“E agora algo completamente diferente.” Valério Romão levou à letra o famoso slogan dos Monty Python, tanto na forma quanto no conteúdo. Além dos vários contos que foi espalhando em coletâneas e revistas literárias, o escritor deu-se principalmente a conhecer aos leitores com a sua trilogia das Paternidades Falhadas — Autismo (2012), O da Joana (2013) e Cair para Dentro (2018) —, conjunto de romances pautados pela crueza da abordagem a dinâmicas familiares e ao inferno que por vezes escondem. Desta vez, não queria nada disso.
“Queria rir-me e fazer rir. É muito bom um gajo reinventar-se, é fantástico”, afirma o escritor de 51 anos em entrevista ao Observador. Mais Uma Desilusão, o livro de poesia que lançou no final de 2024, já prenunciava a mudança no seu estilo torrencial e verrinoso quanto à condição portuguesa. Com O Desfufador, essa mutação concretiza-se em pleno, resultando num romance que descreve como “uma espécie de fogo de artifício disparado em velocidade quatro vezes mais rápido”.
Primeiro de dois volumes — este tem como subtítulo O Contágio —, trata-se de uma sátira com a premissa tresloucada do que aconteceria no mundo se, subitamente, se desse um apagão a nível planetário em que, ao mesmo tempo, todas as mulheres no mundo tivessem um orgasmo e, como consequência, começassem progressivamente a tornar-se homossexuais. As suas personagens não são menos bizarras, de um homem anão despedido do Zoomarine por acidentalmente expor a sua genitália durante uma atuação com um golfinho rufia até uma douta personalidade cujo pendor conspiratório explica-se em parte por ter conseguido sobreviver na infância às macumbas da irmã que queria ser filha única. Justifica-se então a referência ao famoso grupo de comédia britânico no início do texto: estamos em território do nonsense.
Ao escrevê-lo, Romão tinha assim dois objetivos: conceber “um livro completamente diferente de tudo o que tivesse escrito até agora” e, na esteira de autores como Alface e Dinis Machado, demonstrar que a literatura portuguesa não precisa de ser soturna ou, como descreve, “uma miséria cáustica suburbana, um bairro onde as pessoas só não enlouquecem porque a vida tem de continuar”.
Admitindo sem pejo que o título deste livro e a sua premissa pretendem desde logo “causar algum choque” e que o romance “fosse ofensivo para toda a gente”, Romão quis todavia evitar que esse embate se esgotasse em si mesmo. É isso que justifica o tempo que demorou a escrevê-lo: de forma impiedosa, aborda todo o tipo de temáticas espinhosas com humor cáustico. Sem surpresas, essa faceta traduz-se de igual forma para esta conversa, tida junto ao Terminal de Cruzeiros de Lisboa — uma localização escolhida precisamente pelo impacto que o fenómeno turístico tem, não só na capital como nesta narrativa.
▲ A capa de "O Desfufador — Volume 1: Contágio", de Valério Romão (Tinta da China)
Tinta da China
Este romance começa ao seguir Alex, personagem que em criança teve o crescimento interrompido devido a um pontapé no traseiro desferido por João César Monteiro. Só com este arranque tragicómico, percebemos que este é um romance bastante distinto dos seus anteriores. Como surgiu esta história?
Isto é relativamente fácil de explicar, mas ninguém vai acreditar em mim. Começou na pandemia, mas eu já tinha tido esta ideia algures em 2017 ou 2018 em mais uma noite de insónias, quando uma pessoa se mete na internet e de repente vai de filão em filão, de site em site. Dei por mim num artigo sobre a epidemia de dança em Estrasburgo de 1518. Acabei por mandar vir alguns livros sobre o tema. De facto, é uma das epidemias de dança que ocorreu naquela zona do Reno, a última e a mais mortífera, porque morreram pelo menos dezenas de pessoas de exaustão em agosto a dançar. Isto é uma história inacreditável; para um bom romancista ou para um bom ficcionista, a realidade está sempre a bater-nos aos pontos. “E se levasse a realidade um bocadinho ainda além da dança? E se fosse uma epidemia de lésbicas?” Mesmo não tendo começado a escrever o livro, a ideia foi ganhando raízes. Depois, apareceu-me este anão, também como uma homenagem ao Alex, o anão do Cá Vai Lisboa, do Alface. Portanto, é uma espécie de fogo de artifício disparado em velocidade quatro vezes mais rápido, porque estão sempre a acontecer coisas. E era precisamente isso que eu queria, um livro completamente diferente de tudo o que tivesse escrito até agora — fora dos hospitais, fora da análise minuciosa das relações familiares ou das relações humanas em geral. Queria rir-me e fazer rir. É muito bom um gajo reinventar-se, é fantástico.
A propósito desse afastamento, a trilogia das Paternidades Falhadas se calhar pinta-se a tons mais soturnos, mais sépia; este livro, pelo contrário, parece ser uma explosão de cor em termos literários. É justa esta comparação?
Sim, mas é propositado. Acho que a literatura portuguesa — a literatura em geral, mas a portuguesa em particular, por causa do nosso pendor faduncho — é muito autocentrada, muito dramática. Toda a gente se leva muito a sério e está a fazer uma coisa com muito sofrimento. Não me estava a apetecer isso, porque também temos outro lado. Quem conhecesse os portugueses só pela literatura — mesmo pelos nossos grandes exemplos, como António Lobo Antunes —, achava que isto era uma miséria cáustica suburbana, um bairro onde as pessoas só não enlouquecem porque a vida tem de continuar.
Um povo dado ao solipsismo, no fundo?
