Uma publicação que está a ser partilhada no Facebook avança com três dados que são apresentados como factuais. Em primeiro lugar pode ler-se que “os coronavírus causam 30% de todas as constipações”; a publicação segue com a indicação de que o “Influenza e a Tuberculose têm uma alta taxa de contaminação e são potencialmente mais letais do que o Sars-Cov-2”; termina com: “Cancro e doenças cardiovasculares matam, juntas, quase 30 milhões anualmente no mundo”. No final de cada uma destas afirmações, o autor da publicação acrescenta uma pergunta: “Quando tomamos medidas parecidas?”

Este conteúdo começa com um dado que está correto, “entre 20 e 30% de todas as constipações são, de facto, causadas pelos quatro coronavirus que, para além do SARS-CoV-1, SARS-CoV-2 e do MERS-CoV infectam o ser humano. Os que causam as constipações são conhecidos pelos nomes de 229E, NL63, OC43, e HKU1″, explica o virologista Ricardo Parreira ao Observador.

No que diz respeito à letalidade, é preciso ter em conta que os números podem variar muito consoante a idade dos infetados, o país onde vivem e até os anos comparados. “Esta resposta é muito complicada, porque os agentes em questão têm fenótipos (características) muito variáveis. Por exemplo, um vírus de gripe sazonal é muito menos virulento que um vírus da chamada gripe aviária, o famoso H5N1. Por outro lado, nos anos de grande incidência de gripe os menos virulentos infetam tanta gente que lhe estão associadas muitas mortes”, explica Ricardo Parreira.

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Apesar da dificuldade da análise, o especialista do Instituto de Higiene e Medicina Tropical avança com “números médios” que mostram que a tuberculose é, de facto, mais letal do que a Covid-19. De acordo com os dados do virologista, a letalidade da doença provocada pelo SARS-CoV-2 situa-se entre menos de 1 e 19%, ao passo que a tuberculose mata entre 7% e 35% dos infetados. Já no que diz respeito ao Influenza, não é bem assim porque os números são ligeiramente mais baixos e variam entre 1 e 10%, pelo que não é correto dizer que a gripe sazonal pode fazer mais vítimas do que a Covid-19.

Falemos agora da transmissibilidade. Mantendo a ideia de que os números podem variar consoante múltiplos fatores, Ricardo Parreira explica que o índice que mede quantas pessoas um infetado contagia (Rt) situa-se entre 2,5 e 3 no caso do SARS-CoV-2. Já no que diz respeito ao Influenza, o valor baixa para entre 1 e 2 e no vírus que causa a tuberculose o valor anda à volta de 2. Fica claro que a transmissibilidade do SARS-CoV-2 é superior à dos outros vírus referidos nesta publicação, apesar de quase todos os países do mundo terem estado sujeitos a medidas de controlo sanitário como o confinamento geral ou o uso de máscara.

Só falta olhar para os números das doenças cardiovasculares e do cancro. De acordo com dados da Organização Mundial de Saúde, em todo o mundo 9,6 milhões de pessoas terão morrido de cancro em 2018. No que diz respeito às doenças cardiovasculares, o valor situava-se nos 17,9 milhões em 2016. Os números dizem respeito a anos diferentes, mas mostram que os 30 milhões avançados nesta publicação não estarão muito longe da realidade.

Conclusão

Ao misturar dados de doenças com características que podem variar muito consoante o país, a idade dos infetados e até o período de análise, é muito difícil chegar a afirmações tão conclusivas. Apesar de tudo, e se olharmos para os números globais, é verdade que 30% das constipações são provocadas por coronavírus.

Também é verdade que a letalidade da Tuberculose é mais alta do que a da Covid-19, mas tem um Índice de Transmissibilidade (Rt) mais baixo, o que dará origem a menos infetados, logo menos mortes. No que diz respeito ao vírus da gripe sazonal, não é verdade que seja mais letal do que o SARS-CoV-2.

Segundo a classificação do Observador, este conteúdo é:

ENGANADOR

No sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:

PARCIALMENTE FALSO: as alegações dos conteúdos são uma mistura de factos precisos e imprecisos ou a principal alegação é enganadora ou está incompleta.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

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