O que está em causa?

Durante o debate quinzenal, o deputado do Chega, André Ventura, afirmou durante a sua intervenção que o primeiro-ministro António Costa “disse que os professores de Português que não tivessem colocação poderiam emigrar“. Costa começou a abanar a cabeça como sendo negativo e a bancada do PS protestou. Mas Ventura insistiu: “Disse, disse, disse senhor primeiro-ministro”.

Na resposta, António Costa remeteu para uma declaração de Passos Coelho em 2011, que lhe ficaria colada à pele durante todo o mandato como sendo o primeiro-ministro que sugeriu que os jovens portugueses emigrassem. “Creio que se confundiu com o primeiro-ministro que fez essa sugestão“, disse António Costa na resposta a André Ventura esta quarta-feira.

André Ventura ainda lembrou a Costa, que a sugestão estava plasmada nas notícias da altura que davam conta disso mesmo. Afinal, quem tem razão: Ventura ou Costa?

Quais são os factos?

António Costa fez, de facto, uma declaração em que sugeria aos professores portugueses que pudessem procurar colocação em França. A 12 de junho de 2016, em Paris, António Costa visitou uma exposição de Amadeo de Souza-Cardoso no Grand Palais Costa e fazia o balanço da visita de três dias à capital francesa, sublinhando o “compromisso” assumido pelo presidente francês de “investir na educação do português nas escolas francesas, não só para as comunidades de origem portuguesa, mas para todos os estudantes em geral, reconhecendo nos portugueses uma das grandes línguas globais”:

É muito importante para a difusão da nossa língua. É também uma oportunidade de trabalho para muitos professores de português que, por via das alterações demográficas, não têm trabalho em Portugal e podem encontrar trabalho aqui em França.”

Os jornais, como lembrou Ventura, fizeram essa leitura, como se pode ver em notícias de órgãos de comunicação diversos como o Expresso, a SIC Notícias, a Renascença. Também o Observador fez um trabalho a comparar as declarações de Passos Coelho e de António Costa, que eram, de facto similares.

A oposição aproveitou a onda e era incoerente ao considerar as declarações de Costa como um apelo à emigração, mas insistindo que as de Passos Coelho não eram um apelo. António Costa, desde essa altura, desdobrou-se em esforços para negar que tinha incentivado à emigração. Costa acusava os jornais e a oposição de estar a confundir o inconfundível: “A estrada da Beira e a beira da estrada não são a mesma coisa, pois não? Pois… Eu também não apelei à emigração!

Também Pedro Passos Coelho sempre negou ter apelado à emigração, mas fez de facto uma sugestão muito similar à de António Costa, quando disse a 18 de dezembro de 2011, numa entrevista ao Correio da Manhã:

Estamos com uma demografia decrescente, como todos sabem, e portanto nos próximos anos haverá muita gente em Portugal que, das duas uma: ou consegue nessa área fazer formação e estar disponível para outras áreas ou, querendo manter-se sobretudo como professores, podem olhar para todo o mercado da língua portuguesa e encontrar aí uma alternativa.”

Conclusão

Pedro Passos Coelho sugeriu, de facto, que os professores portugueses saíssem da “zona de conforto” e pudessem encontrar no mercado da língua portuguesa (países da Comunidade Países de Língua Portuguesa) uma alternativa. Mas António Costa também sugeriu que os professores de Português pudessem emigrar para França, tendo classificado mesmo essa emigração como “oportunidade”. Costa tentou dizer que André Ventura estava a confundi-lo com as declarações de Passos Coelho em 2011, o que é errado. Ventura referia-se mesmo às declarações de Costa em junho de 2016.

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