Uber vai pôr bicicletas em Lisboa “o mais rápido possível”: “É um ótimo sítio para a inovação” /premium

18 Dezembro 2018197

As bicicletas elétricas partilhadas da Uber estarão muito em breve em Lisboa, num modelo inovador. Entrevista a Alexandre Droulers, responsável pelas novas mobilidades da empresa na Europa.

A Uber deixou de ser uma app que serve de intermediário entre utilizadores e motoristas para ser uma plataforma de mobilidade partilhada, com bicicletas elétricas próprias (as Jump), as trotinetes elétricas da Lime e sistemas que integram acessos e parcerias com os transportes públicos. “Estamos a fazer da Uber uma plataforma de mobilidade, na qual podes ter o UberX, o Uber Green, o UberPool, bicicletas, trotinetes e transportes. Tudo numa só app. É desta forma que estamos a olhar para a mobilidade do futuro”, explicou Alexandre Droulers, responsável pelas novas modalidades da empresa na Europa ocidental, em entrevista exclusiva ao Observador. “Muito em breve” vai ser possível ver as bicicletas elétricas da Jump em Lisboa, anunciou. Porquê? Porque “Portugal é um ótimo sítio para a inovação”.

Um ano e meio depois de Dara Khosrowshahi ter chegado à liderança da empresa, as palavras de ordem parecem ser “proximidade ao ecossistema de regulação”, “parcerias com autoridades públicas” e a construção de pontes em detrimento de fazerem as coisas sozinhos. Amplamente conhecida (e durante anos criticada) por entrar nos mercados de forma bastante agressiva, por fazer lobbying e por não criar vínculos laborais com os motoristas, Alexandre Droules diz que a empresa mudou com “a nova liderança” e que o foco agora é a inclusão. Sobre a grande aposta que fez nos carros autónomos — que já mataram uma pessoa nos EUA –, o responsável pelo mercado europeu diz que ainda vai demorar “muito tempo” até que sejam uma realidade. “É preciso haver aqui um diálogo muito forte e vai ser preciso tempo e muito investimento para os carros autónomos se tornarem mesmo numa realidade. Porque não vão tornar-se reais até termos um nível muito elevado de certeza sobre a segurança”.

Alexandre Droubles foi responsável por abrir o mercado português da Uber, em 2014, e é atualmente responsável pelos novos projetos de mobilidade na Europa ocidental

“Estamos a trabalhar afincadamente para levar as bicicletas da Jump muito em breve para Lisboa”

O presidente executivo da Uber disse recentemente que a app vai permitir agregar uma rede total de transportes numa cidade já em 2023. Isto é mesmo possível tão depressa?
A nossa missão geral é a de, claramente, podermos ter na Uber tantas modalidades de transporte quanto as que forem possíveis para os nossos utilizadores. Mas se deres um pequeno passo atrás, percebes que vimos de um mundo no qual as pessoas se deslocam através de carro próprio e de transportes públicos. A visão que temos é a de que amanhã os transportes vão permanecer como a peça central da mobilidade nos centros urbanos, mas temos de ter mais opções de transporte multimodal e adaptado aos vários desafios do futuro. Acreditamos que, no que toca aos transportes, os desafios do futuro vão ser o congestionamento [das estradas], a poluição, a utilização do espaço público. E esses desafios acontecem por causa dos carros. A nossa visão é a de contribuirmos para isto através de uma mobilidade partilhada, em produtos como o UberPool, outros mais sustentáveis como o UberGreen… E através de outras modalidades, como as parcerias que começámos a fazer com os transportes públicos e outras mais amigas do ambiente, como as bicicletas e trotinetes.

Fala, portanto, de uma app que tem todas estes serviços disponíveis: carros, bicicletas, trotinetes e ainda os transportes públicos. Mas será possível ter isto a acontecer na Europa em 2023? 
Hoje, nos EUA, já temos cidades como Los Angeles em que é possível ter bicicletas, trotinetes e Uber na mesma app. E isto já existe hoje. O que estamos a adicionar nos EUA é esta possibilidade de reservar um bilhete num transporte público e já fizemos uma parceria com uma empresa que permite a compra de bilhetes online. Hoje, nos EUA já estamos muito perto de ter nalgumas cidades todas as formas de transporte possíveis na app. Quando olhamos para a Europa, como vemos isto? Estamos a trabalhar muito para trazer todas estas soluções para a Europa. Qual é a linha do tempo exata em que isto vai acontecer? É ainda muito cedo para dizer, mas estou muito confiante de que vamos conseguir até 2023.

