que não havia outra forma na altura, chegou a participar nos então célebres Circuitos de Vila do Conde e de Vila Real. Pela sua mão, assisti, no Circuito da Boavista, a um dos primeiros Grandes Prémios de Portugal de Fórmula 1, e hoje ainda recordo os cinco primeiros classificados: Jack Brabham, Bruce McLaren, Stirling Moss, Graham Hill e Phil Hill. E o “nosso” Nicha Cabral, que cortou a meta a pé, depois de ter espetado o carro contra alguma árvore do circuito. Nesse dia, então, fomos de Porsche do Porto até à Quinta do Carvalhal, na aldeia de Jazente, freguesia de Padronelo, concelho de Amarante, de cuja cidade distava uns doze quilómetros, a maioria dos quais em “estrada florestal” de terra batida. Mas não foi aí, presumo, que nasceu o meu gosto pelo todo-o-terreno, pelo prazer de conduzir em estradas de terra batida, ou mesmo em terra sem estradas algumas.

À medida que vamos reconstituindo o fio à meada e indo lá atrás de tudo, é fácil darmo-nos conta de que muito do que nos viria a marcar a vida toda começou muito cedo e, às vezes, sem darmos por isso e sem o termos associado a qualquer coisa que nos despertou na infância. Terá a minha paixão absoluta, a minha dependência vital da água, nascido no instante em que chegámos à Quinta do Carvalhal e o Tio Manuel me foi mostrar, orgulhoso, a piscina cujas obras tinham terminado há dias (e que, na verdade, era um tanque de rega adaptado a piscina, com as paredes nascendo do chão para cima e alimentado por uma bica de água gelada que corria permanentemente ali ao lado)? Eu nunca tinha visto uma piscina e julgo que nem sabia o que era. Mas aquela massa de água transparente, que parecia pedir que mergulhássemos nela e descobríssemos a sua consistência líquida e mágica, iria marcar para sempre o primeiro Verão de que me lembro — e tenho feito tudo para não me esquecer de nenhum. Nos dias e nos meses seguintes, em todo esse Verão e no outro a seguir, eu não saía da água mais do que quinze minutos de cada vez e porque me obrigavam a sair. Como não sabia ainda nadar à superfície, nadava debaixo de água — da parte funda, onde não tinha pé, até à parte baixa, onde emergia. Foi por isso que nasceu aí a alcunha que o meu tio me pôs: “carapau”. Como na canção do Chico Buarque, durante toda a minha juventude e mesmo depois dela, em Amarante, no Porto, na Granja, em Moledo do Minho, nas praias geladas do Norte, só me conheciam pelo nome de Miguel Carapau.

Como não sabia ainda nadar à superfície, nadava debaixo de água — da parte funda, onde não tinha pé, até à parte baixa, onde emergia. Foi por isso que nasceu aí a alcunha que o meu tio me pôs: “carapau”. Como na canção do Chico Buarque, durante toda a minha juventude e mesmo depois dela, em Amarante, no Porto, na Granja, em Moledo do Minho, nas praias geladas do Norte, só me conheciam pelo nome de Miguel Carapau.

A Quinta do Carvalhal, que na minha insignificância de criança me parecia enorme, não teria mais do que uns vinte hectares, dispostos em socalcos — e cada um com o seu tanque de rega em granito, que comunicava com o seguinte por gravidade, e não produzia nada que pudesse sustentar o exército de empregados que, além da família, ali vivia. Por cada hectare, havia um empregado agrícola, além do feitor, o Sr. Albano, que distribuía tarefas pelo pessoal e mantinha uma contabilidade mais do que rudimentar, numa divisão no piso térreo a que pomposamente chamava o seu “escritório” e que nada mais era do que um espaço minúsculo, sombrio e húmido, que assinalava a entrada da mina de água. Para além dos trabalhadores agrícolas, havia ainda o pessoal doméstico — a cozinheira, as ajudantes, as raparigas “da casa” (uma por cada membro da família), e uma mulher que me metia medo, de barbas crescidas como um lenhador, e cuja única função era lavar e migar as couves do caldo-verde. Suponho que os homens, os trabalhadores rurais, receberiam um ordenado, ainda que de miséria, mas mesmo assim mais do que as empregadas domésticas da casa, que se davam por felizes por terem telhado, cama e comida, e cujos pais suplicavam para que fossem recebidas nas quintas ali em redor. Mas todos os dias, pontualmente ao meio-dia, os homens reuniam-se no “refeitório”. E quase todos os dias o almoço era o mesmo: caldo-verde e arroz de feijão. Com grande constrangimento da casa, eu, o “menino Miguelzinho”, adorava juntar-me a eles e acompanhá-los no caldo-verde e no arroz de feijão. Isso, mais a minha merenda de todos os dias — cebola crua com sal e broa –, é escusado dizer que ficaram para sempre como dos meus pratos preferidos. Nada do que vivemos na infância é a feijões, só mesmo o arroz.

