Marcelo Rebelo de Sousa fez a sua primeira visita do segundo mandato ao Vaticano, onde se encontrou com o Papa Francisco. O chefe de Estado e o líder da Igreja Católica estiveram, de facto, muito próximos em alguns momentos da visita — o que pode ser considerado um desrespeito pelas recomendações sanitárias —, apesar de ambos já terem sido vacinados com pelo menos uma dose da vacina contra a Covid-19. No entanto, começaram a surgir diversas publicações que alegadamente mostram imagens do Presidente português com o Papa Francisco na última sexta-feira sem distanciamento social de terceiros, em pequenas multidões e, noutras imagens, ainda mais próximos um do outro. Estas imagens são, no entanto, enganadoras, uma vez que são imagens efetivamente emitidas nas televisões a 12 de março, mas são de arquivo e referem-se à visita do Papa a Fátima em 2017.

O autor da publicação escreve que foi “à descarada” que Marcelo Rebelo de Sousa e o Papa Francisco estiveram “sem distanciamento, sem máscaras, sem nada”. O autor da publicação enganadora optou por utilizar uma imagem em que aparecem mais pessoas (como a que se vê na parte de cima da publicação abaixo, em que os dois chefes de Estado estão com comitiva) e outra em que Jorge Bergoglio e Marcelo estão ainda mais próximos do que efetivamente estiveram. Mas omite-se o facto de as imagens serem de há quatro anos, na visita do Papa a Fátima.

A publicação enganadora mostra imagens de 2017, que estavam na televisão devidamente identificadas como sendo de arquivo

Olhando para as duas imagens utilizadas na publicação, percebe-se que são dois frames de uma peça televisiva emitida, de facto, na “Edição da Tarde”, da SIC Notícias, na sexta-feira, 12 de março, às 14h53. Só que as imagens foram alteradas de forma a que fosse retirada a parte superior das mesmas onde aparecia um quadrado preto com a indicação “ARQUIVO“.

Isso mesmo é possível verificar olhando para a primeira imagem que aparece na publicação sem qualquer crop (corte) e exatamente como foi emitida:

A primeira imagem como efetivamente foi emitida tem claramente a palavra “Arquivo”, para que não houvesse dúvidas que foi em 2017

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A segunda imagem também foi igualmente cortada e descontextualizada, o que acaba por contribuir para a ideia de que se tratava de imagens na última sexta-feira, 12 de março:

A segunda imagem também tinha a indicação de “Arquivo” no topo do ecrã, que foi eliminada pelo autor da publicação.

As imagens provam que a publicação está descontextualizada, sugerindo-se que houve uma total falta de distanciamento social. Isto significa que Marcelo Rebelo de Sousa e o Papa Francisco mantiveram sempre o distanciamento social neste encontro de 12 de março de 2021? Não propriamente.

Olhando para as fotografias de 2021, Marcelo Rebelo de Sousa e o Papa Francisco não mantiveram, de facto, o distanciamento social recomendado. Há uma atenuante: ambos já foram vacinados. Mas também algumas agravantes: a toma da vacina não dispensa as regras de distanciamento social e o facto de serem figuras públicas traz uma responsabilidade acrescida pelo exemplo que devem dar. No entanto, na imagem de 2017 da publicação estavam mais próximos do que efetivamente estiveram.

Marcelo Rebelo de Sousa e o Papa Francisco na sexta-feira, 12 de março de 2021, sem distanciamento social (FOTOGRAFIA: Presidência da República)

Isto significa que o Presidente português e o Papa só se colocaram a si próprios em risco? Também não. No vídeo partilhado pela Presidência da República é possível verificar que ambos chegaram a estar sem máscara e sem distanciamento social junto de outras pessoas:

Numa das imagens vê-se mesmo Marcelo Rebelo de Sousa e o Papa Francisco numa sala interior com, pelo menos, mais seis pessoas e sem máscara. Ainda assim, longe da pequena multidão da publicação enganadora, onde se veem cerca de 30 pessoas sem máscara.

Marcelo Rebelo de Sousa e o Papa Francisco a posarem para a fotografia a 12 de março de 2021, no Vaticano

Conclusão

É verdade que Marcelo Rebelo de Sousa foi visitar o Papa Francisco ao Vaticano na última sexta-feira, 12 de março de 2021. É igualmente verdade que nem em todos os momentos da visita cumpriram as regras de distanciamento social e que nem sempre foram utilizados equipamentos de proteção individual. No entanto, a publicação utilizou imagens de 2017 — ocultando a indicação de que se tratava de imagens de arquivo — de forma a criar uma realidade ampliada e de maior incumprimento do que a situação que efetivamente aconteceu. Num dos casos vê-se mesmo um grupo de 30 pessoas a caminhar sem máscara, algo que aconteceu precisamente 5 anos antes e não na última sexta-feira.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

ENGANADOR

No sistema de classificação do Facebook este conteúdo é:

PARCIALMENTE FALSO: as alegações dos conteúdos são uma mistura de factos precisos e imprecisos ou a principal alegação é enganadora ou está incompleta.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

Nota 2: O Observador faz parte da Aliança CoronaVirusFacts / DatosCoronaVirus, um grupo que junta mais de 100 fact-checkers que combatem a desinformação relacionada com a pandemia da COVID-19. Leia mais sobre esta aliança aqui.

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