"Vemos que o ecossistema no geral é muito efervescente e conseguimos reconhecer isso. Vemos que é uma capital da Europa no que diz respeito à inovação: têm a Web Summit e muitas outras coisas a acontecer. E isto é sobre Lisboa. No geral, vemos Portugal como um ótimo sítio para a inovação"

E Lisboa vai ser um dos focos principais?
O que posso dizer é que estamos a olhar de uma forma muito aproximada para Portugal, no geral, porque é um país muito dinâmico para a Uber e para o ecossistema de transportes no geral. Vou começar pelo ecossistema de transportes: o que estamos a ver é que Lisboa já tem serviços de partilha de bicicletas e alguns negócios de trotinetes como a Hive, Voi ou a Lime. E por isso vemos que o ecossistema no geral é muito efervescente e conseguimos reconhecer isso. Vemos que é uma capital da Europa no que diz respeito à inovação: têm a Web Summit e muitas outras coisas a acontecer. E isto é sobre Lisboa. No geral, vemos Portugal como um ótimo sítio para a inovação. E para a Uber também é. Por acaso fui eu que lancei a Uber em Lisboa, há quatro anos, e fizemos grandes experiências em Portugal. Foi o primeiro sítio onde lançámos o Uber Green, o primeiro onde fizemos o Pool para um evento específico, lançámos o UberStar. Portugal é um sítio onde há muita inovação no geral. Para a Uber há muita inovação e claro que queremos trazer isto para Portugal mais cedo ou mais tarde.

Vi algumas ofertas de emprego relacionadas com a Jump para Lisboa. O que é que isto quer dizer?
É um reflexo disto que acabei de dizer: estamos a trabalhar afincadamente para levar isto para a Europa e para Portugal.

Então, as Jump vão ser uma realidade muito em breve?
É esse o objetivo.

No início de 2019?
O mais rápido possível. Estamos a trabalhar afincadamente nisto.

Algumas cidades também já têm as trotinetes da Lime inseridas na app da Uber. Esta opção também vai estar disponível em Portugal?
Investimos na Lime e temos esta parceria que nos permite ter as Lime dentro da app da Uber. E isto já está a acontecer em Oakland e em mais cidades dos EUA. O que posso dizer é que estamos a tratar desta integração caso por caso, é uma decisão tomada cidade a cidade, ainda é muito cedo para dizer se vamos ter esta integração [em Lisboa].

Primeiro vamos ter as bicicletas elétricas e só depois as trotinetes?
Ainda não te consigo dizer, mas posso dizer-te que estamos a trabalhar muito para isto. Agora, como é que vamos entrar no mercado exatamente, com que produto, ainda é uma coisa sobre a qual precisamos de trabalhar.

"O mercado para o qual estamos todos a ir é mesmo muito grande, é massivo. E isso limita, na minha opinião, o risco de qualquer monopólio. Queremos mesmo fazer parcerias, em vez de fazermos as coisas sozinhos"

Voltando à ideia inicial, de ter todas as opções disponíveis numa só app, há aqui o perigo de se tornar num monopólio de todo o sistema, não concorda?
Não vejo isto dessa forma. A grande questão é que se considerares que o carro é o único concorrente a que nos queremos dirigir… A primeira coisa que percebemos é que o mercado é enorme, motivo pelo qual há tantas plataforma concorrentes a aparecer no mercado. Porque é o reflexo de um facto. O mercado para o qual estamos todos a ir é mesmo muito grande, é massivo. E isso limita, na minha opinião, o risco de qualquer monopólio. Queremos mesmo fazer parcerias, em vez de fazermos as coisas sozinhos. As parcerias são uma coisa importante e foi por isso que investimos na Lime, motivo pelo qual, mesmo antes de termos adquirido a Jump, também tivemos uma parceria com a Jump. E é por isso que quando olho para os transportes públicos, olho para as parcerias que fazemos com eles. Porque os operadores de transportes públicos vão ser os operadores mais relevantes e vamos trabalhar com eles. Por isso, na verdade, temos uma abordagem muito aberta e justa de integração e não queremos fazer tudo sozinhos. Estamos a construir pontes e parcerias no ecossistema em vez de fazermos sozinhos.