Sim, muito pesado… E até se percebe, não é? Vivemos 50 anos de ditadura e — embora haja muitas pessoas, sobretudo as que não passaram por isso, que neste momento querem voltar a esses tempos — acho que isso ainda não foi completamente digerido.
Quanto à “epidemia de lésbicas”, porquê essa premissa e como é que se constrói a partir daí?
Andei à volta do tema durante bastante tempo e a ideia era pegar numa coisa que de facto não é infetocontagiosa, mas que tivesse um efeito psicológico. Por exemplo, num avião, se uma pessoa começar a vomitar e disser que a comida está envenenada, começa tudo a vomitar também. Ou seja, não há aqui um agente patogénico, um fungo, uma cadeia de transmissão visível, mas há um poder de sugestão — como há nos cultos, por exemplo — em que as pessoas fazem coisas que, por natureza, não estariam dispostas a fazer ou que não imaginariam conseguir fazer. A minha ideia era pegar no exemplo de uma coisa “escandalosa”, uma epidemia de lésbicas, algo inverosímil, mas com contágio, com uma propagação; como é que se poderia tentar explicar o assunto, que tipo de especialistas é que convocaríamos para uma epidemia de lésbicas; e que efeito é que isso teria nos homens. Porque, de facto, não ia acabar o mundo por (só) haver lésbicas, porque se as pessoas quisessem procriar haveria inseminação artificial, havia todo o tipo de recursos para a espécie continuar — se quisesse continuar. Mas isso teria um efeito nos homens heterossexuais, que têm a sua autoestima indexada ao olhar feminino, Toda a gente se sente bem em saber-se desejado, ou pelo menos visto.
Não ia acabar o mundo, mas ia acabar com uma conceção de mundo, no fundo?
Sim. E depois, partimos para o terceiro aspeto, que é “como é que a gente resolve isto”. E entra aí O Desfufador.
Seria justo descrever este livro como uma sátira? Muitos dos temas e das questões que aborda prendem-se com a realidade ou com aspetos que nos são próximos. Portanto, há sempre o risco de talvez subalternizar a história em prol de querer dizer coisas sobre essa realidade. Como é que geriu esse equilíbrio?
Fui revendo muitas vezes e fazendo muitas modificações. Quando me reuni com a minha editora no princípio do ano e entreguei uma primeira versão, ela fez-me alguns reparos que achei completamente ajuizados. Isto é uma questão de maturidade, mas o escritor tem a tendência para opinar através das personagens ou das descrições e é muito mais eficaz quando o leitor não sente que está a ser guiado por uma coisa sublinhada — isso é o que os filmes da Marvel fazem. “Olha, o Thanos acabou de agarrar a Infinity Gauntlet e o que vai acontecer é…” Há a ideia de que tem de haver um narrador ao lado para explicar, tem de ser didático, porque o público não tem capacidade para chegar lá. Acho exatamente o contrário. Já são tão poucas as pessoas que leem, ou pelo menos que leem algo que seja razoavelmente interessante, que acredito que queiram ser desafiadas muito mais do que endoutrinadas.
No que toca a esse desafio, algo que também me parece que distingue um pouco este romance dos anteriores é o próprio trabalho de linguagem. O texto espraia-se em passagens mais longas, nota-se um certo saborear do encadeamento das palavras. Que abordagem procurou?
Tive de encontrar o tom, o que levou bastante tempo. Tive a ideia em 2017 e o livro foi concluído, pelo menos a primeira versão, em 2024. Houve sempre a questão do faltar tempo, que é a mesma coisa que dizer que falta dinheiro. Tive uma bolsa da DGLAB que me deu para escrever boa parte do livro, só que esta teve de ser quase inteiramente refeita porque de repente surgiram mais personagens e a história mudou. E, nesse sentido, mais valia respeitar a história do que evitar sacrificar uma boa personagem porque não se encaixava ali. Quando encontrei o tom, o problema depois foi cortar. De repente aquilo estava-me a saber muito bem, mas passava-lhe os olhos e pensava “isto está muito gordo, tem de ficar mais pequenino, já disseste isto ou aquilo”. Tinha alturas em que, por uma questão inconsciente, fazia uma espécie de resumo para mim próprio de um capítulo qualquer no princípio do capítulo seguinte, o que não era necessário, porque estava ali a mostrar processos mentais que não interessavam para o leitor. Estava a mostrar as costuras, e depois tive de tirar esse alinhavado e disfarçar os restantes para que a coisa ficasse o mais orgânica possível.
Já revelou noutras ocasiões que não gosta de escrever livros em que já saiba o fim à partida. Num romance deste tamanho e com este encruzilhado de narrativas, não perder o fio à meada parece tornar-se ainda mais desafiante sem esse planeamento a priori. Como lidou com o processo?
Tinha notas, claro, porque sabia que tinha de falar disto e daquilo, tinha feito uma espécie de shopping list numa aplicação de tarefas e ia riscando coisas. Mas isto ainda é pior: este é só o primeiro volume e não faço ideia de como é que acaba o segundo. E agora, claro, a minha editora, com toda a razão, diz-me, “bom, se calhar é melhor começares a pensar nisso”. Só que depois põe-se outra vez a questão do tempo, do dinheiro, etc… Continua a haver um problema de escala em Portugal, não é? Somos um país pequeno, lê-se pouco, não dá para viver disto, tirando raras exceções, e então tem de se arranjar dinheiro de outra forma.
▲ "Não se chama O Desfufador a um livro se não se quiser causar algum choque — mas era o choque pretendido para uma pessoa depois querer ler, e aí é preciso ter um bom livro"
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Relativamente a um certo tom mais ensimesmado da literatura portuguesa que apontava há pouco, mencionou no passado como tem como referências Lobo Antunes ou Saramago, mas dado o carácter satírico e até às vezes delirante deste romance, talvez se inscreva mais na tradição de Dinis Machado ou de Mário de Carvalho. Como é que o descreveria?
