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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Trabalham mais de 12 horas, comem sandes, dormem onde calha por poucas horas. A vida dos bombeiros que estão em Pedrógão Grande

Trabalham horas a fio, às vezes até um dia inteiro, sem descansarem um segundo. A maioria não recebe nada em troca e são capazes de usar dinheiro do próprio bolso para comprar o equipamento em falta.

À primeira tentativa de telefonema, Paulo Alves não atendeu. O bombeiro de 22 anos tinha sido chamado para uma ocorrência e só havia de regressar ao quartel de Leiria, onde é bombeiro voluntário de terceira classe, por volta das 18h de terça-feira. Ele e quatro colegas foram dos primeiros bombeiros a fazer frente ao incêndio que deflagrou em Pedrogão Grande na tarde de sábado e que, ao fim de quase quatro dias, ainda não foi controlado.

Às 15 horas de sábado, quando Paulo estava em casa a estudar para um teste que fará no próximo fim de semana, o bombeiro voluntário com três anos de experiência foi chamado para reforçar o quartel de Leiria. Aceitou: trocou os livros pelo fato vermelho e seguiu para Pombal para se reunir com outros bombeiros que se preparavam para um incêndio que já sabiam ser grave.

Mas Paulo nunca imaginou que ia encontrar um cenário tão dantesco: “Às vezes chamam-nos para ocorrências graves e quando chegamos lá não é nada de tão extraordinário assim”. Mas no sábado, nenhum dos 26 bombeiros que saiu de Pombal naquela tarde estava pronto para encontrar o “verdadeiro inferno” a apenas uma hora do centro de Leiria: “Havia uma coluna de fumo gigantesca e muito, muito vento. Eu nunca tinha visto nada assim”, descreveu Paulo.

“Já não sei, a certa altura o desastre era tão grande que eu já não sabia distinguir sequer o norte do sul.”
Paulo Alves, bombeiro voluntário do quartel de Leiria

Não viu mortos nem feridos ao início. Mas entre as cinzas que iam chovendo em Pedrógão Grande, Paulo viu pessoas a correr de um lado para o outro para entregar comida e água aos bombeiros que tentavam salvar as suas casas, quintas e automóveis. Foi assim ao longo de dezanove horas seguidas. De vez em quando, parava para comer no quartel “de Figueiró dos Vinhos ou de Pedrógão Grande. “Já não sei, a certa altura o desastre era tão grande que eu já não sabia distinguir sequer o norte do sul.” E descansava no chão, uma hora ou duas, e nunca demasiado longe do incêndio para substituir algum colega em caso de necessidade.

Paulo Alves não sabe descrever o que viu em Pedrogão Grande. “Faltam-me as palavras. Ninguém esperava encontrar aquele cenário quando recebemos aquela chamada. Tínhamos noção de que era grave porque nos fomos informando dos pormenores a caminho, mas não se consegue explicar o que encontrámos ali.” Eram onze da manhã de domingo quando o bombeiro regressou a casa. Pelo caminho, viu corpos estendidos no chão. Era um cenário de destruição: “Aquilo que era verde quando chegámos e ficou cinzento no regresso”.

Paulo Alves é estudante de Engenharia Informática. Nos tempos livres, é bombeiro voluntário em Leiria

No quartel, conversa-se sobre o trabalho bem feito. Não se fala do rasto de destruição a que os bombeiros de Leiria assistiram. “Não conseguimos. Estamos chocados, não conseguimos falar. Havia lá a casa de uma das bombeiras a ser consumida pelo incêndio. Não há nada para dizer, as imagens com que ficámos falam por si”, explicou Paulo. As condições de trabalho, que podem obrigar um bombeiro a usar o próprio dinheiro para investir no seu equipamento, também não são tema de conversa. “É uma assunto de que nunca falamos porque achamos que nunca vamos chegar a conclusão nenhuma”, desabafou.

Por enquanto, Paulo Alves vai estudando para o teste de Sistemas Operativos, da licenciatura de Engenharia Informática que frequenta no Instituto Politécnico de Leiria. Estuda ora em casa ora no quartel, entre uma ocorrência e outra, enquanto assiste à chegada de muitos leirienses que continuam a levar comida e produtos de higiene para os bombeiros. “Na primeira tarde recebemos logo 200 pessoas no quartel. Tínhamos tanta fruta que tivemos de distribuir alguma por lares e instituições aqui da zona para não apodrecer”, contou ao Observador. Com as imagens de “vários hectares queimados” ainda na mente, Paulo Alves admite que não diria “não” se fosse chamado de novo para aquele incêndio.