“Queremos entrar com as trotinetes nas cidades através de um diálogo forte com as autoridades públicas”

A Uber é conhecida por fazer muito lobbying quando entra num mercado novo. Isto ainda acontece? 
Estamos a trabalhar no mercado de transportes, que tem muitos intervenientes. É um mercado muito importante para as autoridades públicas, muito importante para os diferentes tipos de operadores públicos e para as diferentes empresas que estão a operar. Acho que é nossa responsabilidade interagir ativamente com todos estes players, porque isso é muito importante para construir de verdade pontes com todos os intervenientes do ecossistema. Por isso, não lhe chamaria lobbying, chamar-lhe-ia parcerias com o máximo de players que conseguirmos: com os privados, mas também com aqueles que nos permitem construir estas pontes e ter uma relação real com as cidades. E acho mesmo que chegámos ao ponto de pensar: “Como podemos ajudar as cidades a enfrentar estes desafios de transportes que as cidades têm todos os dias? Temos uma iniciativa chamada UberMovement, é um site que criámos há uns anos e que lançámos em Paris em outubro passado, no qual damos acesso a todos os dados sobre mobilidade numa cidade em específico, que foram recolhidos através da nossa app. Isto é a Uber a colaborar com as cidades e queremos continuar a fazer isto cada vez mais.

"Precisamos de ter um verdadeiro diálogo com as autoridades públicas. É essa a nossa abordagem. Queremos entrar (nas cidades) – quando e se ainda está para definir –, mas vai claramente ser através de um diálogo forte com as autoridades públicas e de parcerias com a cidade"

Mas quando entraram no mercado europeu, encontraram grandes desafios em termos de regulação. Em Portugal, agora há uma regulação própria, mas nos últimos quatro anos não. Com as trotinetes, por exemplo, enfrentam outras vez o mesmo problema, porque não há regulação sobre como tornar esta utilização responsável. O que vão fazer?
A nossa abordagem vai ser a de caminharmos até podermos, dando a mão a todos os intervenientes do ecossistema, incluindo as autoridades públicas. É um novo mercado e há um motivo pelo qual as trotinetes estão a aparecer, porque estão a ir ao encontro das necessidades das pessoas. Acredito fortemente nos benefício públicos que as trotinetes vão trazer às pessoas, porque são leves, têm zero emissões [de CO2] e se conseguirem tiras as pessoas dos carros, então sem dúvida de que vamos encorajá-las. Agora, como disse, há alguns desafios e questões sobre como podemos operar uma rede de trotinetes e é por isso que existem as câmaras municipais e os governos, que vão ter de olhar para isto e perceber como [é que estas empresas] podem crescer, mas de uma forma sustentável e responsável. E é isso que queremos.

Para chegar a este crescimento responsável, precisamos de ter um verdadeiro diálogo com as autoridades públicas. É essa a nossa abordagem. Queremos entrar (nas cidades) — quando e se ainda está para definir –, mas vai claramente ser através de um diálogo forte com as autoridades públicas e de parcerias com a cidade. Todos partilhamos o mesmo objetivo, que é tirar as pessoas dos carros e pô-las em modalidades amigas do ambiente, boas para o congestionamento da cidade, poluição e utilização do espaço público. Isto é um objetivo comum e estou convencido de que, envolvendo as autoridades públicas, vamos conseguir fazer isto de forma responsável e sustentável.

Têm este investimento na Lime, mas também li que a Uber quer comprar a Bird.
Também li isso. Mas, literalmente, li os mesmos artigos que vocês leram. Ou seja, não tenho mais informação sobre isso, não posso comentar.

Então, temos de esperar para ver.
Sim e também é o que nós vamos fazer.

"A implementação dos carros autónomos vai ter de ser feita de uma forma mesmo muito próxima do ecossistema de regulação, que é muito importante, mas também com o ecossistema tecnológico. Como é que as ruas vão ser construídas, as luzes, como é que as cidades vão permitir a condução em carros autónomos? É por isso que é preciso muito investimento"

Mas também têm entrega de comida. A Uber começou como uma app de carros simples e agora está a divergir para uma série de áreas. Além destas, para onde estão a olhar?
Sim, temos a entrega de comida e sei que em Portugal já está presente em 12 cidades. Para te dar uma ideia, em França, a Uber Eats está em 42 cidades, o que mostra o apetite das pessoas por este tipo de serviços. Além disso, para onde estamos a olhar? Estamos a olhar para o transporte em camiões, para o transporte das pessoas das formas que já conhecemos e há o Elevate, o nosso programa de táxis voadores, para o qual temos muitas ambições. Para dar uma ideia, decidimos construir um centro de I&D para o Uber Elevate fora dos EUA e vai ser em Paris, no qual vão ser investidos 12 milhões de euros nos próximos cinco anos. Estamos a ligar-nos à comunidade de investigadores aqui em Paris e é uma grande ambição que temos. Contamos ter alguns voos de teste, em 2020, em Los Angeles e em Dallas e vamos ver em que outras cidades vamos ter estes testes também.

