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O percurso de Maria João Avillez começou aos 17 anos como locutora do Programa Juvenil da Radiotelevisão Portuguesa, ao lado de João Lobo Antunes, Júlio Isidro.
Em 1981, vence o Prémio EFE para Melhor Reportagem do Ano, com a peça “Sá Carneiro - o Último Retrato”, de entre 350 candidaturas.
Escreveu os mais impactantes livros dos últimos 50 anos na área da política.
Em 2014, é condecorada como Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique.
Em 2022, foi a vencedora do Prémio Consagração de Carreira dos Prémios Dona Antónia, promovidos pela Sogrape.
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Victor Machado

Victor Machado

“Sou uma formiga trabalhadora com lado de cigarra”

Jornalista, escritora, cronista, comentadora política. Maria João Avillez é a mulher dos sete ofícios, mas desde sempre encontrou na escrita o seu maior refúgio.

Habituada a estar sentada do outro lado da conversa, Maria João Avillez não tarda em afirmar como lhe é estranho assumir o lugar de entrevistada. Nas suas palavras, é como “se eu estivesse de luvas e colocasse as luvas nos pés e os sapatos nas mãos”. Ainda assim, foi no conforto de sua casa que nos recebeu, acomodando-se num dos seus sofás para dar início à conversa. Confortável com as palavras desde sempre, sentiu-as traiçoeiras quando a primeira pergunta chegou: Escrevendo a sua biografia, quem diria que é a Maria João Avillez?

“Pergunta difícil, porque eu estou habituada a falar e a escrever sobre os outros, a descrevê-los e não a mim própria”, começa por dizer, encontrando depois forma de responder: “Diria que tenho uma coisa que é a energia. É como aqueles carros que são bons e que, mesmo velhos, continuam bons”, afirma, entre risos, acrescentando depois à lista a “curiosidade, o gosto pelo trabalho. Eu gosto do meu trabalho, não é uma maçada, não é uma pressão. É uma coisa de que gosto muito e de que gosto muito desde muito nova. Diria que a Maria João Avillez é uma formiga trabalhadora, mas com um grande lado de cigarra. Aprecio muito a vida, a viagem, o mar. Acima de tudo, aprecio, ainda mais do que isso tudo, estar com as minhas pessoas… sou uma pessoa de amigos. Portanto, há mesmo estes dois lados”.

Com uma carreira de quase 50 anos, foi aos 17 que tudo começou, graças à professora Ivete Centeno. Notando o gosto e a aptidão da aluna pela escrita, é num programa de televisão juvenil que Maria João Avillez começa a traçar o seu caminho. “Tinha eu 17 anos. E isso foi o princípio. Sobretudo a televisão, naquela altura tinha poucos anos de vida… os cenários eram meio de cartão, tudo era feito em direto, só havia um canal, um estúdio, era fabuloso. Das coisas de que mais gosto foi o facto de ter presenciado e de ter feito parte desses primórdios da RTP. Tenho gratíssimas recordações. Ser muito nova, estar ali e ter de dar conta do recado, de safar-me e corresponder às razões pelas quais as pessoas me levavam lá. Foi uma época muito interessante e que guardo com muita nitidez na memória”, partilha, sorrindo à medida que cada recordação substitui a anterior.

Gosto muito de fazer comentário político. Para mim é muito importante porque eu aí tenho de ser seríssima, por vezes contrariar aquilo que defendo, contrariar o meu próprio voto.

Tendo já entrevistado todos os grandes protagonistas da política portuguesa, bem como várias figuras do mundo das artes e do foro internacional, ao fim destes anos todos ainda lhe é difícil escolher uma entrevista favorita. “Perguntam-me imenso isso e eu fico embatucada porque são tantas. À sua maneira todas foram especiais, porque eu parto sempre para as entrevistas como se fosse uma coisa nova, nunca parto como se fosse uma rotina, ao fim destes anos todos, acredita? Parto sempre contente, curiosa”, afirma.

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E se ficou conhecida por grandes entrevistas, o mesmo aconteceu com algumas das biografias que escreveu. Ainda que nestes dois géneros, a busca pela verdade do outro seja a missão principal, não tarda em esclarecer que existem diferenças: “Costumo dizer muitas vezes uma frase que inventei, mas que traduz muito bem o que sinto – dêem-me uma pessoa e eu faço uma grande viagem. Se me sentarem uma pessoa aqui e eu, com um gravador, faço uma grande viagem por essa pessoa, pelo que ela representa, pelo que transmite, por aquilo que eu quero transmitir dela… é uma coisa muito interessante, gosto muito de entrevistas. Mas a biografia é muito diferente, exige um tempo de maturação, muita investigação, confrontar informações… é muito mais exigente”.

