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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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Santana Lopes 2.0 ou como o Aliança se apresentou no seu primeiro congresso /premium

Lembrou mágoas antigas, falou de ideologia e já escolheu adversários. Ignorou o PSD, mas não faltou Sá Carneiro. A nova vida de Santana Lopes no Aliança. O que muda e o que ficou igual

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Santana Lopes falou duas vezes ao congresso. Uma “conversa com amigos” improvisada num dia, um discurso escrito no outro. Nos dois casos, lançou farpas à esquerda, falou para os abstencionistas e pediu mais ao Presidente da República. As suas intervenções, separadas por apenas catorze horas, foram o momento alto dos trabalhos e serviram para estabelecer os primeiros objetivos – ainda que sem grande explicação sobre a forma como o partido os quer alcançar. Na primeira reunião magna do Aliança, proclamou-se renovação, mas mantiveram-se hábitos dos velhos congressos. Foi entre vícios e novidades que se fez o encontro fundador do partido de Santana Lopes.

A conversa de café vs. O discurso escrito

Na primeira intervenção perante os militantes do seu novo partido, Santana Lopes avisou ao que ia: preferia fazer uma “conversa” em vez de um “discurso”. Não lhe apetecia discursar, chegou a confessar, e preferia um estilo mais informal. É esse o estilo de Santana. E ali, afinal, estava entre amigos. Durante cerca de uma hora, apoiado no púlpito, com um tom a meio caminho entre a conversa de café e o discurso político, foi repetindo várias vezes a mesma pergunta: “Que país é este?”. Com esta frase-chavão, juntava-se aquilo que entende serem os anseios do eleitorado que quer disputar – a direita descontente com o governo e com quem lhe faz oposição, e os que nunca votam ou já desistiram de votar.

Falou de economia, de impostos, de Europa, da “frente de esquerda” e do Sistema Nacional de Saúde. Deixando a teoria política de fora e sem nunca chegar a analisar grandes números ou sem apresentar propostas, ao longo de uma hora foi enumerando várias falhas do Estado. “Que país é este?”, perguntava sempre. As as soluções para colmatar as insuficiências que detetou, essas, não as revelou no primeiro dia de trabalhos.

Se na primeira intervenção se colocou ao lado dos que o ouviam, no discurso de encerramento manteve o estilo, mas o tom foi mais formal. Dirgiu-se ao Governo, ao Presidente da República e a Bruxelas. Alertou para “os preconceitos” que a esquerda quer que sejam “transformados em lei”, pediu que Marcelo Rebelo de Sousa seja mais “vigilante” e prometeu que o Aliança quer mudar a forma de fazer política na Europa, “construindo em vez de destruir”.

Dos três alvos, António Costa e o seu Executivo foram os preferidos. “O que se passou nesta legislatura é um caso de mau governo, de má governação”, resumiu numa tirada. A única competência do Executivo para o líder do Aliança é a de “cobrar impostos”. A alternativa à “frente de esquerda” está à direita, o terreno onde Santana Lopes quer ver o partido crescer.

Críticas à esquerda e apelos à direita – e aos abstencionistas

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

A cola que uniu os dois discursos de Santana Lopes no I Congresso do Aliança foi o ataque permanente ao Governo e aos partidos de esquerda que lhe dão apoio. Prefere chamar “frente de esquerda” à “geringonça”, acusada de “beijar a mão dos senhores todos poderosos de Bruxelas”. Mesmo dizendo que o Aliança não se construiu “contra ninguém”, o tronco comum das duas intervenções fez-se através do discurso “nós vs. eles”.

Tentou falar a mesmo tempo para dois eleitorados diferentes: os abstencionistas, tendencialmente cansados dos velhos hábitos da política e do status quo, e os eleitores de direita que são fervorosos opositores do Governo de António Costa. Posicionou-se longe do centrão que se pode entender com o PS. Algures entre o CDS e o PSD? “Liberal na economia”, mas defensor “dos usos e costumes“, explicou. Um partido europeísta, mas crítico dos ditames de Bruxelas. Respeitador de Marcelo Rebelo de Sousa, mas cético quanto à sua “proximidade” com António Costa. Aos eleitores, um apelo direto: “Peço que nos deem uma oportunidade, nós cumprimos na ação o que prometemos na eleição”, resumiu.

As propostas para o Sistema Nacional de Saúde

De entre os vários problemas que compõem o “estado do país”, Santana Lopes elegeu o Serviço Nacional de Saúde (SNS). A revolta que disse sentir é tal que acusou o ministro das Finanças, Mário Centeno, de cometer um “crime de lesa-pátria” por ter uma obsessão com o défice, mas permitir a “degradação” do SNS.