O centro de excelência de Lisboa pode ser uma ligação direta a este de I&D em Paris?
O que estes investimentos em Lisboa e em Paris mostram é que estamos muito comprometidos, no geral, em olhar para os mercados locais e investir neles. Ainda é muito cedo para dizer quão ambicioso este investimento pode ser. Mas estamos claramente muito empenhados em investir nos mercados em que estamos envolvidos. Em Lisboa, o centro ocupa-se da mobilidade e da comida. O de Paris vai dedicar-se apenas a tecnologias avançadas.

Estes voos para teste podem acontecer em Lisboa?
Os testes vão acontecer em Los Angeles, em Dallas e há uma terceira cidade, mas a discussão é global. A Uber lançou uma call para várias cidades e as finalistas são Paris, algumas cidades na Austrália e outras no Japão. Mas, aparentemente, Paris é a única cidade europeia que pode fazer parte desta iniciativa.

Os testes com os táxis voadores da Uber vão arrancar em 2020, segundo a empresa

“A implementação dos carros autónomos vai ter de ser feita de forma muito próxima do ecossistema de regulação”

Temos falado de todas esta formas de mobilidade, mas ainda não falámos dos carros autónomos, que foram a grande aposta da Uber no passado.
A razão pela qual estamos a investir nos carros autónomos é porque vemos que a tecnologia faz com que sejam possíveis. E há algumas coisas que podem ser reais nos próximos anos. Há duas razões maiores para acreditarmos nos benefícios públicos dos carros autónomos: uma delas é que, é se olhares para os acidentes, percebes que mais de 90% acontecem porque há um erro humano. Acreditamos muito que vamos conseguir resolver isto com a autonomia. A outra tem a ver com os carros autónomos, mas não com aqueles que eu ou tu ou qualquer outra pessoa no mundo vai ter. Tem a ver com os carros que vão ser partilhado e movidos a energia limpa. Isto significa que a nossa visão sobre os carros autónomos não se restringe à tecnologia, também vão ser partilhados para que as pessoas não tenham mais carros próprios. E serão limpos porque terão zero ou muito baixas emissões (de co2). E é por isto que acreditamos tanto nos carros autónomos.

Uma das razões tem a ver com este carro que vai trazer muita mais segurança, a outra tem a ver com esta visão maior de uma forma de mobilidade partilhada e limpa. E há uma terceira, na qual acreditamos muito, que tem a ver com o facto de acreditarmos que podem reduzir o congestionamento das cidades. Se fores à rua e vires todos os carros das cidades, percebes que muito do trânsito acontece porque tens muito espaço entre os carros. Quando tens carros autónomos que falam uns com os outros, podes efetivamente reduzir o espaço usado pelos carros nas estradas, porque eles falam uns com os outros. São estas três coisas principais: segurança, muito importante; partilha e energia limpa, que é igualmente importante; e permitem muito menos congestionamento. Acreditamos que é hora de as pessoas reclamarem o espaço delas na cidade.

Já têm um projeto com carros autónomos em funcionamento nos EUA. Acham possível ter um na Europa em breve?
A ideia é que os carros autónomos não fiquem nos EUA e sejam um player global. Agora, quando é que isso vai acontecer? É muito cedo para dizer.

Os carros autónomos podem ser construídos, é verdade, mas estarão as cidades preparadas para recebê-los assim tão depressa? Porque mudam completamente a mobilidade da cidade.
É uma pergunta muito relevante. A implementação dos carros autónomos vai ter de ser feita de uma forma mesmo muito próxima do ecossistema de regulação, que é muito importante, mas também com o ecossistema tecnológico. Como é que as ruas vão ser construídas, as luzes, como é que as cidades vão permitir a condução em carros autónomos? É por isso que é preciso muito investimento, muito diálogo entre todos os players. Mas estou muito confiante de que as pessoas vão adaptar-se. Agora, quanto tempo vai demorar a chegar lá é uma pergunta com um grande ponto de interrogação. Se conhecer alguém com esta resposta, fico muito contente em ouvi-la. Porque isto é muito complexo.