Passados tantos anos e tantas vicissitudes, tantos e tantos dinheiros europeus, tantas conquistas, tantos centros comerciais, é difícil imaginar o que era a miséria do interior de Portugal, de uma pequena aldeia do Marão, nesses anos! Quando, no fim desse primeiro Verão, entrei na escola de Jazente, onde éramos uns cinquenta alunos da 1.ª à 4.ª classes, todos amontoados na mesma sala de aula, aos dois por carteira, sem casas de banho, sem qualquer tipo de aquecimento contra o frio mineral da serra, fomos todos confiados à mesma professora, a D. Constança, que a uns ensinava as primeiras letras, enquanto a outros ensinava os afluentes do Douro ou as paragens do caminho-de-ferro da Beira, em Moçambique — onde quer que isso ficasse. Cinquenta alunos de quatro graus de ensino diferente, confiados a uma única professora, sem a ajuda de um contínuo ou funcionário de secretaria e que, num ano e meio, não faltou a uma única aula! Fosse hoje, e o presidente do Sindicato dos Professores já teria montado vários comícios para a televisão à porta da escola e os pais dos alunos já teriam aberto telejornais a pedir o encerramento da escola sem aquecimento…

Miguel Sousa Tavares em criança

Todos tínhamos apenas uma ardósia com um giz para as contas e desenhos e um esfregão para apagar a ardósia, mais um caderno pautado para escrever as letras e que tinha de durar o ano inteiro. Do Carvalhal até à escola de Jazente eram uns dois quilómetros, feitos a pé, pelo frio, debaixo do vento cortante, sobre a lama, o gelo ou a neve. Mas eu era um felizardo: era o único que ia calçado, com meias e botas, enquanto os outros iam de tamancos talhados pelos pais em alguma casca de árvore ou então iam simplesmente descalços. Revi esses tempos muito depois, ao ver o maravilhoso filme A árvore dos tamancos, de Ermanno Olmi, em que um trabalhador do campo é despedido pelo patrão depois de ter cometido o crime de ter aproveitado um bocado de madeira de uma árvore para talhar uns tamancos para os seus filhos, a fim de que eles não andassem descalços. Hoje, para quem não viveu esses tempos e para quem o conceito de miséria é sucessivamente alargado, é impossível ter uma ideia do que era a miséria de então, no campo: absoluta, visível, feia como uma noite de tempestade, dia a dia sofrida e impossível de ser escondida.

Na quinta, graças à minha bola de futebol, eu era o rei do jogo: improvisávamos o campo, formávamos as equipas e todas as tardes, até o sol se pôr, fosse Verão ou Inverno, fosse o “relvado” feito de lama ou de pedras soltas, jogávamos futebol como se não houvesse nada mais no mundo que merecesse ser vivido. Mas no recreio da escola, para onde era proibido levar a bola, jogávamos com uma bola feita de velhas meias que alguma mãe tinha enrolado. E quando essa bola se gastava e não havia outra, jogávamos futebol com uma pedra, num estádio imaginado com balizas também marcadas por pedras e sonhávamos com um futuro em que seríamos alguns dos jogadores dos “cromos” que coleccionávamos. A isso, a esse espaço, se resumia o “recreio” de todos os alunos. E um dia, não sei por que razão, desentendi-me com o Alípio, durante um jogo, e atirei-lhe com a bola à cabeça. Por azar, nesse dia, a bola era uma pedra, e, por azar maior, acertei-lhe em cheio e ele começou a sangrar. Soou a campainha para as aulas e voltámos lá para dentro, com o Alípio tentando suster o sangue que lhe escorria da cabeça com um lenço escuro de sujidade acumulada, que retirara de um bolso das calças. A D. Constança apercebeu-se e inquiriu-o:

— O que te aconteceu, Alípio?

O Alípio, mudo.

— Atiraram -lhe uma pedra à tola — disse alguém lá de trás.

— Quem é que te atirou a pedra, Alípio?

