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Marcelo Rebelo de Sousa fotografado ao telefone nos corredores do Palácio de Belém. Créditos: Miguel Figueiredo Lopes/Presidência da República

Miguel Figueiredo Lopes

Marcelo Rebelo de Sousa fotografado ao telefone nos corredores do Palácio de Belém. Créditos: Miguel Figueiredo Lopes/Presidência da República

Miguel Figueiredo Lopes

Termómetros em Belém, Trump e um ministro que se fez convidado. Como foi o estado de emergência de Marcelo e Costa /premium

Houve o grupo do "Corona", uma agenda escondida, dezenas de reuniões à distância, termómetros no palácio, telemóveis sem bateria e até escapadelas para jantar com a família.

Isabel Camarinha e Donald Trump no mesmo dia, é só mais uma curiosidade nesta época em que o normal ficou virado do avesso. Foi mesmo a fechar o estado de emergência, um período de várias semanas estranhas que pôs o Governo em múltiplas deslocações pela rua e o Presidente das selfies praticamente fechado em casa. A normalidade não regressou ainda mas, agora que o país entrou numa nova fase, olhamos para trás para contar como foi governar o país em condições inéditas. Como se tomaram decisões a partir de um Palácio que ficou quase vazio? Quem é o ministro que dorme pouco e qual deles se autoconvidou para o almoço? Como se deram Presidente e primeiro-ministro? E com quem jantou Marcelo Rebelo de Sousa mesmo à beira do 25 de Abril? Eis os bastidores da vida política como ela nunca tinha sido vivida em Portugal.

Marcelo Rebelo de Sousa numa videoconferência com a equipa no Palácio de Belém. Créditos: Miguel Figueiredo Lopes/Presidência da República

Miguel Figueiredo Lopes

Uma Páscoa sem cabrito

O dia de Páscoa foi particularmente aborrecido. Lá fora, o tempo chuvoso não convidava aos passeios pelos jardins, a única alternativa viável aos corredores do Palácio de Belém e, por isso, Marcelo Rebelo de Sousa resignou-se a caminhar para cá e para lá. Não que tivesse tido muito tempo para passeios, porque o dia foi quase todo passado a trabalhar. Ainda conseguiu que se organizasse uma conversa em videoconferência com os netos, outra com os compadres (pais da nora) e falou ao telefone com irmãos para os habituais desejos de boa Páscoa. Mas o dia foi tudo menos festivo, e nem o tradicional cabrito teve honras de subir à mesa presidencial. Nessa noite, jantar para um: quiche de espargos e espinafres, fruta à sobremesa.

Um jantar simples num dia que Marcelo descreve como “muito chato”. Cruzou-se, no máximo, com dois ou três seguranças, um ou dois polícias. As equipas em Belém estiveram reduzidas ao mínimo, não mais de 20% dos funcionários habituais nestes dias de emergência e confinamento, pelo que, mesmo durante a semana de trabalho, passou a ser normal que o Presidente da República estivesse muitas vezes sozinho.

Aliás, foi sob orientação do próprio Marcelo Rebelo de Sousa que o Conselho Administrativo da Presidência avaliou quem eram os trabalhadores em grupos de risco, que funções podiam ser exercidas em teletrabalho, quais as que exigiam trabalho presencial e, nessas, como garantir que as equipas alternavam, para estarem sempre operacionais caso houvesse contaminações. Entre os 229 funcionários (número que inclui o Presidente), e de acordo com os dados fornecidos pela Presidência da República ao Observador, mais de 90% do pessoal das Casas Civil e Militar passou a trabalhar a partir de casa.

Mas o dia foi tudo menos festivo, e nem o tradicional cabrito teve honras de subir à mesa presidencial. Nessa noite, jantar para um: quiche de espargos e espinafres, fruta à sobremesa.

Nas proximidades do Presidente mantiveram-se o ajudante de campo e uma equipa de segurança reduzida. As secretárias, que ao início também estavam em teletrabalho, regressaram a Belém de forma rotativa e só durante uma parte do dia. O Chefe da Casa Civil e o Chefe da Casa Militar reuniram todos os dias com as respetivas equipas em videoconferência e o tenente-general João Vaz Antunes também falou diariamente com o Chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas. Quase todos os documentos passaram a circular eletronicamente e, quando havia correspondência em papel, regra geral era submetida a quarentena. Tudo isto foi uma revolução na forma de trabalhar deste Presidente, cujo escritório sempre foi mais a rua que os gabinetes do palácio.