Tem muito a ver com o Dinis Machado, sim, nesse sentido talvez de ser uma coisa… não brejeira, mas que não se leva muito a sério. Talvez os Contos do Gin-Tonic, também. Mas sinto mesmo que é um bocado filho ou pelo menos enteado do Alface — e do Manuel da Silva Ramos, também — porque, de facto, ele é que escreveu para mim esse grande romance, o Cá Vai Lisboa, com todos os elementos populares, olhando para eles com uma ironia mordaz e uma capacidade de descrição maravilhosa dessa coisa que somos nós, “o povo”, como dizia Mário Cesariny. Gosto que este livro esteja, ou tente estar, perto dessa realidade normal do dia-a-dia, independentemente das maluqueiras todas que estão aí imbuídas. Mas é tal coisa, a realidade ganha sempre. Os romancistas jogam no máximo para empatar. Uma pessoa vê uma notícia de jornal e fica “já não dá para escrever sobre isso”. E se tivesse escrito, ninguém acreditava.
Quanto a esses escritores que aponta como referência, apesar de terem o seu reconhecimento mais ou menos devido na literatura portuguesa, não são os mais populares nem representam uma tendência maioritária. Isso também nos diz um pouco, talvez, do tal pendor do escritor português de sucesso de que estava a falar.
Sim, se calhar para uma pessoa ser levada a sério tem de ser muito séria, não sei. Mas o humor é uma coisa muito inteligente, e é provavelmente das coisas mais difíceis de fazer em qualquer tipo de arte. A última coisa que aprendemos numa língua são as piadas. Se não soubermos bem inglês, francês, chinês, o que quer que seja, tudo o que é piada, segundo sentido, metáfora, vai passar-nos ao lado, porque a ironia é muito difícil.
Em relação aos seus romances e contos passados, este livro tem esse tom mais leve, mas não deixa de ter passagens muitíssimo violentas, mesmo que adornadas desse humor. O Desfufador é como, em certo aspeto, voltar a tocar nesses temas mas com uma lente mais cómica?
Vejo mais isto como os pintores a descreverem as suas fases. Tive a fase da família, com três romances e um livro de contos ligados por esse núcleo, e agora, não conseguindo não tocar na família ou em determinados aspetos, esta é outra fase. E pelo meio houve um livro de poesia também, que é outra coisa. Basicamente tenho também um objetivo um bocado infantil ou adolescente de não me repetir. Fechando o segundo volume, quero fazer outra coisa. Não me quero aborrecer, para isso já tenho o trabalho. Fui administrador de sistemas informáticos muitos anos e a escrita era um escape, porque era o contrário da minha rotina. Se começar a transformar a escrita numa espécie de fórmula, prefiro ir fazer outra coisa.
No que toca ao pendor do livro, talvez o capítulo que aborda a chegada da comunidade chinesa à Figueira da Foz e da sua influência na população local possa ser, em tamanho reduzido, uma boa súmula do que trata este romance. Pode descrevê-lo?
É basicamente um capítulo onde se explica um surto de confucionismo. Portanto, os chineses começam a chegar à Figueira da Foz, como chegaram a todo o país e a todo o mundo — são muitos, é fácil vê-los em qualquer lado. E como foram acolhidos em todo o lado, as pessoas encaram o chinês apenas como “o gajo da loja do bazar, onde eu vou buscar umas buchas quando não tenho” ou “os gajos do restaurante, da galinha com amêndoas”, e pouco mais. E os próprios chineses, também, muitos fazem questão de se organizar em comunidades mais ou menos fechadas e não se dar muito com a população local. Mas aqui, de repente, os chineses começam a frequentar o casino — e é sabido como são jogadores — e as pessoas começam a conhecê-los. Bebem uns copos, há um que já sabe falar português, etc…, e começam a entrosar-se. A partir daí começa a haver uma espécie de contágio da principal doutrina chinesa de comportamento ou ética — chamar-lhe religião é talvez um pouco excessivo.
É como a ética protestante, não é?
Sim, há uma ética que começa a contagiar-se e as pessoas começam a ficar mais virtuosas. Só que depois há, obviamente, as pessoas que são os retintos filhos de puta e que dizem “porra, esta merda tem de parar, isto vai ser um problema desgraçado”. E então chamam os especialistas para tentar resolver o problema do contágio do confucionismo. E não vou contar o fim do capítulo, porque seria um spoiler, mas a solução é muito simples.
Pedi-lhe para descrevê-lo porque só neste capítulo aborda questões de discriminação, de um certo sentimento nativista, das crendices e da noção que Portugal é um país repleto de especialistas.
