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Um leopardo

Nos 50 anos sobre a morte de Winston Churchill, Paulo Portas escreve no Observador sobre "Um leopardo" - um político "que talvez não sobrevivesse aos tempos e aos modos da política contemporânea".

Winston Churchill rivaliza com Oscar Wilde na evocação de citações brilhantes, umas vezes atribuídas adequadamente, outras indevidamente. Este mero facto contém uma reputação. Churchill poderia ter feito, dito e escrito coisas ainda com maior génio e grandeza. Para efeito deste artigo, recordo apenas uma, tomando emprestada a tradução portuguesa – delicada, convenhamos – sobre a atitude com que Churchill mobilizava os seus e despachava o inimigo: “Continuem a moer-lhes o juízo”.

Curiosamente, a ascensão de Churchill à categoria de sagrado histórico acontece num mundo e numa era em que, provavelmente, ele não conseguiria fazer a política que fez. Diria mesmo mais: Churchill talvez não sobrevivesse aos tempos e aos modos da política contemporânea. Isso vai a crédito dele e a débito do mundo em que vivemos. Churchill era o que era e não disfarçava: um aristocrata e um homem do Império, o que hoje provocaria urticária e preconceito.

Fumava e bebia sem demasiada mesura, o que sem dúvida suscitaria nos dias que correm o habitual coro de “fascismos higiénicos” e conveniências sociais. Tinha, deliciosamente, mau feitio e bom carácter, precisamente a equação oposta face à correção política que faz sucesso provisório de não poucos políticos telegénicos e publicitários. Ia contra a corrente com a força de um verso solto e tonitruante, e se necessário mudava de Partido para não mudar de ideias – todo um desafio às conveniências moderninhas. Tinha sentido de humor e sentido da história: duvido que o primeiro correspondesse à ideia de gravitas que a mediania oficializada hoje estabelece, e tenho a certeza, quanto ao segundo, que poucos pregariam a persistência que ele pregou quanto à questão que para ele era essencial: bater-se pela centralidade da Grã-Bretanha num mundo em que a reorganização das potências lhe escapava.

Estes dados são suficientes para perceber que Winston Churchill não se daria especialmente bem numa era sem memória – a nossa -,e numa política de pequenas frases que pretendem resumir, até ao nível mais básico da estupidificação, problemas complexos – o que ouvimos por esse mundo fora todos os dias.

Winston Churchill não se daria especialmente bem numa era sem memória – a nossa -,e numa política de pequenas frases que pretendem resumir, até ao nível mais básico da estupidificação, problemas complexos

Em contrapartida, o que Winston Churchill conseguiu, pouquíssimos conseguiriam se os dilemas fossem os mesmos, agora. De facto, a verdade mais profunda de Winston Churchill – tão profunda que se tornou lendária – é a persistência indómita na defesa do interesse nacional. Assim na paz e na guerra e, sobretudo, entre as duas pavorosas guerras mundiais que conheceu. A isso juntava uma convicção não negociável sobre a natureza do totalitarismo. É por isso que Churchill avisou mil vezes contra o rearmamento alemão e estigmatizou o apeasement. É também por isso que se tornou no único primeiro-ministro possível em tempo de guerra, colapsadas as amenidades de uma diplomacia de fraqueza. Fê-lo como conservador e dificilmente podia ser de outro modo, porque os conservadores, facto difícil de perceber para cá da Mancha, são o único Partido do mundo com o baptismo carismático do one nation party (em tempo de guerra, que interessam as classes, os géneros, as etnias ou as orientações? Só interessa a Nação e nada mais do que a Nação).

Actuava como pensava. Não transportou os dissídios do tempo em que fora um heterodoxo para o Gabinete de Guerra; perdoou a adversários, fez um governo de concentração e manteve o Parlamento eleito, embora exigisse só dar certas informações à porta fechada. Absolutamente lúcido quanto ao carácter bárbaro de Estaline e presciente quanto ao pavor do comunismo, aliou-se com a União Soviética para derrotar o Reich; se mais tempo tivesse vivido, certamente o dedicaria a apressar o fim do que designou por “cortina de ferro”. Se admitirmos com razoável veracidade que o século XX europeu foi o século dos totalitarismos, qualquer deles bebendo na fonte de uma ilusão revolucionária que, note-se, começou em 1789 como Burke teorizou por antecipação, o que é certo e seguro é que Churchill esteve sempre do lado certo, quando apenas e nada menos do que a sobrevivência da liberdade estava em causa.