"Se me perguntarem qual é a coisa mais complexa em que estamos a trabalhar, diria que é esta: tirar os carros das cidades. E porque é que isso é complexo? Porque não há apenas uma solução para isto, tens de trabalhar com várias soluções: mobilidade partilhada, bicicletas, trotinetes, táxis voadores, carros autónomos. E trabalhamos nisto em parceria com outros players"

Os carros autónomos são o objetivo da Uber mais difícil de atingir?
É um objetivo muito difícil e complexo, porque não estamos a caminhar apenas sobre uma coisa como os carros autónomos, os táxis voadores, a entrega de comida ou a mobilidade partilhada, estamos a tentar trabalhar com todas estas coisas através de uma parceria muito próxima com todo o ecossistema. Porquê? Porque a complexidade sobre a qual estamos a caminhar tem por objetivo um desafio massivo, que é o de tirar das cidades os carros que estão a ser usados apenas por uma pessoa, a ocupar imenso espaço e a poluir imenso as cidades. E isso é um problema massivo e muito complexo. Por isso, se me perguntarem qual é a coisa mais complexa em que estamos a trabalhar, diria que é esta: tirar os carros das cidades. E porque é que isso é complexo? Porque não há apenas uma solução para isto, tens de trabalhar com várias soluções: mobilidade partilhada, bicicletas, trotinetes, táxis voadores, carros autónomos. E trabalhamos nisto em parceria com outros players. A minha convicção é a de que ninguém vai conseguir tirar as pessoas dos seus carros sozinhos, é muito complexo. A mobilidade tem de andar lado a lado com as cidades e nós queremos colaborar com as cidades, porque é assim que acreditamos que conseguimos tirar as pessoas dos carros.

Mas acha mesmo que isto vai ser possível? Tirar as pessoas dos carros?
Claro que acho que é possível. Acho que vai ser difícil, acho que vai ser a Uber e vários outros players. Ninguém vai conseguir fazer isto sozinho, mas claro que é possível. Se pegares na tecnologia e a juntares a algumas políticas, estou muito confiante de que, sim, podemos reclamar as nossas cidades de volta. Claro que há algumas pessoas que vão precisar dos seus carros, sempre. Mas podes ter uma solução para todos os casos. Dois exemplos: hoje, 90% dos carros que vês têm uma só pessoa dentro. Se pensares na forma como os carros estão a ser usados hoje, as pessoas gastam 6.000 euros por ano, em média, com o seu carro: estacionamento, gasóleo, seguro etc. E só o usam durante 40% do seu tempo. Quando olhas para esta equação, as pessoas usam o seu carro, custa-lhes muito dinheiro e usam-no muito pouco. Se juntares a tecnologia que hoje permite dar a volta a isto, bem como algumas resoluções políticas, então claro que acredito que vamos conseguir.

"É preciso haver aqui um diálogo muito forte e vai ser preciso tempo e muito investimento para os carros autónomos se tornarem mesmo numa realidade. Porque não vai tornar-se real até termos um nível muito elevado de certeza sobre a segurança"

Houve um acidente fatal no Arizona, que envolveu um carro autónomo da Uber. Como garantem que conseguem prevenir isto de acontecer? É que este é o maior medo das pessoas.
É por isso que o nosso objetivo principal anda à volta da segurança. Também é por isso que não vais ver carros autónomos por aí, sem um condutor, até que a segurança tenha sido bastante testada. E é por isso que estamos a investir muito. Nos acidentes dos quais estamos a falar, colaboramos muito com as autoridades. É preciso haver aqui um diálogo muito forte e vai ser preciso tempo e muito investimento para os carros autónomos se tornarem mesmo numa realidade. Porque não vai tornar-se real até termos um nível muito elevado de certeza sobre a segurança.

O The Information teve acesso a um email trocado dentro da Uber, no qual um colaborador dizia que os carros autónomos da Uber “estavam a ter acidentes com uma regularidade alarmante”. É verdade?
Não posso comentar, porque só li o artigo.