O Alípio, mudo. Levantei o braço, antecipando-me à voz atrás de mim. Fez -se um silêncio de filme de suspense. Todos conheciam as regras: um par de reguadas em cada mão. Não que a D. Constança gostasse do método, mas era o que estava em vigor, então. Igual para todos, supostamente. Mas atrever-se-ia ela com o menino Miguelzinho? Atreveu-se, sim. Começando no silêncio do Alípio à rapidez com que alguém falou por ele, foi toda uma lição de vida. Um dia, já bem grandinho, num programa do Herman José, na televisão, prestei homenagem à minha professora D. Constança e tive a grande satisfação de receber uma carta de uma neta dela, que contava ter sido minha colega na escola de Jazente e que a avó, ainda viva e residindo num lar, assistira ao programa e ficara muito comovida ao ouvir-me falar dela e prestar-lhe homenagem. Não é em vão que se levam as primeiras reguadas da vida…

Só muitos anos mais tarde, no Liceu Gil Vicente, em Lisboa, jogando no campeonato interescolar da Mocidade Portuguesa, soube o que era o prazer orgástico de rematar e marcar um golo numa baliza que tinha postes e trave a sério, e onde a bola morria no fundo de uma rede. Entre uma e outra coisa, nos Jesuítas do Colégio S. João de Brito — onde o culto do futebol era a única virtude deles de que me dei conta — havia um campo de futebol por cada ano escolar, mas todos eram de uma terra áspera e lamacenta que esfolava os joelhos, e as balizas não tinham redes.

Só muitos anos mais tarde, no Liceu Gil Vicente, em Lisboa, jogando no campeonato interescolar da Mocidade Portuguesa, soube o que era o prazer orgástico de rematar e marcar um golo numa baliza que tinha postes e trave a sério, e onde a bola morria no fundo de uma rede. Entre uma e outra coisa, nos Jesuítas do Colégio S. João de Brito — onde o culto do futebol era a única virtude deles de que me dei conta — havia um campo de futebol por cada ano escolar, mas todos eram de uma terra áspera e lamacenta que esfolava os joelhos, e as balizas não tinham redes. Foi só depois de passar para o Liceu Gil Vicente, num jogo nosso contra o Passos Manuel, no tal Torneio da Mocidade, que pela primeiríssima vez entrei em campo equipado, com balizas com rede, árbitro e juízes de linha e, oh, delírio absoluto, num campo relvado (um dos campos de treino do Estádio Nacional). E, peço desculpa por contar isto, que é coisa que apenas partilho comigo mesmo às vezes, quando estou prestes a adormecer e me vem à memória um grande tiro que dei a uma perdiz ou um strike que fiz no bowling do antigo Hotel Estoril-Sol: ganhámos esse jogo por 3-2 e eu marquei dois golos. Recordo um deles, como se fosse agora: olhei a bola a vir na minha direcção, puxei o pé atrás, visei o canto oposto, rematei e vi-a deslizar sobre a relva como num filme em câmara lenta, o guarda-redes do Passos a esticar-se todo sem lá conseguir chegar e a bola a bater no poste do lado de dentro e a, lentamente, ir morrer de encontro à rede do fundo. Ah, sim, este golo eu sei que o marquei, se bem que já não me lembre do outro… Em São Tomé, na Mauritânia, em Fernando de Noronha, vi pescadores lançarem as redes ao mar a partir da própria praia e recolherem-nas com peixes prateados e desnorteados, tentando desesperadamente encontrar o caminho da saída. Pareceu-me isso uma lei da vida e um espectáculo primordial, magnífico. Mas, em matéria de coisas que terminam numa rede, nada se compara com a bola que vai morrer na rede depois de ter escapado ao guarda-redes.

Hoje, que circulamos em carros com ar condicionado, travões que permitem parar um carro lançado a cem à hora em meia dúzia de metros, acelerações dos zero aos cem em menos de nove segundos, tornando fácil as ultrapassagens aos que se arrastam nas estradas; que, aliás, as principais estradas são auto-estradas magníficas onde apenas o sono ou uma absoluta aselhice podem causar acidentes; e que os volantes até têm sensores contra o sono e o GPS nos leva de porta a porta, é muito difícil, para quem começou a conduzir já com todas estas comodidades e facilidades, imaginar o que eram os transportes então. Quando eu fui viver para a Quinta do Carvalhal, no Marão, ainda lá havia cavalos que serviam como meio de transporte para curtas deslocações, como ir visitar a Quinta da Boavista, no topo do caminho da quinta, a uns três quilómetros de distância, sempre a subir. Eu tinha ao meu serviço o Eusébio, um garrano de pequena estatura e tão manso que me permitia passar-lhe por debaixo da barriga para ir amarrar a cilha da sela do lado oposto. E muitas vezes deslocávamo-nos em carro de bois, como quando, por exemplo, íamos visitar a Tia Miquelina, no alto do Marão, na Quinta de Travanca.