O simples facto de eu estar comigo, entregue a mim própria, entregue à escrita, à procura das palavras, é uma coisa de que gosto imenso. Sossega-me muito interiormente, mesmo que não seja fácil.

À escrita, ao jornalismo e à entrevista, juntam-se ainda a crónica e o comentário político. Se a crónica permite ser mais acutilante – até um bocadinho “impressionista”, desafiando o leitor – e oferece uma liberdade que Maria João não encontra no Jornalismo, por exemplo, o mesmo não se pode dizer do comentário. “Gosto muito de fazer comentário político. Para mim é muito importante porque eu aí tenho de ser seríssima, por vezes contrariar aquilo que defendo, contrariar o meu próprio voto ou as forças políticas da minha simpatia, se perceber que erraram ou que preciso de fazer uma crítica mais severa”, confessa, não deixando de lado a advertência: “penso que o comentariado tem de tomar algum cuidado porque está a cair numa espécie de banalização do uso e da prática de uma certa agressividade que eu acho dispensável. Não precisamos de ser agressivos, precisamos de ser assertivos”. É com essa mesma assertividade que afirma, sem duvidar, que ainda que faça muita coisa e que os seus dias sejam sempre preenchidos, de tudo aquilo que faz, é na escrita que encontra o maior prazer. A escrita é “uma mistura de um encontro comigo, de um oásis, mesmo que seja muitas vezes espinhoso. Nem sempre gosto do que escrevi, reescrevo muitas vezes. Mas o simples facto de eu estar comigo, entregue a mim própria, entregue à escrita, à procura das palavras, é uma coisa de que gosto imenso. Sossega-me muito interiormente, mesmo que não seja fácil”.

Se é verdade que os Prémios Dona Antónia distinguem mulheres empreendedoras e cujo impacto social é notável, também é verdade que o facto de ser mulher nunca impediu Maria João Avillez de chegar até onde chegou. “Estamos a falar de uma época muito diferente e esses conceitos não eram tão prementes como agora. Ainda bem que existem e ainda bem que há toda uma luta pelos direitos da mulher, mas eu, de algum modo, colaborei com isso ao tentar fazer o meu melhor desde muito nova. Não desistindo só por ser mulher e me sentir discriminada. Aliás, não me sentia assim. As pessoas viam em mim uma entusiasta a trabalhar e eu fui fazendo sempre tudo, com a consciência que tinha de provar o meu valor, corresponder às expectativas”.

Eu receber um prémio de uma pessoa que eu admirava tanto, cuja vida conhecia, é muito especial.

O que é certo é que as provas foram mais do que dadas e é uma das “Ferreirinha” dos dias de hoje, tendo recebido em 2022 o Prémio de Consagração. “Primeiro foi uma distinção que eu não estava nada à espera, foi uma surpresa muito gratificante. Mas também há a extraordinária personalidade da Dona Antónia Adelaide Ferreira. E, portanto, eu receber um prémio de uma pessoa que eu admirava tanto, cuja vida conhecia, é muito especial”, confessa, partilhando em seguida o quanto o nome Antónia Adelaide Ferreira lhe é importante: “Foi uma mulher totalmente à frente do seu tempo. Naquelas dificuldades, ela foi admirável. Fala-se muito, e ainda bem, no seu lado resiliente, de inovação, de risco, mas havia também um lado dela, notabilíssimo, de benfeitora. Ela cuidava muito daqueles que ficavam para trás, para quem ninguém olhava, e fez isso sempre”.

Olhando para trás, para um percurso recheado de objetivos cumpridos, desejos realizados e projetos de sucesso, Maria João Avillez acredita que esta distinção surge pelo seu trabalho e por “estar aqui, ainda. E o estar aqui da mesma maneira, ou seja, se alguém for buscar uma entrevista minha antiga, não há muita diferença. Há o passar dos anos, claro, mas na atitude, no interesse, na curiosidade, na energia, não há muita diferença”.

E é com essa mesma energia que a conversa chega ao fim, não sem antes o desafio ser lançado. Completar a frase – Para se ser considerada uma “Ferreirinha” é preciso ser: “Corajosa, Ousada, Forte. É preciso ter autoridade própria, saber que o trabalho, o risco ou as tarefas não são tudo. Tem de se olhar para o outro, como fez a Dona Antónia”, remata.

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