Em Portugal abre-se o Facebook e estão ali milhares de especialistas em vacinas, em tratamentos do cancro, em geopolítica, em assuntos da Rússia e da Ucrânia. Cada português sozinho conseguiria resolver o problema israelo-palestiniano numa tarde, entre bifanas. É um pouco a nossa sina. Portugal é um país pobre, e as pessoas em países pobres viajam menos, vão menos lá fora porque não têm dinheiro, não veem o mundo, Ainda há aquela coisa muito portuguesa de achar que a Sagres ou a Super Bock são as melhores cervejas do mundo! Eu já nem digo para ir lá fora, basta uma ida ao supermercado. Temos muito esta coisa fechadinha do “Portugal é um país do caralho”. Não é nada de particularmente especial — é um país ao lado dos outros, é um acontecimento irrepetível, como qualquer pessoa é um acontecimento irrepetível. Teve a sorte de ter sido conquistado durante muito pouco tempo — graças à Catalunha, porque Castela teve de dividir forças e apostou na Catalunha, muito mais rica, e nós ficámos descansados. E agora também estamos aqui encostados ao mar e ninguém está muito preocupado com isto. Durante a ditadura, as nossas estrelas eram o Eusébio e a Amália. Agora, se felizmente vai aparecendo um Portugal mais cosmopolita, infelizmente os melhores têm de emigrar — porque os ordenados são residuais e os centros de investigação não são exatamente aquilo que se tem lá fora para um gajo com talento. Sou completamente contra esta coisa do sermos “orgulhosamente portugueses”. Não é orgulho nenhum, nascemos aqui por acaso! É como ser orgulhosamente heterossexual ou ser orgulhosamente do Benfica. Ninguém escolhe isso, tal como ninguém escolhe os pais. Mas ao mesmo tempo que nos achamos uma grande merda, achamos-nos maravilhosos.
Como a ideia de que só nós podemos falar mal de nós próprios?
Isso é tipicamente português. Podíamos estar aqui uma tarde a falar mal disto e daquilo, do restaurante que fechou ali porque a cozinha era uma porcaria e em Portugal nunca se come nada de jeito e as tascas já fecharam. Chega aqui um inglês e diz “bem, as vossas bifanas, nunca percebi a piada disso”. Aí a reação é “bom, vais levar nos cornos”.
▲ "Se antes o idiota tinha vergonha de sair debaixo do calhau e dizer "eu sou idiota", a pandemia foi o seu momento de libertação"
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
O local onde decorre esta entrevista não foi escolhido por acaso, já que a turistificação de Lisboa é outro importante tema do livro. Descreve os cruzeiros que aqui aportam como “uns ameaçadores edifícios transatlânticos impando à chegada, desovando sobre o cais”. Ninguém sai bem na fotografia na forma como descreve a relação entre os lisboetas e os turistas, porque até as vítimas do turismo desenfreado parecem vingar-se nas pessoas erradas. Que cenário traça neste momento?
É tão perverso esse jogo, é uma relação inquinada à partida. Lisboa não é como Paris. Lá, para escapar aos turistas, há imensos bairros e sítios dentro desse mesmo bairro onde só vês franceses a comer um croissant e a beber uma imperial de fim de tarde. Fazem-no lindamente, contentíssimos, evitam os sítios turísticos e vivem a vida deles. Lisboa é muito pequenina e a sua zona interessante, então, é ainda mais. Portanto, é impossível para quem queira viver no centro de Lisboa, como eu vivo agora, passar ao lado disto. E há uns anos ainda era pior. Moro perto do Poço de Negros, e na minha rua havia barulho a noite toda, aquela coisa típica em que uns holandeses, uns alemães ou uns suecos alugavam um Airbnb e depois era festa toda a noite — eles não fazem isso no país deles, não podem, mas havia uma espécie de licença de “tailandização” aqui do sítio. Agora há muito menos barulho, até porque a malta começou-se a fartar.
No entanto, há outra questão ainda pior. Quando saio à rua já faço uma espécie de jogo mental a perguntar-me “esta loja ontem estava aqui?”. Porque já não faço ideia, elas abrem com coisas tão interessantes, como “cerâmica artesanal”, que claro que já fecharam ao fim de três meses. Nem o turista vai comprar aquilo, mas as pessoas meteram na cabeça que qualquer um podia abrir a loja dos patinhos de borracha e fazer dinheiro. Mas o turista não é infinitamente estúpido, não é por entrar numa loja que lhe cai imediatamente o dinheiro dos bolsos. E depois, os poucos sítios, cada vez são menos, que vão sobrevivendo — um restaurantezinho ali, um café acolá, porque antes tínhamos quatro cafés na rua, agora só temos um —, não são frequentados por turistas. Eles vão todos, inevitavelmente, ao brunch ou ao bar dos vinhos naturais, onde também não se veem portugueses. São dois mundos a viver um ao lado do outro, e não só um é infrequentável para os locais por uma questão de dinheiro, como não tem qualquer interesse. Eu viajo muito — em trabalho e porque gosto — e estive um mês na China este ano. Não me passou pela cabeça que alguém me dissesse “tens de ir a uma rua de bares de expats aqui nesta cidade”. É o último sítio para onde iria!
No livro também se nota o olhar para aquilo que é no fundo uma tendência de anti-intelectualismo, ou de descrença do intelectual. Essa falta de curiosidade que aponta a esses turistas não é um sintoma de um problema mais alargado de estreitar fronteiras mentais?
Acho que tem um bocado mais a ver com o fenómeno das lowcost e da massificação da viagem. As pessoas que normalmente não viajavam começaram a fazê-lo. Os putos mais novos com algum dinheiro viajam sempre, mas não têm grande imaginação, mas a eles até dou de barato, nunca viram grande coisa, se calhar não estão dispostos a ir um bocadinho além dos horizontes. Nessa questão da autoridade, há dois fenómenos do século XX e XXI que redefiniram o nosso olhar sobre as coisas e que nos mudaram para pior. O primeiro é o advento das redes sociais, porque toda a gente nas suas terrinhas tinha estúpidos — há sempre um que está num café a dizer “vocês estão todos enganados, são burros, porque as vacinas ou porque a ida à lua e tal”, que se sente especial por acreditar numa coisa que mais ninguém acredita ou por negar uma coisa que toda a gente afirma. Só que hoje não só há mais estúpidos por uma questão estatística — há mais pessoas no mundo, logo, há mais pessoas menos inteligentes — como aquilo que eram ilhas se transformaram em continentes com as redes sociais, juntaram-se num grupo do Facebook ou no WhatsApp ou onde quer que seja, a partilharem as mesmas ideias que antes estavam isoladas. O movimento anti-vacina era uma coisa residual nos Estados Unidos, muito filho da esquerda americana, dos hippies dos anos 70, das “organic moms”.