E, por azar, o domingo de Páscoa calhou numa das temporadas que Marcelo tem passado a residir em Belém. Uma parte do tempo tem dormido no apartamento presidencial, onde também tem um pequeno gabinete de trabalho. O Presidente não gosta, por achar que lhe falta espaço para os livros e para a roupa. O mesmo apartamento foi usado por Ramalho Eanes e família, que até aumentou precisamente durante o mandato. Mas Marcelo acha que é “pequeníssimo”, como chegou a descrever na única entrevista que concedeu durante o estado de emergência, à Antena 1.

A outra parte do tempo, dorme em casa, em Cascais. Foi, aliás, ali que o Presidente passou quase duas semanas em quarentena. Foi o primeiro político a ficar confinado, em auto-isolamento, ninguém entrou, ninguém saiu. Do ponto de vista político, as sondagens mostraram que a quarentena não lhe trouxe grandes vantagens, já que Marcelo ficou afastado do palco principal (ainda foi à varanda uma vez) enquanto o país mergulhava na pandemia. Ainda assim, promulgou diplomas, manteve-se em contacto permanente com o Governo e, sobretudo, negociou aquela que seria a sua marca neste período inédito: a declaração do estado de emergência. A partir daí, passou a gerir as declarações com parcimónia. O espaço que é o seu, a rua, foi-lhe vedado — a ele e aos portugueses — e Marcelo passou a exercer a sua magistratura à maneira clássica: discretamente e a partir de Belém.

Termómetros em Belém e a medição da temperatura do país

Marcelo, que nunca anda de máscara no palácio, equacionou fazê-lo apenas um dia, quando chegou a Belém a delegação da Ibersol: vinham todos de máscara e assim ficaram durante a conversa com o Presidente. Aliás, a máscara não é de uso obrigatório num edifício onde foram espalhados avisos para a lavagem regular das mãos e para outras medidas de precaução, onde há líquido desinfetante em todas as entradas e noutros locais das instalações e onde foram comprados termómetros para verificar temperaturas à entrada, incluindo do pessoal da segurança. A máscara, diz fonte oficial da presidência ao Observador, foi “usada nas circunstâncias recomendadas pela Direção.Geral da Saúde, nomeadamente pelo serviço médico e por certo pessoal da segurança”.

Marcelo conseguiu ver os netos à janela. Foi até à porta de casa deles e de lá acenou e ficou a falar. Mas isso não bastou...

Sem surpresa, os convites a pedir a presença de Marcelo Rebelo de Sousa diminuíram. O que não quer dizer que a quantidade de correio que chega a Belém todos os dias seja menor. A diferença é que o assunto passou a ser a pandemia, e as suas consequências económicas e sociais, o que obrigou a estrutura presidencial a organizar “respostas automatizadas”.

Ora, se o Presidente não pôde andar pelo país, trouxe o país à Presidência. Para além da informação que recebia de todas as fontes, as abertas e as classificadas, Marcelo falou em permanência com António Costa que era, de resto, quem lhe enviava o boletim epidemiológico diário juntamente com outros dados complementares de análise. As conversas não tiveram uma frequência fixa, uns dias havia várias, outros menos. Dependia também daquilo que era preciso tratar em cada momento. O mesmo se passou com Ferro Rodrigues, presidente da Assembleia da República, com quem Marcelo manteve sempre canal aberto.

A declaração e as renovações do estado de emergência foram períodos particularmente trabalhosos. O Presidente contava habitualmente com quatro dias dedicados a isso, entre negociações do texto do diploma, a declaração propriamente dita, o dia seguinte com o decreto de execução. Tudo isto pedia calendários apressados, às vezes promulgação na hora. “Deu um trabalho enorme”, recorda um dos elementos da sua equipa que descreve os quatro eixos de preocupação em Belém, ao longo destas semanas: a evolução do fenómeno, depois o regresso dos emigrantes, a preparação para a Páscoa e, finalmente, a situação dos lares, muito incerta a partir do momento em que se detetaram os casos nos lares ilegais que não se sabia sequer que existiam.