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Ao longo de uma vida política extensíssima, Churchill enganou-se algumas vezes e acertou muitíssimas mais. Mas quando se diz que o povo inglês foi ingrato com ele, despedindo-o democraticamente após o triunfo de 1945, devemos ter presente que Churchill viu as coisas com um módico de compreensão diferente. Pouco dado a deixar qualquer ponta solta, Churchill venceu a guerra, perdeu as eleições e voltou a ganhá-las, em tempo de paz.

Estas extraordinárias proezas só se explicam como recurso aquela que será, porventura, a mais rara das qualidades churchilianas. Refiro-me à sua nula concessão ao espírito de derrota, que costuma ser resultado acumulado do medo e da melancolia. Em muitos momentos da sua vida, Winston Churchill teve dúvidas e hesitou nas decisões. Mas em nenhum momento se permitiu democratizar a dúvida, ou espalhar o mísero grau moral que assalta os que não querem combater só para não arriscar perder o combate. Churchill era manifestamente de outra cepa: se tivesse ido por aí, teria insultado as vidas inglesas perdidas em defesa de uma bandeira e de um país. Guardava para poucos as sensações dos black dog days. Preferia empregar a sua energia vital naquela pragmática do dia que ficou célebre: action this day! Não dava grande espaço aos desencorajados do único dever: lutar.

Winston Churchill teve dúvidas e hesitou nas decisões. Mas em nenhum momento se permitiu democratizar a dúvida, ou espalhar o mísero grau moral que assalta os que não querem combater só para não arriscar perder o combate.

Além de ser o melhor chefe aliado, Churchill foi várias coisas mais, o que aliás só revela uma independência de vida que o ajudou a pensar na independência da sua ilha. Foi militar com não pequeno grau de excitação – e poderia ter morrido. Foi jornalista – ou talvez melhor, repórter que anteciparia o escritor. Foi tribuno, e experimentou tanto a solidão como a glória. Foi governante e legislador, sobretudo conhecido por se ter interessado – apesar ou talvez por causa da sua infância privilegiada – por temas sociais.

Devemos ser cuidadosos com as réplicas que ignoram um século de distância e diferenças de contexto, mas há um Churchill social que nunca foi um Churchill socialista. Havia nele um sentido moderado do progresso que, na boa lógica conservadora, apontava para reformas que prevenissem revoluções. Interessou-se pela sorte dos mineiros e operários; preocupou-se com as condições de vida das viúvas; aceitou medidas de redistribuição e está vinculado ao salário mínimo nalgumas indústrias. Queria alargar o voto das mulheres e era sensível à questão da pobreza. É certo que nasceu em tempo vitoriano e não desdenhava grandezas do passado. Mas, também o é que Churchill via mais à frente e aceitava inovar socialmente para preservar o equilíbrio fundamental da sociedade. Um conservador atento à questão social não é um paradoxo (como cá se pensa). É realismo lúcido que se materializa em humanidade.

Numa altura de exaltação e fascínio pelas ditaduras, pelo “super-homem” ou pelo “homem novo” e de descrença no parlamentarismo, Churchill obteve o triunfo da vontade democrática. A democracia, contra as modas ideológicas, não era uma fraqueza. Pelo contrário, quando inspirada e motivada, conseguia conquistar e vencer uma guerra.

Para isto, além de lutar nas frentes de combate, o Primeiro-Ministro britânico lutou, convenceu e venceu na frente interna. Usou a imprensa, para ganhar argumentos e opiniões, escreveu artigos e até promoveu fugas de informação; num tempo em que os debates no parlamento não podiam ser transmitidos, usou a difusão pela rádio, para chegar a cada casa, aos ouvidos de qualquer pessoa. Acreditou na pessoa comum para vencer as pretensas “raças superiores”. Apoiou as novas ideias, as novas técnicas, fez desenvolver os tanques e o radar, usou a estatística como base para as políticas governamentais e modernizou alguma coisa a administração.

Passam hoje cinquenta anos do fim de uma das mais fabulosas vidas que percorreram e definiram o mundo contemporâneo. Não deve ter existido outra pessoa que tenha ganho o prémio Nobel da literatura, colocado um álbum no top 5 (dos seus discursos) e bebido – dizem – cerca de 42.000 garrafas de champanhe. Entretanto, venceu uma guerra mundial e salvou o mundo ocidental. Um verdadeiro leão, comentava-se. Talvez mais um leopardo, no sentido viscontiano da vida e, no caso dele, da vitória.

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