Teixeira de Pascoaes

A Tia Miquelina, irmã de Teixeira de Pascoaes, era um personagem tão notável quanto as visitas que lhe fazíamos na sua quinta, durante o Verão. Ela fora a segunda mulher a ter carta de ligeiros em Portugal e a primeira a ter carta de pesados. Aos oitenta anos (os Pascoaes eram de uma longevidade notável), ela vivia lá na sua quinta próxima do céu dos deuses e, entre outras actividades, dedicava-se a reconstruir pelas próprias mãos, pedra a pedra, uma pequena capela em ruínas, ou a sair de manhã cedo, com a merenda, as telas e os pincéis para ir pintar na serra.

— Quando tenho tempo, pinto à antiga; quando não tenho, pinto à moderna — respondeu ela, quando um visitante lisboeta a inquiriu diletantemente sobre qual era o seu estilo de pintura.

No Verão, a casa da Tia Miquelina enchia-se das visitas dos filhos, dos netos e dos vizinhos de todo o ano ou de passagem. Para isso, no calor abrasivo do Verão naquelas paragens, muito contribuía a fama da sua cozinheira, os ares mais frescos da altitude da quinta e a piscina de granito (seguramente, uma das primeiras do Marão) que ela mandara construir e onde a água era absolutamente gelada. Quando o Carvalhal se deslocava a Travanca (que não ficaria a mais de uns quinze quilómetros, serra acima), era toda uma empreitada que se punha em marcha. Um estafeta subia a serra com dois dias de antecedência, para avisar da nossa visita iminente, e descia depois trazendo a resposta de que estava tudo a postos para nos receber. No dia combinado, íamos de carro, por estradão de terra, até ao sopé do monte. Aí, largava-se o carro e todos embarcavam em dois ou três carros de bois que nos aguardavam, com uns lençóis velhos fazendo as vezes de coberturas de lona e um farnel de água fresca, talhadas de melão e broa. E começávamos a subir, como quem se dirige ao Paraíso. Depois do almoço, de muitos banhos de piscina, do jantar e de muitas conversas postas em dia, era, porém, preciso regressar. Descia-se, então, o mesmo caminho quase a pique, sentados no chão dos carros de bois, encostados em almofadas e com a vereda vagamente iluminada por uns candeeiros a petróleo suspensos dos próprios chifres dos bois. Dois homens caminhavam na frente dos animais, segurando-lhes o cabresto e guiando-os passo a passo. Não sei quanto tempo demorava aquela descida porque invariavelmente adormecia, exausto pelos mergulhos na piscina, pelo sol e pela comida, e embalado pelo balanço do carro de bois e o som do chiar das rodas nas pedras do caminho. Mas, quando acordava, parecia que tinha passado uma eternidade. Algures, num texto do Pessoa, vi uma descrição semelhante a esta, numa viagem na serra de Sintra, e no Guerra e Paz, do Tolstói, também há uma soberba passagem que me fez lembrar esta, quando o príncipe Andrei, ferido, viaja em direcção à datcha dos Rostov. Não deve ser por acaso que a grande literatura sempre precisou de viagens para se alimentar.

Depois do almoço, de muitos banhos de piscina, do jantar e de muitas conversas postas em dia, era, porém, preciso regressar. Descia-se, então, o mesmo caminho quase a pique, sentados no chão dos carros de bois, encostados em almofadas e com a vereda vagamente iluminada por uns candeeiros a petróleo suspensos dos próprios chifres dos bois. Dois homens caminhavam na frente dos animais, segurando-lhes o cabresto e guiando-os passo a passo. Não sei quanto tempo demorava aquela descida porque invariavelmente adormecia, exausto pelos mergulhos na piscina, pelo sol e pela comida, e embalado pelo balanço do carro de bois e o som do chiar das rodas nas pedras do caminho.

Suponho que, se fosse hoje em dia, o meu caso serviria de exemplo para inesgotáveis teses sobre os danos psicológicos causados a uma criança cujos pais a mandam para longe aos seis anos de idade: longe na geografia, longe da família, longe da grande cidade, longe do meio a que estava habituada. Mas éramos mais brutos, então. Eu e a minha irmã mais nova fomos mandados para longe de casa por uma única e invencível razão: porque os meus pais não tinham dinheiro para criar todos os filhos. E, assim sendo, ou nos habituávamos e resistíamos, ou a nossa vida estaria tramada desde então. Eu habituei-me – não por especial mérito meu, mas porque não havia outra solução, e o ser humano foi feito para resistir e se adaptar. E não apenas me habituei e adaptei, como também tirei todo o partido da situação: os meus tempos no Carvalhal foram dos mais felizes da minha vida e, seguramente, dos mais importantes para o que eu viria a ser depois. Não é impunemente que um tipo cresce a comer arroz de feijão todos os almoços e cebola crua com sal e broa todos os lanches.

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