“Faltam-me as palavras. Ninguém esperava encontrar aquele cenário quando recebemos aquela chamada. Tínhamos noção de que era grave porque nos fomos informando dos pormenores a caminho do palco de atuação, mas não se consegue explicar o que encontrámos ali.”
Paulo Alves, bombeiro voluntário do quartel de Leiria

“Estou aqui a reforçar o quartel, mas não hesitaria porque sentimos que deixamos sempre alguém para trás. As coisas acalmam à noite, mas pioram pela manhã quando a temperatura aumenta e o vento fica mais forte. Já vários colegas meus voltaram lá. E eu iria com eles, claro, se me chamassem.” Ia com medo, mas ainda bem. “Quando não temos medo é quando mais erros cometemos. Assim sempre ficamos mais alerta.

Paulo Alves nunca conseguiu arranjar uma explicação para, com 19 anos, ter decidido tornar-se bombeiro. Tinha uma grande admiração por quem combate o fogo, mas o grande passo foi dado quando começou a namorar: “A prima e o namorado da prima da minha namorada da altura eram bombeiros e começaram a incentivar-me para entrar”. Nessa época, Paulo estava no 12º ano. Como acabou por ficar mais um ano no secundário para acabar Matemática, decidiu dar uso ao tempo que tinha livre e inscrever-se. Além disso, admite que tem uma qualquer paixão pelo perigo: é além de estudar e de ser bombeiro voluntário, é também forcado no Grupo de Forcados Académicos de Leiria. “São duas paixões que tenho. Muitos chamam-me maluco”, disse entre risos.

Nunca lhe passou pela cabeça desistir. Nem mesmo quando foi para a capital estudar. “Já estive em Lisboa a estudar e mesmo assim, ao fim de semana, tinha sempre tempo para cá estar.” E nunca o fez em troca de nada: “Isto para mim é como um vício, quando saio das aulas passo sempre pelo quartel para cumprimentar o pessoal”. E o pessoal, contou, é todo unido: na hora de estar em campo, qualquer picardia fica para trás: o importante é trabalhar. Até porque juntos já enfrentaram situações mais delicadas: recorda-se de um incêndio para onde foi chamado o ano passado no Sardoal e acabou por ficar a noite toda a ver o fogo ganhar cada vez maiores dimensões. Mas a noite de sábado nunca lhe sairá da memória: foi a única vez que atravessou as “aldeias fantasma” onde andou a combater. As casas ainda estavam a arder.

Lutar contra as chamas sem nunca olhar para trás

Paulo Alves passou 19 horas em Pedrógão Grande. Parou apenas para descansar e para comer. Alguns dos seus colegas terão passado ainda mais tempo do que isso. “Os bombeiros não têm horário de trabalho. São os únicos que não têm horário de trabalho”, garantiu ao Observador Jaime Marta Soares. Presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, nos últimos dias não tem tido mãos a medir. Atende telefonemas uns atrás dos outros, mas nunca se escusa a dar uma explicação, um esclarecimento, fazendo sempre questão de frisar a paixão com que todos bombeiros portugueses — sem exceção — lutam contra o pior dos inimigos, às vezes nas piores condições. Movidos por um “sentimento de solidariedade, de humanismo, dão tudo”.

Como é que são feitas as refeições?

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Ao longo do dia, são feitas cinco refeições — pequeno-almoço, almoço, lanche e jantar –, que ficam a cargo da associação de bombeiros local. A despesa é coberta, em parte, por um subsídio de alimentação, que é de 22 euros por dia para cada operacional. Jaime Marta Soares não tem dúvidas em afirmar que “claro que é um valor muito baixo”.

Nas épocas de maior trabalho, este apoio não é, obviamente, suficiente, já que é destinado a “toda a gente que está no teatro de operações e que precisa de alimento”. É por isso que muitas vezes os bombeiros se veem obrigados a pedir doações. “Há certos momentos em que o esforço exige um consumo multiplicado e esse dinheiro não chega para garantir as necessidades. O esforço é tão grande que tem de haver um suplemento”, disse o presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses.

Existem 30 mil bombeiros em Portugal. Só para o incêndio de Pedrógão Grande, ativo desde sábado, foram mobilizados mais de 1.200 operacionais, de acordo com os dados mais recentes disponíveis no site da Autoridade Nacional de Proteção Civil. A maioria é voluntária — como Paulo –, assim como mais de 90% dos bombeiros portugueses. Lutam contra o fogo sem descanso, durante dez, 12 horas e até mais do que isso. O tempo que for preciso até chegarem os colegas para lhes renderem.