Eram também tendencialmente anti-autoridade, se bem que de outro prisma.
Vinham da esquerda. O movimento anti-vacinas é agora quase todo ele de uma direita orgulhosamente bronca e populista. Isto, antes de mudar para melhor, vai ficar muito mas muito pior de certeza absoluta. E o segundo momento de viragem é a pandemia, que é um acontecimento não expectável, extraordinário em todos os sentidos, e que obrigou à canalização de recursos mundiais para uma solução e em que obviamente nem tudo correu bem. As medidas de contenção se calhar não foram as mais adequadas, a imposição das máscaras se calhar também não… Não sabemos, será algo estudado durante muitos anos. Mas se antes o idiota tinha vergonha de sair debaixo do calhau e dizer “eu sou idiota”, esse foi o seu momento de libertação. Agora diz “viram? Eu tinha razão”. Hoje não há nenhum idiota que não fale nos turbocancros, na mortalidade exagerada por causa das vacinas, na “sopa que vos deram”, nas “vassassinas”… Tive um primo que não era assim tão mais velho que eu e que teve pólio. Nasceu no meio do nada, descalço, e teve a infelicidade de ainda contrair essa doença. Era um pastor de ovelhas e de cabras que tinha uma funda para reunir o rebanho mesmo a grandes distâncias e ficou completamente paralisado do lado esquerdo, andava torto e arrastava-se. Acabou por beber até morrer, porque ninguém suporta viver naquele corpo, muito menos quando se está numa aldeia com 20 pessoas. As pessoas, antes de falarem das vacinas, deviam ouvir algumas destas histórias.
Mencionou no início como as epidemias de dança inspiraram o livro, mas será que os efeitos mentais da pandemia também se intrometeram inconscientemente quando concebeu esta história?
Tivemos um stress emocional, psicológico e até financeiro muito grande. Muitos músicos estavam na altura sem dinheiro e sem forma de fazê-lo, porque não tinham contratos, viviam de recibo verde em recibo verde, de cachê em cachê, davam umas aulas — tudo isso acabou. Percebo que as pessoas tenham ficado revoltadas quando lhes disseram “não dá para sair de casa”, mas a escolha entre pedir dinheiro emprestado ou morrer… E depois alguns respondiam “ah, mas eu sou saudável”. Está bem, mas o meu editor, o coitado do João Paulo Cotrim, da Abysmo, morreu de Covid-19. Não é que fosse uma pessoa extremamente saudável, mas há outros casos. Ou seja, se não tínhamos a certeza do que é que podia ser feito, ainda bem que se calhar pecámos um bocado por excesso. Nesse sentido, não consigo perceber como é que as pessoas olham retrospetivamente e só veem falhas. “Eu sou puro sangue, não levei vacinas, os meus putos também não.” Agora temos surtos de sarampo nos Estados Unidos, e vai piorar, porque puseram um tipo completamente demente à frente do Departamento de Saúde.
Outra das personagens deste romance, o Hélder, tem algumas características muito próximas às suas: é filho de emigrantes regressados de França, cresceu em Tavira, vem estudar para Lisboa…
[Interrompe] Fui obviamente buscar coisas para ser mais fácil. É preguiça, mas funciona no caso da personagem dele. É um puto inteligente, deslumbrado com a possibilidade de sair da aldeia e de se fazer alguém na vida e depois vai para a faculdade, onde os professores começam a reparar na sua inteligência e ele fica cheio de si.
▲ "Lisboa é muito pequenina e a sua zona interessante, então, é ainda mais. Portanto, é impossível para quem queira viver no centro de Lisboa, como eu vivo agora, passar ao lado disto"
NurPhoto via Getty Images
Algo que surge na história dessa personagem e que se vai mantendo ao longo do seu percurso é uma certa ideia de choque civilizacional. No caso dele, o choque do moderno com o antigo, do rural com o urbano.
Há o provincianismo e depois estar à vontade na Bica do Sapato em Lisboa. Ele está entre mundos, já não pertence ao mundo dos pais, da tia-avó, de Tavira, da cidade pequenina, do campo, mas também não pertence, como se há depois de constatar, à elite intelectual, às noites do Lux. Está sempre entre coisas e isso causa-lhe uma frustração tremenda, porque há sítios para os quais uma pessoa tem de nascer num determinado berço e não se adquirem, por mais dinheiro ou fama ou cachê social que se obtenha. E o passado não se apaga: ele não deixa de ser filho de uns imigrantes que voltaram mais ou menos com uma mão à frente e outra atrás, com um dinheirinho para fazer uma casinha e pelo menos não terem dívidas.
Tanto o Hélder como o Alex passam algum tempo no Algarve, região que, mesmo tendo as suas representações literárias, talvez seja das mais sub-representadas. Hoje vemos, até de um ponto de vista social e político, algumas manifestações de uma certa revolta ou mal-estar, relativas a uma noção de abandono. Era algo que também queria abordar no livro?