O líder do Aliança voltou a dar corpo à acusação no segundo dia de trabalhos. Falou das deficiências na “estrutura de financiamento” e sentenciou: “Assim como está não dá“. A alternativa apresentada, também num posicionamento ideológico, é aumentar a liberdade de escolha entre o privado e o público: “É preciso generalizar os seguros de saúde” a todos, porque “é insustentável que só os ricos possam escolher entre o SNS e os sistema privados”, sintetizou.

Os avisos a Marcelo

Na moção que levou ao congresso, Santana não quis apoiar, para já, uma recandidatura de Marcelo Rebelo de Sousa a Belém. Todas as referências ao Presidente da República foram ouvidas, por isso, com uma dose dupla de atenção. A primeira pista do que viria a dizer no congresso foi dada à boleia do Carpool do Observador, a caminho da Arena de Évora, quando pediu que Marcelo deixasse de ser o presidente da proximidade, para passar a ser o Chefe de Estado de Portugal. Nos dois discursos no congresso, viria a apurar a crítica.

Um apoio a Marcelo Rebelo de Sousa está em cima da mesa, claro (o próprio cabeça-de-lista às Europeias, Paulo Sande, admite já um apoio “incondicional”), mas para que se possa fazer a análise certa, Santana Lopes pede que os militantes carreguem na “exigência” perante o Chefe de Estado, que deve ser mais “vigilante”. Sobretudo num ano com três atos eleitorais.

E houve até recomendações, para que Marcelo trabalhe um pacto para o crescimento económico: “O Aliança sugere ao Presidente da República que chame ao Conselho de Estado também os parceiros sociais”, pediu.

O europeísmo do Aliança não se faz sem ataques a Bruxelas

Primeiro foi pela voz do cabeça de lista às europeias, Paulo Sande. O ex-consultor político de Marcelo Rebelo de Sousa criticou as exigências cegas de Bruxelas e a existência de diferentes velocidades na Europa – notando que os excedentes orçamentais de alguns países europeus são demasiado desproporcionais quando comparados com os défices excessivos de outros.

Para mudar este paradigma, este “europeísta de gema”, pediu maior proximidade entre os representantes portugueses em Bruxelas e o seu eleitorado. E concretizou com uma proposta: a criação de “um sistema de mandato negociado”, que obrigue a que “os assuntos de grande importância para Portugal” sejam votadas pelo Parlamento português antes de serem votados em Bruxelas. “Qualquer decisão relevante para Portugal tomada em Bruxelas passará por uma posição prévia dos deputados portugueses”, explicou. A isto acrescentou que o Aliança está disposta a abrir o debate sobre a legitimidade – ou falta dela – da Comissão Europeia.

Um conjunto de ideias que tiveram respaldo e amplificação nas duas intervenções de Santana Lopes, que falou da “imoralidade” por trás das regras europeias. “Não queremos sair da UE, nem do euro. Queremos construir. Mas temos de lhes dizer que é imoral haver países que conseguem cada vez mais excedentes orçamentais à custa da contração económica de outros países”, disse.

O Aliança assume-se como pró-europeu, embora queira também mostrar-se como a voz dos que estão descontentes com Bruxelas.

O que nunca muda

Era o congresso fundacional de um partido que não quer ser como os outros. Houve algumas novidades, nomeadamente a escolha do hino do partido em formato “festival da canção”, mas na essência nada mudou em relação ao funcionamento dos congressos dos partidos com mais história.

Houve negociações de nomes e composição de listas pela madrugada fora, deu-se a palavra a todos quantos quiseram falar,  houve atrasos do próprio presidente do partido, intervenções bem mais longas do suposto e mudança de alinhamento dos trabalhos à ultima hora. A maior diferença, talvez a única, foi o facto de não terem sido endereçados convites aos restantes partidos para levarem delegações para o encerramento dos trabalhos. “Uma hipocrisia que não deve ser alimentada”, diz Santana Lopes. Assim, a única delegação convidada foi a do Presidente da República, que enviou dois representantes da Casa Civil.

E por falar em coisas que nunca mudam. Este era o Congresso da nova vida do político que provavelmente mais vezes caiu e voltou a levantar-se do chão, mas havia muito do velho Santana neste reboot versão Aliança. Não fez referências ao PSD (“isso é passado”), mas no discurso lá esteve Sá Carneiro, claro, e a inevitável lembrança da sua passagem por outras funções, e a mágoa, ainda não curada, por em 2004 ter visto o seu Governo cair depois de Jorge Sampaio ter dissolvido a Assembleia da República.

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