Marcelo Rebelo de Sousa numa das comunicações ao país durante o estado de emergência

MIGUEL FIGUEIREDO LOPES/PRESIDÊ/LUSA

Por esses dias, houve chamadas regulares com a ministra da Saúde, com a ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social e com o ministro da Defesa. Também falou várias vezes com o ministro da Economia e, segundo conta fonte de Belém ao Observador, Marcelo reconhece o trabalho feito por Siza Vieira, embora tenha ficado com a convicção de que houve coisas que ficaram por fazer. Especialmente porque se teve de improvisar muito na fase inicial de reação a uma pandemia inédita e episódios como o dos atrasos no layoff revelaram como a administração pública não tinha as máquinas preparadas para lidar com uma situação destas.

Mas basta estar atento à lista de audiências que o Presidente pediu ou concedeu durante este período (e que vão estender-se nas próximas semanas), para perceber que Marcelo quis ter uma radiografia completa. Recebeu o ministro das Finanças para saber as perspetivas que tinha enquanto responsável pela pasta em Portugal e as que tinha enquanto presidente do Eurogrupo. Ouviu peritos de saúde pública e epidemiologistas, parceiros sociais, sindicatos e patrões, os presidentes dos cinco maiores bancos em Portugal, a Associação Portuguesa de Bancos, o Governador do Banco de Portugal, a presidente da COSEC, a presidente da CMVM, a Associação Nacional de Municípios, a Associação Nacional de Freguesias, chefias militares, forças de segurança e bombeiros. Chamou ainda os representantes das maiores empresas portuguesas, e também os das micro pequenas e médias, ouviu agentes culturais e protagonistas do setor da comunicação social. Reuniu-se ainda com o grupo de reflexão sobre o futuro de Portugal, que junta quadros qualificados da geração pós-25 de abril, para perceber como determinados setores da sociedade civil se mexeram, o que fizeram e que perspetivas têm para o futuro.

Mas um aliado é um aliado, a iniciativa partiu da Casa Branca que acertou data e hora com Belém e os dois lá conversaram ao telefone.

A lista telefónica dos presidentes de Câmara foi corrida de uma ponta à outra. Marcelo falou com todos, nalguns casos mais do que uma vez. Foi assim com Salvador Malheiro, o presidente da Câmara Municipal de Ovar que viu ser decretada uma cerca sanitária ao concelho. Falou várias vezes com os presidentes dos Governos Regionais e com os representantes da República.

Quando não eram ao telefone, ou presenciais — salvaguardadas as devidas distâncias de segurança —, as conversas de Marcelo eram organizadas por videoconferência, na sala das reuniões do Conselho de Estado. Era também assim que, à hora a que habitualmente se costumava reunir com a sua equipa mais próxima, o Presidente da República tratava dos assuntos que havia a tratar: tudo por videoconferência, através de plataformas como a Zoom ou a Google Meet. Contactos diretos só com o Chefe da Casa Civil, ajudantes de campo, secretárias e segurança. Mas no Palácio de Belém houve sempre piquetes de juristas, chamados quando era preciso. E, tendo em conta a abrangência das audiências em Belém, estavam também o assessor para as Finanças, Hélder Reis, o assessor para a Economia, Luís Ferreira Lopes, e a assessora para os Assuntos Sociais, Maria João Ruela.

A volta dos sem-abrigo que não foi anunciada, a conversa com Trump e o fim do mandato

A agenda social foi, aliás, uma das que o Presidente da República não quis deixar para trás, mesmo atuando de forma discreta. Teve conversas regulares com a Refood ou com Isabel Jonet, do Banco Alimentar, e audiência com a União das Misericórdias e a Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade. E algumas voltas para entrega de alimentos aos sem-abrigo, uma das causas para as quais Marcelo tem feito questão de pressionar o Governo. Foi isso que fez numa visita às instalações do Pavilhão do Casal Vistoso, preparadas para acolher pessoas sem-abrigo durante a pandemia. E foi também isso que fez logo a seguir à cerimónia do 25 de Abril, numa ação onde também participaram membros do Governo e o presidente da Câmara de Lisboa e que foi amplamente noticiada.

Mas nem todas foram assim: os primeiros dias em que entraram em vigor as medidas do estado de emergência foram, reconhece a equipa do Presidente, as “piores” nessa área. As preocupações dos portugueses eram outras, muitas equipas tinham deixado de trabalhar no terreno, os cafés e os restaurantes estavam fechados. A situação era crítica e Marcelo quis confirmá-lo de perto. Fonte da Presidência conta ao Observador que o objetivo era não causar alarme social nem alarido, fazer uma volta em que se pudesse conversar com calma, ouvir quem estava na rua, em Lisboa. Por isso, não houve nota de agenda, nem comunicação social, televisões ou fotografias.