É um abandono, sim, mas também é uma auto-exclusão voluntária. Vivi no Algarve dos 10 aos 18 anos e toda a minha família é de lá. Conheço razoavelmente bem a mentalidade algarvia e uma grande maioria pensa “estamos muito bem aqui, mas somos chulados pelo poder central”. E depois tenho amigos que vêm a Lisboa e me dizem “porra, tive de ir aí, isso é insuportável, como é que tu consegues? Eu, em Albufeira ou em Tavira, tenho lugar à porta…” É este tipo de mentalidade do conforto burguês das pequenas coisas repetíveis. E depois, há uma grande diferença entre o Algarve litoral e o Algarve interior — o interior é uma iteração alentejana, o litoral é pescador e turístico. Ninguém está preocupado com cultura no Algarve, é tudo fogo de vista. A malta está preocupada com ginásios e carros, com desfile do corpo, das posses, das marcas… é muito a nossa Flórida, é muito provinciano. Os algarvios têm muito que se queixar da forma como foram, ou não, tidos em conta numa série de coisas, mas sobretudo deles próprios.
Como por exemplo?
Aquele mamarracho arquitetónico em que se tornou Albufeira, por exemplo. Aquilo não veio do nada. Era uma vila de pescadores, encantadora, quando a conheci nos anos 80 — inclusivamente a estrada que ligava Albufeira à Oura ainda era de terra. Obviamente, não dá para preservar o passado informal, as coisas evoluem, mas Albufeira fê-lo no pior sentido. Na altura, os turistas que lá iam eram capazes de entrar numa loja de artesanato e gastar 100 contos [500 euros] numa peça. Neste momento, os únicos que lá vão são os mais pé-rapados, aquilo é uma espécie de Benidorm. Porque eles podiam ter escolhido transformar-se em Vilamoura, ou fazer por isso, extraindo de uma clientela mais pequena, de uma forma sustentável, tanto dinheiro quanto possível. Mas não, escolheram o “venha a mim o pé-rapado do mundo, que eu tenho cerveja barata e English breakfast”. Isto é culpa de Albufeira. Além de todos aqueles prédios horrorosos, aqueles aparthotéis… as rotundas de Albufeira são provavelmente as mais feias do mundo: a das minhocas, a dos relógios, com dois Swatches… Ninguém com um átomo de bom gosto no corpo pode gostar daquilo. Mas eles têm muito orgulho — tal como todos os portugueses têm muito orgulho do seu país. Não consigo perceber.
Normalmente, quando se menciona essa vertigem de apostar no que resulta — neste caso, no turismo — a cura é o veneno ao mesmo tempo?
Não estou a dizer que o turismo é inerentemente mau, ninguém diz isso, tal como o imigrante ou o sol não são inerentemente maus, mas há uma dose. Não é por nada que Aristóteles colocou “a justa medida” no centro da ética. Ser temerário ou ser cobarde, ambas podem ser duas coisas completamente tontas. A justa medida, até que ponto é que eu devo ser isto ou aquilo, ou até que ponto é que devemos apostar nisto ou naquilo, é o mais difícil de encontrar. Mas, de facto, se queremos ver um exemplo de uma coisa muito mal feita, a muitos níveis, é só ir a Albufeira. E não é por nada que foi uma das câmaras que o Chega conquistou. Porque aquilo está horrível. Se uma pessoa for ao centro da cidade… E nenhuma pessoa de Albufeira vai lá, aquilo já não é deles.
Mas dir-se-ia o mesmo daqui: que nenhuma pessoa de Lisboa vai para o centro da cidade neste momento.
Sim, é um bocado isso. Ninguém vai para lá passear. Eu passeava imensas vezes no Rossio, pela Baixa, mas já não. Não há nada ali para mim, toda a oferta é canalizada para o turista. Em Albufeira, por exemplo, na rua dos bares da Oura, o equivalente daquilo encontra-se talvez na Tailândia, em Pattaya, aquela coisa grotesca do copo, do vómito, das miúdas semidespidas a escorregarem para cima de um tipo lambuzado. É horrível, é feio, é vil, é ofensivo. Uma pessoa que lá esteja parece que fica mais estúpida só de passar ali ao pé.
▲ "Quando conheci Albufeira nos anos 80, a estrada para a Oura ainda era de terra. Obviamente, não dá para preservar o passado informal, mas Albufeira fê-lo no pior sentido"
O próprio título deste livro, O Desfufador, pode ser encarado como politicamente incorreto. Mas essa posição hoje é, talvez, uma posição já cristalizada e tipificada. Ou seja, já não vai contra a norma, é o outro lado da norma. Como é que se concebe um livro destes sem querer seguir uma onda de pensamento?
A ideia que sempre presidiu este livro foi não ser gratuito. Ou seja, eu não escrevi o Cona d’Aço do João Malheiro, do estilo “vou chocar-vos” e depois aquilo esgota-se ali em 15 minutos após o choque. Quando pensei nisto, fi-lo de forma séria, foi por isso que levei tanto tempo a escrevê-lo. Tenho até pena que não tenha saído há mais tempo, há dois ou três anos, porque o ambiente político com o Biden era bastante mais coercivo a nível do politicamente correto. O politicamente correto é também uma agulha que muda consoante o ambiente político na América, e neste momento há cá menos “cancelamentos”, ou fala-se menos disso, pelo menos. E o Twitter parece ter sossegado um bocadinho o facho relativamente ao policiamento do que as pessoas andavam a dizer. Mas, obviamente, não se chama O Desfufador a um livro se não se quiser causar algum choque — mas era o choque pretendido para uma pessoa depois querer ler, e aí é preciso ter um bom livro. Não estou a dizer que o livro é bom como autoelogio, mas se só há um título para apresentar, é pouco.
Com o atual clima altamente polarizado, um dos temas do livro ser uma “epidemia de lésbicas” pode ser tido como ofensivo tanto de um lado do espetro político como do outro.
