A narrativa seria assustadora e preocupante se fosse verdadeira. Mas não é: não passa de mais uma teoria da conspiração que ganhou destaque nas redes sociais. No centro da história está uma suposta rede de tráfico de menores cujo único propósito é extrair delas uma substância — em algumas publicações é dito que tem efeitos alucinogénios, noutras que tem efeitos milagrosos de rejuvenescimento e imortalidade. Num caso ou noutro, é apelidada de droga das elites. E a Polícia Judiciária não tem qualquer informação de que uma rede com estas características opere em Portugal.

São várias as publicações no Facebook que explicam os pormenores mais macabros do funcionamento desta alegada rede. Pormenores que podem impressionar os leitores.

Segundo essas publicações, depois de sequestradas, as crianças — incluindo bebés — são agredidas, abusadas sexualmente e torturadas. Isto porque quando uma criança está “aterrorizada” e prestes a morrer, supostamente “gera um líquido chamado adrenocromo”. Cada uma delas “produz somente 10 mililitros” da substância, que tem de ser retirada do corpo da criança “logo após a morte”, detalha uma das publicações, concluindo depois: “Essa droga é chamada de droga da juventude e é a droga mais cara do mundo, usada por artistas, produtores de Hollywood e milionários.”

Exemplo de uma das várias publicações nas redes sociais que falam sobre a suposta rede de tráfico

O adrenocromo está no centro não só desta teoria da conspiração: uma outra afirma que a pandemia de Covid-19 não existe e é apenas uma ação mundial concertada para descobrir pessoas viciadas nesta substância. Mas então o que é o adrenocromo? É um composto químico gerado pela oxidação da adrenalina no corpo humano. Ou seja, quando uma pessoa ou animal está perante uma situação assustadora ou excitante, o sistema nervoso envia essa informação às glândulas adrenais, que libertam adrenalina na corrente sanguínea. A adrenalina, por sua vez, oxida e transforma-se em adrenocromo, segundo explicou o médico Omar Carrasco, responsável do Departamento de Farmacologia da Faculdade de Medicina da Universidade Nacional Autónoma do México, ao site de fact checking Animal Politico.

Esta substância nunca foi associada a propriedades anti-envelhecimento ou com efeitos alucinogénios. Foi analisada pela primeira vez em 1954 pelos psiquiatras Abram Hoffer, Humphrey Osmond e John Smythies, que estudaram durante um ano os seus potenciais benefícios para doentes com esquizofrenia e outras doenças mentais, segundo consta num artigo publicado no The British Journal of Psychiatry. No entanto, esta suposta vantagem acabou por ser “descartada porque o adrenocromo oxida muito rapidamente” e o “processo de viabilidade biológica é muito curto”, explicou o médico Omar Carrasco, que garante que este composto é conhecido pela comunidade científica há muito tempo, mas não tem qualquer aplicação clínica.

O médico especialista em endocrinologia pediátrica da Universidade da Califórnia, Steven Mittelman, disse ao site de fact checking Lead Stories que não só não encontrou referências a pesquisas médicas que provem que o adrenocromo é um alucinogénio como até descobriu uma que indica que esta substância, em certas doses, pode aumentar a frequência cardíaca e provocar ataques cardíacos — o que seria o oposto de um efeito de imortalidade.

E mesmo que o adrenocromo tivesse propriedades anti-envelhecimento, seria possível extrai-lo do corpo humano?  Mittelman disse também ao Lead Stories não ter conhecimento da existência de qualquer método através do qual este composto possa ser retirado de humanos, involuntariamente ou não. O médico não tem dúvidas em afirmar que esta tese não tem fundamento algum uma vez que, mesmo que houvesse um processo de extração do adrenocromo, fazê-lo numa criança “dificilmente renderia mais da metade de um miligrama da substância”. “A glândula adrenal de uma vaca seria muito maior e o adrenocromo bovino é idêntico ao encontrado em humanos”, refere.