Cada um no seu carro, partiram para a estrada o Presidente da República, a ministra do Trabalho Ana Mendes Godinho, o ajudante de campo do Presidente e o primeiro gestor da Estratégia Nacional para a Integração de Pessoas em Situação de Sem-abrigo, Henrique Joaquim. Fizeram a volta pelos Restauradores, passaram pelo Rossio, Martim Moniz, Almirante Reis. Ao Observador, um dos elementos da equipa do Presidente conta que Marcelo veio impressionado por confirmar aquilo que já supunha quando se fez à estrada: havia quem não comesse há dois dias.

Para além das ações tornadas públicas, Marcelo também fez uma volta junto das pessoas sem abrigo não divulgada à comunicação social

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Foi uma exceção nestes dias em que as intervenções têm sido reduzidas ao mínimo e as deslocações do Presidente da República ficaram limitadas à cerimónia do 25 de Abril, na Assembleia da República, ou às saídas para as reuniões com os epidemiologistas. Ocasionalmente, houve ainda visitas que Marcelo quis fazer para mostrar “exemplos motivadores da mobilização contra a pandemia e de apoio social e económico às famílias e às empresas”, como as descreve fonte da Presidência da República. Foi para isso que serviu a ida à sementeira de tomate em Vila Franca de Xira, ou a visita à portuguesa Hovione, a farmacêutica sobre a qual falou com Donald Trump ao telefone no 1.º de Maio.

Nesse dia, não precisou de sair à rua nem de falar em público para que ofuscasse os discursos da CGTP, que decorriam precisamente na altura em que a nota presidencial dava conta da conversa com o Presidente dos Estados Unidos. Uma benção ou uma maldição? As imagens da concentração da central sindical já incendiavam as redes sociais e, entre os críticos, havia dedos apontados a Costa e a Marcelo. O Presidente não gostou de ver as imagens que mostravam a aglomeração de pessoas, nem de ser apontado como um dos responsáveis por aquilo que se estava a passar. Viria a reagir esta segunda-feira numa (surpreendente) entrevista à Rádio Montanha, nas Lajes do Pico, e depois durante uma visita a uma livraria no Chiado, onde passou as responsabilidades para as autoridades sanitárias: “A minha ideia era mais simbólica, como o 25 de abril, que me bati muito para que fosse num número inferior a 100 pessoas. Portanto, simbólica e restritiva”. Mas nessa sexta-feira o que se via era mil pessoas na Alameda, mesmo que com distâncias de segurança.

Com o país dividido pelas imagens que passavam na televisão, a notícia do telefonema de Trump desviou o foco. Por outro lado, um elogio público do Presidente norte-americano sobre a estratégia de ataque à pandemia (e Trump felicitou diretamente Marcelo pelas decisões que tomou) também têm sabor a presente envenenado, já que Marcelo não está propriamente alinhado com a forma como os Estados Unidos lidaram com o surto. Mas um aliado é um aliado, a iniciativa partiu da Casa Branca, que acertou data e hora com Belém, os dois conversaram ao telefone e voltou a falar-se de uma possível visita a Portugal no próximo ano, mesmo que Marcelo ou Trump possam não estar nos lugares que ocupam agora.

De resto, a política externa a partir da Presidência tem sido feita assim, ao telefone. Conversas com o Rei de Espanha, com o Presidente italiano e com o Presidente da Alemanha, alguns dos países mais afetados pela pandemia. Também foi falando com o grão-Duque do Luxemburgo, onde há uma grande comunidade de portugueses, com o Presidente irlandês e com alguns presidentes dos PALOP. Ao todo, cerca de uma dezena de Chefes de Estado. Isto para além das conversas regulares com o ministro dos Negócios Estrangeiros e a leitura dos telegramas diplomáticos, para saber como a Covid-19 evoluía no mundo.

Quase sempre fechado no Palácio de Belém, onde os seus colaboradores mais próximos dizem ao Observador que o Presidente tem refletido na ironia destes dias: quem diria que o país e o mundo iam estar onde estão, quem diria que esta circunstância iria mostrar um novo papel deste Presidente da República? Aos críticos do Presidente das selfies, pouco institucional e muito interventivo, a pandemia acabou por mostrar um Marcelo Rebelo de Sousa menos interventivo no terreno, mais formal na agenda pública, a trabalhar no gabinete e a ter um papel mais destacado na definição das grandes linhas, como foi o caso da declaração do estado de emergência. Ou seja, Marcelo a finalizar o mandato de forma mais institucional. E daqui para a frente, como será? Que efeito terão estes dias na decisão de recandidatura prevista para o final do ano?