Os carros autónomos eram a grande aposta da Uber, mas parece que agora está a ser um pouco empurrada… Perceberam que afinal não era tão fácil como parecia no início?
Não sei o que as pessoas sentiram antes, mas hoje sei que isto é uma tarefa dura e que não é nada fácil. E, na verdade, o que estamos a fazer com os carros autónomos é bom para pensarmos a nossa missão geral, que é: ninguém vai conseguir fazer isto sozinho, motivo pelo qual começámos a fazer estas parcerias com a Toyota, Daimler.

E agora parece que também estão a tentar ter boas relações com a Waymo.
Não posso comentar sobre a Waymo, mas posso dizer que, no geral, estamos a trabalhar com todo o ecossistema e que ninguém vai poder quebrá-lo sozinho. Para quebrá-lo e fazeres avançar isto, é preciso caminhares juntamente com o ecossistema e teres uma abordagem diferente.

A Uber já tem carros autónomos a serem testados nos EUA. Em março de 2018, uma pessoa morreu na sequência de um acidente com um destes carros

“Os motoristas são nossos clientes, literalmente. E é assim que funciona”

Podemos esperar que a Uber nos vá entregar mais alguma coisa a casa, além de comida?
É uma pergunta muito boa. No geral, sim. Claro que há outras coisas que podemos entregar, mas ainda há muita coisa para fazer na UberEats por agora.

A cidade de Nova Iorque pode aprovar uma regra que impõe um salário mínimo para motoristas. Isto seria possível na Europa? O que tem a dizer sobre isto?
A primeira coisa que diria é que os motoristas são nossos clientes, literalmente. E é assim que funciona, ou seja, estamos aqui para convencer os motoristas de que, quando se ligarem à nossa plataforma, vão estar a fazer dinheiro. É isto que lhes vendemos: a capacidade de ganhar dinheiro com condições muito flexíveis, sem exclusividade, sem dar nós, ou seja, é muito frequente para mim entrar num Uber e ver que o motorista tem vários telefones, um ligado à Uber e outros aos concorrentes. O que os motoristas fazem é comparar estas apps a todo o momento: apps diferentes e concorrentes para que vejam em que app estão a fazer mais dinheiro.

Isto é muito importante: os motoristas são nossos clientes e estamos a tentar oferecer-lhes o melhor serviço possível, num mercado que é muito competitivo. Isto é bom. Porque quando há concorrência os motoristas vão tirar partido do que é melhor para eles e é por isso que estamos a investir muito na nossa relação com os motoristas. Vou dar um exemplo: temos alguns centros em Paris onde recebemos motoristas que têm dúvidas e todas as semanas falamos, em média, com mais de 4.500 motoristas ou potenciais motoristas, aqui em Paris. A relação que temos com eles é muito importante. E há uma coisa que os motoristas valorizam muito: a flexibilidade de conduzirem onde quiserem com quem quiserem e com as apps que quiserem.

Quando a Uber entrou no mercado era apenas a Uber, agora há uma série de concorrentes. Acha que esta diversidade acalmou os ânimos dos motoristas?
Não sei se acalmou, mas isto é bom para os motoristas. É bom que tenham escolha. Acreditamos que os motoristas têm escolha e também é desafiante para nós, em bom, porque assim temos sempre de ter a melhor oferta, que lhes permita gerar receitas mas que também nos obriga a ter um serviço de apoio ao cliente muito reativo, para sermos capazes de apoiá-los. Para dar uma ideia, muitas vezes os motoristas querem trocar o seu carro por um carro elétrico, mas é caro. Em Paris, damos 4 mil euros a todos os motoristas que mudam para um carro elétrico. Há esta possibilidade de gerarem receitas, há este apoio muito reativo, há apoio financeiro quando querem mudar para os carros elétricos, há uma série de coisas que fazemos. Também os ajudamos a conseguir os melhores negócios com os fabricantes de automóveis, para que consigam fazer poupanças e terem mais dinheiro. São uma série de iniciativas que juntamos para ajudar a garantir que eles têm a melhor experiência quando conduzem connosco.

"A pergunta é: como levar a mobilidade inteligente a um número cada vez maior de pessoas? E a única forma de fazermos isto é partilhando a mobilidade, tendo formas mais económicas e mais sustentáveis de nos movermos"

Mas nenhuma destas iniciativas implica aumentar a percentagem do que eles recebem?
Há outra iniciativa, a das gorjetas, que permite aos clientes darem gorjeta ao motorista. Tudo isto combinado vai permitir que conduzam um Uber de forma mais eficiente.

Mas diretamente da Uber não vai haver mais dinheiro para os motoristas?
Isto representa mais dinheiro para os motoristas.