Nos últimos dias, uma fotografia que mostra o cansaço extremo de um grupo de bombeiros, deitados na relva junto aos carros de apoio, tem circulado pelas redes sociais. É um bom exemplo da exaustão a que alguns operacionais podem chegar quando a situação é mais complicada. É que, para a maioria, não é fácil virar costas enquanto o fogo ainda consome a floresta mas, idealmente, estas situações não deveriam acontecer — devia-se haver uma rotação de operacionais, mantendo sempre um determinado número de bombeiros no local. No final dos turnos estes deviam retornar ao quartel, a casa ou ao local que lhes foi destinado para descansarem.

Contudo, a falta de meios — materiais e humanos — leva a que situações extremas aconteçam. Em entrevista ao Observador em 2016, Miguel Ferreira, bombeiro na Póvoa de Varzim, mostrou essa mesma preocupação, defendendo um maior reforço nas corporações. Como a maioria dos bombeiros é voluntária e tem outra profissão, isso leva a que tenham de trabalhar longas horas. Uma situação que é sempre na época dos incêndios. E isso pode levar a acidentes. “O meu primo, que é adjunto do comandante, esteve a combater o fogo até às 6h e tinha de ir trabalhar às 7h. Quando estava a ir trabalhar, teve um acidente de carro”, contou Miguel na altura ao Observador. “Queremos fazer tudo e não queremos ficar a dormir e pensar que o fogo vai ficar pior. Mas, depois, quem sofre as consequências somos nós”, acrescentou.

O organismo responsável pelo comando, organização e distribuição das forças no local, assim como a criação de condições para que os bombeiros “possam ser rendidos de forma a que não cheguem ao esgotamento”, é a Autoridade Nacional de Proteção Civil. E é este organismo que tem de ter “sentido de responsabilidade”, como salientou Jaime Marta Soares. Já os bombeiros são “são apenas os operários do fogo”. Mas as próprias associações de bombeiros também criam escalas rotativas, de forma a garantir que quem está cansado possa ser rendido. Isto significa que, mesmo que se o organismo não tivesse isso em conta, “os comandantes sabem até onde é que vai a capacidade de resistência” de cada um dos seus homens. Há sempre uma escala que funciona, que é decidida consoante os meios de cada um.

O presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses acredita que esta ordem, há muito estabelecida, na qual o comando pertence apenas à Proteção Civil, é a razão de muitas das dificuldades e problemas que os bombeiros enfrentam. “Se tivéssemos um comando único, teríamos melhorias. O comando devia ser dos próprios bombeiros e a coordenação da Autoridade Nacional de Proteção Civil. [Isto não é assim] em nenhuma parte do mundo, só em Portugal. É um fenómeno do Entroncamento”.

"O comando devia ser dos próprios bombeiros e a coordenação da Autoridade Nacional de Proteção Civil. [Isto não é assim] em nenhuma parte do mundo, só em Portugal. É um fenómeno do Entroncamento."
Jaime Marta Soares, presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses

Explicando que “os bombeiros ainda não tiveram força para alterar isso”, Jaime Marta Soares defendeu, porém, que este não é o momento certo para discutir estas questões — “é um momento de dar mãos, de estarmos todos juntos”. “Esta situação não é para haver polémica. São constatações de factos, de realidades questionáveis que efetivamente têm de ser devidamente anotadas. E que precisam de ser alteradas”, disse, acrescentando que “ou fazem isso ou têm de procurar outra forma de ter pessoas disponíveis”.

Dedicação e trabalho em troca de quase nada

Dos 30 mil bombeiros no ativo em Portugal, 95% são voluntários. Desses — a principal força de combate aos incêndios na época quente — apenas cerca de 20% são assalariados. Para esses, o salário é pouco mais do que o ordenado mínimo. Entre os profissionais a situação é um pouco melhor: um bombeiro profissional em início de carreira pode chegar a receber cerca de 900 euros que, com os subsídios de alimentação e de turno, pode chegar aos mil euros. Mas os números podem variar, e o ordenado depende sempre da posição ocupada.