Era a minha ideia, é que fosse ofensivo para toda a gente. Isto dispara em todas as direções, ninguém fica bem visto. Aliás, a personagem do Alex, apesar de ser um anti-herói e de querer rebentar com coisas, é a mais íntegra. Talvez seja movido por uma ideia mais ou menos tonta, mas tem coração. Há outras, como o Hélder, em que não se percebe bem se tem coluna vertebral.
Será um exagero afirmar que apresenta o mundo de um ponto de vista pessimista?
É impossível não ser pessimista neste tempo. Dirão, e talvez com razão, que isso é o que todos os velhos ou os que estão no processo de envelhecer dizem, e eu responderia que têm razão, mas vejo muitos putos de 20 anos e até mais novos a dizerem a mesma coisa. De facto, há um peso qualquer que se impôs sobre nós: a guerra na Ucrânia, o massacre dos palestinianos agora nestes últimos anos, o massacre dos israelitas para começar — e depois, como manda a conversa israelo-palestiniana, temos de ir até 2000 a.C ou assim para resolver o assunto do ovo e da galinha. Há, de facto, um clima muito polarizado. Por exemplo, é quase impossível ter um discussão em Portugal quanto à segurança social, à nossa população e à necessidade de termos imigrantes. Precisamos deles? Bem, quantos? Podemos fazer algum tipo de conta? Porque com a polarização, a resposta vai ou para todos os imigrantes ou nenhum. Assim é impossível ter qualquer conversa. Se olharmos para os EUA, os Republicanos e os Democratas já não são opositores de ideias, como foram durante muito tempo, são inimigos existenciais — um representa para o outro tudo o que há de mal no mundo. Chegámos a um ponto em que a coisa vai para “os democratas bebem sangue de crianças para manterem-se jovens“. Já não faz sentido nenhum. Em qualquer outra altura do mundo, havia um idiota que dizia isso e toda a gente na mesa se ria. Com a internet, passa de uma teoria da conspiração para um movimento.
Seria justo afirmar que, no fundo, o tom deste livro é consequência de um contrato social que foi desfeito, ou pelo menos está rapidamente a desfazer-se?
Acho que sim. Não sei se é consequência disso, mas é da observação de uma realidade a mudar muito rapidamente para algo muito pior. A ideia da democracia, nas nossas cabeças ingénuas, estava basicamente garantida. Não pensei, quando tinha 20, 30 ou 40 anos, que alguém ia desejar uma ditadura comunista ou fascista — ou populista, como lhe chamam agora — no governo português. Pensava que estávamos resolvidos nisto. E, no entanto, estas coisas vão reaparecendo na história. Também nunca imaginei que pudesse haver um Presidente dos EUA como o Trump a dizer publicamente “indiciem-me estes gajos porque são uns merdas e fizeram-me mal”. Isto era impensável, qualquer outro presidente teria sido destituído por dizer muito menos do que isto. Mas tornou-se o normal, e ele conseguiu operar esta mudança cultural mundial — porque feliz ou infelizmente, andamos um bocado a reboque do que se está a passar, e a pensar, nos Estados Unidos. Quando isto se normaliza, qual é o próximo passo? Execuções públicas e televisionadas? Não sei, mas isto não vai ficar melhor.
A ideia que está a transmitir é que pode nem vir a acontecer, mas já se esteve mais longe.
Isso vê-se agora com estes influencers, estes miúdos, como aquele que atropelou uma mulher, o forcado [Tiago Grila] — como é que alguém, na sua lucidez, pode achar aquele gajo um tipo interessante de ouvir? Já nem digo segui-lo, mas como é que alguém ao fim de cinco minutos não se levanta da cadeira e diz “vou-me embora”. Mas isto também vem a reboque da história de que os meninos tinham de deixar de ser homens, porque, de repente, toda a masculinidade era tóxica. Agora, a maior parte dos seguidores dessa gente, dos hipermachos e dos Andrew Tates, são putos que cresceram a ouvir que a masculinidade era uma coisa tóxica e, de repente, têm um tipo a dizer-lhes “não, está tudo bem com o que estás a sentir, é normal, tu queres é inseminar muitas mulheres. Tu és o rei, meu, quem disse que não eras? Tu és o leão, e ninguém diz ao leão que não é o leão”.
Quanto a esse tema, é evidente que a questão da “epidemia de lésbicas” do livro é algo fantasioso, mas a ideia de haver uma divergência quase civilizacional cada vez maior entre homens e mulheres não, especialmente junto das gerações mais novas. Aliás, há vários estudos a apontar para isso.
Talvez as mulheres nos salvem. Não estou à espera que sejam os homens. Os homens passaram do “não podes ou não deves ser homem” ou o “tudo o que é homem é mau” — foi uma lavagem cerebral nos últimos 20 anos — para o “bater nas gajas e subjugá-las é OK”. Vejamos, um tipo nasce com mais testosterona, mais força, e só isso torna uma relação desigual em termos físicos, é genética, é uma coisa puramente da etologia da espécie. Agora, um tipo que se imponha ou que force uma mulher, que lhe dê uma chapada, que haja violência — qualquer tipo de violência —, fica marcado, fica manchado. Claro, até pode fazer terapia, pode ficar chateado consigo próprio, pode pensar “porque é que eu fui fazer isto”, mas isto é uma forma miserável de ser homem. No entanto, dizer que um homem é uma merda só porque nasceu homem… estamos a condicionar a conversa a coisas que não fazem sentido nenhum. A cultura faz um trickle-down, e o resultado final é “tu nasceste homem, arrepende-te”. É como a história das reparações.
Em que sentido?