Sim, mas vem das pessoas e não da empresa.
Nós estamos a investir, é um investimento. Em maio, lançámos uma parceria com a Axa, através da qual lhes é oferecida a licença de parentalidade, por exemplo. E é paga pela Uber aos motoristas. É um exemplo muito bom disto que fazemos. Aqui em Paris também temos uma parceria com o BNP para ajudar os motoristas a ter acesso a créditos, aos quais não teriam acesso se não fosse esta parceria. Mais uma vez, isto é um investimento da Uber. Em Portugal, também investimentos nas escolas de formação para que o custo da mesma baixasse.

E o UberPop, o serviço que permite às pessoas usarem o seu carro para ganhar um dinheiro extra? Este serviço nasceu nos EUA, mas na Europa nunca foi possível implementar. Deixaram esta ideia de lado? Ou ainda é um objetivo vosso?
A nossa ideia é a de tentar perceber como é que fazemos para que haja um acesso democrático à mobilidade. Isto foi feito com o UberPop no passado, mas como referiu, as regulações mudaram. E agora a pergunta é: como podemos criar então um acesso democrático à mobilidade? E isto é muito importante, porque há muitas pessoas que não aceitam determinado emprego porque é muito longe de sua casa. A mobilidade real permite uma mobilidade real na vida, o que inclui a mobilidade profissional. Tivemos UberPop no passado, mas hoje a ideia centra-se em trazer este acesso democrático à mobilidade, com uma mobilidade de baixo custo. E fazemo-lo com o UberPool, para começar. Foi uma das formas que encontrámos para as pessoas partilharem as suas viagens e o custo.

Mas também foi por isto que decidimos incorporar novas modalidades nas aplicações, porque uma bicicleta, uma trotinete e o acesso a transportes públicos é uma escolha ambiental e sustentável, mas também é financeiramente mais acessível. É uma forma de termos mais pessoas a aceder ao serviço. A pergunta é: como levar a mobilidade inteligente a um número cada vez maior de pessoas? E a única forma de fazermos isto é partilhando a mobilidade, tendo formas mais económicas e mais sustentáveis de nos movermos. Qual é a maior mudança na Uber hoje? É que estamos a fazer da Uber uma plataforma de mobilidade, na qual podes ter o UberX, o Uber Green, p UberPool, bicicletas, trotinetes e transportes. Tudo numa só app. É desta forma que estamos a olhar para a mobilidade do futuro.

"Acreditamos que se olhares para a mobilidade das cidades, daqui a 10 anos, vai haver sempre um pilar central: os transportes públicos. Queremos trabalhar com eles de várias formas"

Só tivemos duas experiências com a UberPool em Lisboa. Vamos ter de vez esta opção?
A ambição é termos o UberPool no máximo de cidades que conseguirmos. O grande desafio é que temos de atingir uma dimensão crítica para implementar esta opção. Temos de ter tamanho. Temos investido no UberPool e lançámos recentemente uma nova versão. A dimensão crítica que precisas de ter para lançar o UberPool está a descer face ao tamanho que estava previsto no passado. Por isso, talvez no futuro seja possível lançarmos o UberPool em mais cidades. Esse é claramente o objetivo. Mas ainda é preciso ter esta dimensão critica para que aconteça e funcione.

“As expectativas estão muito altas, estamos muito entusiasmados com Portugal dentro da empresa”

E como é que a Uber está a lidar com todos os concorrentes novos que há no mercado? Há quatro anos, quando lançou o mercado lisboeta, só existia a Cabify.
O facto de haver concorrência é um sinal de que as pessoas precisam de se deslocar e reflete que as pessoas também começaram a perceber que a forma como usamos os carros faz parte do passado. Precisamos de ter uma forma mais responsável de nos deslocarmos. Uma das opções tem a ver com esta ideia da Uber enquanto plataforma, que é o nosso grande objetivo. Começámos por ser uma app, através da qual obtinhas um carro premium. Hoje, somos uma app na qual podes ter um carro premium, mas também uma opção de baixo-custo, uma elétrica e novas formas de te deslocares. Vou falar-te do que fizemos em Nice, que é um bom exemplo de como queremos estar sempre a inovar: fizemos uma parceria com um operador de transportes público, que tem um elétrico que só opera até determinada hora. Depois dessa hora, já não há ligações aos autocarros que levam as pessoas para casa. E nós criámos um serviço específico para estes utilizadores com um preço mais baixo e fixo para as pessoas que apanharem um Uber na estação depois dessa hora. É só para os clientes dessa linha de elétrico. Fazemos isto porque acreditamos muito nestes transportes multimodais. Acreditamos que podemos mudar a mobilidade das pessoas que usam carro para as que usam um método de transportes multimodal.