Poucas farmácias, o adeus à janela e um jantar em casa dos netos

Tirando as poucas deslocações oficiais, durante os dias do estado de emergência Marcelo Rebelo de Sousa fez viagens regulares entre Belém e Cascais. Sempre sozinho, é ele quem conduz o carro. O segurança que o acompanha segue atrás noutro carro.  Tal como no Palácio de Belém, o Presidente da República também não usa máscara quando conduz, mas tem sempre um kit com máscara e luvas na porta, não vá ser preciso.

Se a viagem implica uma paragem no supermercado, aí o cuidado é outro. Mesmo com as condicionantes do estado de emergência, eram locais onde havia sempre maior concentração de pessoas e onde encontrou sempre quem quisesse abraçar ou beijar o Presidente das selfies. Mas os tempos são outros e Marcelo tinha de recorrer à pedagogia para explicar que, agora, não ia dar. Fez deslocações ao supermercado à média de uma a duas vezes por semana. Era mais frequente vê-lo no Jumbo, quando estava em Cascais, ou nos Pingo Doce do Restelo e de Alcântara, quando estava em Lisboa, embora também tenha ido ao Continente do Restelo ou à Auchan das Amoreiras.

Na Presidência da República foram comprados termómetros para verificar temperaturas à entrada, incluindo do pessoal da segurança.

Conhecido por ter uma especial predileção pelas farmácias, teve de contentar-se com visitas esporádicas à dos Jerónimos. De resto, só saiu para ir ao multibanco e foi quando o terminal que existe na Presidência estava fechado. Até porque nos dias que passa em Cascais evita sair à rua por causa da perceção que se podia criar de haver pessoas fechadas em casa e um Presidente a passear despreocupado.

Com a agenda cheia, não tem muito tempo para a família. Conseguiu ir uma vez, rapidamente, ao cemitério porque era o dia de aniversário do pai. De resto, as conversas são por telefone ou via internet. Mas às vezes um político é igual ao comum dos cidadãos, mesmo que seja a primeira figura na hierarquia do Estado, e também faz aquilo que muitos portugueses terão feito quando quiseram matar saudades dos familiares.

Ao Observador, um colaborador próximo revela que por duas vezes Marcelo conseguiu ver os netos à janela. Foi até à porta de casa deles e de lá acenou e ficou a falar. Mas isso não bastou e, segundo apurou o Observador junto de um confidente do Presidente, quando conseguiu um furo na agenda agendou com a família da ex-nora um jantar rápido para poder estar mais perto da família.

Foi na terça-feira que antecedeu o 25 de abril. E serviu de prova de que os tempos que vivemos deixaram de ser normais. Uma refeição rápida e quase asséptica, com distanciamento social, uma neta de máscara em casa. A esse amigo próximo, Marcelo recordaria a experiência com algum divertimento, lembrando que o padrasto dos netos viveu muitos anos na China e tem uma “visão chinesa da matéria”. Para além disso, havia entre os netos a preocupação de contaminação do avô, que pertence a um grupo de risco.

Mas Marcelo tem estado despreocupado, até porque é testado com frequência. A última vez foi precisamente na última semana do estado de emergência. Todos os colaboradores próximos foram testados também e todos deram negativo. Mas nunca se sabe. E se tiver de ficar de quarentena, será no apartamento pequeno, monótono e sem espaço para livros que o fará.

Durante o estado de emergência, António Costa desdobrou-se em entrevistas. Aqui antes da emissão na Rádio Observador

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

O grupo “Corona” e os aprendizes de epidemiologistas

As baterias dos telemóveis do Governo gastam-se mais rapidamente por estes dias. Os contactos presenciais diminuíram, mas as chamadas de todo o tipo multiplicaram-se e as notificações de mensagem pingam a todo o momento. Umas de forma mais religiosa do que outras, como as da informação que a ministra da Saúde manda todos os dias para o grupo de WhatsApp criado no início desta crise para dar conta da evolução do vírus, pouco antes de começar a conferência de imprensa diária na Direção-Geral de Saúde.

