A 4 de maio surgiu uma publicação no site asnoticias.pt com a seguinte legenda: “Passeios podem deixar os ‘vossos filhos ligados ao ventilador”. Essa publicação conta com 260,7 mil visualizações e 6,2 mil partilhas. No entanto, esta publicação é enganadora.

O site asnoticias.pt publicou o artigo tendo por base um outro artigo, da New in Town, sendo que nos dois artigos é referido um post de Facebook de Tiago Salgadinho, enfermeiro da unidade de cuidados intensivos do Hospital Dona Estefânia. Acontece que a publicação do notícias.pt data de 4 de maio, e a notícia da NiT é de dia 31 de março, exatamente dois dias depois de o enfermeiro ter feito aquela publicação.

No dia em que começou o desconfinamento, publicação recuperou aviso dado por enfermeiro mais de um mês antes, quando realidade era diferente

Ora, as regras e recomendações de saúde do governo liderado por António Costa, feitas em parceria com a Direcção Geral de Saúde, são diferentes nestes dois períodos. Até porque a 31 de março, Portugal encontrava-se no seu primeiro Estado de Emergência, declarado a 18 desse mês, e que foi renovado mais duas vezes.

Acontece que durante esse período, foram aprovadas medidas que visavam a limitação aos direitos de deslocação para pessoas que estavam doentes ou em situação de vigilância ativa, estando essas confinadas de forma obrigatória. Existia também um “dever especial de proteção” para os maiores de 70 anos, imunodeprimidos e para os portadores de doença crónica. Mas mesmo essas pessoas, tal como os demais, podiam fazer deslocações, pequenos passeios, tal como deslocações “de curta duração para efeitos de passeio dos animais de companhia ou para “efeitos de atividade física”, como se lê no documento. Os restantes cidadãos, ainda que com menos restrições, também poderiam fazer deslocações por motivos e necessidade, bem como podiam fazer os chamados “passeios higiénicos”.

As regras mudaram ligeiramente desde 2 de maio, tendo sido declarado o Estado de Calamidade, onde foi iniciado, gradualmente, o processo de desconfinamento da sociedade portuguesa, com a retoma de vários setores da economia e o “dever cívico de recolhimento”. O confinamento mantém-se obrigatório para pessoas doentes com Covid-19 e em vigilância activa. Não para os restantes. Porém, em nenhuma destas fases foram proibidos os chamados “passeios higiénicos” referidos na publicação de Facebook, salvo exceções feitas quando foram aplicadas restrições na circulação entre concelhos, como aconteceu no fim de semana de 1 de maio ou no da Páscoa. Mesmo aí, as pessoas poderiam dar passeios higiénicos, desde que o fizessem no seu concelho de residência, como recomendado pelo governo e fiscalizado pelas autoridades.

Dito isto, é importante comparar o que o enfermeiro Tiago Salgadinho realmente escreveu, em tom de desabafo, não recorrendo a dados ou estatísticas oficiais, e aquilo que é citado nestes dois artigos. “Interessante que ao mesmo tempo que centenas de portugueses decidem passear, visitar as praias, passear o cão 5x por dia, ir ao supermercado a toda a hora e algumas ainda viajar até ao Algarve, recordo a essas pessoas que quanto mais vezes saírem das vossas casas, mais aumentam a probabilidade de colocar os vossos filhos numa unidade de cuidados intensivos ligados a um ventilador onde nem os próprios pais poderão entrar nesse mesmo quarto”, lê-se no post original.

A publicação do enfermeiro Tiago Salgadinho foi feita no final de março, quando a realidade era bem diferente

Ao contrário do que se lê na publicação que se tornou viral, Tiago Salgadinho não se refere unicamente a “passeios higiénicos”, mas a determinados abusos que o próprio verificou, quer de forma pessoal, quer através da comunicação social. Estas palavras surgiram numa altura em que tinham saído notícias que davam conta de grandes aglomerados em praias — que foram interditadas pela Autoridade Marítima Nacional a 14 de março. Ainda que o seu testemunho devidamente fundamentado venha esclarecido no corpo das duas notícias, o título da peça do asnoticias.pt é enganador, pois sugere que o apelo foi feito a 4 maio, num dia em que as autoridades já permitiam algum desconfinamento.

Finalmente, já é sabido que o novo coronavírus não escolhe idades nem etnias, sendo que tem afetado de forma mais grave a população mais velha, geralmente com mais de 80 anos. Mesmo assim, qualquer dado estatístico que se saiba hoje, pode ser alterado amanhã, por estarmos a enfrentar um vírus até agora desconhecido. Tiago Salgadinho fala, a certa altura, na morte de um jovem de 14 anos que veio a confirmar-se: “Vitor Godinho, que residia em Ovar, foi uma das vítimas mortais. No entanto, também nessa altura, a Direção-Geral de Saúde alegou que estaria a investigar as causas da morte do jovem, levantando a hipótese de ter um quadro clínico “complexo”, ou seja, sugerindo que Vitor Godinho não teria morrido exclusivamente por causa da infeção por Covid-19.

Entretanto, o Observador confirmou que o rapaz sofria de uma doença autoimune, psoríase, que o colocava num dos grupos de risco. Esta semana, morreu um jovem, com 29 anos, por Covid-19 registando-se o primeiro caso de mortalidade nesta faixa etária. É, por isso, precipitado fazer uma associação direta entre um passeio higiénico e uma possível entrada numa unidade de cuidados intensivos.

Existem diversos fatores, quer de saúde como daquilo que cada um faz para se proteger, mediante as recomendações e restrições feitas pelo governo, que determinam a gravidade da infeção. Em todo o caso, a publicação do enfermeiro refere-se a um alerta para que os portugueses não abusem dos passeios, lembrando que esse relaxamento pode levar a um aumento do número de infetados e, eventualmente, a complicações de saúde. O título, contudo, é enganador.

Conclusão

A 4 de maio uma publicação no site asnoticias.pt tinha o seguinte título: “Passeios podem deixar os vossos filhos ligados ao ventilador.” Essa notícia tinha republicado o mesmo conteúdo da publicação digital New in Town. No entanto, esta última datava de 31 de março, ou seja, têm datas diferentes. Os dois artigos pegavam num post de Facebook de Tiago Salgadinho, enfermeiro da unidade de cuidados intensivos do Hospital Dona Estefânia, que tinha um tom de desabafo relativo às “centenas de portugueses decidem passear, visitar as praias, passear o cão 5x por dia, ir ao supermercado a toda a hora e algumas ainda viajar até ao Algarve”. Para o enfermeiro, isso aumentaria a “probabilidade de colocar os filhos numa unidade de cuidados intensivos ligados a uma ventilador”.

Esse post foi feito a 31 de março, em pleno Estado de Emergência, diferente do Estado de Calamidade, em que nos encontramos agora, no corrente mês de maio, ou seja, muito anterior à publicação inicial do site noticias.pt.  E ainda que os dois artigos refiram o post no corpo do texto, o título indica que o enfermeiro só se tinha referido aos passeios  no geral, o que não é verdade.

Assim, segundo a classificação do Observador, este conteúdo é:

ENGANADOR 

No sistema de classificação do Facebook este conteúdo é:

PARCIALMENTE FALSO: as alegações dos conteúdos são uma mistura de factos precisos e imprecisos ou a principal alegação é enganadora ou está incompleta.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

Nota 2: O Observador faz parte da Aliança CoronaVirusFacts / DatosCoronaVirus, um grupo que junta mais de 100 fact-checkers que combatem a desinformação relacionada com a pandemia da COVID-19. Leia mais sobre esta aliança aqui.

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