Também a Polícia Judiciária, questionada pelo Observador, afastou a hipótese de uma rede deste género a atuar em Portugal: não tem qualquer registo ou indícios deste tipo de criminalidade, que “não tem fundamento algum”, segundo disse fonte oficial desta força de segurança.

Adrenocromo pode ser comprado online sem qualquer tipo de autorização

Mesmo que houvesse algum processo de extração de adrenocromo, tentar fazê-lo exigiria uma série de procedimentos que dificilmente compensariam a manutenção de uma rede de tráfico. Especialmente quando o adrenocromo pode ser comprado em vários laboratórios. A base de dados PubChem tem até uma lista de mais de 20 empresas e laboratórios onde este químico pode ser adquirido — o que levanta a questão sobre a necessidade de manter uma rede de tráfico de crianças para obter uma substância que não é ilícita e, mais do que isso, está acessível a qualquer pessoa.

Vejamos: as redes de tráfico de droga existem porque a droga é uma substância ilícita que não pode ser obtida em circuitos legais de mercadorias. Aqui, não é de todo o caso, já que o adrenocromo pode até ser comprado online: o Observador simulou uma compra num dos 24 laboratórios disponibilizados e comprovou que obter este composto está mesmo à distância de um clique, uma vez que é possível fazê-lo sem ter de fornecer qualquer tipo de comprovativo. É certo que um mero grama de adrenocromo pode custar mais de 800 dólares, mas se, de acordo com as publicações nas redes sociais, estamos a falar da droga das elites, o valor não será um problema.

Assim, a suposta utilização de adrenocromo como droga parece surgir de obras de ficção. Nomeadamente do romance “Fear and Loathing in Las Vegas”, de Hunter S. Thompson, em que o adrenocromo é indicado como uma droga potente, que deve ser violentamente extraída das glândulas humanas. A cena foi imortalizada no filme de 1998 de Terry Gilliam: o vídeo no YouTube que mostra esse momento tem quase dois milhões de visualizações e milhares de comentários a fazer referência à teoria da conspiração.

O recente aumento de referências ao adrenocromo nas redes sociais está relacionado efeitos da pandemia da Covid-19, segundo uma investigação sobre este fenómeno do Wired. Isto porque várias celebridades, em confinamento, começaram a ser acusadas de não publicar tantas fotografias suas porque estariam a sofrer os efeitos da ausência de adrenocromo — já que, segundo os autores desta teoria da conspiração, o confinamento dificultou o fornecimento desta substância.

Depois, também o QAnon, uma teoria da conspiração que alega que há uma estratégia concertada de um governo secreto contra o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, começou a defender a existência desta rede — o que fez aumentar a partilha de publicações relacionadas com a mesma nas redes sociais. Aliás, o histórico de edição da página dedicada ao adrenocromo na Wikipédia mostra que, nos últimos meses, os editores têm vindo a remover constantemente as tentativas de adicionar desinformação.

Conclusão

Publicações alertam para uma suposta rede de tráfico de menores cujo único propósito é extrair delas uma substância produzida pelo corpo humano, o adrenocromo, que supostamente tem efeitos alucinogénios e efeitos milagrosos de rejuvenescimento e imortalidade. Só que esta substância nunca foi associada a propriedades anti-envelhecimento ou com efeitos alucinogénios: é um composto conhecido pela comunidade científica há muito tempo, mas não tem qualquer aplicação clínica.

Depois, não há evidência da existência de qualquer método através do qual o adrenocromo possa ser retirado de humanos, involuntariamente ou não. Mas, mesmo que pudesse ser extraído, a necessidade de criar uma rede de tráfico humano é questionável, especialmente quando o adrenocromo pode ser comprado em vários laboratórios, estando acessível a qualquer pessoa.

Também a Polícia Judiciária, questionada pelo Observador, afastou a hipótese de uma rede deste género atuar em Portugal: não tem qualquer registo ou indícios deste tipo de criminalidade que “não tem fundamento algum”, segundo disse fonte oficial desta força de segurança.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

No sistema de classificação do Facebook este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

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