O primeiro-ministro também está no grupo de nome pouco original: “Corona”. Foi criado logo no início de fevereiro para acompanhar a situação dos repatriados de Wuhan, a cidade chinesa onde surgiu o novo coronavírus, quando a palavra confinamento ainda estava arredada da rotina portuguesa. Era tudo uma miragem, uma espécie de filme de ficção, até para quem estava naquele grupo longe de imaginar que dali a pouco tempo por ali passariam  informações e opiniões sobre decisões tão centrais como a do fecho das escolas em Portugal. Começou com os ministros da Saúde, Defesa, Administração Interna e Negócios Estrangeiros, além do primeiro-ministro e do secretário de Estado Adjunto — mas rapidamente se alargou.

Quando foi decretado o estado de emergência pela primeira vez, António Costa constituiu um gabinete de crise liderado por si e que integra — além dos já referidos — os ministros da Economia, das Finanças, a ministra de Estado e da Presidência e o das Infraestruturas. E depois delegou a gestão territorial do período de exceção em cinco secretário de Estado (Eduardo Pinheiro, João Paulo Rebelo, Duarte Cordeiro, Jorge Seguro Sanches e José Apolinário) distribuídos pelas NUTS2: Norte, Centro, Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo e Algarve. Estão em contacto permanente no grupo “Corona” onde, de dois em dois dias, também recebem o relatório dos epidemiologistas com o nowcasting (o número de pessoas que está a ser contaminada a cada dia) e o forecasting (estimativas sobre o futuro e o cálculo do famoso R0, o número básico de reprodução do vírus) do momento.

Nos carros do gabinete foram colocados kits com equipamento de proteção individual e spray desinfetante para poderem ser usados por quem anda em circulação.

“Já quase todos temos um aprendiz de epidemiologista dentro de nós”, comenta o secretário de Estado Adjunto do primeiro-ministro ao Observador, enquanto explica a diferença entre o R0 e o R0 Efetivo, aquele que identifica o potencial de transmissão do vírus num determinado local  e o que mede o grau de transmissibilidade em função das medidas de restrição aplicadas no país. Outro reporte diário são os gráficos da evolução enviados pelo assessor do primeiro-ministro para a área da saúde.

Não é que seja propriamente uma novidade o recurso aos grupos de WhatsApp pelos membros do Governo para estarem em contacto. A troca de mensagens escritas é um dos meios privilegiados por António Costa para tratar de assuntos rápidos, mas agora por ali passa toda uma situação nova e num momento em que as equipas de trabalho estão necessariamente reduzidas no terreno, ao mesmo tempo que a realidade aperta como nunca até aqui.

“Estamos a trabalhar em espelho, com metade da equipa em casa, e vai rodando”, explica Tiago Antunes, que está em São Bento e é responsável pela coordenação política de todo o Governo. No início da crise, a indicação dada pelo centro do Executivo foi que nos gabinetes fosse esta a lógica de funcionamento e que estivesse apenas um secretário de Estado por Ministério. Claro que nem sempre é possível, tendo em conta que há áreas do Governo que estão a todo o gás nesta altura como, por exemplo, a Saúde.

Como a maquilhagem também esteve reduzida por estes dias, não houve pó suficientemente potente para esconder as olheiras do ministro.

Tiago Antunes falava com o Observador imediatamente a seguir a “sair” de uma videocoferência com todos os secretários de Estado do Governo através do Microsoft Teams. “Já tínhamos esta tecnologia preparada em alguns gabinetes”, diz, revelando no entanto que no gabinete do primeiro-ministro nem por isso. Tanto que, na primeira reunião do Conselho Europeu à distância, António Costa teve de ir para o Palácio da Cova da Moura, onde fica o Centro de Informação Europeia Jacques Delors, para entrar na reunião. Entretanto, o sistema ficou operacional na residência oficial onde Costa tem mantido contactos também ao vivo. E são muitos.

No palacete de São Bento há dispensadores de gel desinfetante até à porta, do lado de fora. Ainda não houve sustos por ali e António Costa ainda não teve de fazer nenhum teste, apesar de manter muitas deslocações, até a unidades de saúde, no acompanhamento desta crise. No exterior do palacete, junto ao estacionamento, há uma sala de isolamento para quem apresentar sintomas suspeitos, mas nunca foi usada. As reuniões que existem no gabinete do primeiro-ministro, quando juntam várias pessoas, já não se fazem na sala de reuniões no primeiro piso, junto à sala de trabalho de Costa, mas sim na sala de crise, na cave. “É maior e permite maior distanciamento”, explica o secretário de Estado.