Nasci branco, mas, que eu saiba, não tenho na minha família nenhuma pessoa que tenha feito parte do sistema de escravatura que os brancos impuseram sobre os negros durante muito tempo. Que tipo de arrependimento ou de consideração é que eu tenho de ter sobre isso, tendo em conta que eu pauto a minha vida por outros valores? Não se consegue perceber. Que um país faça isso, que faça uma mea culpa… agora, que uma pessoa seja julgada pelo tom de sua pele parece-me tão racista como as pessoas que acham que os negros são isto ou aquilo. As pessoas são indivíduos, para começar — depois podemos falar em pertenças, a grupos, a clubes, a ideias, mas primeiro são pessoas.
▲ "Fui administrador de sistemas informáticos muitos anos, a escrita era um escape, era o contrário da minha rotina. Se transformar a escrita numa espécie de fórmula, prefiro fazer outra coisa"
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Distam sete anos desde que publicou Cair para Dentro. Desde então, dedicou-se quase em exclusivo à tradução. Tendo já admitido que parte deste tempo deveu-se ao próprio desafio da escrita, de que forma essa ocupação influenciou este livro?
Se pudesse só traduzia livros de autoajuda, culinária, etc… Primeiro, porque são muito mais fáceis. Não há figuras de estilo literárias nem contextos de época em que tenha de procurar palavras adequadas que não existem sequer cá. E pagam o mesmo para traduzir um livro de autoajuda e para traduzir um monumento literário, só que é muito mais fácil. Agora, a tradução tem a parte boa de obrigar a ampliar o léxico, o da língua de chegada, porque há coisas como figuras de estilo, palavras e conceitos que não conhecia e tenho de transportá-los para a minha língua e têm de fazer um sentido equivalente, têm de tocar da mesma forma. Nesse aspeto, é genial, porque dá mais ferramentas técnicas da escrita. Se a filosofia dá ferramentas conceptuais e lógicas, de como pensar sobre as coisas, a tradução dá ferramentas técnicas, mais mão, é musculação.
Imagino que chegaria a um ponto em que se fartaria se não se sentisse desafiado…
Mas aí se calhar era uma coisa que eu podia escolher de vez em quando, ficava super satisfeito, e depois voltava para a porcaria, ficava a chafurdar na lama tranquilamente. Até porque gosto de traduzir, mas o que gosto mesmo é de escrever — e às vezes nem disso gosto. Porque escrever é uma atividade incrivelmente estúpida e solitária, ao fim de uns meses já olho para aquilo e nada faz sentido. Releio um manuscrito e digo “isto está tudo mal, tenho de refazer a história toda”. É um desespero.
Já referiu antes como a escrita é das áreas criativas onde o custo de entrada é mínimo, porque uma pessoa só precisa ter uma folha de papel, ou vá, um computador. No entanto, ao mesmo tempo, não é também das mais solitárias, onde se sente mais dúvida, autocrítica, síndrome de impostor.
É preciso ter duas características diametralmente opostas, e normalmente convivem a espaços. É ter uma autoconfiança estúpida, a ideia de que não só vou conseguir fazer isto, como vai importar a alguém, isto vai contribuir como for para o mundo da arte. E depois, é também ter a maior fragilidade do mundo. Escrevo um texto e só penso “isto está horrível”, bato-me a ti próprio, vou dormir e estou super indisposto com tudo o que fiz e não encontro solução. Depois, acordo de manhã e penso ” já sei!”. É muito trabalho, mas tem de ser.
Já referiu ironicamente que, com este primeiro volume, já só falta o outro. Em que processo está?
Tenho várias ideias, estruturas mais ou menos mentais que se vão compondo. Este é, para mim, um livro difícil, porque sou um tipo razoavelmente preguiçoso, estava habituado a escrever com uma ou duas personagens e depois o resto era mais ou menos secundário e não tinha de pensar muito nelas. Aqui não, é uma cartucheira.
Além deste romance, lançou também um livro de poesia no final do ano passado, e tem atividade continuada no teatro e na música. Ou seja, vai mantendo a sua atenção a várias áreas culturais. Vê-se a fazer mais alguma coisa no futuro?
Estava a ter aulas de chinês quando comecei a escrever este livro e tive de deixá-las. Estava a fazer exercício e interrompi isso também. Tenho de me concentrar numa coisa, porque sou muito limitado. Quando estou virado para uma coisa, sou obsessivo e faço só aquilo. Se me derem uma parede para pintar, não vou sair dali enquanto aquilo não estiver porreiro, sonho com a parede e tudo. Invejo as pessoas que dizem “estou a escrever três livros agora e mais não sei o quê”. Para mim, seria absolutamente impossível. E o tom? Como é que se muda de fá para sol? Para me concentrar nisto tenho de encontrar o tom e não me peçam para fazer mais nada, senão eu perco-o e contamino os outros.
Deu uma entrevista há cinco anos à Rádio Observador onde dizia que se considerava “um escritor outsider”. Ainda veste esse papel?
Sou outsider no sentido em que não me dou com pessoas do mundo da escrita, mas suponho que há muitos escritores como eu. Não faço parte de nenhum clube, de nenhum PEN ou associação ou grémio ou movimento. Tenho amigos que são da poesia, outros não, mas não vivo no mundo literário, não vou às festas de não sei o quê, não faço júris [em concursos literários] — convidam-me, mas não julgo os meus pares, não quero fazer isso. É impossível não haver trocas de influências e de favores, disto ou daquilo, quando se faz parte de um movimento ou de um clube ou de uma associação. Isso faz parte de tudo, vale tanto para uma cooperativa vinícola como para um clube literário. Dou isso de barato, eu é que não quero pertencer.