É este o tipo de parcerias que querem fazer com os transportes públicos?
Acreditamos que se olhares para a mobilidade das cidades, daqui a 10 anos, vai haver sempre um pilar central: os transportes públicos. Queremos trabalhar com eles de várias formas. Uma delas é através deste tipo de parceria. E isto é uma coisa que queremos fazer em toda a Europa e claro que inclui Portugal. Queremos trabalhar com maior proximidade dos operadores de transportes e essa é uma das formas. A outra é: como é que fazemos com que seja mais fácil e simples para as pessoas usar os transportes públicos? Uma das formas é permitindo a compra dos bilhetes dentro da app. É muito claro que os operadores de transportes são muito importantes para nós, porque acreditamos que serão sempre uma peça central na forma como as pessoas se movem nas cidades.

"É uma das nossas principais prioridades enquanto negócio e enquanto cultura, saber como trabalhar numa cultura cada vez mais inclusiva e isso é muito importante para nós"

Fazer da Uber uma Amazon da mobilidade?
Sim, exato.

Foi um ano com uma nova chefia, depois dos vários escândalos que assombraram a Uber em 2017. A empresa mudou com o novo CEO?
Sim, temos nova liderança a entrar, novas normas culturais na empresa e acho que é claramente um reconhecimento de que foram cometidos alguns erros no passado e de que a empresa precisava de trabalhar sobre isso. Vi muitas das mudanças e estou muito positivo em relação à direção que a empresa está a tomar.

Está há vários anos na Uber, sentiu estas mudanças em primeira mão?
Sim e são mudanças muito positivas, muito inclusivas e isso é muito importante para nós. É uma das nossas principais prioridades enquanto negócio e enquanto cultura, saber como trabalhar numa cultura cada vez mais inclusiva.

Dara Khosrowshahi assumiu a liderança da Uber no verão de 2017, depois do fundador Travis Kalanick ter sido obrigado a sair da empres

Vai haver mesmo IPO para o ano?
Sei tanto quanto vocês. Li as notícias e não sei mais nada.

É o responsável pelas novas formas de mobilidade na Europa do maior unicórnio do mundo. Acha que este tipo de avaliações estão inseridas numa bolha que vai ter de rebentar?
Não posso falar de números, mas posso falar do potencial. O potencial é muito grande. Se pensares no potencial da Uber pensa nas pessoas que se deslocam pela cidade. Hoje, fazem-no de uma forma que acreditamos que é muito dispendiosa, ineficiente e insustentável, que é através do carro. Queremos tirar as pessoas dos carros e dar-lhes opções mais sustentáveis para se moverem. Esse mercado é muito grande. Hoje, os carros são responsáveis por 30% das emissões de dióxido de carbono e esse é um dos maiores desafios que temos enquanto comunidade. Mas nós não somos os únicos, não vamos fazer isto sozinhos, vamos fazer isto juntamente com o ecossistema. Ninguém vai conseguir sozinho e acreditamos que podemos dar uma grande contribuição.

Lançou o mercado lisboeta há quatro anos e meio, mas as coisas mudaram entretanto. Qual é o potencial de Lisboa agora?
Sempre que vou a Lisboa vejo pessoas sozinhas nos carros, por isso, o potencial é muito grande. Vou sempre muito entusiasmado, porque Lisboa está a tornar-se numa grande infraestrutura de turismo, o que é ótimo. E o que vemos nos nossos números é que todos os meses transportámos mais de 90 mil turistas, o que é muito. Mas a operação de Lisboa é muito maior do que esta de base turística. Há muita inovação. Há pouco falávamos da Web Summit, de todas estas empresas de trotinetes que se lançaram em Lisboa mesmo antes de outras cidades. Vejo a Uber Portugal como um sítio muito inovador. Tiveram UberGreen, UberX. Há toda esta inovação a entrar, o que significa que estou muito entusiasmado com as perspetivas que há sobre Lisboa, sobre Portugal. As expectativas estão muito altas, estamos muito entusiasmados com Portugal dentro da empresa.

*O Observador viajou até aos escritórios da Uber em Paris a convite da empresa

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