Já as reuniões do Conselho de Ministros foram transferidas para a sala do Palácio da Ajuda. Ganha-se em espaço mas perde-se em conforto. A sala que assistiu às longas discussões e acerto dos decretos de execução do estado de emergência que pararam o país, e também às que acertaram as primeiras medidas de desconfinamento, é gelada, mas é a solução possível quando é preciso pôr todos cara a cara.

O distanciamento social é a regra por São Bento, por agora ninguém usa máscaras porque “a recomendação é para grandes concentrações de pessoas”. Mas na última semana António Costa já passou a andar com umas luvas e uma máscara no bolso, caso seja necessário usar. Aliás, logo no início deste período de confinamento, nos carros do gabinete foram colocados kits com equipamento de proteção individual e spray desinfetante para poderem ser usados por quem anda em circulação.

Embora raramente use máscara, Costa já anda com uma no bolso para quando precisar

HUGO DELGADO/LUSA

Nas horas em que não está no gabinete, António Costa faz uma vida normal e já foi visto num mercado e também numa grande superfície comercial em Benfica, onde os empregados da caixa olhavam divertidos: “Olha o primeiro-ministro e a mulher. E vai sem máscara nem luvas. Assim é que é!”. Nesse dia, já a discussão sobre o uso deste equipamento de proteção em espaços fechados e movimentados corria há algum tempo, com os especialistas a apontarem como válida essa precaução, mas a DGS resistia e aguardava recomendações da Organização Mundial de Saúde. Três dias depois deste episódio, Graça Freitas fazia publicar a norma para que fosse considerado o uso de máscara em espaços fechados com elevado número de pessoas. Mas Costa tem resistido e, já depois disto, foi visto dentro do mercado de Alvalade, junto à banca do peixe, apenas com uma luva posta na mão direita.

O primeiro-ministro tem dito que ainda “não se robotizou”, para justificar que volta e meia lhe saia o impulso para um aperto de mão, como aconteceu depois de uma conferência de imprensa com o ministro da Educação, para anunciar que o ensino básico não voltaria a ter aulas presenciais neste ano letivo e que o secundário pode tê-las apenas para disciplinas em que o exame é específico para entrada na Universidade. Foi um momento de peso, a seguir a um Conselho de Ministros em que António Costa quis ser ele mesmo a dar a cara para assumir a mudança radical que afetaria 1,5 milhões de alunos e respetivas famílias.

Esta gestão de caras nos vários momentos é pensada pelo centro político do Governo, bem como as oito entrevistas que o primeiro-ministro deu no espaço de 15 dias, duas delas a programas da manhã: o de Cristina Ferreira (SIC) e o de Manuel Luís Goucha (TVI). Passou de seguida pela TVI, Rádio Renascença, Lusa, pelo Observador e, por fim, Expresso. Mais recentemente, já depois de terem sido anunciadas as primeiras medidas para a retoma, no quadro de uma situação de calamidade (e não estado de emergência), voltaria a falar, desta vez na RTP. Uma bateria pouco comum, mas com o gabinete a considerar necessário neste momento explicar medidas, repisar argumentos e deixar pistas para o futuro. Sendo certo que, com os números da infeção controlados e o bom exemplo do país a ser citado lá fora, Costa viu aqui um momento importante para aparecer, associando-se a esses ganhos.

António Costa. “Não deixem de planear as férias de verão… cá dentro”

Com Belém, as conversas são constantes e o correio de diplomas mudou de formato. Em vez de os estafetas andarem no leva e traz entre Governo e Presidência, passou tudo a fazer-se por email. Poupam-se contactos desnecessários e também se agiliza a promulgação e, consequentemente, a entrada em vigor de matérias urgentes. Tem sido assim com os decretos presidenciais do estado de emergência e os da sua execução feitos pelo Governo. Houve Conselhos de Ministros que mal tinham terminado e já a Presidência anunciava na página oficial a promulgação de três diplomas de enfiada.

Tiago Antunes, que no Governo anterior estava no centro da produção legislativa do Governo, como secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros, não arrisca dizer que esta prática vai ser para seguir daqui para a frente: “Não sei se veio para ficar, foi feito para este período de contingência”. Mas reconhece as vantagens: “Evita-se o vai e vem de diplomas entre a Presidência do Conselho de Ministros e Belém. Como teria sido mais prático…”, ri-se, lembrando os tempos em que esteve num dos lados desse circuito.