“Estão lá 12 horas, está lá 24 horas. E muitas vezes mais do que isso. A maioria dos combatentes são esmagadoramente voluntários sem qualquer compensação e sem horário de trabalho. E mesmo aqueles que estão integrados nas ECIN, que são equipas de cinco, só recebem uma compensação de 45 euros por 24 horas de trabalho”, afirmou Jaime Marta Soares. “É a compensação vergonhosa que é dada.” Para o presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, esta situação é uma das muitas que prova que os operacionais “vivem pelo seu país, morrem pelo seu país” e que “não está à espera de nenhuma compensação monetária”. Ainda assim, “é uma injustiça, é inadmissível e inaceitável”.

"A maioria dos combatentes são esmagadoramente voluntários sem qualquer compensação e sem horário de trabalho. Mas também quer dizer que os bombeiros vivem pelo seu pais, morrem pelo pais, e não estão a espera de nenhuma compensação monetária."
Jaime Marta Soares, presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses

Todos os corpos de bombeiros integrados no Dispositivo Especial de Combate a Incêndios Florestais (DECIF) têm uma Equipa de Intervenção (EI), desenhada para intervir imediatamente no domínio e extinção de incêndios. Esta pode assumir uma de duas categorias — pode ser uma Equipa de Combate a Incêndios (ECIN) ou uma Equipa Logística de Apoio ao Combate (ELAC). As ECIN são compostas por um veículo de combate (adaptado à sua área de atuação e equipado com tudo o que é necessário) e cinco elementos. Um deles deve assumir a posição de chefe de equipa e outro a de condutor. Já as ELAC são compostas por dois ou três bombeiros e um meio técnico de apoio logístico. Os elementos devem ter entre 18 e 55 anos. Os motoristas podem ter até 65, de acordo com a Norma Operacional Permanente (NOP) n.º 2101, de 18 de julho de 2011.

Esta NOP refere ainda que ambas EI devem estar disponíveis 24 horas por dia, “apresentando boa condição física e munidas do respetivo equipamento de proteção individual que inclui obrigatoriamente o fire-shelter, devendo as suas escalas de serviço serem rotativas, de forma a garantir-se as horas de descanso necessárias“, como esclarece Joana Milheiro, responsável pelo gabinete jurídico da Associação Bombeiros para Sempre, no seu site oficial. Apenas as ECIN são remuneradas e só nas alturas em que há incêndios. Os operacionais que fazem parte de uma ELAC não recebem nenhuma compensação pelo trabalho feito.

Para o incêndio de Pedrógão Grande, foram mobilizados mais de 1.200 operacionais

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Há muitos e longos anos que a Liga dos Bombeiros Portugueses reclama, faz propostas, mas em vão. “Queríamos que, em 2018, o valor da compensação — por horas perdidas, pela sua disponibilidade — já estivesse nos 50 euros. Com este andamento nunca mais lá chegamos”, lamentou Jaime Marta Soares. Para o presidente , o panorama precisa de mudar “porque os bombeiros não podem ser o parente pobre neste processo”. Todos os anos, no combate aos fogos, representam 96% das forças presentes — em equipamentos, em viaturas mas também em recursos humanos.

"Queríamos que, em 2018, o valor da compensação já estivesse nos 50 euros. Com este andamento nunca mais lá chegamos. Temos de mudar de figura porque os bombeiros não podem ser o parente pobre neste processo."
Jaime Marta Soares, presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses

A falta de equipamento é também um problema. Em entrevista ao Observador em 2016, Jaime Marta Soares já tinha mostrado preocupações nesse sentido. “Um corpo de bombeiros tem muitas despesas. As viaturas têm desgaste, os quartéis precisam de manutenção”, afirmou na altura. É ainda preciso comprar fardas e equipamento. Segundo o responsável, cada bombeiro devia ter, pelo menos, três fardas. E a Liga tem feito apelos nesse sentido. Contudo, “quanto muito têm duas”. Paulo Alves contou ao Observador que alguns dos seus colegas se viram obrigados a comprar o seu próprio equipamento. Caso contrário, não teriam condições para trabalhar. Um dos pedidos que mais fizeram no incêndio de Pedrógão Grande não foi de comida, foi água, que é sempre necesária e meias. Não tinham meias para trocar.

Para Jaime Marta Soares, estas situações são inadmissíveis. É que os bombeiros “são aqueles que que nunca estão com a farda limpa, são aqueles que estão no terreno”. Apesar disso, são os que trabalham nas piores condições. Tudo por amor tal farda que trazem coberta de cinza.

Fotografias de João Porfírio / OBSERVADOR. Fotografia de Paulo Alves cedida pelo próprio.

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