Mas a rapidez não se explica apenas pela velocidade desta comunicação digital. Há outra parte que tem a ver com a proximidade com que tudo tem sido trabalhado com Marcelo Rebelo de Sousa. Os decretos do estado de emergência, por exemplo, foram quase feitos à medida das pretensões do Governo. O processo começava em Belém com um projeto de decreto que era enviado ao Governo. Dali, o diploma regressava a Belém com várias sugestões incorporadas, o que envolvia vários ministérios nos retoques a fazer. A ponte mantinha-se, conversas para cá e para lá, coordenadas pelo chefe da Casa Civil da Presidência e pelo secretário de estado da Presidência do Conselho de Ministros. Assim, o documento, que nunca foi um texto estável até estar fechado, ia mudando de forma com pedidos, por exemplo, do Ministério da Economia para que tivesse o poder de abrir e fechar empresas por despacho.

O ministro notívago e o que se fez de convidado para o almoço

Em São Bento, ainda há cozinheiro, por isso as refeições do primeiro-ministro não têm sido um problema. Já a equipa tem resolvido o assunto muitas vezes no restaurante da rua, que está a funcionar em take away. Pior é quando os pedidos vêm fora de horas. Ainda há dias, o ministro do Ambiente, João Pedro Matos Fernandes, foi chamado à última hora a uma reunião que decorria em São Bento, com o primeiro-ministro. O governante lá foi mas o encontro acabou já depois das duas da tarde. Problema: o take away onde o ministro costuma orientar os seus almoços já estava fechado, por isso, antes de sair dali, Matos Fernandes auto-convidou-se: teriam de lhe dar almoço porque já não tinha como comer na Rua do Século. Ficou para almoçar na sala de refeições de São Bento.

E se a alimentação até se foi resolvendo, neste tempo de confinamento e de estabelecimentos fechados, quanto ao sono pouco havia a fazer. No Ministério da Educação — outro foco de operações nesta pandemia, tendo em conta a suspensão das aulas presenciais — as luzes estão acesas até tarde e o ministro Tiago Brandão Rodrigues está online até de madrugada. No fim de semana em que esteve no programa de Ricardo Araújo Pereira, na SIC, como a maquilhagem também esteve reduzida por estes dias, não houve pó suficientemente potente para esconder as olheiras do ministro. Se no seu gabinete já é conhecido por dormir pouco, os dias do estado de emergência confirmaram ainda mais a fama.

Sai pouco, uma das saídas mais mediatizadas foi quando se deslocou aos estúdios da RTP para o arranque do #estudoemcasa. A maior parte do tempo passou-o no gabinete, com poucas reuniões presenciais. Privilegia reuniões por telemóvel ou vídeochamada e normalmente só sai do Ministério já depois da hora do jantar. Come no gabinete — no Ministério, entre o seu staff, popularizou-se a marmita — e, assumido desportista, agora os quilómetros que faz são sobretudo a falar ao telemóvel, de um lado para o outro, na varanda do Ministério. Um confinamento dentro do confinamento. Nem a Paredes de Coura, sua terra natal, tem ido, o que implica não ver a família (a mãe e o irmão vivem lá) desde fevereiro, mês em que tudo começou.

Com Belém, as conversas são constantes e o correio de diplomas mudou de formato. Em vez de os estafetas andarem no leva e traz entre Governo e Presidência, passou tudo a fazer-se por mail.

Nos briefings das reuniões do Conselho de Ministros, há uma seleção prévia dos jornalistas presentes na sala para as perguntas e outros três que estão à distância e podem também fazer perguntas através do Zoom. Além da Lusa, no local estão sempre duas televisões e mais dois órgãos de comunicação (uma rádio e um jornal) sorteados. Depois há um outro grupo, também fruto de um sorteio feito na manhã da reunião e depois de consultados os vários órgãos de comunicação social, com quem faz as perguntas remotamente.

Não há limites para o número de perguntas que cada um lança (é raro alguém não aproveitar o tempo de antena para atirar mais do que uma), nem perguntas enviadas previamente, como chegou a acontecer em Espanha provocando a indignação dos jornais. Aliás, em entrevista ao Observador, António Costa não resistiu em traçar aí a diferença com o Governo do seu amigo político Pedro Sánchez, quando disse que no estado de emergência português o Governo foi “bastante parco no recurso à limitação das liberdades, no âmbito deste estado de emergência ao contrário de outros países onde as múltiplas liberdades têm sido suspensas e comprometidas, com conferências de imprensa com perguntas selecionadas”.

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